sexta-feira, agosto 03, 2007


Projectos Niepoort: Chardonnay e Riesling

"Gritar ao vento" que os brancos da Niepoort são do melhor que se faz por Portugal é absolutamente desnecessário. É uma repetição a evitar...

Como sabemos, vinhos como Redoma ou Redoma Reserva são hoje pleonasmos de grandes vinhos. Mas quis Dirk Niepoort que se conhecesse parte das suas experiências, i.é, parte dos vinhos que faz pela vontade de conhecer mais, de "ir mais longe" (frase feita, bem sabemos) e não numa lógica comercial. Como cobaias que gostamos de ser (no que toca a néctares vínicos), não hesitámos em provar dois recentes projectos do autor: o Projecto Chardonnay (B) 2004 e o Projecto Riesling (B) 2005.

Como seria de esperar, castas e anos diferentes significam vinhos diferentes. Temos, assim, dois brancos bastante diferentes entre si, mas (feita a prova) com um denominador comum: a frescura.

No chardonnay a frescura vem da própria fruta que não cansa e é eficazmente fresca: é o vinho português mais parecido com um chablis que conhecemos. A fruta tropical como que se "transmuta" em notas verdes, e o trabalho da madeira não chega a torná-lo pesado nem meloso. Em suma: notas maduras de fruta que se equilibram em referências vegetais encantadoras. Um vinho absolutamente gastronómico e de muito prazer!

No riesling a frescura é sobretudo acidez. Atenção, não é um branco fácil face a tanta acidez, ao seu nariz reduzido e à (falta de) cor perto da transparência. Mas é um branco francamente refrescante, generosamente seco, profundo nas notas minerais e com um final enigmático e "picante". Muito interessante e bem diferente, como seria de esperar, dos brancos mais comuns em Portugal.
*

16,5 ao chardonnay (hum... talvez a acompanhar um peixe assado).
16 ao riesling (hum... porque não com camarão cozido?).

Próximos textos: Luz Niepoort/Abrunhosa (B) 2006, visita à Quinta da Gricha (Churchill's), prova da colheita 2004 da Quinta do Perdigão, Quinta do Alqueve 2 Worlds (T) 2004.

terça-feira, julho 31, 2007


Quinta do Vale Meão (T) 2002

Quando surgiu no final da década de ´90 apareceu como um furacão e arrecadou, de imediato, elogios de toda a parte. Naturalmente, quando o provei aconteceu-me o mesmo: na altura, com o Vale Meão 1999, fiquei perdido com tanta "força tranquila".

Colheita após colheita, o elevado standard mantém-se imperturbável. Por isso, e a par de dúvidas que vêm sendo levantadas sobre a longevidade das primeiras colheitas, importa conhecer, a título de desafio, como se porta o Vale Meão no pior ano do Douro desde que surgiu no mercado.

Belíssima cor cereja muito escura com ligeiros laivos violeta. Auréola ligeiramente acastanhada a revelar cuidada evolução.

No nariz começa com fruto em geleia em grande intensidade mas sem se tornar monótono ou excessivamente doce… enfim tudo começa com qualidade excelsa e, nesta fase, é um tinto de puro prazer. Depois, ½ hora volvida, revela-se um lado floral proveniente da touriga nacional que marca (e de que maneira!) o lote. Passada mais outra metade de hora, e é notar uma nova mudança de perfil… agora mais químico onde referências a tinta-da-china se impõem.

De resto, é um tinto muito cheio, boca larga, com final muito saboroso. Por mim (e para mim) pode aguardar mais 3 anos em garrafa.
*

Sugestão de acompanhamento? Poucos – mas bons – acepipes (ver foto). É um filho grande de um ano menor!

18


Próximos textos: Projectos Niepoort, visita à Quinta da Gricha (Churchill's), prova da colheita 2004 da Quinta do Perdigão, Quinta do Alqueve 2 Worlds (T) 2004.

quinta-feira, julho 26, 2007


Redoma (T) 2003

Cor assertiva – está confiante este Redoma (T) 2003!
Nariz fresco de alta intensidade. Não evitamos pensar como deve ser difícil fazer um vinho com tanta frescura num ano quente como o 2003...

Na boca é Douro, Douro e mais Douro: i.é, fruta elegante, sem excessos, postura fina e séria, alguma rusticidade. Mais 5 anos em garrafa não lhe trarão mal algum. Madeira integrada, final longo e a denotar mais e mais frescura (que alegria!).

A antítese de um vinho monótono e previsível que nos acompanha faz várias colheitas (para o ' 2001 ver aqui). Mais palavras para quê?

17,5

Próximos textos: Quinta do Vale Meão (T) 2002, Projectos Niepoort, visita à Quinta da Gricha (Churchill's), prova da colheita 2004 da Quinta do Perdigão.

terça-feira, julho 24, 2007


Quinta do Vallado Reserva (T) 2004

Lembramo-nos com muito prazer dos primeiros Vallados Reserva que bebemos. Lembramo-nos até com exactidão onde tal sucedeu, qual o "local do crime". Na altura, bebeu-se o belíssimo ‘1999 – que surpresa naqueles tempos... -; um ano depois foi a vez de provar o igualmente fantástico ‘2000. No copo de prova, desta feita e vários anos volvidos, temos a colheita de 2004, também ela merecedora de prémios e elogios internacionais.

Pois bem, a cor é cereja escura, longe de se mostrar opaca. A maior qualidade deste tinto (nesta fase) revela ser o seu nariz: marcado por aromas a verniz e acetona, está muito fresco, abundantemente balsâmico e com um feliz mix composto pela madeira predominante e pela fruta vermelha à procura de mais espaço.

Na boca, está igualmente jovem mas já polido: muita intensidade, largo e cheio, todo do tipo sedutor todavia com pequenas nuances terrosas. Final amargo (café, chocolate preto) de bom porte. É a madeira que novamente mais se sente.
*

Está um belo Douro, sem dúvida. Para já, talvez o melhor seja deixar repousar na garrafeira cerca de dois anos com esperança de mais complexidade. Mas é inevitável sentirmos nostalgia da prova das primeiras colheitas.

17

Próximos textos: Redoma (T) 2003, Quinta do Vale Meão (T) 2002, Projectos Niepoort, visita à Quinta da Gricha (Churchill’s) e muito mais…

segunda-feira, julho 23, 2007


Valle Pradinhos Reserva (T) 2004

Desta feita é mesmo novidade… depois de nos termos referido (ver aqui) à gama Valle Pradinhos como uma das melhores no mercado – falamos de qualidade, originalidade, e preço – surge agora a cereja no cimo do bolo.

Por algum tempo cogitámos sobre a razão de não existir um produto no topo da gama desta casa de Macedo de Cavaleiros, um vinho que beneficiasse daquele cabernet "maduro e adulto" (SIC) plantado em altitude. Ora bem, aí está ele agora (ou melhor em breve…), o Valle Pradinhos Reserva (T) 2004. Uma nota preliminar: quem prova tintos deste produtor conhece bem a força do terroir, e sabe que é necessária alguma cave para o vinho arredondar. Ora bem, neste Reserva tudo é ainda mais bruto, mais inacessível, pelo que a guarda deixa de ser necessária para passar a ser verdadeiramente indispensável.

Pois bem, com todos os luxos de hoje – desengace total, suaves remontagens diárias, longa maceração pós-fermentativa, 16 meses em barrica – surge-nos no copo um tinto de cor vermelha granada; perdidos que andamos nos monótonos tons "quase-pretos" e "cereja escura", este Valle Pradinhos começa por nos surpreender com um vermelho lindíssimo e reflexos violáceos e outros mais acastanhados.

Ab initio, o aroma é marcado pela madeira - Não há nada a fazer dada a sua juventude, é mesmo assim! Só depois (5 a 10m depois), vem a fruta, o tal cabernet maduro que se resume a uma combinação muito feliz de fruto negro e sensações frescas e florais. Já mais calmo no decanter (i.é, ½h depois) e na boca revela um morango silvestre cativante, em suma um fruto vermelho de invejável qualidade. Boca cheia, mantêm-se fresco, de cariz profundo e demonstrando um final amplo. Mesmo perto do fim da prova (já lá vão mais de hora e ½), o nariz atinge o seu auge com uma finesse demolidora e a boca finalmente "arredonda-se".

Para já está pujante, talvez demasiado para os padrões actuais. Mas os taninos finos permitem perspectivar que não será preciso uma década para o beber em deleite.
*

Aqui vai uma banalidade do autor para quem leu o texto: é o melhor Valle Pradinho que bebemos até hoje! À venda a partir de Novembro de 2007, por menos de € 25.

17,5

Próximos textos: Quinta do Vallado Reserva (T) 2004, Redoma (T) 2003, Vale Meão 2002, Luz (B) 2006 Projectos Niepoort

quarta-feira, julho 18, 2007

Mini-vertical de Evel Grande Escolha

A ideia de uma mini-vertical de Evel Grande Escolha andava a matutar na nossa cabeça faz tempo. Lembro-me mesmo de ter conversado com o Rui sobre isso, mas desta foi mesmo de vez! Este topo de gama da Real Companhia Velha surgiu na segunda metade da década de ' 90, mas em jogo apenas estavam as colheitas de 2000, 2001 e 2003. O que havia de 1999 já era (ver aqui), e o de ' 2004 pensamos que se encontra ainda muito novo.
A conclusão principal que podemos tirar é que se trata de um vinho com uma belíssima qualidade (sobretudo para o preço em causa), mas também consistente ao nível das três colheitas provadas. Como sempre acontece nestas coisas, é evidente que os vinhos foram o espelho da colheita, e por isso o ' 2001 mostrou um registo bem diferente dos irmãos, mas sem ficar furos abaixo. Para mais, tratam-se de vinhos de relativa longevidade, posto que o ' 2000 já leva uns anos e portou-se muito… vejamos:

Evel Grande Escolha (T) 2003: confirmou-se o que se esperava dele, e confirmou também as provas anteriores (ver aqui). Jovem no nariz, de cariz frutado e com final balsâmico. Não é daqueles tintos que nos fazem perdem horas a contemplá-lo, mas é "focado" e vai direito ao assunto. Esteve muito bem, boca totalmente redonda e já pronto para consumo, faltando-lhe apenas alguma complexidade no final de boca que talvez a idade lhe pode proporcionar. 17

Evel Grande Escolha (T) 2001: o ano não foi de fruta mas antes de "vinho", e este Evel Grande Escolha revelou isso mesmo. Mais seco que os irmãos, nariz distante mas muito cativante, profundo mesmo. Complexo na boca – é um tinto que dá séria luta – fresco, com toques de menta e chocolate amargo. Perfil gastronómico (neste aspecto, muito acima dos 2000 e 2003), final médio, taninoso, e (novamente) a sensação que ainda pode durar alguns anos na garrafeira. 17

Evel Grande Escolha (T) 2000: quem pensou que o ano quente o podia marcar com pouca longevidade engane-se! Está de boa saúde (e existem muitos ' 2000 do Douro que já não estão…), com camadas de fruta preta madura mas sem qualquer "pico" de sobrematuração. A evolução está no auge – é bebê-lo já – com a madeira perfeitamente integrada. Final elegante, longo e quente, enfim um conjunto muito sedutor. Um vinho de puro prazer em perfeito estado de evolução. 17,5
*

domingo, julho 15, 2007


Final de tarde na CASA de SANTA EUFÉMIA (CSE)


Depois de saímos da Quinta S. Luís (ver aqui), foi pegar no jipe, e andar poucos mais quilómetros na mesma margem do Douro em direcção a Oeste. De caminho em caminho, subida em subida, e lá chegámos à Casa de Santa Eufémia (CSE). Fomos então recebidos – e bem recebidos! – por Pedro Carvalho.
O dia que tinha amanhecido veraneante estava agora quase chuvoso e foi com "medo" da dita chuva que, com rapidez redobrada, visitámos as vinhas ao redor da quinta. Não nos livrámos, ainda assim, de um breve aguaceiro, muito desejado pelas gentes daquelas bandas dado a seca que se faz sentir. Houve, em todo o caso, tempo para perceber que o produtor está repleto de novas ideias, como, por exemplo, plantar syrah no Douro...
Depois (ainda molhados) fomos convidados para uma prova fantástica, conduzida pelo próprio enólogo. By the way, Pedro Carvalho também assiste outras casas como o projecto "Brites Aguiar" e o seu mediato tinto Bafarela Grande Escolha.
Começámos então por um vinho que nada tem que ver com a zona nem com a CSE, mas era uma estreia acarinhada pelo enólogo (produzido por uma amiga sua na região dos vinhos verdes), tratava-se de um alvarinho, o Poema (B) 2005. Um bom verde, com excesso de agulha, e uma boca muito (demasiado) madura para o nosso gosto (a atribuir uma nota seria um 14).
Depois, entrámos nos tintos e logo por cima: por um Viseu de Carvalho (T) Grande Escolha 2003, um vinho que conhecemos bem e gostamos bastante, com carácter, nariz potente e boca cheia e redonda, aliás significativamente mais redonda do que quando o provámos pela primeira vez faz mais de um ano (um 17 é uma nota que lhe assenta muito bem).
A seguir foi a vez do Casa Santa Eufémia (T) Reserva 2004, uma novidade, com um nariz óptimo, fresco e bruto, mas simultaneamente com a inconfundível marca da casa: fruta muito madura. Por estar repleto de taninos tem ainda que se esperar por ele, mas será certamente um belo vinho (certamente uns 16).
Por fim, duas grandes "pomadas" a não esquecer:
Primeiro, o recentíssimo topo de gama de Pedro Carvalho e o seu projecto pessoal, o Compota Touriga Nacional (T) 2005: um grande touriga do Douro, com um nariz fantástico marcado ainda pela madeira nova. Na boca é doce, prazenteiro, com notas a chocolate de leite. É muito sedutor (tem o estilo de alguns Crastos), internacional, e demonstra um final já em grande estilo (17-17,5).
Finalmente, um Casa Santa Eufémia Special Reserve White (P) 1973: um vinho de balseiro a partir do qual são engarrafadas algumas garrafas todos os anos, um grande Porto envelhecido em madeira e um verdadeiro "murro no estômago" a mostrar que um Porto branco, quando "velho", é capaz de apagar qualquer registo do paladar de um vinho anterior (uns merecidos 17,5).

Foi assim...

Foto no canto superior direito: vinha da Casa Santa Enfémia virada a norte.

quinta-feira, julho 12, 2007


Muxagat (B) 2005

Provado na própria região de produção - Foz Côa - no cenário magnífico da Quinta da Ervamoira, este branco de rabigato (90%), gouveio, códega e viosinho portou-se bastante bem.

Pouco evidente a parte do lote que é envelhecida em barricas novas. Incidência na fruta fresca, acídula, em espécie de "citrinomania". Final agradável mas curto. Grande apetência gastronómica e sem defeitos este vinho de Mateus Nicolau de Almeida.
*
É muito bom sinal que os brancos portugueses estejam a virar para a frescura e acidez...

15,5

terça-feira, julho 10, 2007


TINTOS DE 1996

Não era a primeira vez que os seis nos reuníamos (ver aqui para ocasião anterior). Desta feita o objectivo era (mais) exigente (exigente para nós, exigente para os vinhos): provar tintos de 1996. Dois do Alentejo, dois do Douro e dois do Dão.

Como é sabido, provar vinhos com mais de 10 anos exige atenções redobradas. Em primeiro lugar, é preciso acreditar que estiveram guardados em boas condições (foi o caso, numa cave fria ano inteiro), depois decantá-los com cuidado e ter muita atenção ao arejamento. No restante, as comidas também se adaptaram aos vinhos e pugnou-se por pratos não muitos intensos. Aliás, o nariz também se tem de adaptar… ou melhor, o cérebro tem de se consciencializar que são vinhos com 10 anos. Quer isto dizer, a evolução já fez muito do seu caminho e, ademais, o tipo de vinho de então era um pouco diferente do normal género que se produz actualmente. Uma curiosidade em provar vinhos com mais de 10 anos passa pela análise das várias fases por que os vinhos vão passando durante a refeição. De facto, por vezes, ninguém da mesa está de acordo pois o vinho está em diferentes estádios num determinando momento em cada copo. Apesar dos cuidados todos, um azar: rolha no vinho n.º 6… um Dão… o Quinta dos Carvalhais Reserva (T) 1996.

Como é sabido, provar vinhos em grupo é encontrar diferenças na opinião de cada um. No final, uma média ponderada ditou os resultados. E bom… em primeiro lugar ficou um grande tinto do Alentejo, um nariz calmo, de acidez média, muito perfumado, de grande equilíbrio na boca, complexo e ainda cheio, era um Esporão Reserva (T) 1996 (pensamos que altura não havia ainda o Garrafeira). Depois, veio um tinto mais vegetal no nariz, acre, de média intensidade, boca interessante, mutável no paladar, um belo conjunto este Quinta da Leda Touriga Nacional (T) 1996. Ainda com lugar no pódio ficou sem dúvida o vinho mais sensual da mesa, nariz de alta intensidade, fino e elegante, fruta viva, grande volume na boca e um bom final, parabéns para este Quinta da Pellada T. Roriz–T. Nacional (T) 1996. Mais atrás ficaram o Quinta do Carmo (T) 1996 com um bom nariz mas muito plano na boca, e o Quinta do Côtto (T) 1996 a acusar cansaço mas, ainda assim, a mostrar bom volume na boca.
*
Em conclusão, no geral os vinhos apresentaram algum desgaste nem sempre compensado com a complexidade, harmonia e finesse que se esperava. Todavia, os três primeiros classificados - Esporão, Leda e Pellada - deram bem conta de si e muito prazer aos seis convivas.

domingo, julho 08, 2007


Quinta dos Cozinheiros Maria Gomes (B) 2005

Não me cansa nem maça o imenso calor. Cansa e já me maça o imenso calor e não haver mais brancos como este. Fresco, muito fresco. A cor semi-carregada não faz jus a tanta acidez. Maracujá, outros tantos frutos tropicais ácidos, este branco pode acompanhar qualquer coisa pois não é pesado nem "madeiroso" e tem um final curto mas persistente.
*
Houvesse mais assim…

15,5

quarta-feira, julho 04, 2007

Um dia na Quinta S. Luís

Ao Douro voltamos todos os anos. Existem sempre novos lugares a descobrir, quintas, vinhos. Amigos que ficam. Tudo no Douro parece mágico, e tem outro tempo, outro sabor, outra intensidade. Passear no Douro, sobretudo com amigos, é daquelas tarefas que não cansam e cujas memórias não desaparecem. Ir ao Douro é saber que vamos voltar em breve. Que vamos fazer tudo para, em breve, lá voltar. Por isso, também nós lá voltámos...

Ainda meio acordados saltámos para o jipe e, pouco depois de passar a ponte no Pinhão (vínhamos de Sabrosa), curvámos à esquerda e subimos a primeira rampa da Quinta S. Luís. Propriedade do grupo "Sogevinus" que passou a deter, com a aquisição no ano passado da "Barros, Almeida & Ca", as marcas Cálem, Kopke, Barros (além de outras que já detinha como a Burmester), esta é uma quinta de grande dimensão e com abundância de micro-climas.


Após uma apresentação às vinhas (sempre indispensável nestas ocasiões), e sob um sol fantástico, foi ocasião para algum resguardo ao fresco e muitas provas na adega:
Primeiro um Cálem LBV (P) 2003, opaco, repleto de fruta e um carácter lácteo impregnado, fácil e acessível (na altura pensei num 15,5).
Depois (e eram ainda onze da manhã!), um Kopke Vintage (P) 2005, também opaco, misterioso no início, maior acidez e taninos do que o LBV e um carácter próximo da sobrematuração que me lembrou o 2003 (o campeonato dos vintages é, como sabemos, difícil e este Kopke é para se beber novo, pensei num 17).
Veio então um Burmester Tawny (P) 30 Anos, sublime com notas a laranjeiro, muito fino e marcante, mas com um final menos persistente do que esperávamos (16,5 pareceu-me acertado).
Depois, um Barros Colheita (P) 1978, ligeiramente mais escuro que o anterior, com um nariz completamente exótico, boca cheia e untuosa, final interminável (17,5 sem qualquer exagero).
Depois de tudo isto (batia quase o meio dia e meia) era de tempo de descansar... enjoy the view num terraço maravilhoso (e a view é para a Quinta do Crasto e para a Quinta Nova!). Tempo (temos sempre tempo) para provar um Curva Reserva (B) 2006, um branco com nariz interessante, delicado e muito subtil, boca citrina mas muito curta (um belo mouthwash diria John Graham… talvez 15).
Com o almoço já servido (um arroz de pato bem consistente) tivemos um dueto curioso. Lado a lado um Kopke Reserva (T) 2003 – seguro de si, muita fruta, moderno, pronto a beber com taninos moldados – e um Burmester Reserva (T) 2004 – mais fresco que anterior, vinioso, rústico, é um vinho sério que merece garrafa (16,5 aos dois e "não se fala mais nisso").
Mas o melhor ainda estava para vir… um Burmester Colheita (P) 1955… palavras para quê? Para dizer final interminável? Boca de veludo? Acidez perfeita? Nota? 18.
*
Tudo isto só foi possível graças ao António Montenegro e à sua equipa que nos receberam muito bem. A eles muito e muito obrigado.
Quanto a nós, vamos voltar ao Douro claro. E quem sabe ainda este ano...


Fotos (de acordo com os ponteiros do relógio): Burmester 1955 e vista do terraço; caminho para a Quinta; adega equipada; Francisco (um dos enólogos da empresa).







terça-feira, julho 03, 2007



Quinta do Couquinho (T) 2003

Este foi um daqueles tintos que sempre agraciou alguma fama entre os novos vinhos do Douro. Certamente pelo facto de ter sido uma das quintas inseridas no projecto "Lavradores da Feitoria". Certamente porque a enologia é de João Brito e Cunha.

A colheita é de 2003 e pensámos que o tempo de garrafa que levava já era suficiente. E neste aspecto acertámos! O calor daquela "terra longe" marca o vinho com notas intensas a fruto no nariz. Mas, ao invés da maior parte dos tintos do Douro Superior, este está macio e calmo. Casca de árvore, móvel antigo, referências num bouquet quase apaixonante e de clara tendência hedonística.

Pena não se poder dizer o mesmo da boca. Interessante, redondo, por vezes cheio, mas não estimula o palato, e no meio da boca (como que) já terminou. Quase plano este tinto, que tanto prometia no nariz...
*
Em todo o caso, um vinho interessante e curioso, que se destaca dos seus congéneres do Douro Superior (em prova cega diríamos ser do Cima Corgo), mas nem sempre pelas melhores razões. Cabe estar atento à colheita de 2004 e a um novo reserva.

15,5

domingo, julho 01, 2007


Quinta do Mouro Touriga Nacional (T) 2003

Cor magnífica, nariz interminável e boca explosiva. É assim este Mouro touriga...

Se na cor apenas importa notar que é escuro quase opaco, já no nariz são precisas mais palavras para o descrever. Como os grandes vinhos, começa tímido o bouquet (a fera está trancada na garrafa), e mesmo alguns minutos passados no decanter não o fazem respirar. Mais de 30m depois (e já o vinho estava nos copos), um perfume interminável e misterioso se solta. É evidente que tem bergamota, tangerina, amêndoas e tudo o mais - é afinal um touriga, embora do Alentejo. Mas tem mais: é um nariz – numa palavra – viciante... tem certamente dos aromas mais viciantes de que nos lembramos. É verdade que por vezes ficamos presos a um nariz harmonioso e sedutor que nos apetece cheirar sempre mais um pouco, mas este não é bem assim. Ao invés, é uma curiosidade permanente (mais do que sedução) que nos leva a não deixar este tinto pousado na mesa. É, enfim, uma incapacidade de caracterizar o bouquet em poucas palavras...

A boca é uma total surpresa e um caminho sem fim. Começa leve, aveludada, tem uma entrada de boca majestosa e elegante. Depois – já a meio do palato – como que explode e é, nesse momento ténue, que toda a boca fica cheia por este tinto. É um vinho gordo e cheio, é evidente. Mas é mais do que isso... a explosão é apenas a preparação para um final inacreditável, fresco e floral. Um paladar contraditório e que exige atenção redobrada.
*
Por tudo isto, e é só pena a componente gastronómica que tanto gostamos nos outros Quinta do Mouro (ver aqui) fique um pouco relegada por tanto exotismo, é um grande vinho. Um grande touriga do Alentejo!

17,5

segunda-feira, junho 25, 2007


Fabre Montmayou Grand Reserva (T) Malbec 2005

A prova era cega e já muito se tinha tragado naquela tarde. Por fim, um tinto escuro com laivos sedutores azuis e purpurinos, se colocou no nosso caminho...

Grande nariz, forte e intenso, mas não monótono na força bruta. Fruta, muita fruta de excelsa qualidade, barrica perfeita (mais tarde soubemos que acertámos quando não nos parecia ter mais de 1 ano em madeira). Havia qualquer coisa no nariz que apontava para um registo não nacional... não sei bem o que era... podia ser o facto de não existir nenhuma casta nacional naquele lote. Lote? Não... era um monocasta, mas – ao princípio – nada o fazia prever.

Na boca, já podia ser um tinto nacional, talvez do Douro feito com imensa touriga nacional madura. Tem corpo, taninos elegantes e arredondados, um misto de força (sobretudo na fruta) com elegância (notas a tabaco) mas sempre com determinação na sedução do provador (chocolate guloso). Final distinto, exótico, inesquecível mesmo.

Revelou-se ser um malbec da Argentina, um Fabre Montmayou Grand Reserva com mão enológica de Rui Reguinga. Uvas colhidas entre 24 de Março e 5 de Abril, com cerca de 40 hl/ha de rendimento, produzem um retinto vinho com 14,5 % vol..Os luxos que cada vez mais vêm sendo habituais também existem aqui: apanha das uvas de modo manual em caixas de 20 kg, dupla selecção (i.é, por cacho e por uva), fermentação com leveduras indígenas e quatro remontagens diárias. Por fim, 12 meses em carvalho francês.
*
Um vinho extraordinário, de vinhas com cerca de 60 anos plantadas a mais de 1000 metros de altitude. Um vinho que chega agora a Portugal na colheita de 2005 (a de 2003 ainda se vende no "winept"). Um vinho que custa menos de € 25 nas "Coisas do Arco do Vinho" em Lisboa e que em breve se esgotará.

17,5

domingo, junho 24, 2007

PRÓXIMAS INICIATIVAS:

  • É já no próximo Sábado, 30 de Junho, na Gare Marítima de Alcântara (das 15h às 20h) que a “Dão, vinhos e sabores” chega a Lisboa. A entrada é livre e todos poderão provar os vinhos desta região associando-se às celebrações do Dia do Vinho, que se assinala a 1 de Julho. Entre outros, estarão presentes os produtores Quinta da Vegia; Casa de Mouraz; Cooperativa Agrícola de Nelas; Grupo Enoport; Quinta da Falorca; Quinta da Fata; Quinta da Garrida; Quinta de Cabriz; Casa de Santar; Quinta de Lemos; Quinta de Reis; Quinta do Cerrado; Quinta dos Carvalhais e Quinta dos Roques.
  • Numa iniciativa do nosso amigo d´ O Copo de 3, decorrerá no próximo dia 7 de Julho (das 16h às 20h), nos Claustros do Convento dos Capuchos, em Vila Viçosa, o evento Vinum Callipole 2007, com a participação, entre outros, dos seguintes produtores: Herdade das Servas, Ervideira, Cortes de Cima, Herdade da Malhadinha Nova, Herdade do Portocarro, Alves de Sousa, Azamor Wines, Adega Cooperativa de Borba, Vinhos Dona Berta, Álvaro de Castro, Bago de Touriga, Quinta da Lagoalva. A entrada custa 5 € com copo Schott Din Sensus incluído. A linha de informação é o 967 344 226 e o contacto para reserva em copo_de_3@hotmail.com (reserva de entradas).

quarta-feira, junho 20, 2007

O mistério do Porto maravilha...
*
No final de um jantar muito animado, e no qual muito se deu a provar e a beber, vieram uns copos de Porto para a mesa. Nada se sabia sobre aquele néctar escuro: i) se era novo ou menos novo (pela cor, velho não era certamente); ii) se Ruby, LBV ou Vintage (pela cor, tawny não era certamente); enfim iii) se era caro ou barato (neste aspecto, a cor geralmente não ajuda).
Levou-se ao nariz e logo a dúvida intensificou-se... que mistério: parecia um Vintage tão fechado que estava. Nariz fresco, ele próprio misterioso, sem dúvida havia "fruta" escondida.
Na boca era largo e generoso, doce com notas exuberantes a chocolate, e a dúvida tornou-se uma "quase-certeza": i) ou se tratava de um Vintage daqueles para "se beberem novos" de ano não vintage, com qualidade mas sem pulmão, ii) ou então um grande (mas grande mesmo) LBV de um ano neo-clássico (i.é, demasiado quente). No primeiro caso (e continuávamos às cegas) seria certamente de um ano recente - 2004 ou 2005 -, no segundo caso seria de uma colheita entre o ano 2000 até 2003.
*
E não é que era mesmo um LBV, um dos melhores que já provei!
Era o Quinta Nova da Nossa Senhora do Carmo LBV 2003!

PS: O nome do vinho é quase tão longo quanto o seu final de boca.
PS2: Por outros LBV de 2003 já provados, parece que depois de ano vintage, temos um grande ano LBV.

sexta-feira, junho 15, 2007

No Dão com Quinta dos Roques
*
Uma prova dos vinhos da Quinta dos Roques exige circunstância!
Por isso, o melhor é mesmo uma visita à quinta e na companhia do muito afável produtor. Dito... e feito!
Depois de visitada parte da quinta, e as instalações da mesma, o melhor é mesmo atacar na bebida que "acompanha" o almoço (do espumante ao licoroso tudo foi provado), e dar umas palavrinhas com enólogo Rui Reguinga. Dito... e feito!


Notas e referências telegráficas de alguns dos vinhos, como se impõe - por serem novidades ainda não lançadas no mercado, à excepção do malvasia fina, as notas são provisórias:


Quinta dos Roques Encruzado (B) 2006: Muito bem no nariz: é certamente o melhor que provámos (ou melhor, cheirámos) nos encruzados dos Roques. É que, a par do lado mineral, surge a fruta madura e delicada com maior intensidade do que em edições anteriores. De resto, o costume... boca cheia, bastante fresco (apenas 65% passou por madeira) e final persistente. Belo branco este, numa das suas melhores edições. 16,5 (provisório)

Quinta dos Roques Malvasia Fina (B) 2005: Ainda não estamos fãs deste malvasia fina... nariz ausente (longe, longe), boca com alguma doçura interessante, mas não (nos) chega. No fim de contas, não tirámos a dúvida se o vinho já "terminou" a sua vida útil ou ainda não a "começou". Estranho, não é? 14,5

Quinta dos Roques Touriga Nacional (T) 2005: Cor violácea forte (mas não opaca) com espuma juvenil, e nariz muito fresco do tipo floral. Ataque muito compacto na boca, cheio de corpo, redondo, só o final ainda está em construção. Poderá vir a ser um dos melhores tourigas dos Roques daqui a umas primaveras, mas o tempo o dirá. 16,5 (provisório)


Quinta dos Roques Garrafeira (T) 2003: Nariz em evolução, complexo e muito intrigante (apetece cheirar e cheirar). Boca muito trabalhada, suave, belíssimo blend de touriga nacional, t. roriz, t. cão e alfrocheiro. Muita baga vermelha, perfil do Dão elegante e gastronómico com um típico final de boca fino e delgado. 17 (provisório)

Fotos (no sentido dos ponteiros do relógio): o produtor e anfitrião Luís Lourenço; vista da Quinta dos Roques com a Serra da Estrela ao fundo; vista de parte dos vinhos provadas; vista do armazém e muitas garrafas.


segunda-feira, junho 11, 2007

Herdade Paço do Conde Reserva (T) 2004
*
Cor muito escura – de imediato a noção de calor –, e perfil espesso. No nariz somos "assaltados" por compota de morango, fruta doce, rebuçado (...lá estão as bolas de neve novamente...).

Na boca, o álcool permite um ataque suave, redondo, sai mais fino do que entra e provoca um ligeiro (e muito agradável) amargo de boca. Final médio – /médio que, com algum tempo de garrafa, admitimos que possa melhorar. Como, aliás, todo o conjunto deste lote alentejano de syrah, touriga nacional, aragonês, cab. sauvignon... e muita barrica!


Vinho acetinado, veludo de álcool e fruta, peca pelo final e por um estilo demasiado guloso. O inevitável lost paradise aqui tão perto e a menos de € 10.
16,5

quarta-feira, junho 06, 2007

VALLE PRADINHOS: novidades para 2007
*
Foi pena (para mim, só para mim...) que o João Paulo Martins se tenha adiantado e proposto em debut (penso eu) o Valle Pradinhos (T) 2004 no "Fugas" (Público) do passado Sábado. É que a coisa interessante dos blogs, entre outras eventualmente, é a rápida divulgação da prova de novidades. Como pouco posso acrescentar ao conhecido jornalista – para além de se tratarem de 25 mil botelhas de um tinto com 14,5% vl. e 2,0 g/l de açucares redutores – resta-me aconselhar também o Valle Pradinhos (B) 2005 e o Valle Pradinhos (R) 2006 (creio que o JPM desta não se lembrou...).

Valle Pradinhos (T) 2004: No tinto "a coisa pia" de forma muito afinada. Percebe-se que o estilo do vinho está definido e estabilizado com (a passagem d') o tempo e mestria; que qualquer alteração na "fórmula" resulta da procura por maior consistência em cada colheita. Jovem, intenso, com espessura, nariz com frutos vermelhos mas também curiosas notas a fruto tropical. Final fino e longo, é um tinto a meio caminho entre a guarda e o deleite de o beber já (neste caso para quem gosta de tintos a sério). Um produto que (me) agrada muito por (me) agradar sempre. 17

Valle Pradinhos (B) 2006: "Parece que não", mas este branco também já leva alguma tradição... nem que seja pela insistência na singular combinação entre riesling, gewürztraminer e a transmontana malvasia fina. Se a cor é citrina clarinha, e o nariz dominado por líchias e rosas (mas ainda referências a cera, avelãs, noz moscada, bem como a manga madura), também a prova de boca tem valor, e muito! Se bebido fresco, acompanhará muito bem pratos simples como saladas e peixe grelhado. A 14º, pensamos que ainda se aguenta bem para outras andanças (carnes brancas, eventualmente), mas a tal temperatura, e com os seus elevados 14% vol., as sensações e referências adocicadas a pêra em calda e a alperce exigirão atino na combinação gastronómica. 16

Valle Pradinhos (R) 2006: Depois de tudo isto, para mim... este é o ano dos rosés do Douro (é já o terceiro que me enche as medidas, depois do "Apegadas" e do "Quinta da Sequeira"). Quero dizer, este é o ano - 2007 -, e esta é a colheita - 2006 -, sendo certo que nos rosés a estória da colheita não influencia significativamente o resultado final. Clarete no copo, solta um morango silvestre e uma cereja preta deliciosos. Seco, pouco doce, manifesta uma fantástica harmonia na boca. Cheio (sim... cheio!), mantém-se fresco, é um rosé diríamos que inteligente. Explico (na medida do possível): os açúcares não procuram cansar o consumidor mas antes equilibrar a fruta da tinta roriz e as flores da touriga nacional. Corram a comprá-lo: nem que seja por serem apenas 2600 garrafas. 16

terça-feira, junho 05, 2007

Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs (T) 2005


Rolo de carne no prato, arroz de tomate e o novo tinto do Monte da Ravasqueira. Cor ruby clara (o rótulo fala de granada), laivos violeta e espuma na auréola... muita juventude, portanto! No nariz nasce o álcool e não é apenas percepção da juventude – tem 14,7% vol.!


Sentem-se demasiado as referências "alentejanas" à syrah (claramente maioritária), mas o vinho é complexo e aguenta-se no limite da doçura. Muito chocolate na boca, ataque doce, intensamente centrado no rebuçado – ora funcho, ora "bola de neve" – um pouco floral no fim de boca conjuga-se com um travo retronasal amargo... a lembrar que sempre há touriga (neste caso tourigas) neste lote. Corpo mediano, concentração igual, mas um longo e belo final surpreendem os amantes da barrica. Decididamente é um caso para guarda, a merecer nova prova talvez daqui a 2 anos.


Um bom vinho (topo de gama?) - de perfil muito jovem como que vai melhorar em garrafa - a merecer mais esforço do produtor nas próximas colheitas.

16

domingo, junho 03, 2007

O primeiro: 2 anos depois.


Chamo-me a atenção (sim, a mim próprio) pela passagem de 2 anos desde que escrevi este texto. Penso que foi o primeiro – garanto que não estou certo disso – que escrevi para o blog, e faz já algum tempo que não tenho a contagem do número de visitantes.

Escrevo este blog como se ninguém o lesse.
Por isso, a passagem destes 2 anos não me surpreendeu o espírito; escreveria mais 2 anos se ninguém o lesse verdadeiramente. Por isso também, o texto de que mais gosto ("aquele" texto) foi este; sim, o primeiro (mas disso não estou certo). Depois desse, vieram muitos outros; vieram novos vinhos; vieram novos blogs; novos amigos. Por isso, finalmente, nem sequer dei conta da passagem do tempo. É que se o primeiro texto foi realmente este – que não estou disso certo –, já passaram, então, mais de 2 anos e falhei o aniversário.

terça-feira, maio 29, 2007

Vinhos de Diogo Frey Ramos


O Diogo Frey Ramos é um dos representantes da mais recente "fornada de enólogos". Nascido no belíssimo ano de 1978, cursou enologia na Univ. De Trás-os-Montes e Alto Douro (Vila Real) e estagiou em várias casas de renome (Gaivosa, Osborne e Muros de Melgaço). Depois de algum tempo a trabalhar para a Calheiros Cruz, surge agora a dar assistência a novos produtores e a cumprir um legado de família. Do projecto familiar "Tavadouro" já comecei por escrever aqui, faltando só a referência a 2 vinhos (o tinto e o branco da gama Vinëu, abaixo dos 6 €) que ora se dá conta. Dos restantes projectos, provámos um potente estreme touriga nacional. A saber:

Quinta dos Urgais Touriga Nacional (T) 2004: cor extremamente violácea e azulada, forte impacto olfativo a tinta-da-china. Claro está: desengace total, maceração prolongada. Nariz com referências curiosas a pimenta e cravinho. Boca fresca, de perfil floral mas demasiado esmagador. De corpo bastante encorpado, é a linha "dura" da touriga nacional e isso reflete-se no final áspero e demasiado curto. Terá os seus adeptos se for consumido já, mas o melhor é esperar.
15

Vinëu (T) 2005: Cor vermelho ruby claro. Nariz moderno, sedutor, directo e "fácil" nas percepções a chocolate de leite, baunilha, cereja negra e torrados. Boca com menos intensidade, mas mais seriedade face a prova do nariz. Fruta certinha a denunciar a presença da tinta roriz, corpo esguio (13,5% vol.), final fino e elegante. Feito a partir da referida roriz, mais as duas tourigas (nacional e franca) e tinta barroca, está um lote guloso capaz de agradar a muita gente. Um Douro moderno, temos aqui. 15,5

Vinëu (B) 2005: Amarelo palha claro no copo. Nariz com um toque a banana verde, fruta tropical madura, quase diríamos ter moscatel no lote... (mas não tem). Prova de boca bastante positiva, é um branco jovem, elegante, mas não foge a um carácter afirmativo na fruta (melão) e por isso é preciso bebê-lo bem fresco. Final médio a médio-curto. Curioso branco e boa relação preço/qualidade. 15

sexta-feira, maio 25, 2007

Notas breves - 3 brancos:

Quinta do Cerrado Malvasia-Fina (B) 2006: Necessariamente longe da mineralidade do encruzado da mesma quinta (que muito apreciamos), é a cor clarinha quase-água que começa por despontar. Depois vem o nariz muito certeiro, fresco, a pedir comida. Na boca, a acidez é demasiado viva e o conjunto perde qualidade pois o fundo tropical não se consegue impôr (demasiado novo?). Em qualquer caso, um malvazia-fina a merecer uma visita, nem que seja pelo carácter lúdico de provar uma casta que, no Continente, pouco aparece isolada. 14

Antão Vaz da Peceguina (B) 2006: Cor séria – temos vinho? – mas o nariz não deixa que percamos muito tempo com ele. Nariz reduzido, pouco atraente mesmo, ninguém diria ser um antão vaz (a prova foi cega). Melhora na boca, tem complexidade e não chega a ser pesado (mas anda lá quase), alperce, pêra, infelizmente muito pouca mineralidade. Abaixo das expectativas. 14,5

Malhadinha (B) 2006: Cor muito parecida com o vinho anterior mas mais escura a mostrar estágio em barrica. Aroma forte, pujante, talvez demasiado maduro (melão, manga), mas em todo o caso cativante. Boca em construção, está muito novo (mesmo para um branco), mas já se mostra gordo e compacto. O arinto está pouco "visível" e pensamos que o conjunto - demasiado meloso - ressente-se disso mesmo. Um vinho de Inverno para acompanhar assados, sem dúvidas, e sem o brilho das estrelas também.
15

quarta-feira, maio 23, 2007

Douro: sexteto afinado mas com diferenças


Foi mesmo em cima da hora (bendita hora para mim) que tive o verdadeiro privilégio de jantar (pois não estava prevista a minha presença) com 5 adeptos de vinho para provar e beber 6 tintos recentes (2003/2004) do Douro. Cada participante trouxe uma botelha, como combinado. Como combinado também já estavam os "nomes" dos ditos vinhos.
Não escrevo sobre quem esteve presente no jantar, pois o que mais importa no âmbito deste blog (a mim, e, eventualmente, ao leitor) são os vinhos; não quem os provou. Direi que eram, no mínimo, um núcleo duro de "entendidos" na matéria. Os vinhos... esses revelo e em bold: Xisto (T) 2003, Abandonado (T) 2004, Quinta de Roriz Reserva (T) 2003, Passadouro Reserva (T) 2004, C.V. (T) 2003 e Maritávora Reserva (T) 2004.

Na cor, pouco se notam as diferenças entre a colheita de 2003 e 2004 e, de vinho para vinho, as assimetrias cromáticas são mesmo mínimas.
[Deveria ter evidenciado antes que todos os vinhos foram decantados com cerca de 30m-1h de antecedência, e vieram para a mesa em decanters numerados para manterem o anonimato].

Já no nariz, os perfis começaram a trocar as voltas: um desiludiu (Xisto) com uma silhueta de demasiada torrefacção (cafés, espuma torrada); outro revelou toques excessivos de menta fresca (era o Abandonado, soube de depois), um acolá com químico latente do tipo "bomba" (Passadouro Res.), outro ainda mais calmo e com doce de leite a lembrar LBV (Quinta de Roriz Res.); por fim, dois mais complexos e intrigantes (C.V. e o Maritávora Res.).

Cerca de meia hora depois levou-se o vinho à boca.

É sabido ser tarefa arrevesada resumir as notas de prova de vários vinhos, sobretudo quando bebidos num único jantar. Diremos então, apenas, que todos são vinhos de belíssimo porte, que deram muito prazer. Contudo, diferenças também as houve, e alguma intrepidez no espírito leva-nos a revelar que o Xisto e o Abandonado (logo este que costumo gostar tanto...) ficaram uns pontos atrás dos outros e, por isso, nesta prova, trouxeram uma leve sensação a desapontamento. Dos restantes, resta-me dizer que o adorei o Passadouro Res. 2004 - o mais brutal e concentrado dos vinhos "em jogo" -, mas também o Quinta de Roriz Res. 2003 que se mostrou surpreendentemente sedutor e maduro (certamente devido ao ano) face a colheitas anteriores.

Todavia... os dois vinhos da noite foram mesmo o C.V. 2003 e o Maritávora Res. 2004. O primeiro, produzido por Cristiano Van Zeller em cooperação com S. Tavares da Silva, foi um todo de perfeição: profundo, enigmático, boca redonda aveludada e um final deveras longo. O segundo - grande relação preço/qualidade (o mais "barato" da mesa) -, foi um poço de complexidade, de perfeição na acidez, exibindo uma integração fantástica da barrica por Jorge Serôdio; tudo merece aplauso neste tinto.

Foi assim...

segunda-feira, maio 21, 2007

Dica de restauração: Salsa & Coentros

Não é propriamente uma dica, pois metade de Lisboa já conhece... ou devia conhecer. Fica junto à Av. da Igreja defronte dos bombeiros de Alvalade e come-se muito bem. É um projecto de gente que trabalhou no restaurante Charcutaria, por isso a comida é de qualidade e alentejana.
Uma surpresa: os óptimos preços praticados nos "comes" mas também nos "bebes"! Vinhos a preços justos – raramente ultrapassa o dobro do preço em garrafeira – e algumas semi-preciosidades. A não perder este Salsa & Coentros.

quinta-feira, maio 17, 2007

Dona Berta Reserva (T) 2004


O denominado Menu do Paço de primavera do restaurante "Terreiro do Paço" (Lisboa) mostra bem o fascínio do chef Vítor Sobral para com produtos nacionais: 2 pratos de bacalhau (um carpaccio com pasteis de mandioca, outro em lombo com compota de tomate), cherne no forno e pintada confitada com goiaba no forno e pinhões.
A bem de ver... a escolha de um vinho não era tarefa fácil. Para não se pedir diversos vinhos (ou vinhos a copo), a harmonia de um só vinho com a maioria dos pratos era obrigatória. Neste difícil contexto, o Dona Berta Reserva (T) 2004 foi valente!

Cor vermelha rubi muito viva, bonita mesmo de tanta alegria. Nariz intenso a flores, de cariz muito jovem e intenso. Na boca, concentrado e focado num travo "blendado" entre flores e fruto vermelho. Madeira ligeiríssima, hesitante... a descobrir e encobrir novamente (mais na boca, menos no nariz). Seco, concentrado, mostra ter taninos bravos e anos pela frente. Final discreto que, contudo, não desaponta.
Não é um douro de topo, nem de perfil moderno. Mas mostrou-se uma escolha imaculada numa mesa difícil, e este é – a meu ver – dos melhores elogios que se pode fazer a um vinho.

17

segunda-feira, maio 14, 2007

Vinha Grande (T) 2000


Aberta a magnum (i.é., garrafa de 1,5 litro), mostrou-se pouco dado a aromas iniciais. Já no copo, de cor rubi algo brilhante, o nariz deste tinto solta-se mais com fruta madura (tão típica da colheita de 2000) a "marcar pontos". Corpo macio, quente, aveludado, tanto que por vezes o vinho parece "apagado" e o conjunto ressente-se da falta de acidez. Em todo o caso, os 7 anos já passados pouco se notam (como é sabido, a evolução é mais lenta quanto maior for a garrafa), e a nossa maledicência vai mais para o estilo do que para o prazer que dá bebê-lo. Final médio de saída fina, admitimos que guloso. Bem puxámos ar pelo nariz, mas notas minerais, vegetais, ou outra coisa que fosse que não fruto madurão e alguma madeira (felizmente não excessiva), não encontrámos!

Um vinho "plano" este.
15,5

quinta-feira, maio 10, 2007

Marquesa de Cadaval (T) 2003


Existem vinhos que só nos surpreendem por nos surpreenderem quase nada. Cor cereja escura, nariz certeiro entre a baunilha e a fruta, corpo cheio e final elegante. Já definimos muitos vinhos assim, e este é mais um.

Muito polido, camadas de fruto guloso, mas pede-se mais exotismo ou "marotice" a este tinto. Na boca mostra-se equilibrado e cheio, mas pede-se mais garra e frescura. O que fazer? Bebê-lo (mais do que prová-lo), pois é do melhor que o Ribatejo para já nos dá. Pela evolução que leva estará perfeito para beber no final deste ano, e não parece ser daqueles que vai melhorar com a idade. Para quem prefere um pouco mais de "sangue na guelra" num tinto ribatejano, este talvez seja mais interessante.
17

terça-feira, maio 08, 2007

Lançamento/apresentação: The Wine Company

O Fernando Magalhães é daqueles jovens empreendedores que o país precisa. Depois de seis anos junto da família Baptista Fino a lançar os vinhos Monte da Penha seguiu um projecto próprio. Com a colaboração de dois sócios, fez nascer a sociedade The Wine Company a qual, segundo o próprio, “visa a distribuição de pequenos produtores de vinho de qualidade na região da Grande Lisboa, bem como de vinhos raros a nível nacional e internacional”.
A fim de promover este projecto (brevemente será lançado o respectivo site), decidiu juntar os produtores com alguns convidados e amigos num evento que decorreu no passado Domingo no novíssimo Hotel Grande Real Villa Itália em Cascais.

Breves apontamentos de uma grande prova:

VT (T) 2004 – 2.ª prova. Mantemos a opinião que se trata de um grande tinto, cor tinta-da-china e muita violeta, boca espantosa, grande final - imaginem um Pintas mas com alguma rusticidade.
Terrenus Res. (T) 2004 – Constantemente um dos nossos predilectos (ver  aqui para prova anterior).
Tributo (T) 2005 – Mais um belo tinto (a par do Terrenus) de Rui Reguinga. Taninos robustos e final elegante. Em todo o caso, preferimos o primeiro.
Quinta da Sequeira (B) 2006 Vinhas VelhasSo far, simplesmente um dos melhores brancos da colheita.
Quinta da Sequeira (R) 2006 – Belíssimo rosé à semelhança da colheita de 2005 (e do seu sucesso). A sensação de menos açúcar assegura maior secura, e o (nosso) palato agradece.
Canto X (T) 2005 – Alentejano "de gema", as vinhas situam-se entre Évora e Estremoz. Quem lhe nota a cor não espera o corpo e a estrutura que demonstra na boca. Muito gastronómico, num perfil genuíno.
Quinta Além-Tanha (T) Vinhas Velhas 2004 – Muita fruta e notas sedutoras de madeira neste tinto do Douro. Ainda está "em construção" e merece que se espere por ele.
Encostas de Estremoz (T) Reserva 2004 – Sempre gostámos dos afamados Touriga Nacional desta casa. Mais complexo, marcado pelo alicante e pela touriga franca, este Reserva está uns pontos acima. Grande compra.
Vale de Rotais (T) 2004 - Apresentação de mais um vinho do Douro Superior, de um novo produtor (julgo que a 1.ª colheia foi de 2001), feito por Luís Soares Duarte. Serão 2500 garrafas de um néctar elegante e distinto. Alguma força inicial, e um final longo.
Casa do Alegretre (T) 2004 – Já o tínhamos provado noutra ocasião. Um tinto de Portalegre bem feito, muito agradável a dar uma belíssima prova para já.

sexta-feira, maio 04, 2007

Um pouco lá por fora


Admito (sem falsa modéstia) que ninguém reparou na ausência de posts entre o dia 22 do mês passado e o dia 2 do corrente Maio. Na verdade, andei por fora de Portugal, pululando entre Holanda, Bélgica e Alemanha. Tudo em 10 dias, sem internet nem"agenda vinícola".
Apesar de me fazer bem pensar noutras coisas que não néctares engarrafados (diz-me o médico...), não consegui resistir a tomar apontamentos, a criar referências, enfim a tudo fazer para me lembrar sobre o escrever nestas linhas. E, assim sendo, deixo breves notas sobre aquilo que os meus olhos viram sobre nos referidos países. Sobre vinho, claro está.

1. Em primeiro lugar, confirma-se facilmente que o gosto pelo vinho – ou melhor, a moda do vinho – também explodiu noutros países (assumindo, como faço, que explodiu em Portugal). É hoje muito frequente a referência a wine bars de Amsterdão a Bruxelas, e, sobretudo, em Berlim. Em qualquer destas cidades europeias surgem "wieners", "enotekes" ou mesmo "enotecas" (como que escrito em Português) nas mais diversas esquinas. E em muito maior quantidade do que sucede no nosso país.
2. Em segundo lugar, à semelhança de Portugal, também existem hoje muitas garrafeiras e lojas especializadas por essa Europa fora (mais do que antes, de acordo com a minha experiência). E, neste particular, as garrafeiras portuguesas não ficam, em regra, a perder para as suas congéneres europeias. Em Berlim, o destaque vai para a "PlanetWine", uma loja fantástica no centro do Mitte com uma selecção prodigiosa de riesilings alemães e austríacos.
3. Depois, também os restaurantes lá fora privilegiam os vinhos. Nas casas mais afamadas de Berlim - como o "Vau" - deparei-me com cartas com mais de 600 vinhos (em Inglaterra ou em França, ou mesmo num ou outro em Espanha, chegam a ter quase mil). Nos locais certos, os preços não são tão inflacionados como na restauração nacional (maldita seja!). Mas claro... também existem aqueles restaurantes que andam à caça dos mais incautos e vendem vinhos três vezes o preço em loja. Mas atenção, os restaurantes de topo não apresentam geralmente qualquer falha no serviço do vinho.
4. Por fim, a nota menos feliz: o vinho português quase não se vê nos países referidos. Com excepção dos Portos, só o "Pintas" (na Alemanha por duas vezes me referiram o vinho quando me identifiquei como português), alguns gama alta da "Ferreirinha", e um ou outro verde branco (surpresa!) pouco se vê nas garrafeiras e menos ainda nos restaurantes. Ao invés, franceses, italianos e espanhóis (por ordem decrescente) dominam por todo o lado. Nos supermercados cabe ao "novo mundo" reinar. Até nos aviões da Luftansa onde se pode comprar pacotes de selecção de 6 vinhos de 6 países diferentes, Portugal não aparece.

quinta-feira, maio 03, 2007

Revista Blue Wine "on line"


Acaba de ser lançada na net a mais recente iniciativa editorial sobre vinhos. Num clique surge o ecrã principal onde se pode escolher entre reportagens (infelizmente não disponíveis), mundo gourmet, restaurantes, enoturismo, painel de provas entre outras opções. No painel de provas pode-se fazer pesquisas nos cerca de 800 vinhos (número mencionado pela publicação) provados para conhecer a opinião da BW.

Cada vez mais o mundo dos vinhos está online. Ainda bem!

(Será) Reacção ao movimento dos blogs?

quarta-feira, maio 02, 2007

Três Bagos Sauvignon (B) 2005


No regresso da iniciativa "Prova à Quinta", na qual os blogs e "comentaristas" enviam as suas provas na sequência de um desafio, a minha escolha foi para um dos meus brancos favoritos (o desafio do amigo Pingus era a prova de um vinho branco extreme).

Nariz a maracujá num conjunto tropical. Boca elegante, leve e suave, com notas alegres a groselha verde. Tem um lado vegetal muito bem integrado num conjunto que termina com um final citrino intenso.
Desde há uns bons anos para cá que se impõe como a melhor escolha preço/qualidade nos brancos nacionais (para prova da colheita de 2003 ver aqui). Nada pesado na boca, é todo ele prazer. Um sauvignon de muito bom porte e de preço razoável (a menos de 13 €) para tanta qualidade. Directamente de Mateus (Vila Real) - onde os ventos nocturnos frios permitem tanta frescura vinícola - para a nossa mesa.
Para mim, melhor sauvignon blanc só noutras latitudes e mais caro.
17

domingo, abril 22, 2007

Apegadas: novidades...


Não é a primeira vez que escrevo sobre os vinhos desta quinta (ver aqui). Têm carácter, carácter duriense claro está, são frescos e elegantes. As novidades para este ano resumem-se a um rosé (2006) e ao colheita (2005), pois entendeu-se que as uvas não tinham a qualidade necessária para um reserva. Sacámos a rolha a ambas. Valeu muito a pena! Vejamos:


Apegadas (R) 2006: um rosado que parece ser versátil no binómio aperitivo vs. acompanhamento. Um vinho leve e de nariz muito frutado mas, ao mesmo tempo, de paladar sério, por vezes severo até. É um rosé que não prima pela alegria, mas antes pela seriedade. Mineral, de final longo, é irresistível. 15,5

Apegadas Quinta Velha (T) 2005: Nariz fresco com fruto franco, boca de acidez viva. Conjunto compacto, vermelho cereja, parcialmente estagiado em barricas novas por 12 meses. Um tinto muito equilibrado (apenas 13º), complexo, feito a partir de diversas castas tradicionais do Douro (touriga nacional, franca, barroca, roriz). Forte pendor gastronómico. 16

quinta-feira, abril 19, 2007

Dois alicantes...


A casta alicante bouschet anda a arrasar alguns corações enófilos. Depois de anos sem ouvir falar nesta casta (pelo menos em Portugal), e menosprezada em França, agora está definitivamente na moda entre nós. Seja por se tratar de uma uva tintureira, seja porque se aguenta bem com os calores do Sul, a verdade é cada vez mais vinhos portugueses são feitos a partir desta casta. Bebemos dois exemplares extremes, a saber:

Pegões alicante bouschet (T) 2004: Fruta preta e um carácter rústico dominam a prova deste tinto de bom porte e cor moderna (quase opaca, portanto). Falta-lhe energia e alegria, peca por ser um tinto muito linear à semelhança de outros da região. Bom preço, abaixo dos 7€. 15
Capucho alicante bouschet (T) 2005: Literalmente preto. É um monstro este alicante: nariz reduzido, corpo fresco pelo álcool (15º), notas químicas e fundo balsâmico. Há uns anos atrás este tinto seria "levado aos ombros". Agora, muita gente (já) anda farta deste estilo. Eu vou-me aguentando com este ribatejano, pois dá muito prazer. A menos de 10€. 16

segunda-feira, abril 16, 2007

DFJ Alvarinho/Chardonnay (B) 2005


Nariz fresco dominado pela fruta tropical do alvarinho, tudo muito agradável. Na boca sim, nota-se o chardonnay com um sabor amendolado, mas numa versão menos untuosa ou pesada do que é comum beber-se. Conjunto muito bem conseguido.

Feito com todos os cuidados, mediante a utilização de enzimas pectolíticos de extracção, desengace, e prensagem passado uma hora, temos aqui um interessante branco de Verão, e não apenas para aperitivo. Talvez o melhor branco de sempre da vasta gama DFJ e um dos favoritos da Estremadura a menos de 8 €.
15,5

terça-feira, abril 10, 2007

Vinhos da Tavadouro


Frey (B) 2005
Chega-nos da denominação "Távora-Varosa" este branco de cor amarela muito clarinha. Produzido a partir de gouveio real, malvasia fina e cerceal, uvas todas colhidas na Quinta de Rõssas, mais um Douro claro está. Nariz reduzido com notas soltas a maçã e relva molhada, mas tudo subtil pouco perceptivo. Na boca volta a mostrar-se pouco expressivo, não se impõe no palato e é daqueles brancos que qualquer apreciador dirá "bebe-se muito bem". Com um final curto, foi uma boa companhia como aperitivo e ajudou à degustação de uns acepipes.
Não enjoa nem destoa. Preço abaixo dos 8€. 14,5

Setembro (T) 2004
Provado duas vezes, com dois meses de intervalo. Em ambas as ocasiões encontrámos um tinto muito escuro, perto do breu total. Nariz jovem, de intensidade alta, com imensa fruta madura. Aponta para um estilo próximo da sobrematuração, mas mostra-se interessante, guloso sem cair no estilo pesadão. Na boca, o fruto é quase doce, o chocolate impõe-se e surgem sabores quentes (fruto negro, LBV, "moka"). Madeira evidente mas bem doseada e um final médio/médio+ a revelar bom trabalho por parte do enólogo. No todo: um tinto num estado de maturação ainda não perfeito, guloso e, no geral, bem feito num estilo moderno e sedutor. Um Douro diferente em estreia. Eu gostei. Preço abaixo dos 14€ (brevemente em distribuição em Lisboa).
16

quinta-feira, abril 05, 2007

Quinta da Sequeira (R) 2005


A Páscoa parece ter trazido o bom tempo, pelo menos no que toca a Lisboa. Será já tempo de um rosé? É pois!
Já aqui escrevi - é, aliás, uma evidência - que são cada vez mais os recentes projectos consolidados no Douro. A par de novos produtores mais ou menos experientes, e com mais ou menos suporte empresarial, a verdade é que vão surgindo marcas apoiadas numa séria gama de propostas entre rosés, brancos e tintos. A "Quinta da Sequeira" é um bom exemplo do que se vem escrevendo [veja-se a nota que a Revista de Vinhos atribuiu no passado mês ao belíssimo – e cheio de garra – QS Reserva (T) 2003].
Provados já os tintos, em especial o 2001 (ver aqui) e o 2002 (ver aqui para a versão "Grande Escolha", a única produzida nesse ano), o sol da Páscoa leva-me a abrir o rosé da colheita de 2005. Vejamos então:

Demonstra cor salmão profunda bem carregada, bem longe de tons abertos e pálidos. Nariz fechado e aromas surpreendentemente complexos a revelar que este rosé é coisa séria. Sólido e estruturado (tendo em conta que se trata de um vinho rosado), tem acidez mediana e final de boca seco com hamonia certeira entre frescura e doçura (ou seja, ao nosso gosto, mais acidez do que doçura). Por ser naturalmente um vinho bastante frutado irá acompanhar bem um esparguete caseiro com mexilhões temperado com vinho branco e um pouco de sumo de limão (dica: não esquecer de adicionar raspas da casca do citrino).
Em conclusão: um dos melhores rosés do mercado. A menos de 7 €.

16

segunda-feira, abril 02, 2007

Quinta da Castainça Grande Escolha (T) 2003

Não é fácil encontrar este rótulo. Foi-me oferecida uma garrafa por um amigo e, a par desse evento, só o encontrei disponível para consumo na enoteca "Chafariz do Vinho" em Lisboa. Provou-se, com decantação, a garrafa que me foi oferecida.
Com touriga nacional, touriga franca e tinta roriz, apresenta-se um douro de cor cereja escura. Apesar da indicação do estágio em madeira por 12 meses, o carvalho pouco se sente no nariz, e mesmo na boca passa despercebido. É um douro clássico, fora de modas, com fruta fina, corpo delgado, alguma evolução, e um final elegante mas fugaz. Com uma acidez altiva e marcante, será uma boa (mas talvez não "grande"...) escolha para acompanhar um prato robusto. Desconheço o preço exacto, mas não deverá ser superior a 15€ (nota escrita em 19/04/2007: encontrei finalmente o vinho, está no ECI a cerca de 14€).
15,5

quarta-feira, março 28, 2007

Prazer a menos de 20€

Para o leitor cuja ansiedade acabou de aumentar com o título deste texto fica uma advertência: não se trata de um vinho, mas de dois. E não, cada um não custa 20€... os dois juntos, isso sim, quedam-se por esse preço.
Pois é, para quê comprar um bom vinho por 20€ quando, pelo mesmo preço, se pode comprar dois. O problema reside na dificuldade em adquirir os vinhos que se seguem, posto que não se encontram nos hiper ou supermercados, nem mesmo em qualquer garrafeira. Mas calma... também não são assim tão raros.


Gouvyas (T) 2003: Já não constitui novidade que os vinhos do João "Redrose" e de L. Soares Duarte são vinhos de puro prazer. Os próprios gostam de caracterizá-los como "gastronómicos". Quem sou eu para os contradizer, mas vou dizendo que, para mim, são muito mais do que isso. Este "Gouvyas 2003" nem sequer é o afamado "Vinhas Velhas" (18v. p/ RV), e – talvez heresia – é mesmo melhor escolha que o topo de gama numa mera relação de preço/qualidade. Nariz absolutamente perfumado – não costumo utilizar este adjectivo, mas neste tinto "assenta como uma luva" – com fruto irrepreensível e uma madeira muito discreta. Na boca é uma pequena tentação: guloso, intensamente centrado no fruto mas sem exuberância enfadonha, redondo e "sedosamente" macio. Final médio/médio+ saboroso, novamente com referências tímidas provenientes da madeira presentes num ou outro "tique balsâmico". A menos de 12€ na garrafeira "Coisas do Arco do Vinho" em Lisboa. 17

Monte da Cal Aragonês (T) 2004: Mais um "furo"na planície alentejana... e logo quando começávamos a pensar que os extremes de aragonês desta região não podiam mais surpreender. Um vinho cujo único pecado é bebê-lo já, pois certamente ganhará com mais um ou dois anos em garrafa (mas como resistir?). Este é, aliás, um dos aspectos muitos positivos deste tinto – apresenta-se jovem e sedutor, mas de taninos a pedirem cave. Nariz intenso a morangos muito maduros, a ameixa e, minutos depois... a esteva. Marcado pela "tinta da china", é um alentejano de carácter moderno onde as notas químicas se sobrepõem na boca ao fruto e uma madeira que (quase) não se nota. Final muito persistente, frescura proveniente do álcool (14,5º), secura nos lábios e apetite para mais. Atenção a esta marca (do grupo "Dão Sul") que dará que falar (uma dica mais: provem também o "Reserva 2003"). A menos de 8€ na garrafeira do ano/2006 (prémio RV) "Veneza" em Paderne (Algarve). 17

Torre do Frade Reserva (T) 2004

Em prova cega, e entre muitos vinhos, este Torre do Frade (T) Reserva destacou-se. Pela cor marcante, tinturada, aroma potente a lembrar bosque e fruto preto não confitado. Pelo corpo muito estrutrado, elegante mas afirmativo, e pelo seu final médio+/longo especiado e muito guloso. Um tinto "e tanto" do Alentejo, que merece ser conhecido. Se ao menos eu tivesse uma foto do rótulo... 16
PS: Nessa prova, na qual também estava o Rui, apenas um outro vinho se destacou ainda mais. Foi este.