quarta-feira, novembro 15, 2006

Os vinhos do Douro: algumas questões


A prova comparativa dos tintos do Douro que consta na última edição da RV leva-me a escrever algumas linhas sobre os meus problemas quando compro Douro. Os problemas, como começa a ser evidente, não lidam com a qualidade dos vinhos, essa geralmente muito alta.
Uma primeira questão é o preço dos vinhos de gama média e alta. Como resulta do comparativo da RV, a maioria dos vinhos provados situa-se num estádio de € 30 para cima. Abaixo dos € 20 são apenas três ou quatro excepções com destaque para o Vértice (T) 2003 e o Evel Grande Escolha (T) 2003. Aliás, ainda em relação ao preço indicado pela revista (pelos produtores?), cumpre-me dizer que em muitos casos é quase impossível encontrá-los a esse valor nas garrafeiras especializadas - estou a pensar no Passadouro Reserva (T) 2004 ou no Pintas (T) 2004, ambos sujeitos a muita especulação.
Por outro lado, é interessante notar que o preço de certas marcas raramente desce, mesmo quando a procura ou a qualidade da colheita é menor num determinado momento. Vinhos como os da Quinta do Crasto e da Quinta do Portal, entre outros, não baixam de uma fasquia que chega a ser, por vezes, acima dos € 60. Ora, os preços dos vinhos do Douros já são hoje o principal óbice à sua compra, mesmo considerando os elevados custos de produção na região. Comparados com algumas estrelas estrangeiras (basta olhar para Espanha...) os preços dos vinhos do Douro estão num disparate! E não é coisa apenas dos tintos (salvem-se os Porto vintages!). Mas existem, apesar de não serem baratos, ainda boas compras: o Quinta do Infantado Reserva (T) 2003 e Gouvyas VV (T) 2004, o Esmero (T) 2004, o Quanta Terra (T) 2004, a Quinta dos 4 Ventos (T) 2004, o Talentvs (T) 2004 (que belo vinho!), o já referido Vértice (T) 2003. Acrescem alguns "neo-clássicos" como o Quinta de la Rosa Reserva (T) 2004 e o Evel Grande Escolha (T) 2003 que teimam em não elevar o preço - e ainda bem, muito obrigado!
Por fim, é difícil encontrar à venda nas garrafeiras de Lisboa, quanto mais noutros locais de venda, alguns dos vinhos provados. Marcas como Quanta Terra, Esmero, Poeira, Touriga-Chã não se encontram facilmente por aqui. Bem compreendo que se tratem de vinhos de quinta, com pequenas produções e, por isso, a sua oferta seja limitada. Mas, como tive oportunidade de dizer a alguns produtores durante o “Encontro com o vinho 2006”, é preciso dinamizar a colocação dos produtos no mercado. É que se os distribuidores tradicionais não fazem um bom trabalho então arranjem-se novos distribuidores. O que é difícil de suportar é que um apaixonado pelo vinho, um mero "alguém" com dinheiro no bolso, mesmo um curioso turista, um alcoólico até, não possa - com facilidade e conforto - adquirir os vinhos que deseja. Do Douro, ora bem!
À nossa saúde.

18 comentários:

Pingus Vinicus disse...

Olhei para esse painel. E pensei: qual deles eu poderei comprar? Quase nenhum. Os preços estão cada vez mais elevados. Aliás, estupidamente elevados. Só me safarei com o Evel Grande Escolha e um Quinta das Tecedeiras, um Gouvyas VV e pouco mais. De resto é mesmo para esquecer.

Kroniketas disse...

Assino por baixo. Aliás, um dia destes também vou escrever algumas notas a esse respeito.

jgr disse...

Caros Amigos
Eu percebo e compreendo a vossa angústia que é também a minha. Também gostava de ter muitos 40, 50 ou 80 € para comprar estes vinhos mas também gostava de ter muitos 200, 300, 500 ou mais centenas para ter alí à mão de semear uns Margaux, uns Lafite ou uns Petrus.
Isto para dizer que, à nossa escala, estas marcas do Douro são os nossos Petrus, pelo que não podem e é compreensível que não sejam baratos.
A fixação na nossa cabeça de um limite máximo imaginário para os melhores vinhos, diminuiu objectivamente esses vinhos, sobretudo quando vemos que ali ao lado, na Ribera, os melhores vinhos estão a um nível de preço ainda muito superior.
Mas agora pergunto eu: vocês já foram ao Douro? Acham que é possível produzir ali, naquelas encostas escarpadas vinhos baratos? Sobretudo se forem de qualidade?
Portanto vamos relativizar estas questões do preço dos nossos icons. È que, como enófilo, congratulo-me que sejam caros. Significa que há mercado que os valoriza ao ponto de pagar por eles aquilo que eles custam. Mesmo que isso me leve a prová-los apenas uma vez por ano mum jantar especial, numa prova com amigos ou no ECV.

Pingus Vinicus disse...

Mas agora pergunto eu: vocês já foram ao Douro? Acham que é possível produzir ali, naquelas encostas escarpadas vinhos baratos? Sobretudo se forem de qualidade?

Claro que já fui ao Douro. A minha família paterna é de lá. Bem no Douro Superior. :)

O meu Post inicial é mais o lamento de quem não vai chegar à maioria dos vinhos provados. 95% dos vinhos não são para a minha carteira. O Sr Socrates irá encarregar-se de eliminar os outros 5% nos próximos anos.

Como enófilo, não fico muito contente por não conseguir prová-los. Mas como diz o outro: É a vida!

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Caro JGR,

Muito obrigado pelo seu comentário.
Estamos de acordo em algumas coisas: i) ambos sentimos angústia perante o preço de alguns vinhos, e ii) ambos gostaríamos de ter centenas de euros para comprar uns Margaux e Petrus.

Já não tenho tanta certeza no que respeita à comparação – mesmo que seja à nossa escala – entre os tintos do Douro e os colossos tintos franceses. Não me refiro à qualidade (essa até se pode comparar, admito). Refiro-me ao prestígio acumulado, ao peso da marca, às dezenas ou mesmo centenas de anos que algumas casas bordalesas já levam de vida.

A meu ver, não se pode comparar o preço praticado por uma marca com “provas dadas”, e com um mercado mundial de consumidores e de elevado poder de compra (EUA, China, Japão), como seja a "Petrus", com as duas dezenas de marcas do Douro que – apesar dos vinhos muito bons – levam menos de uma década de vida e que, em rigor, só tiveram 4 ou 5 colheitas que se podem orgulhar (1997, talvez 1999, 2000, talvez 2001, e 2003).

Repare que na maioria dos mercados – venda de bens ou prestação de serviços – não é comum encontrar operadores que, logo na estreia, coloquem os seus serviços a um preço exorbitante. Já nos vinhos isso é muito comum. Nos vinhos do Douro é prática quase corrente. Por isso valorizo muito aqueles que, com as mesmas condições difíceis de produção, fazem vinhos no Douro que se vendem a € 10 ou a € 20 - esses são excelentes compras.

Aliás, é curioso como com nas mesmíssimas encostas escarpadas se produzem Portos "LBV" e mesmo "vintages" que se vendem mais barato do que os vinhos de mesa de topo.

Não pense que o argumento dos elevados custos de produção não me faz pensar. Acontece que nem sempre os custos de produção devem determinar – por si só – o preço dos vinhos. O preço dos vinhos – como de praticamente todos os produtos e serviços – deve ser apurado de acordo com o mercado. Na verdade, quem vende caro e não tem consumidores vai perder tudo no futuro. Daqui a alguns anos veremos quantos vinhos do painel da RV ainda estão à venda... e a que preços.

Um forte abraço,

N.

PS – Caro amigo, pode ler neste blog o relato de algumas viagens pelo Douro. Outras tantas viagens foram feitas mas não descritas. Conheço muito bem o Douro, em época de vindimas até.

jgr disse...

Sim, eu calculo que quem fala de vinhos como vocês não pode desconhecer o Douro. O meu comentário era mais uma força de expressão porque muitas vezes ouço e leio comparações com os vinhos alentejanos e são realidades completamente diferentes. Com a mesma extracção, visando a mesmo concentração, se quiser utilizando as mesmas barricas, o custo de produção não pode ser o mesmo.
Qunato às comparações, eu concordo consigo no que se refere aos Chateaux franceses. Mas já não tanto se compararmos com os vizinhos do lado: Lembra-se da última prova de Douro-Duero? Para qualidades equivalentes, o pvp era muito diferente.

Quanto ao amigo Pingus, espero que pelo menos mantenha o poder de compra para os 5% restantes. Ajuda saber que pelo menos terá emprego, coisa que a mim, trabalhando no privado, ninguém me pode garantir. Mas isso são outras contas...

Nuno de Oliveira Garcia disse...

No que respeita à prova "Douro vs. Duero" tem toda a razão. Mas nas restantes regiões (emergentes) de Espanha - e são tantas como sabemos - as coisas já não se passam assim.

Quanto às outras contas sou solidário: i) não tenho trabalho garantido, e ii) sou obrigado por lei a ter recibos verdes!

Abraços,

N.

Pingus Vinicus disse...

Quanto às outras contas, e não querendo entrar em discursos público vs privado, quero e desejo que todos tenhamos as melhores condições de vida no futuro.
Mais uma vez falei no abstracto.

Abraços

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Caríssimo Rui,

Idem.

Fortes abraços,

E venha lá a data do evento eno-blog.

rui disse...

Caro Nuno,

Não podia de estar mais de acordo com a ideia do post e com o consequente suspiro: “Ai, se me sai euromilhões esta semana!”

Se poder ajudar, destes quatro referidos (Quanta Terra, Esmero, Poeira, Touriga-Chã), o Poeira 2004 está na Garrafeira Nacional (Chiado) a 24,5€. O que apesar de não ser barato até é das poucas últimas estrelas que saiu que não tem explodido no preço. Lembro-me de ter feito um esforço para comprar o Pintas 2001 à uns anos e hoje se lá chegasse com o mesmo dinheiro não sei se comprava metade da garrafa.

Um abraço,
RC

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Rui,

Obrigado pela óptima dica. Tenho mesmo ideia que a RV indica um preço superior...

Abraço,

N.

DBS disse...

Carissimos:

Também eu me lamento e bastante com a quantidade de vinhos que tão longe estão da minha bolsa.

Tentemos, porém, reflectir num ponto, qual o objectivo de um produtor quando liberta um vinho para o mercado?

O vinho é uma paixão, mas também m mercado onde funcionam as leis de equilíbrio geral melhor que em muitos outros. O objectivo de um produtor racional não pode ser outro senão o de fazer o maior lucro possivel.

E se esgota o stock com um preço acima dos 60 euros, a pergunta é, porque não fazê-lo?

Abraço

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Caro DGS,

Obrigado pelo seu comentário

Claro que se se esgota o stock com um preço acima dos € 60 não existe problema com o mercado. Admito que o Batuta e o Vinha da Ponta se esgotem.

Mas já duvido que o mesmo suceda com as várias marcas do comparativo da RV que são praticamente desconhecidas e com vinhos a esse preço.

Penso que alguns dos produtores querem fama e, por isso, colocam preços exurbitantes - no fundo para que os consumidores pensem que o vinho é fantástico. Assim, mesmo que não se venda o vinho de topo a fama deste ajuda a vender os vinhos premium ou de base.

Quem fica a perder? Os potenciais consumidores de vinhos de topo.

Um abraço,

N.

Nuno Magalhães disse...

Acho que há algum exagero na apreciação dos preços: os vinhos estão, de facto, a preços deprimentes mas não só ao nível que fala. Um exemplo: Quinta da Casa Amarela, reserva 2004 (23 €). Excepcional. Creio que do melhor que por lá se faz.

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Caro Nuno Magalhães,

Admito que existem excepções. O Quinta da Casa Amarela Reserva é, efectivamente, um óptimo vinho a um preço não deprimente. O mesmo não se pode dizer de outros...

Pontual e individualmente existem belos vinhos do Douro a bons preços (aqueles que já indiquei mais o Casa Amarela e um ou outro). Todavia, parece-me que a regra no Douro - em comparação com outras regiões nacionais - é qualidade com preços altos. O que se compreende pelos custos de produção, pela justa fama dos "Douro Boys", pelas baixas produções, etc. Mas custa na carteira.

Um abraço, e obrigado pelo seu comentário,

NOG

Pedro Mendes de Carvalho disse...

Tendo vindo a acompanhar este blogue de vinhos , permitam-me que faça a primeira intervenção no mesmo , num assunto que me toca particularmente ou mais directamente na minha carteira.
Também eu considero o preço dos vinhos em cima referidos demasiadamente elevados , mas na realidade , se há quem pague isso por eles , percebo porque os produtores os colocam nessa patamar.Infelizmente vivemos num mundo aonde a lei da procura e da oferta ainda dita muita coisa.
No entanto , posso constatar que ainda há produtores que preferem manter os seus vinhos de excelente qualidade a uns preços apeteciveis.Claro que gostava que fossem mais baratos , mas isso seria em relação a tudo não ?
O Quinta da Casa Amarela e um caso disso , assim como um dos meus preferidos ( já aqui comentado )que tem mantido um preço aceitavel .Falo do Quinta do Além Tanha de 2001 ou o 2003.São excelentes vinhos de um recente produtor que se esforça em ter bons vinhos a preços acessiveis.Vinhos para 12-13 Euros , sendo que o 2003 foi premiado com uma medalha de ouro no MUNDUSVINI .Sei inclusivé , até porque falei com o mesmo na ultima feira que tem um outro vinho , Quinta dos Avidagos 2005 a um muito bom preço.Cerca de 4-5 Euros
Meus amigos , acho que com vinhos assim estamos bem servidos afinal.

Um bem haja para todos e bons vinhos !!

Nuno de Oliveira Garcia disse...

Caro Pedro,

Muito obrigado pelo seu comentário. Pelo que vejo estamos em sintonia. Para além do mais também gosto muito do Quinta do Além Tenha, aliás já me referi a ele (2001) neste blog faz um ano (Novembro de 2005).

Abraços,

NOG

Pedro Mendes de Carvalho disse...

Nuno ,

não esquecer , ou mencionar que este fim de semana há mais uma feira de vinnhos.No Casino de Lisboa.
Novamente a oportundidade de provar dos melhores vinhos do Douro e do Porto.
Claro que este meu interesse despoletou quando verifiquei entre outros a presença da Quinta dos Avidagos ( produtor de Quinta do Além Tanha ) , o meu preferido.
Não tenho escondido isso de ninguém !

Boa feira e bons vinhos .