sexta-feira, março 11, 2011

de França

Château Gazin (T) 1985

Fala-se, por vezes tão teimosamente, dos muitos atributos e outros tantos defeitos da casta Merlot. Mais do que a sua resenha, aqui deixamos a nossa franca opinião: já encontrámos de tudo, a saber: (i) Merlot fora de França com qualidade (raro...); (ii) Merlot fraquíssimo de França (acontece, mas não é frequente nos valores seguros); e, claro, (iii) grandes Merlot franceses - carnais, sensuais, mastigáveis e sedosos -, quase sempre de Pomerol.

Este tinto, da colheita de 1985, calhou ser dos últimos casos acima referidos. Não sendo de "primeira linha", é um produtor bordalês fiável e os seus tintos não costumam atingir valores proibitivos; nem sempre os Gazin são/estão tãos bons quanto este provado, nem sempre os Gazin têm tanta profundidade e elegância, mas tivémos sorte! Em todos os casos (todos os que provámos, pelo menos) melhoram muito com decantação.

Começou fechado, com uma prova de nariz a fruta "licorada", algo bruta, um pouco de "animal", mas também por lá andava óptima matéria trufada. Na boca, revelava já taninos macios deliciosos. Esperou uma hora no decante, transformou-se, e ficou como acima citámos a propósito dos melhores Merlot, e não encontramos maneira de o dizer de forma diferente - esteve carnal, sensual, mastigável e sedoso.

Um dos melhores Merlot (mais de 90% do lote) que provámos nos últimos tempos. Muito bom, claro está!

17,5-18

terça-feira, março 01, 2011

de França

Gran Vin de Léoville du Marquis de Las Cases (T) 1988

Fabuloso este Saint-Julien! E uma surpresa também, pois provámos o Clos du Marquis (T) 1996 faz pouco tempo e ficou muitos pontos atrás (algo cansado e com pouquíssima fruta). Surpresa também se pensarmos que, apesar de ser de uma casa bordalesa com nome, é um vinho de segunda – ou melhor, de terceira – linha da região. Mas os vinhos (assim como tantas outras coisas) são assim, é preciso prová-los para conhecer realmente a sua estirpe.

Evolução e bouquet perfeitos, fruta encarnada, a revelar-se ainda capaz de se aguentar de forma briosa por mais meia década. Na prova de boca: suavidade, elegância e muita patine. Final de boca saboroso e interminável. "Coisa boa", só pode ser...

Uma das razões que faz de Bordéus ser Bordéus? Vinhos como este, com mais de 20 anos em garrafa, e um preço de saldo para quem os encontrar. Dizem que todos os bons Bordéus são caros. É mentira.

17,5+

sábado, fevereiro 26, 2011

de França

Chateau du Beaucastel (T) 2007

Não é fácil não dizer bem de um vinho destes.

A fruta é imensa, a textura acetinada. A complexidade e o corpo andam muito acima da média. Mas falta-lhe acidez, e até mesmo a alguma rusticidade que sempre nos habituaram. Uns dizem que os Beaucastel são hoje mais bem feitos do que alguma vez o foram no passado. Para nós, alguns Chateau9-du-Pape estão a ficar macios, apesar de continuarem a impressionar os sentidos.

Este parece-nos ser um caso desses - com mais fruta do que garra -, apesar de ser de uma colheita recente e, por isso, ainda ter muito para evoluir. Por ora, está bom, bastante bom até, mas não está fabuloso.

17+

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Reportagem

Bairrada com Mário Sérgio

É sabido que a Bairrada produz grandes vinhos. E é sabido que a Bairrada produz grandes homens do vinho, querendo com isto dizer-se grandes produtores. Na linha mais tradicional, as duas premissas são verdade e encaixam na perfeição na pessoa do produtor Mário Sérgio, à frente dos destinos da Quinta das Bágeiras. Faz pouco tempo que almoçámos e jantámos com ele e tivemos a oportunidade de provar (e em alguns casos de voltar a provar) não só Bageiras mas outros vinhos da região. É que Mário Sérgio tem também essa qualidade tantas vezes rara... de gostar de provar e de divulgar outros vinhos que não apenas os seus.

Grupo dos 8 (T) 1985: Saído do famoso "Grupo dos 8" e produzido por Sidónio Sousa, está num fantástico momento de forma. Carácter marítimo evidente, notas a iodo, referência a molho de ostras, algum manjericão e fruta ainda negra. Grande prova de boca, e final acetinado. Um vinho memorável! 18
Gonçalves Faria Tonel 5 Gar. Especial (T) 1990: Mais reservado e menos evoluído do que as últimas garrafas provadas, mantém-se a um nível altíssimo. Seco, de perfil salgado, mas muito complexo e tremendamente elegante. Grande final de boca. Uma prova ligeiramente diferente de um vinho sempre fantástico. 17,5
Sidónio Sousa Reserva (T) 1997: Ainda não está no pico da sua forma, mas já se apresenta delicioso. Muita fruta, framboesas típicas da Baga, tem um perfil clássico acentuado. Está em crescendo, vai melhorar. Voltar a provar daqui a 5 anos. 17++
Quinta das Bágeiras Garrafeira 1.º Prémio (T) 1995: Outro vinho pelo qual temos que esperar. Muito jovem, muito seco, taninos duros. Mas tudo a revelar grande potencialidade: boa definição no fruto, grande acidez, e prova de boca já complexa. 17++
Quinta das Bágeiras Velha Reserva Bruto Natural (Esp.) 1989: Cor dourada, todo o vinho revela muita complexidade. Bouquet ligeiramente reduzido, carácter vinioso, quase sem tosta. Enorme a acidez, muito saboroso na boca, e grande capacidade para acompanhar todo o tipo de gastronomia. 17
Quinta das Bágeiras Garrafeira (T) 2004: Perfil clássico, identifica-se facilmente como um Bairrada. Muito bem no nariz, elegante e ligeiramente apimentado. Boca em crescendo, mais em elegância do que em força. Mais um óptimo Garrafeira das Bágeiras. Boa (mas talvez não enorme) perspectiva de evolução em garrafa. 17  
Quinta das Bágeiras Garrafeira (B) 2002: Ligeiramente mais oxidado do que é habitual, revela muitas notas a verniz na prova do nariz. Na boca, revela-se saboroso mas, novamente, mais curto do que é habitual. Admitimos que temos que esperar mais uns anos, mas não é certa a sua evolução. 16

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Prova especial

Sassicaia (T) 1988 & Altero (T) 1988

Confessamos já que estes dois tintos italianos estavam na nossa lista (todos temos uma, ainda que não escrita, certo?) dos vinhos do Mundo que mais queríamos provar...

O Sassicaia dispensa apresentações, mas sempre se dirá se trata de um dos pioneiros da revolução toscana, apresentando um blend de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Mais propriamente, neste caso específico, da revolução dos vinhedos à volta de Bolgheri, pequena vila na costa do Mediterrâneo. É um vinho com uma história rica em pormenores fascinantes, como seja a atribulada vinda dos primeiros clones bordaleses e a muito contestada criação de uma micro-região demarcada apenas para albergar este famoso tinto da casa "Tenuta San Guido". Uma dica: a visita a Bolgheri é um marco para qualquer enófilo, uma vila antiga cheia de charme, com bons restaurantes e enotecas (todas com vinho a copo), rodeada por pinheiros mansos e, claro, vinhas.

O Altero é um vinho também ele especial. Vinho de elite, foi criado em 1983 pela casa "Poggio Antico" com o propósito de demonstrar toda a potencialidade da casta Sangiovese, sobretudo na variante clonal típica dos Brunello di Montalcino. A par de outros vinhos toscanos, um ou outro mais vetusto e famoso, Altero foi uma das principais faces do movimento "super-tuscan", caracterizado pela produção de vinhos muito concentrados, de perfil internacional e nem sempre 100% Sangiovese (apesar da casta dominar tendencialmente os lotes). A composição dos solos de Montalcino, diferente dos das colinas centrais da Toscânia, tem fama de atribuir grande longevidade aos tintos que produz e a variante Brunello di Montalcino tem vindo a ganhar reputação com os seus tintos profundos e expressivos.

Quanto à prova destes dois colheitas de 1988, demonstrou-nos a vitalidade de ambos os vinhos. Com mais de 20 anos em garrafa, ambos mostraram uma vivacidade plena. Necessariamente, as diferenças logo se notaram, com o Sassicaia a lembrar um tinto bordalês, com um bouquet muito bonito, apesar do Cabernet Sauvignon estar ligeiramente dominador, ou, pelo menos, não tão polido quanto nos topos de gama da margem esquerda de Gironde nos melhores anos. Revelou, todavia, uma fantástica prova de boca, complexa, com garra mas plena de elegância - um vinho feito para a mesa. Um grande tinto, sem dúvida, e de grande aptidão gastronómica  (17,5).

Com o Altero, foi necessário mudar o chip, tanta foi a diferença de perfil: bouquet de enorme expressividade, cheio de fruta – incrível (!) para a idade – e madeira discreta (em Montalcino existe o hábito de envelhecer os tintos em balseiros generosos, neste caso em pipas de 500l. de carvalho francês). Na boca… verdadeiramente explosivo! Manteve o enfoque frutado, sensual, por vezes quase quente - mas com equilíbrio e seriedade -, autêntico cuore italiano com taninos perfeitamente integrados e muito saborosos. E que fantástico o final de boca com matizes minerais... que grande monovarietal de Sangiovese! Belíssimo (18-18,5).

Uma conclusão? Para quê?

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Reportagem

Roêda e Panascal - a importância dos ‘terroirs’ no vinho do Porto

São sete e meia da manhã e encontramo-nos no Douro, bem junto à ponte do Pinhão, em pleno Cima Corgo. É cedo e o tempo está ameno. O sol já ilumina o rio, não chega a fazer frio, mas sente-se o ar matinal, fresco e límpido.

Um trajecto de menos de cinco minutos de carro separa-nos do nosso destino, a Quinta da Roêda, lugar de nascença dos vinhos da empresa Croft agora incluída no universo do ‘Grupo Fladgate’. No curto caminho, passamos por uma outra quinta, igualmente berço de um dos melhores vinhos do Porto, a atestar que o Vale do Pinhão é fértil em maravilhas vitivinícolas.

Fundada em 1588, disputando o pódio das mais antigas Casas Tradicionais de Portos, passariam três séculos até a Croft adquirir, em 1889, a propriedade da Quinta da Roêda. Curiosamente, o anterior proprietário era John Alexander Fladgate, o que em muito explica que o ‘Grupo Fladgate’ tudo tenha feito para, em 2001, voltar a adquirir os direitos sobre a quinta.

Em 1889, apesar das vinhas da quinta estarem ainda a recuperar do drama da filoxera, poucas dúvidas restavam já de que aquele se tratava de um terroir de eleição. A confirmação absoluta, o reconhecimento da crítica e a apoteose por parte dos consumidores, viriam um pouco mais tarde, com os vintages de 1927 e de 1931, e, pois claro, com o majestoso vintage 1945, ainda hoje um marco da Croft.

Não espanta, assim, que a história de mais de duzentos anos de produção de vinhos, e o impacto provocado pela beleza da curva que o Douro percorre neste local, nos dificultam a tarefa de recordar da razão desta nossa visita. Razão essa que é, afinal, assente numa dupla motivação. Por um lado, a de visitar o novo modelo de vinha concebido pela ‘Fladgate’ para as suas quintas – concretizado, com especial entusiasmo, na Quinta da Roêda –, e provar o ‘Fonseca Terra Prima’, o primeiro vinho do Porto produzido a partir de uvas de agricultura biológica. Por outro lado, visitar sensorialmente as amostras dos vinhos produzidos na colheita de 2008 – todos Portos posto que, como é sabido, a empresa não produz DOC – pelas várias quintas detidas pela ‘Fladgate’. A particularidade é que se tratam de amostras antes ainda de qualquer blend, ou seja, verdadeiras pérolas ‘single-quintas’ pois, só desta forma, poderíamos tirar teimas sobre a importância do terroir nestes tintos fortificados.

Percorremos, então, os patamares da Quinta da Roêda, parte deles reconstruídos recorrendo-se a uma inovadora tecnologia laser que procede ao cálculo exacto da melhor inclinação longitudinal do terreno. Acompanha-nos David Guimaraens e António Magalhães, responsáveis, respectivamente, pela enologia e pela viticultura da ‘Fladgate’, ambos entusiasmados com os resultados já conseguidos. Melhor escoamento das águas pluviais, diminuição da erosão, e até o mais fácil acesso dos meios mecânicos que realizam tarefas agrícolas, são tudo vantagens, dizem-nos.

Afastamo-nos da casa da quinta, de inevitável estilo colonial inglês, e não conseguimos deixar de depositar o nosso olhar para as entrelinhas e para os taludes cobertos de vegetação, de erva bem cortada, indícios claros que o futuro deste terroir aponta para a agricultura biológica na procura da conservação de um ecossistema equilibrado. Defronte de uma das encostas da quinta, com patamares de uma linha apenas, António Magalhães interrompe o nosso passo e diz-nos com orgulho que naquele pedaço de solo não foi utilizada uma única gota de herbicida de acção residual, e que o sucesso da reconversão se deve à cobertura verde e aos inerentes infestantes naturais.

Pouco depois, a prova de fogo. Encontramo-nos já com o Fonseca Terra Prima em mãos: garrafa estreita e leve (denotando mais preocupações ambientais), tons esverdeados no rótulo, e com a certificação de que provém de uma vinha cultivada totalmente de forma orgânica na Quinta do Panascal. Fazemos chegar o copo ao nariz, primeiro. Depois à boca. É um Porto, sim senhor, e dos bons! Tem fruta negra, ligeiro vegetal seco, e grande tónica floral. Saboroso, parece-nos que a fruta tem contornos mais puros e equilibrados do que é habitual, mas, claro está, na ausência de comparação com outros Portos de agricultura biológica, podemos estar a ser traídos pela componente sugestiva.

Gostámos deste Porto, e não apenas sabendo-o produzido a partir de uvas sem pesticidas nem herbicidas. Ao invés, julgamos ser uma das melhores opções para quem pretende beber um ruby (da categoria Porto Reserva), intenso e leve, frutado e balanceado, volumoso sem ser duro, enfim um Porto de elegante prazer. Prova superada! David Guimaraens, também ele visivelmente agradado com mais este seu rebento, faz-nos notar os cuidados extremos na sua produção, sendo disso bom exemplo a aguardente que o fortificou, ela própria produzida a partir de uvas de agricultura biológica.

Já mais tarde, perto do meio-dia, espera-nos nova tarefa, desta feita na Quinta do Panascal – a de provar as amostras, colheita de 2008, de Portos das quintas de Vargellas, da Terra-Feita, da Roêda, do Cruzeiro, de S. António, do Junco, e do próprio Panascal. O desafio é conhecermos a extensão das diferenças que o terroir de cada território duriense proporciona. Para a comparação ser a mais fiel possível, a aguardente em todos os Portos é a mesma. É sabido que o enólogo, assim como o ‘master blender’ no whisky, assume um relevo determinante na hora de lotear o vinho. Mais do que uma profissão, é uma autêntica arte a de procurar harmonias, criando referências olfactivas e gustativas constantes mesmo entre anos e colheitas diferentes. Mas até que ponto nos Portos, tal como nos DOC, o terroir assume papel principal?

Pois bem, a prova aos vários Portos permitiu-nos concluir que as diferenças entre os diversos vinhos são muito significativas. Existe, é certo, uma qualidade persistente e transversal nos vários Portos que provámos – o que revela o óptimo trabalho da ‘Fladgate’ e, igualmente, que 2008 foi um ano bom no Douro –, mas, em rigor, nem todos os vinhos estavam, a nosso ver, totalmente afinados. Apenas dois, apesar de díspares no estilo, nos pareceram próximos da perfeição. Apenas dois, dos sete provados, nos recordaram, com enorme deleite, outras provas de outros vinhos excepcionais. Apenas dois vinhos, e talvez mais um, nos parecerem ser matéria para vintage de primeiríssima linha.

Já adivinhou? É que, sem sabermos, estávamos a provar os ‘single-quintas’ das quintas do Panascal e de Vargellas! Eram esses os dois ‘single-quintas’ que nos emocionavam e que nos remeteram para provas passadas, para experiências já vividas, enfim para a noção de terroir. Mas o mais incrível estava ainda para vir: o primeiro ‘single-quinta’ recordava-nos um Fonseca vintage, e o segundo era muito próximo do estilo vintage Taylor’s. Se dúvidas tínhamos a propósito da influência do terroir nos vinhos do Porto, elas tinham sido definitivamente desfeitas. Efectivamente, uma vez que o Fonseca vintage é produzido maioritariamente a partir de uvas da Quinta do Panascal, a prova do vinho desta quinta remeteu-nos, de imediato, para essa referência dos vintages nacionais. O mesmo sucedeu com o Porto da Quinta das Vargellas que tudo nos fez para o associarmos, intuitivamente, aos maravilhosos vintages da Taylor’s. O outro Porto que nos encantou foi o vinho da Quinta da Roêda, normalmente engarrafado sem recurso a uvas de outras quintas, e que não largamos por alguns momentos graças ao seu vicioso carácter especiado.

Naturalmente, também os Portos das restantes quintas revelaram-se em óptimo nível, e certamente poderão vir a proporcionar ‘single-quintas’ de qualidade assinalável e de expectável longevidade. Na prova comparada, porém, a diferença entre os vários perfis foi notória: uns mais frescos – caso do aprimorado e fino Quinta do S. António – outros mais potentes – como os grandiosos Quintas do Junco e Quinta da Terra-Feita –, outros ainda de pendor químico – como o da Quinta do Cruzeiro, repleto de tinta da china e de aromas a vegetal seco.

No entender da ‘Fladgate’, e com excepções – caso, por exemplo, da Quinta da Terra-Feita em anos não declarados –, os vinhos das referidas quintas são particularmente interessantes enquanto ingrediente secreto – o ‘sal’ e a ‘pimenta’ como actualmente se gosta de referir – dos seus vintages, abdicando-se deles quando se pretende constituir a respectiva espinha dorsal. Na verdade, para servirem de «corpo-matriz», para servirem de menir vinícola ao vintages que suportarão dezenas de anos em garrafa, estão reservados os melhores néctares da Quinta do Panascal, vinhos doces e com fruta negra belíssima, e da Quinta da Vargellas, vinhos de taninos firmes e de longevidade garantida.


Para quem ainda tem dúvidas sobre a importância dos terroirs nos vinhos do Portos, faça como nós: prove os vintages da Fonseca e da Taylor’s, e fique com a certeza que os vinhos que lhe estão na base são de quintas diferentes, com clima e solos dispares, mas que, no fundo, distam entre si apenas o caminho que separa a Quinta do Panascal no Cima Corgo à Quinta de Vargellas no Douro Superior.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Provas

4 Castas (T) 2008 & 4 Castas (T) 2009

Regresso às Provas de vinhos recém lançados (mas por pouco tempo, em breve voltaremos aos vinhos "de antigamente"). Provou-se duas colheitas desta nova versão do tinto alentejano 4 Castas. Produzido pela Herdade do Esporão faz já vários anos, mantém uma postura internacional, moderna, muito frutado e de taninos macios. Todavia, apresenta uma qualidade ligeiramente acima do Esporão Reserva e, por isso, tem muitos fãs, sobretudo agora que o seu preço desceu e tornou-se mais competitivo. Um tinto sofisticado, polido, muito sedutor mas que pode acabar por cansar o enófilo que pretende algo mais gastronómico. É, todavia, um vinho de lote, como o nome indica, e isso nota-se durante a prova, com as castas mais "frescas" e taninosas (sobretudo o Alicante B.) a procurarem compensar as mais maduronas. Parte estagia em carvalho americano, parte em carvalho francês.

Das duas colheitas, a de 2009 portou-se melhor, com mais profundidade e complexidade mais vincada (16,5-17). A colheita de 2008 também se portou bem, esteve mais consensual, com menos força na prova de boca e desvios achocolatados e abaunilhados no nariz a piscar o olho para gostos mais comerciais, e a aconselhar menos uso da madeira americana (16-16,5).


Próximas provas: Quinta dos Poços Reserva (T) 2005; Bétula (B) 2009; Senhor da Adraga (T) 2008

terça-feira, janeiro 18, 2011

Novidades

Cottas do Douro

Mais um novo projecto no Douro. Mas, atenção, não apenas mais um... Apresenta-se já com um tinto e um branco, ambos reservas, e ambos muito bons, diga-se. E ambos a óptimo preço abaixo dos €13, o que sempre são boas notícias.

O tinto, da colheita de 2009, é moderno na fruta e no floral emancipado, tem estilo "vaporoso" mas não exibicionista. Revela um toque metálico na prova de boca que alguns poderão não gostar, mas a nós não nos faz confusão. Tem, apesar do carácter internacional, alguma rusticidade que nos agrada - podia ter mais corpo é certo, maior expressão aromática e, sobretudo, mais concentração, mas não deixa de ser mais um belo tinto duriense (16,5).

O branco, também da colheita de 2009, é ainda melhor que o tinto. É subtil na expressão aromática, de enorme leveza, e com forte carácter mineral. Proporciona uma prova de boca plena, sem excessos frutados (bem pelo contrário), sem taninos da madeira onde estagiou, sem untuosidade gordurosa. É um vinho sensível, que deve ser objecto de análise atenta. Saboroso na mineralidade, fresco na acidez. Muito bem (17+).

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Do antigamente (ou nem tanto)

Confradeiro (T) 1995

Não tão vetusto quanto os vinhos anteriores (ver infra), mas, em todo o caso, um vinho tinto com quase 15 anos de vida em garrafa. Denota cor ruby, profunda e muito escura. Não se dá mais do que 5 anos de evolução pela tonalidade, o que demonstra bem como é preciso ter cuidado com as referências (por vezes enganadoras) das cores/tonalidades.

Nariz subtil, está numa fase elegante e bem disposta, por oposição à pujança e rudeza que revelavam estes Confradeiros quando novos (será que outros Douros mais recentes ficarão assim com o passar dos anos?). Madeira muito bem integrada - ainda se sente mas apenas a ligar o conjunto. Boca com fruta encarnada ligeira; a fruta está lá mas não de forma bruta, sendo preciso escutá-la! Muito gastronómico, nada quente, com boa acidez também.

Foi durante bons anos um valor seguro do Douro, da casa "Sandeman" (hoje universo Sogrape), um vinho bem tratado, com boa madeira para estágio e bom acompanhamento enológico. O resultado está à vista: um vinho seguro de si, nem um pouco cansado passados 15 anos. Está numa óptima fase de consumo, aliás, mas poderá evoluir ainda favoravelmente por mais 5 anos. Depois, em princípio, é bebê-las.

terça-feira, janeiro 04, 2011

Do antigamente

Reserva Especial Ferreinha (T) 1977

Fomos longe demais? Levámos a nossa louca predilecção a um nível onde o risco é maior que o prazer? Arriscámos em demasia em troco de um eventual momento de prova da existência de Deus? Sim, fizemos tudo isso, e entrámos em 2011 com a confirmação de uma certeza (e sim, sabemos que é inexoravelmente contraditório confirmar uma certeza).

A certeza essa já aqui foi firmada: a da capacidade de evolução de alguns (poucos, é certo) néctares nacionais. Desta feita, foi caso do Ferreinha Reserva Especial (T) 1977, ou seja mais de 30 anos num vinho tinto não fortificado.

Como estava? A garrafa com nível baixo, preocupante mas não alarmante sobretudo considerando os anos que já decorreram do engarrafamento. O rótulo bastante degradado como a foto atesta. Mas a rolha, essa estava em perfeitas condições apesar de manifestar a vetustez da idade, recheada de vinho. E de que vinho…

Cor ligeira, corpo magro (da idade), ligeiro desvio avinagrado mas sem em nada atrapalhar a prova. De resto, muito bem no nariz ainda com uma ou outra nota a fruta encarnada muito fresca. Os aromas terciários dominam mas não são excessivos e por isso não desconfortam, trazendo apenas um extra na complexidade. A boca é maravilhosa, um vinho fresco, de acidez notável, com sabor subtil e final de elegante prudência.

Melhor que o FRE’84 mas menos impressionante que o BV'85 e, sobretudo, que o colossal FRE’86 (ver aqui), todos da Casa Ferreira, temos aqui um vinho muito especial. Naturalmente, está numa fase descendente (nem poderia ser de outra forma, em sanidade de espírito), mas provem-no se conseguirem por a mão numa garrafa e, se forem como nós, será grande o prazer.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Do antigamente

Vinhos Luis Pato

São vinho maduros. "Maduros" por oposição a imberbes, claro. Em época festiva - boas festas e votos de um óptimo 2011! - não dispensamos provas a vinhos do antigamente. Aqui vão mais 3 notas de provas, todas de vinhos de Luis Pato, todos vinhos com calma, sossegados, e muito saborosos.

Surpreendentemente, o menos evoluído é o Luís Pato (T) 1988, imaculado na cor ainda profunda, e na prova de boca onde sobressai a sensação que o conjunto precisa ainda de mais tempo (!) para afinar. Depois o Luis Pato (T) 1990, o mais elegante dos 3 vinhos aqui descritos, evoluído, maduro, equilibro perfeito entre fruta e terciários. Está em óptimo ponto de consumo, mas aguenta mais 5 anos. Depois, veio o Luís Pato Vinhas Velhas (T) 1994, demasiado frutado (o ano não foi excelente na Bairrada ao contrário de outras regiões), mas com uma complexidade significativa a não permitir que o vinho se tornasse morno. De todos, é aquele com menor acidez, mas sem dúvida muito curioso na sua vertente frutada pouco habitual num Baga com mais de 15 anos.

Em suma: o VV ' 94 para beber agora acompanhando uma carne simples. O ' 90 para beber agora (mas podendo guardá-lo) com uma cabidela de leitão. O '88 para beber daqui a uns anos e logo se verá o acompanhamento!

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Do antigamente

Gonçalves Faria Garrafeira Tonel 5 (T) 1990

A foto não faz jus ao momento vivido, mas procurem acreditar nas minhas palavras: era mesmo um Tonel 5, e estava mesmo como imaginei que ele estivesse! E não foi sugestão - aliás, o facto de imaginarmos um vinho antes de o provar faz com que, por regra, o perigo da decepção seja maior no momento da prova. Sucede que, no toca a este vinho, decepção é palavra proibida...


Repleto de fruta encarnada - morangos, cerejas pouco maduras, framboesas - revela também aromas terciários magníficos e não demasiados pungentes, revelando grande carácter e equilibro. Um vinho que surpreende, ademais, pela enorme frescura, pelos taninos impecáveis, e por uma acidez monumental. Foram provadas 2 garrafas, ambas perfeitas, e isso diz muito da qualidade de um vinho com 20 anos.

Um dos melhores Baga para se beber neste momento, mas certamente ainda com mais uma década de vida. Fantástico. Pena é que a vinha velha que produzia esta maravilha tenha sido arrancada. Mas isso é outra história.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Do antigamente

Falcoaria (T) 1989

Quem diria que este tinto Ribatejano, com mais de 20 anos, estaria um verdadeiro colosso de vinho? Produzido a partir de Trincadeira e Castelão, passeou-se com frescura e surpreendeu com fruta primária ainda. O tempo deu-lhe a complexidade que, porventura, não teve quando era jovem. Revelou-se, nesta garrafa que se provou, calmo e sensato, em perfeitíssimas condições.

Um vinho que dificilmente se detecta a região de onde provém. Adivinha-se, é certo, português pela ligeira rusticidade que ainda ostenta. Mas podia ser também um vinho espanhol, ou melhor, um grande vinho espanhol, daquele que, como sabemos, custam certamente 50 vezes mais do que este alguma vez poderá (vir a) custar. Felizardos que somos.

sábado, dezembro 11, 2010

Prova especial

Campo Ardosa RRR (T) 2003

De um ano tão complicado, surge-nos um vinho maravilhoso. Efectivamente, são muitos os tintos de 2003 que nos têm decepcionado, sobretudo com a evolução em garrafa. Mas as excepções sempre existem. Uma delas, é este RRR da Quinta da Carvalhosa, sita a poucos quilómetros onde o Rio Tedo se encontra com o Douro (Cima Corgo).

Nariz cheio de mato seco, fruta profunda, cera, algum químico, ligeira madeira muito especiada e deliciosas notas licoradas - tudo muito bem! Mas verdadeiramente em forma esteve a prova de boca, um vinho verdadeiramente memorável, de sabor e mineralidade transbordantes. Intenso, carnudo, complexo. Muito mineral ("ardosa" refere-se a ardósia existente no solo), com taninos secos mas não duros. Tudo muito equilibrado, com boa acidez, e muitos anos pela frente. Um vinho para daqui a meia década. E ainda bem!

Trata-se do topo de gama da Quinta da Carvalhosa, que representa a selecção das barricas escolhidas pelos 3 sócios alemães do projecto (cada um coloca um R nas barricas de que mais gosta, sendo o lote final composto pelas barricas que levam RRR). Não é barato é certo - a cerca de €35 cada garrafa -, mas vale a pena prová-lo.

17,5+

domingo, dezembro 05, 2010

Prova especial

Trimbach Réserve Personelle Pinot Gris (B) 2001

Se é verdade que a Pinot Gris é uma casta que nem sempre evolui bem em garrafa, também é verdade que no que respeita à colecção Réserve Personelle da Trimbach ela evolui muito bem. Já se sabe que a Pinot Gris da Alsácia tende a ser mais poderosa que a de outras regiões, e isso é bem visível neste branco pois temos um vinho enorme! Muito floral no nariz, sem qualquer excesso (nada de água de rosas e coisas que tal), e um delicioso toque fumado. Complexo e untuoso na boca, agora com fruta branca madura a acompanhar a componente floral, mas novamente sem nenhum excesso, nomeadamente de doçura. Intenso, de grande estrutura, e com um final de boca luxuoso.

Um grande vinho em qualquer lado do planeta. A cerca de €40, sirva-se a acompanhar umas fatias de queijo manchego, ou uma terrina de "foie", nada mais.


17+

sexta-feira, dezembro 03, 2010

Mendoza

Em Fevereiro

Na Argentina as pessoas são as melhores pessoas que podemos conhecer. Sobretudo em Mendoza, enorme região onde tudo gira em torno do vinho: a agricultura, a comida, e até o (pouco) turismo. Em Mendoza descobrimos a confirmação de vinhos, essencialmente tintos, generosos na fruta pura, e elaborados por um conjunto de gente tão aventureira quanto entusiasta a propósito da melhor bebida do mundo, incluindo alguns portugueses.

 ***
***

***

segunda-feira, novembro 29, 2010

Toscana

Em Julho

A Toscana é como nos disseram que seria, mas melhor. É como "vem nos livros", mas ainda melhor. O cheiro é melhor, a comida é melhor, até as pessoas são melhores. E tem grandes vinhos também. Vinhos calmos, gastronómicos e com muita sabedoria.

***
***
***

***

quarta-feira, novembro 24, 2010

Devaneio

Existe de tudo

Existem aqueles que procuram comprar uma garrafeira já com imensas referências e não se preocupam onde compram. Existem aqueles que entram em falência e vendem tudo o que têm em stock. Existem aqueles que conseguem sempre descobrir um ou outro tesouro no meio de muito lixo. Existem, por outro lado, vinhos nacionais nas listas TOP 10 das melhores revistas internacionais. Existe de tudo por cá.

A foto em anexo é de um armazém próximo de Lisboa, carregado de vinho adquirido por "tuta-e-meia" em leilão judicial, fruto de mais uma liquidação.

O mundo do vinho (também) anda assim.
***

quinta-feira, novembro 18, 2010

Prova especial

Valle Pradinhos: Mini-Vertical
Colheitas 2003, 2004 e 2005

Conhecida marca transmontana (talvez a mais conhecida da região), foi colocada à prova numa mini-vertical. Provaram-se as colheitas de 2003, 2004 e 2005. Anos diferentes, estilo semelhante, e um grande vinho, o Valle Pradinhos (T) 2004. Em rigor, os três vinhos estiveram bem, límpidos de cor (apenas ligeira evolução no 2003) e de aroma, confirmando a marca como um bom porto seguro em matéria de qualidade e preço (e, já agora, de acessibilidade, pois encontra-se facilmente à venda, inclusivamente na restauração).

O 2005 revelou-se, todavia, uns furos abaixo, morno no aroma, demasiado redondo, muito pronto a beber e com pouca acidez, considerando o padrão da marca. Beba-se desde já, não se guarde garrafas, e não espere ser surpreendido (15,5). O 2003, apesar de maior evolução – era o mais antigo e de um ano quente, como é sabido – não se revelou demasiado cansado, mostrando grande disponibilidade na fruta (nariz e boca), taninos secos, óptimo final, em boa fase para consumo actual mas, em todo o caso, não recomendável a guarda duradoura (16,5).

O melhor da tarde, sem dúvida a colheita de 2004: aroma clássico da marca, mas com acentuada frescura, marcado um pouco pela Touriga Nacional. Taninos presentes, saborosos, grande prova de boca, fresco e muito gastronómico, pode ser guardado, sem medos, por mais meia década (17++). Belo vinho, e a um preço, no mínimo, convidativo…

terça-feira, novembro 09, 2010

Provas

Alento (B) 2009

Mais um "3b"... ou seja, um branco, bom e barato! Desta feita do Alentejo, e de uma marca - Alento - mais associada a tintos. De início, surge-nos um vinho muito claro no copo, de aparente fragilidade; mas é só aparência. Na prova de nariz está bem, com uma feliz combinação de fruta e vegetal, sem que a primeira vertente se sobreponha à segunda. Prova de boca que surpreende pela complexidade, com boa profundidade e evidente carácter gastronómico.

A acidez também está bem, mas o que realmente agrada - e que realmente nos fica na memória - é a força e complexidade da prova de boca - muito bem! Óptima relação preço-qualidade.

16

Próximas provas: 4 Castas (T) 2008, Quinta dos Poços Reserva (T) 2005; Bétula (B) 2009; Senhor da Adraga (T) 2008