quarta-feira, junho 14, 2006

O Lagar


Portugal pode ter menos estrelas Michelin do que outros países. É um facto. Mas por cada não-estrela Michelin, o nosso país tem centenas de restaurantes. E de tanta quantidade, já se sabe, sempre sai alguma qualidade. E é por isso que temos na restauração uma realidade peculiar, a saber: são restaurantes fora de moda, que em vez de chefe têm cozinheiro, que não mudam de gerência cada cinco anos, que não têm um (ou mais) “relações públicas”, que não investem em cadeiras Philippe Stark nem gastam dinheiro em elegante papel de parede.
Bem sei que nesta realidade que descrevi pululam restaurantes sem qualquer categoria, que juntam a uma fraca cozinha um mau serviço, e que têm uma mendinha oferta de vinhos. Mas não generalizemos! Existe uma minoria que prima pela distinção na comida, pelo atendimento afável e familiar, por vezes com uma extensa carta de vinhos fruto da paixão do proprietário pela pinga.
Ora, um dos melhores exemplos deste tipo de restaurante - que faz a partir da simplicidade e da paixão muito mais do alguns fazem a partir da mera sofisticação - é O Lagar, sito no lugar do Carvalhal. Quem vem de Lisboa pela A8 tem de sair em "Bombarral norte/Paúl", seguindo depois em direcção "Carvalhal/Santuário".
Antes de chegar ao restaurante é possível contemplar a paisagem da região, verde com as uvas brancas a partir das quais que produz o Espumante Loridos. A Quinta dos Loridos também é visível de longe (mas quem quiser pode passar mesmo à porta, se seguir outra estrada), com a renovada imagem dada por Joe Berardo e na qual se destaca um enorme jardim budista. Mais ao lado, é a produção de pêra-rocha que se faz sentir; mais distante surgem os moinhos típicos da zona Oeste.
Chegados finalmente ao Lagar, deixamo-nos nas mãos da família Louro. Nas entradas saem vitoriosas a morcela de arroz, as sardinhas de escabeche, a sopa de coelho e os ovos com cogumelos. Todos os pratos são assentes na melhor matéria prima, seja peixe (de Peniche, a poucos quilómetros de distância) ou carne (os melhores nacos vêm dos Açores). Em todo o caso, o mais sensato é perguntar por sugestões, mas adianto as minhas preferências: arroz de cabrito, perna de porco assada, jaquinzinhos com arroz de tomate, nos arrozes o de safio é delicioso. Para sobremesa, não se esqueça do "sorriso", versão da casa de fondant de chocolate acompanhado de gelado e geleia de leite condensado.
Mas o melhor ainda não chegou... falo da carta de vinhos. São centenas as referências de vinhos, incluindo toda a oferta da região, não fosse o proprietário um dos maiores coleccionadores de vinhos da Península Ibérica. Os copos e os preços são os adequados, apenas as temperaturas merecem ser revistas. Para quem já teve a sorte, como nós, de conhecer o armazém onde Luís Louro mantêm as dezenas de milhares de garrafas da sua colecção, sabe que o vinho n ' O Lagar só pode ter lugar de destaque.
Da região, prove-se então o Quinta do Sanguinhal (T) 2001, o Quinta das Cerejeiras (T) 2000, ou o Loridos Alvarinho (B) 2004 agora para o Verão. Todavia, se quiser algo mais a sério, abra os cordões à bolsa e peça um Quinta de Pancas Premium (T) 2003, vai ver que vale a pena.

3 comentários:

Anónimo disse...

Fico impressionada com tão grande referência ao restaurante "O Lagar", pois eu tive a infelicidade de almoçar nesse restaurante no passado mês de Setembro. Pedi para o almoço arroz de cabrito para mim e para a minha família e tive uma desagradável surpresa. O arroz era acompanhado por uma imensidão de pêlos pretos, já para não falar na falta de tempero do mesmo. Reclamei e informaram-me que isto era próprio do cabrito. Fiquei na dúvida se era mesmo cabrito! Apesar do incidente o restaurante não teve qualquer atenção em relação ao preço. Paguei como se tivesse comido alguma iguaria!!!

NUNO OLIVEIRA GARCIA disse...

Cara leitora,

O texto que escrevi data de 2006. Faz muito que não volto a esse restaurante e nunca provei o cabrito. O episódio que relata é efectivamente infeliz, e deveria ter existido uma atenção no preço. Todavia a minha experiência - cerca de 5 vezes entre 2005 e 2006 - foi sempre bem diferente.

Cordiais cump.

NOG

José Igreja disse...

Ontem jantei no Lagar.
Nunca lá tinha ido.
Enquanto aguardavamos estivemos na conversa com o dono e foi-nos oferecido um moscatel.
O jantar estava excelente e para a despedida foi-nos servido um Porto vintage e uma aguardente velha particular.
Só tenho a dizer bem.
5 estrelas