terça-feira, novembro 04, 2008

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A "arte" de bem duvidar
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Não há muito tempo, num jantar bem animado entre amigos, bebemos (não foi uma prova) um belo alvarinho português a par de um também belo albarinho galego e ainda outros dois tintos. O albarinho galego assumia a passagem por madeira enquanto o minhoto indicava apenas inox. Como nós por aqui não bebemos rótulos - e muito menos provamos -, escrevemos num caderno de provas a nossa primeira impressão sobre ambos os vinhos. Alguns dias depois, após maior reflexão, desenvolvemos o escrito e colocámos no blog (ver aqui) sem atribuir nota como é habitual quando bebemos/provamos vinhos em jantares.

O mais curioso, é esta a razão do presente texto, é que ambos os vinhos nos pareciam ter passado por madeira. O galego claramente com notas amanteigadas que não podiam dever-se apenas ao batonnage. O minhoto, apesar de menos evidente, também parecia indicar isso mesmo, sobretudo no nariz, levemente fechado num ligeiro aroma eventualmente típico do uso do carvalho. Repetimos o que já dissemos, "como nós por aqui não bebemos rótulos", escrevemos no blog isso mesmo, ou seja que o nariz parecia denotar a passagem, ainda que ligeira, por madeira.
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Sucede que, nos dias seguintes à publicação do texto, dois foram os comentários no sentido de que o vinho minhoto não tinha madeira e que, assim, o mais provável é que não tínhamos provado bem (apelidou-se de "calinada" o suposto lapso). Um dos comentário insinuava que tínhamos bebido demais e que tal vinho não podia, em caso algum, ter passagem por madeira pois tinha uma mineralidade única em Portugal. Como sempre, não apagámos nenhum dos comentários, e demos o privilégio da dúvida a quem, por vezes apenas a título enciclopédico, sabe sempre (nem que seja pelas revistas) se determinado vinho tem ou não madeira. Quanto a nós, e também andamos nisto faz algum tempo, assumimos sempre o lapso e foi o que fizemos na altura.

Mais curioso é que (e já tínhamos esquecido o assunto) durante os 3 dias do EVS, foram várias as pessoas, algumas que nunca viramos antes, que nos relataram que tiveram exactamente a mesma sensação com aquele alvarinho daquela colheita. Mais ainda, outros, tanto na área da distribuição como na da crítica, confirmaram a suspeita de que o vinho tem, pelo menos, 20% de madeira. Ao invés, o produtor, que também estava no EVS, nega.

Se o vinho tem, efectivamente, 20% de madeira, então ficamos contentes pela nossa intuição. Se não tem, ficamos contentes por sabermos agora que não fomos os únicos a duvidar. Mas mais importante do que saber quem tem razão, é observar que, afinal de contas, não era assim tão certo que tal alvarinho não tivesse madeira e que, por isso, as dúvidas eram legítimas. Na prova de vinhos, aliás, quase todas as dúvidas são legítimas, e mesmo a análise a uma ficha técnica enviada pelo produtor não deve turvar a opinião (que se quer) crítica. A nosso ver, claro está.

NOG
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2 comentários:

AJS disse...

Caro Nuno no dia em que as pessoas que gostam de vinho estiverem que se sujeitar ao "politicamente correcto" do mundo do vinho esta alegria acaba. Não sei se o vinho tem ou não madeira, não o provei, mas o mais importante é que tu achas que sim. Não que o tem mas que parece o que pode até ser interessante para o produtor. Parabens por continuares a dar a tua opinião sincera dos vinhos que provas. Com ou sem madeira. Com ou sem copos a mais. Quem nunca cometeu excessos não sabe o que a vida tem de bom.

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Meu caro,

É bom saber que passas por aqui...

Obrigado pelo comentário,

Um ab.

NOG