sexta-feira, junho 15, 2007

No Dão com Quinta dos Roques
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Uma prova dos vinhos da Quinta dos Roques exige circunstância!
Por isso, o melhor é mesmo uma visita à quinta e na companhia do muito afável produtor. Dito... e feito!
Depois de visitada parte da quinta, e as instalações da mesma, o melhor é mesmo atacar na bebida que "acompanha" o almoço (do espumante ao licoroso tudo foi provado), e dar umas palavrinhas com enólogo Rui Reguinga. Dito... e feito!


Notas e referências telegráficas de alguns dos vinhos, como se impõe - por serem novidades ainda não lançadas no mercado, à excepção do malvasia fina, as notas são provisórias:


Quinta dos Roques Encruzado (B) 2006: Muito bem no nariz: é certamente o melhor que provámos (ou melhor, cheirámos) nos encruzados dos Roques. É que, a par do lado mineral, surge a fruta madura e delicada com maior intensidade do que em edições anteriores. De resto, o costume... boca cheia, bastante fresco (apenas 65% passou por madeira) e final persistente. Belo branco este, numa das suas melhores edições. 16,5 (provisório)

Quinta dos Roques Malvasia Fina (B) 2005: Ainda não estamos fãs deste malvasia fina... nariz ausente (longe, longe), boca com alguma doçura interessante, mas não (nos) chega. No fim de contas, não tirámos a dúvida se o vinho já "terminou" a sua vida útil ou ainda não a "começou". Estranho, não é? 14,5

Quinta dos Roques Touriga Nacional (T) 2005: Cor violácea forte (mas não opaca) com espuma juvenil, e nariz muito fresco do tipo floral. Ataque muito compacto na boca, cheio de corpo, redondo, só o final ainda está em construção. Poderá vir a ser um dos melhores tourigas dos Roques daqui a umas primaveras, mas o tempo o dirá. 16,5 (provisório)


Quinta dos Roques Garrafeira (T) 2003: Nariz em evolução, complexo e muito intrigante (apetece cheirar e cheirar). Boca muito trabalhada, suave, belíssimo blend de touriga nacional, t. roriz, t. cão e alfrocheiro. Muita baga vermelha, perfil do Dão elegante e gastronómico com um típico final de boca fino e delgado. 17 (provisório)

Fotos (no sentido dos ponteiros do relógio): o produtor e anfitrião Luís Lourenço; vista da Quinta dos Roques com a Serra da Estrela ao fundo; vista de parte dos vinhos provadas; vista do armazém e muitas garrafas.


segunda-feira, junho 11, 2007

Herdade Paço do Conde Reserva (T) 2004
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Cor muito escura – de imediato a noção de calor –, e perfil espesso. No nariz somos "assaltados" por compota de morango, fruta doce, rebuçado (...lá estão as bolas de neve novamente...).

Na boca, o álcool permite um ataque suave, redondo, sai mais fino do que entra e provoca um ligeiro (e muito agradável) amargo de boca. Final médio – /médio que, com algum tempo de garrafa, admitimos que possa melhorar. Como, aliás, todo o conjunto deste lote alentejano de syrah, touriga nacional, aragonês, cab. sauvignon... e muita barrica!


Vinho acetinado, veludo de álcool e fruta, peca pelo final e por um estilo demasiado guloso. O inevitável lost paradise aqui tão perto e a menos de € 10.
16,5

quarta-feira, junho 06, 2007

VALLE PRADINHOS: novidades para 2007
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Foi pena (para mim, só para mim...) que o João Paulo Martins se tenha adiantado e proposto em debut (penso eu) o Valle Pradinhos (T) 2004 no "Fugas" (Público) do passado Sábado. É que a coisa interessante dos blogs, entre outras eventualmente, é a rápida divulgação da prova de novidades. Como pouco posso acrescentar ao conhecido jornalista – para além de se tratarem de 25 mil botelhas de um tinto com 14,5% vl. e 2,0 g/l de açucares redutores – resta-me aconselhar também o Valle Pradinhos (B) 2005 e o Valle Pradinhos (R) 2006 (creio que o JPM desta não se lembrou...).

Valle Pradinhos (T) 2004: No tinto "a coisa pia" de forma muito afinada. Percebe-se que o estilo do vinho está definido e estabilizado com (a passagem d') o tempo e mestria; que qualquer alteração na "fórmula" resulta da procura por maior consistência em cada colheita. Jovem, intenso, com espessura, nariz com frutos vermelhos mas também curiosas notas a fruto tropical. Final fino e longo, é um tinto a meio caminho entre a guarda e o deleite de o beber já (neste caso para quem gosta de tintos a sério). Um produto que (me) agrada muito por (me) agradar sempre. 17

Valle Pradinhos (B) 2006: "Parece que não", mas este branco também já leva alguma tradição... nem que seja pela insistência na singular combinação entre riesling, gewürztraminer e a transmontana malvasia fina. Se a cor é citrina clarinha, e o nariz dominado por líchias e rosas (mas ainda referências a cera, avelãs, noz moscada, bem como a manga madura), também a prova de boca tem valor, e muito! Se bebido fresco, acompanhará muito bem pratos simples como saladas e peixe grelhado. A 14º, pensamos que ainda se aguenta bem para outras andanças (carnes brancas, eventualmente), mas a tal temperatura, e com os seus elevados 14% vol., as sensações e referências adocicadas a pêra em calda e a alperce exigirão atino na combinação gastronómica. 16

Valle Pradinhos (R) 2006: Depois de tudo isto, para mim... este é o ano dos rosés do Douro (é já o terceiro que me enche as medidas, depois do "Apegadas" e do "Quinta da Sequeira"). Quero dizer, este é o ano - 2007 -, e esta é a colheita - 2006 -, sendo certo que nos rosés a estória da colheita não influencia significativamente o resultado final. Clarete no copo, solta um morango silvestre e uma cereja preta deliciosos. Seco, pouco doce, manifesta uma fantástica harmonia na boca. Cheio (sim... cheio!), mantém-se fresco, é um rosé diríamos que inteligente. Explico (na medida do possível): os açúcares não procuram cansar o consumidor mas antes equilibrar a fruta da tinta roriz e as flores da touriga nacional. Corram a comprá-lo: nem que seja por serem apenas 2600 garrafas. 16

terça-feira, junho 05, 2007

Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs (T) 2005


Rolo de carne no prato, arroz de tomate e o novo tinto do Monte da Ravasqueira. Cor ruby clara (o rótulo fala de granada), laivos violeta e espuma na auréola... muita juventude, portanto! No nariz nasce o álcool e não é apenas percepção da juventude – tem 14,7% vol.!


Sentem-se demasiado as referências "alentejanas" à syrah (claramente maioritária), mas o vinho é complexo e aguenta-se no limite da doçura. Muito chocolate na boca, ataque doce, intensamente centrado no rebuçado – ora funcho, ora "bola de neve" – um pouco floral no fim de boca conjuga-se com um travo retronasal amargo... a lembrar que sempre há touriga (neste caso tourigas) neste lote. Corpo mediano, concentração igual, mas um longo e belo final surpreendem os amantes da barrica. Decididamente é um caso para guarda, a merecer nova prova talvez daqui a 2 anos.


Um bom vinho (topo de gama?) - de perfil muito jovem como que vai melhorar em garrafa - a merecer mais esforço do produtor nas próximas colheitas.

16

domingo, junho 03, 2007

O primeiro: 2 anos depois.


Chamo-me a atenção (sim, a mim próprio) pela passagem de 2 anos desde que escrevi este texto. Penso que foi o primeiro – garanto que não estou certo disso – que escrevi para o blog, e faz já algum tempo que não tenho a contagem do número de visitantes.

Escrevo este blog como se ninguém o lesse.
Por isso, a passagem destes 2 anos não me surpreendeu o espírito; escreveria mais 2 anos se ninguém o lesse verdadeiramente. Por isso também, o texto de que mais gosto ("aquele" texto) foi este; sim, o primeiro (mas disso não estou certo). Depois desse, vieram muitos outros; vieram novos vinhos; vieram novos blogs; novos amigos. Por isso, finalmente, nem sequer dei conta da passagem do tempo. É que se o primeiro texto foi realmente este – que não estou disso certo –, já passaram, então, mais de 2 anos e falhei o aniversário.

terça-feira, maio 29, 2007

Vinhos de Diogo Frey Ramos


O Diogo Frey Ramos é um dos representantes da mais recente "fornada de enólogos". Nascido no belíssimo ano de 1978, cursou enologia na Univ. De Trás-os-Montes e Alto Douro (Vila Real) e estagiou em várias casas de renome (Gaivosa, Osborne e Muros de Melgaço). Depois de algum tempo a trabalhar para a Calheiros Cruz, surge agora a dar assistência a novos produtores e a cumprir um legado de família. Do projecto familiar "Tavadouro" já comecei por escrever aqui, faltando só a referência a 2 vinhos (o tinto e o branco da gama Vinëu, abaixo dos 6 €) que ora se dá conta. Dos restantes projectos, provámos um potente estreme touriga nacional. A saber:

Quinta dos Urgais Touriga Nacional (T) 2004: cor extremamente violácea e azulada, forte impacto olfativo a tinta-da-china. Claro está: desengace total, maceração prolongada. Nariz com referências curiosas a pimenta e cravinho. Boca fresca, de perfil floral mas demasiado esmagador. De corpo bastante encorpado, é a linha "dura" da touriga nacional e isso reflete-se no final áspero e demasiado curto. Terá os seus adeptos se for consumido já, mas o melhor é esperar.
15

Vinëu (T) 2005: Cor vermelho ruby claro. Nariz moderno, sedutor, directo e "fácil" nas percepções a chocolate de leite, baunilha, cereja negra e torrados. Boca com menos intensidade, mas mais seriedade face a prova do nariz. Fruta certinha a denunciar a presença da tinta roriz, corpo esguio (13,5% vol.), final fino e elegante. Feito a partir da referida roriz, mais as duas tourigas (nacional e franca) e tinta barroca, está um lote guloso capaz de agradar a muita gente. Um Douro moderno, temos aqui. 15,5

Vinëu (B) 2005: Amarelo palha claro no copo. Nariz com um toque a banana verde, fruta tropical madura, quase diríamos ter moscatel no lote... (mas não tem). Prova de boca bastante positiva, é um branco jovem, elegante, mas não foge a um carácter afirmativo na fruta (melão) e por isso é preciso bebê-lo bem fresco. Final médio a médio-curto. Curioso branco e boa relação preço/qualidade. 15

sexta-feira, maio 25, 2007

Notas breves - 3 brancos:

Quinta do Cerrado Malvasia-Fina (B) 2006: Necessariamente longe da mineralidade do encruzado da mesma quinta (que muito apreciamos), é a cor clarinha quase-água que começa por despontar. Depois vem o nariz muito certeiro, fresco, a pedir comida. Na boca, a acidez é demasiado viva e o conjunto perde qualidade pois o fundo tropical não se consegue impôr (demasiado novo?). Em qualquer caso, um malvazia-fina a merecer uma visita, nem que seja pelo carácter lúdico de provar uma casta que, no Continente, pouco aparece isolada. 14

Antão Vaz da Peceguina (B) 2006: Cor séria – temos vinho? – mas o nariz não deixa que percamos muito tempo com ele. Nariz reduzido, pouco atraente mesmo, ninguém diria ser um antão vaz (a prova foi cega). Melhora na boca, tem complexidade e não chega a ser pesado (mas anda lá quase), alperce, pêra, infelizmente muito pouca mineralidade. Abaixo das expectativas. 14,5

Malhadinha (B) 2006: Cor muito parecida com o vinho anterior mas mais escura a mostrar estágio em barrica. Aroma forte, pujante, talvez demasiado maduro (melão, manga), mas em todo o caso cativante. Boca em construção, está muito novo (mesmo para um branco), mas já se mostra gordo e compacto. O arinto está pouco "visível" e pensamos que o conjunto - demasiado meloso - ressente-se disso mesmo. Um vinho de Inverno para acompanhar assados, sem dúvidas, e sem o brilho das estrelas também.
15

quarta-feira, maio 23, 2007

Douro: sexteto afinado mas com diferenças


Foi mesmo em cima da hora (bendita hora para mim) que tive o verdadeiro privilégio de jantar (pois não estava prevista a minha presença) com 5 adeptos de vinho para provar e beber 6 tintos recentes (2003/2004) do Douro. Cada participante trouxe uma botelha, como combinado. Como combinado também já estavam os "nomes" dos ditos vinhos.
Não escrevo sobre quem esteve presente no jantar, pois o que mais importa no âmbito deste blog (a mim, e, eventualmente, ao leitor) são os vinhos; não quem os provou. Direi que eram, no mínimo, um núcleo duro de "entendidos" na matéria. Os vinhos... esses revelo e em bold: Xisto (T) 2003, Abandonado (T) 2004, Quinta de Roriz Reserva (T) 2003, Passadouro Reserva (T) 2004, C.V. (T) 2003 e Maritávora Reserva (T) 2004.

Na cor, pouco se notam as diferenças entre a colheita de 2003 e 2004 e, de vinho para vinho, as assimetrias cromáticas são mesmo mínimas.
[Deveria ter evidenciado antes que todos os vinhos foram decantados com cerca de 30m-1h de antecedência, e vieram para a mesa em decanters numerados para manterem o anonimato].

Já no nariz, os perfis começaram a trocar as voltas: um desiludiu (Xisto) com uma silhueta de demasiada torrefacção (cafés, espuma torrada); outro revelou toques excessivos de menta fresca (era o Abandonado, soube de depois), um acolá com químico latente do tipo "bomba" (Passadouro Res.), outro ainda mais calmo e com doce de leite a lembrar LBV (Quinta de Roriz Res.); por fim, dois mais complexos e intrigantes (C.V. e o Maritávora Res.).

Cerca de meia hora depois levou-se o vinho à boca.

É sabido ser tarefa arrevesada resumir as notas de prova de vários vinhos, sobretudo quando bebidos num único jantar. Diremos então, apenas, que todos são vinhos de belíssimo porte, que deram muito prazer. Contudo, diferenças também as houve, e alguma intrepidez no espírito leva-nos a revelar que o Xisto e o Abandonado (logo este que costumo gostar tanto...) ficaram uns pontos atrás dos outros e, por isso, nesta prova, trouxeram uma leve sensação a desapontamento. Dos restantes, resta-me dizer que o adorei o Passadouro Res. 2004 - o mais brutal e concentrado dos vinhos "em jogo" -, mas também o Quinta de Roriz Res. 2003 que se mostrou surpreendentemente sedutor e maduro (certamente devido ao ano) face a colheitas anteriores.

Todavia... os dois vinhos da noite foram mesmo o C.V. 2003 e o Maritávora Res. 2004. O primeiro, produzido por Cristiano Van Zeller em cooperação com S. Tavares da Silva, foi um todo de perfeição: profundo, enigmático, boca redonda aveludada e um final deveras longo. O segundo - grande relação preço/qualidade (o mais "barato" da mesa) -, foi um poço de complexidade, de perfeição na acidez, exibindo uma integração fantástica da barrica por Jorge Serôdio; tudo merece aplauso neste tinto.

Foi assim...

segunda-feira, maio 21, 2007

Dica de restauração: Salsa & Coentros

Não é propriamente uma dica, pois metade de Lisboa já conhece... ou devia conhecer. Fica junto à Av. da Igreja defronte dos bombeiros de Alvalade e come-se muito bem. É um projecto de gente que trabalhou no restaurante Charcutaria, por isso a comida é de qualidade e alentejana.
Uma surpresa: os óptimos preços praticados nos "comes" mas também nos "bebes"! Vinhos a preços justos – raramente ultrapassa o dobro do preço em garrafeira – e algumas semi-preciosidades. A não perder este Salsa & Coentros.

quinta-feira, maio 17, 2007

Dona Berta Reserva (T) 2004


O denominado Menu do Paço de primavera do restaurante "Terreiro do Paço" (Lisboa) mostra bem o fascínio do chef Vítor Sobral para com produtos nacionais: 2 pratos de bacalhau (um carpaccio com pasteis de mandioca, outro em lombo com compota de tomate), cherne no forno e pintada confitada com goiaba no forno e pinhões.
A bem de ver... a escolha de um vinho não era tarefa fácil. Para não se pedir diversos vinhos (ou vinhos a copo), a harmonia de um só vinho com a maioria dos pratos era obrigatória. Neste difícil contexto, o Dona Berta Reserva (T) 2004 foi valente!

Cor vermelha rubi muito viva, bonita mesmo de tanta alegria. Nariz intenso a flores, de cariz muito jovem e intenso. Na boca, concentrado e focado num travo "blendado" entre flores e fruto vermelho. Madeira ligeiríssima, hesitante... a descobrir e encobrir novamente (mais na boca, menos no nariz). Seco, concentrado, mostra ter taninos bravos e anos pela frente. Final discreto que, contudo, não desaponta.
Não é um douro de topo, nem de perfil moderno. Mas mostrou-se uma escolha imaculada numa mesa difícil, e este é – a meu ver – dos melhores elogios que se pode fazer a um vinho.

17

segunda-feira, maio 14, 2007

Vinha Grande (T) 2000


Aberta a magnum (i.é., garrafa de 1,5 litro), mostrou-se pouco dado a aromas iniciais. Já no copo, de cor rubi algo brilhante, o nariz deste tinto solta-se mais com fruta madura (tão típica da colheita de 2000) a "marcar pontos". Corpo macio, quente, aveludado, tanto que por vezes o vinho parece "apagado" e o conjunto ressente-se da falta de acidez. Em todo o caso, os 7 anos já passados pouco se notam (como é sabido, a evolução é mais lenta quanto maior for a garrafa), e a nossa maledicência vai mais para o estilo do que para o prazer que dá bebê-lo. Final médio de saída fina, admitimos que guloso. Bem puxámos ar pelo nariz, mas notas minerais, vegetais, ou outra coisa que fosse que não fruto madurão e alguma madeira (felizmente não excessiva), não encontrámos!

Um vinho "plano" este.
15,5

quinta-feira, maio 10, 2007

Marquesa de Cadaval (T) 2003


Existem vinhos que só nos surpreendem por nos surpreenderem quase nada. Cor cereja escura, nariz certeiro entre a baunilha e a fruta, corpo cheio e final elegante. Já definimos muitos vinhos assim, e este é mais um.

Muito polido, camadas de fruto guloso, mas pede-se mais exotismo ou "marotice" a este tinto. Na boca mostra-se equilibrado e cheio, mas pede-se mais garra e frescura. O que fazer? Bebê-lo (mais do que prová-lo), pois é do melhor que o Ribatejo para já nos dá. Pela evolução que leva estará perfeito para beber no final deste ano, e não parece ser daqueles que vai melhorar com a idade. Para quem prefere um pouco mais de "sangue na guelra" num tinto ribatejano, este talvez seja mais interessante.
17

terça-feira, maio 08, 2007

Lançamento/apresentação: The Wine Company

O Fernando Magalhães é daqueles jovens empreendedores que o país precisa. Depois de seis anos junto da família Baptista Fino a lançar os vinhos Monte da Penha seguiu um projecto próprio. Com a colaboração de dois sócios, fez nascer a sociedade The Wine Company a qual, segundo o próprio, “visa a distribuição de pequenos produtores de vinho de qualidade na região da Grande Lisboa, bem como de vinhos raros a nível nacional e internacional”.
A fim de promover este projecto (brevemente será lançado o respectivo site), decidiu juntar os produtores com alguns convidados e amigos num evento que decorreu no passado Domingo no novíssimo Hotel Grande Real Villa Itália em Cascais.

Breves apontamentos de uma grande prova:

VT (T) 2004 – 2.ª prova. Mantemos a opinião que se trata de um grande tinto, cor tinta-da-china e muita violeta, boca espantosa, grande final - imaginem um Pintas mas com alguma rusticidade.
Terrenus Res. (T) 2004 – Constantemente um dos nossos predilectos (ver  aqui para prova anterior).
Tributo (T) 2005 – Mais um belo tinto (a par do Terrenus) de Rui Reguinga. Taninos robustos e final elegante. Em todo o caso, preferimos o primeiro.
Quinta da Sequeira (B) 2006 Vinhas VelhasSo far, simplesmente um dos melhores brancos da colheita.
Quinta da Sequeira (R) 2006 – Belíssimo rosé à semelhança da colheita de 2005 (e do seu sucesso). A sensação de menos açúcar assegura maior secura, e o (nosso) palato agradece.
Canto X (T) 2005 – Alentejano "de gema", as vinhas situam-se entre Évora e Estremoz. Quem lhe nota a cor não espera o corpo e a estrutura que demonstra na boca. Muito gastronómico, num perfil genuíno.
Quinta Além-Tanha (T) Vinhas Velhas 2004 – Muita fruta e notas sedutoras de madeira neste tinto do Douro. Ainda está "em construção" e merece que se espere por ele.
Encostas de Estremoz (T) Reserva 2004 – Sempre gostámos dos afamados Touriga Nacional desta casa. Mais complexo, marcado pelo alicante e pela touriga franca, este Reserva está uns pontos acima. Grande compra.
Vale de Rotais (T) 2004 - Apresentação de mais um vinho do Douro Superior, de um novo produtor (julgo que a 1.ª colheia foi de 2001), feito por Luís Soares Duarte. Serão 2500 garrafas de um néctar elegante e distinto. Alguma força inicial, e um final longo.
Casa do Alegretre (T) 2004 – Já o tínhamos provado noutra ocasião. Um tinto de Portalegre bem feito, muito agradável a dar uma belíssima prova para já.

sexta-feira, maio 04, 2007

Um pouco lá por fora


Admito (sem falsa modéstia) que ninguém reparou na ausência de posts entre o dia 22 do mês passado e o dia 2 do corrente Maio. Na verdade, andei por fora de Portugal, pululando entre Holanda, Bélgica e Alemanha. Tudo em 10 dias, sem internet nem"agenda vinícola".
Apesar de me fazer bem pensar noutras coisas que não néctares engarrafados (diz-me o médico...), não consegui resistir a tomar apontamentos, a criar referências, enfim a tudo fazer para me lembrar sobre o escrever nestas linhas. E, assim sendo, deixo breves notas sobre aquilo que os meus olhos viram sobre nos referidos países. Sobre vinho, claro está.

1. Em primeiro lugar, confirma-se facilmente que o gosto pelo vinho – ou melhor, a moda do vinho – também explodiu noutros países (assumindo, como faço, que explodiu em Portugal). É hoje muito frequente a referência a wine bars de Amsterdão a Bruxelas, e, sobretudo, em Berlim. Em qualquer destas cidades europeias surgem "wieners", "enotekes" ou mesmo "enotecas" (como que escrito em Português) nas mais diversas esquinas. E em muito maior quantidade do que sucede no nosso país.
2. Em segundo lugar, à semelhança de Portugal, também existem hoje muitas garrafeiras e lojas especializadas por essa Europa fora (mais do que antes, de acordo com a minha experiência). E, neste particular, as garrafeiras portuguesas não ficam, em regra, a perder para as suas congéneres europeias. Em Berlim, o destaque vai para a "PlanetWine", uma loja fantástica no centro do Mitte com uma selecção prodigiosa de riesilings alemães e austríacos.
3. Depois, também os restaurantes lá fora privilegiam os vinhos. Nas casas mais afamadas de Berlim - como o "Vau" - deparei-me com cartas com mais de 600 vinhos (em Inglaterra ou em França, ou mesmo num ou outro em Espanha, chegam a ter quase mil). Nos locais certos, os preços não são tão inflacionados como na restauração nacional (maldita seja!). Mas claro... também existem aqueles restaurantes que andam à caça dos mais incautos e vendem vinhos três vezes o preço em loja. Mas atenção, os restaurantes de topo não apresentam geralmente qualquer falha no serviço do vinho.
4. Por fim, a nota menos feliz: o vinho português quase não se vê nos países referidos. Com excepção dos Portos, só o "Pintas" (na Alemanha por duas vezes me referiram o vinho quando me identifiquei como português), alguns gama alta da "Ferreirinha", e um ou outro verde branco (surpresa!) pouco se vê nas garrafeiras e menos ainda nos restaurantes. Ao invés, franceses, italianos e espanhóis (por ordem decrescente) dominam por todo o lado. Nos supermercados cabe ao "novo mundo" reinar. Até nos aviões da Luftansa onde se pode comprar pacotes de selecção de 6 vinhos de 6 países diferentes, Portugal não aparece.

quinta-feira, maio 03, 2007

Revista Blue Wine "on line"


Acaba de ser lançada na net a mais recente iniciativa editorial sobre vinhos. Num clique surge o ecrã principal onde se pode escolher entre reportagens (infelizmente não disponíveis), mundo gourmet, restaurantes, enoturismo, painel de provas entre outras opções. No painel de provas pode-se fazer pesquisas nos cerca de 800 vinhos (número mencionado pela publicação) provados para conhecer a opinião da BW.

Cada vez mais o mundo dos vinhos está online. Ainda bem!

(Será) Reacção ao movimento dos blogs?

quarta-feira, maio 02, 2007

Três Bagos Sauvignon (B) 2005


No regresso da iniciativa "Prova à Quinta", na qual os blogs e "comentaristas" enviam as suas provas na sequência de um desafio, a minha escolha foi para um dos meus brancos favoritos (o desafio do amigo Pingus era a prova de um vinho branco extreme).

Nariz a maracujá num conjunto tropical. Boca elegante, leve e suave, com notas alegres a groselha verde. Tem um lado vegetal muito bem integrado num conjunto que termina com um final citrino intenso.
Desde há uns bons anos para cá que se impõe como a melhor escolha preço/qualidade nos brancos nacionais (para prova da colheita de 2003 ver aqui). Nada pesado na boca, é todo ele prazer. Um sauvignon de muito bom porte e de preço razoável (a menos de 13 €) para tanta qualidade. Directamente de Mateus (Vila Real) - onde os ventos nocturnos frios permitem tanta frescura vinícola - para a nossa mesa.
Para mim, melhor sauvignon blanc só noutras latitudes e mais caro.
17

domingo, abril 22, 2007

Apegadas: novidades...


Não é a primeira vez que escrevo sobre os vinhos desta quinta (ver aqui). Têm carácter, carácter duriense claro está, são frescos e elegantes. As novidades para este ano resumem-se a um rosé (2006) e ao colheita (2005), pois entendeu-se que as uvas não tinham a qualidade necessária para um reserva. Sacámos a rolha a ambas. Valeu muito a pena! Vejamos:


Apegadas (R) 2006: um rosado que parece ser versátil no binómio aperitivo vs. acompanhamento. Um vinho leve e de nariz muito frutado mas, ao mesmo tempo, de paladar sério, por vezes severo até. É um rosé que não prima pela alegria, mas antes pela seriedade. Mineral, de final longo, é irresistível. 15,5

Apegadas Quinta Velha (T) 2005: Nariz fresco com fruto franco, boca de acidez viva. Conjunto compacto, vermelho cereja, parcialmente estagiado em barricas novas por 12 meses. Um tinto muito equilibrado (apenas 13º), complexo, feito a partir de diversas castas tradicionais do Douro (touriga nacional, franca, barroca, roriz). Forte pendor gastronómico. 16

quinta-feira, abril 19, 2007

Dois alicantes...


A casta alicante bouschet anda a arrasar alguns corações enófilos. Depois de anos sem ouvir falar nesta casta (pelo menos em Portugal), e menosprezada em França, agora está definitivamente na moda entre nós. Seja por se tratar de uma uva tintureira, seja porque se aguenta bem com os calores do Sul, a verdade é cada vez mais vinhos portugueses são feitos a partir desta casta. Bebemos dois exemplares extremes, a saber:

Pegões alicante bouschet (T) 2004: Fruta preta e um carácter rústico dominam a prova deste tinto de bom porte e cor moderna (quase opaca, portanto). Falta-lhe energia e alegria, peca por ser um tinto muito linear à semelhança de outros da região. Bom preço, abaixo dos 7€. 15
Capucho alicante bouschet (T) 2005: Literalmente preto. É um monstro este alicante: nariz reduzido, corpo fresco pelo álcool (15º), notas químicas e fundo balsâmico. Há uns anos atrás este tinto seria "levado aos ombros". Agora, muita gente (já) anda farta deste estilo. Eu vou-me aguentando com este ribatejano, pois dá muito prazer. A menos de 10€. 16

segunda-feira, abril 16, 2007

DFJ Alvarinho/Chardonnay (B) 2005


Nariz fresco dominado pela fruta tropical do alvarinho, tudo muito agradável. Na boca sim, nota-se o chardonnay com um sabor amendolado, mas numa versão menos untuosa ou pesada do que é comum beber-se. Conjunto muito bem conseguido.

Feito com todos os cuidados, mediante a utilização de enzimas pectolíticos de extracção, desengace, e prensagem passado uma hora, temos aqui um interessante branco de Verão, e não apenas para aperitivo. Talvez o melhor branco de sempre da vasta gama DFJ e um dos favoritos da Estremadura a menos de 8 €.
15,5

terça-feira, abril 10, 2007

Vinhos da Tavadouro


Frey (B) 2005
Chega-nos da denominação "Távora-Varosa" este branco de cor amarela muito clarinha. Produzido a partir de gouveio real, malvasia fina e cerceal, uvas todas colhidas na Quinta de Rõssas, mais um Douro claro está. Nariz reduzido com notas soltas a maçã e relva molhada, mas tudo subtil pouco perceptivo. Na boca volta a mostrar-se pouco expressivo, não se impõe no palato e é daqueles brancos que qualquer apreciador dirá "bebe-se muito bem". Com um final curto, foi uma boa companhia como aperitivo e ajudou à degustação de uns acepipes.
Não enjoa nem destoa. Preço abaixo dos 8€. 14,5

Setembro (T) 2004
Provado duas vezes, com dois meses de intervalo. Em ambas as ocasiões encontrámos um tinto muito escuro, perto do breu total. Nariz jovem, de intensidade alta, com imensa fruta madura. Aponta para um estilo próximo da sobrematuração, mas mostra-se interessante, guloso sem cair no estilo pesadão. Na boca, o fruto é quase doce, o chocolate impõe-se e surgem sabores quentes (fruto negro, LBV, "moka"). Madeira evidente mas bem doseada e um final médio/médio+ a revelar bom trabalho por parte do enólogo. No todo: um tinto num estado de maturação ainda não perfeito, guloso e, no geral, bem feito num estilo moderno e sedutor. Um Douro diferente em estreia. Eu gostei. Preço abaixo dos 14€ (brevemente em distribuição em Lisboa).
16

quinta-feira, abril 05, 2007

Quinta da Sequeira (R) 2005


A Páscoa parece ter trazido o bom tempo, pelo menos no que toca a Lisboa. Será já tempo de um rosé? É pois!
Já aqui escrevi - é, aliás, uma evidência - que são cada vez mais os recentes projectos consolidados no Douro. A par de novos produtores mais ou menos experientes, e com mais ou menos suporte empresarial, a verdade é que vão surgindo marcas apoiadas numa séria gama de propostas entre rosés, brancos e tintos. A "Quinta da Sequeira" é um bom exemplo do que se vem escrevendo [veja-se a nota que a Revista de Vinhos atribuiu no passado mês ao belíssimo – e cheio de garra – QS Reserva (T) 2003].
Provados já os tintos, em especial o 2001 (ver aqui) e o 2002 (ver aqui para a versão "Grande Escolha", a única produzida nesse ano), o sol da Páscoa leva-me a abrir o rosé da colheita de 2005. Vejamos então:

Demonstra cor salmão profunda bem carregada, bem longe de tons abertos e pálidos. Nariz fechado e aromas surpreendentemente complexos a revelar que este rosé é coisa séria. Sólido e estruturado (tendo em conta que se trata de um vinho rosado), tem acidez mediana e final de boca seco com hamonia certeira entre frescura e doçura (ou seja, ao nosso gosto, mais acidez do que doçura). Por ser naturalmente um vinho bastante frutado irá acompanhar bem um esparguete caseiro com mexilhões temperado com vinho branco e um pouco de sumo de limão (dica: não esquecer de adicionar raspas da casca do citrino).
Em conclusão: um dos melhores rosés do mercado. A menos de 7 €.

16

segunda-feira, abril 02, 2007

Quinta da Castainça Grande Escolha (T) 2003

Não é fácil encontrar este rótulo. Foi-me oferecida uma garrafa por um amigo e, a par desse evento, só o encontrei disponível para consumo na enoteca "Chafariz do Vinho" em Lisboa. Provou-se, com decantação, a garrafa que me foi oferecida.
Com touriga nacional, touriga franca e tinta roriz, apresenta-se um douro de cor cereja escura. Apesar da indicação do estágio em madeira por 12 meses, o carvalho pouco se sente no nariz, e mesmo na boca passa despercebido. É um douro clássico, fora de modas, com fruta fina, corpo delgado, alguma evolução, e um final elegante mas fugaz. Com uma acidez altiva e marcante, será uma boa (mas talvez não "grande"...) escolha para acompanhar um prato robusto. Desconheço o preço exacto, mas não deverá ser superior a 15€ (nota escrita em 19/04/2007: encontrei finalmente o vinho, está no ECI a cerca de 14€).
15,5

quarta-feira, março 28, 2007

Prazer a menos de 20€

Para o leitor cuja ansiedade acabou de aumentar com o título deste texto fica uma advertência: não se trata de um vinho, mas de dois. E não, cada um não custa 20€... os dois juntos, isso sim, quedam-se por esse preço.
Pois é, para quê comprar um bom vinho por 20€ quando, pelo mesmo preço, se pode comprar dois. O problema reside na dificuldade em adquirir os vinhos que se seguem, posto que não se encontram nos hiper ou supermercados, nem mesmo em qualquer garrafeira. Mas calma... também não são assim tão raros.


Gouvyas (T) 2003: Já não constitui novidade que os vinhos do João "Redrose" e de L. Soares Duarte são vinhos de puro prazer. Os próprios gostam de caracterizá-los como "gastronómicos". Quem sou eu para os contradizer, mas vou dizendo que, para mim, são muito mais do que isso. Este "Gouvyas 2003" nem sequer é o afamado "Vinhas Velhas" (18v. p/ RV), e – talvez heresia – é mesmo melhor escolha que o topo de gama numa mera relação de preço/qualidade. Nariz absolutamente perfumado – não costumo utilizar este adjectivo, mas neste tinto "assenta como uma luva" – com fruto irrepreensível e uma madeira muito discreta. Na boca é uma pequena tentação: guloso, intensamente centrado no fruto mas sem exuberância enfadonha, redondo e "sedosamente" macio. Final médio/médio+ saboroso, novamente com referências tímidas provenientes da madeira presentes num ou outro "tique balsâmico". A menos de 12€ na garrafeira "Coisas do Arco do Vinho" em Lisboa. 17

Monte da Cal Aragonês (T) 2004: Mais um "furo"na planície alentejana... e logo quando começávamos a pensar que os extremes de aragonês desta região não podiam mais surpreender. Um vinho cujo único pecado é bebê-lo já, pois certamente ganhará com mais um ou dois anos em garrafa (mas como resistir?). Este é, aliás, um dos aspectos muitos positivos deste tinto – apresenta-se jovem e sedutor, mas de taninos a pedirem cave. Nariz intenso a morangos muito maduros, a ameixa e, minutos depois... a esteva. Marcado pela "tinta da china", é um alentejano de carácter moderno onde as notas químicas se sobrepõem na boca ao fruto e uma madeira que (quase) não se nota. Final muito persistente, frescura proveniente do álcool (14,5º), secura nos lábios e apetite para mais. Atenção a esta marca (do grupo "Dão Sul") que dará que falar (uma dica mais: provem também o "Reserva 2003"). A menos de 8€ na garrafeira do ano/2006 (prémio RV) "Veneza" em Paderne (Algarve). 17

Torre do Frade Reserva (T) 2004

Em prova cega, e entre muitos vinhos, este Torre do Frade (T) Reserva destacou-se. Pela cor marcante, tinturada, aroma potente a lembrar bosque e fruto preto não confitado. Pelo corpo muito estrutrado, elegante mas afirmativo, e pelo seu final médio+/longo especiado e muito guloso. Um tinto "e tanto" do Alentejo, que merece ser conhecido. Se ao menos eu tivesse uma foto do rótulo... 16
PS: Nessa prova, na qual também estava o Rui, apenas um outro vinho se destacou ainda mais. Foi este.

terça-feira, março 27, 2007

RV de Março: um deleite

Se existiam razões para descansar depois de uma certamente exaustiva organização dos prémios "Os melhores do ano - 2007", a Revista dos Vinho (RV) não aproveitou a folga.
Na verdade, ao invés, a edição deste mês de Março (que só ontem comecei a ler) está das melhores que tenho memória. Entrevista oportuna (exclusiva?) aos dois grandes homens do momento, reportagens (se assim lhe posso chamar pois são muito mais do que isso) a partir da Quinta do Vale Meão e do berço do "Poeira", belíssima prova de vinhos internacionais (os espanhóis ficaram um pouco abaixo do que eu previa...), de colheitas do Noval, etc e etc.
Grande número da RV. A prova que a exigência da excelência pode muito bem ser de carácter mensal.

domingo, março 25, 2007

Dois tintos alentejanos em forma


Diz-se muito frequentemente que os tintos do Alentejo devem-se beber novos. Pegámos em dois exemplares que, não sendo propriamente antigos, já levam 4 e 6 anos desde a colheita, respectivamente. Não são, nem pretendem ser, os topos de gama das marcas respectivas, por isso maior era a expectativa na prova. Sem surpresas – agora digo eu – portaram-se ambos de forma muito positiva. Vejamos então.

  • Quatro Castas (T) 2002: Este tinto da Herdade do Esporão combina - como o próprio nome sugere - quatro castas e, faz já alguns anos, que se situa entre os monocasta do Esporão e os topos de gama "Private Selection", agora acompanhados do recém chegado Torre (T) 2004. Cor jovem, vermelho muito escura. Baunilha no nariz e fruta sedutora na boca (ameixas e morangos maduros). Não fosse aliás o devaneio da madeira, e estaria ainda melhor. Fizémos bem em servi-lo a uma temperatura de 16º. Final muito correcto. Está pronto a beber, e é muito saboroso. Admito que se possa guardar mais uns anos. Mas para quê? 16
  • Quinta da Terrugem (T) 2000: As portuguesas castas trincadeira e aragonês dão-nos aqui um vinho muito profundo e de perfil moderno (mas sem "modernices"). Todo ele está em bela forma (prefiro sempre os Terrugem com alguns anos, confesso). Nariz fechado mas em evolução. Corpo elegante, quase redondo. Na boca encontramos uma panóplia de sabores muito complexos e uma persistente presença de fruto de qualidade a transitar para algum balsâmico. Final médio+/longo. Está pronto a beber e irresistível para agradar. 16,5

terça-feira, março 20, 2007

Novidades de Celso Pereira


Só a imensa simpatia de Celso Pereira se atreve a superar as virtudes dos vinhos que ajuda a produzir. Por isso, a apresentação dos seus néctares mais recentes é sempre um momento de convívio e "bem beber". Este ano começámos pelos espumantes: o "cada-colheita-melhor" Vértice Reserva 2004 e o belíssimo Super Reserva (bruto zero) 2000. Após mais de uma década e meia a produzir belos espumantes, ninguém duvida da consistência desta marca das Caves Transmontanas. Depois, provou-se o Vértice (B) 2006 em amostra de casco, já que branco de 2005 não haverá para venda por não se ter conseguido a qualidade habitual.

Mas foi nos tintos que a coisa mais brilhou. A saber:

  • Vértice Grande Reserva (T) 2003: Cor vermelha escura muito bonita com ligeiro sinal de evolução. Corpo fino e elegante, dá a sensação imediata que é um vinho de perfil gastronómico. Fruto de qualidade, alguma menta e várias sensações a café (provenientes da madeira, segundo o enólogo) que se combinam num néctar com "pattine" e de final longo. Um mimo pronto a beber (preço aprox. 15€). 17
  • Quanta Terra Grande Reserva (T) 2004: Este projecto de João Alves e Celso Pereira continua a superar as expectativas ano após ano. Este 2004 é um caso muito sério: muito escuro na cor, nariz fresco e cintilante, fruta madura (mas longe da sobrematuração). É preciso esperar por ele, é preciso um copo a sério para o provar, mas nota-se uma capacidade de evoluir enorme. Pesado e cheio de corpo e juventude, é um tinto muito complexo que vai certamente dar que falar. Também pelo preço, a menos de 20€. 17,5

domingo, março 18, 2007

Churchill Estates 2004


Confesso que tinha algumas expectativas. Não pelos actuais "zuns-zuns" (nacionais e internacionais) em torno deste 2004, mas pela bela experiência que tive com o primeiro Churchill de mesa, o Churchill 1999. Era intenso, pujante, repleto de taninos agrestes, mas também era saboroso sem ter excesso de fruto maduro. Passou despercebido. Lembro-me de o provar ao jantar e, no dia seguinte, ter tido ainda mais prazer ao almoço com o que dele restou do dia anterior. Até o rótulo, singelo e discreto, era outro. Teria esse episódio decorrido numa época distante... (?) vendo bem, não foi assim há tanto tempo, passaram-se, talvez, menos de 5 anos. Por isso, uma advertência: este é um texto de algum amargo de boca.

Ora, na colheita de 2004, tudo está "politicamente correcto": tinto de cor quase opaca, com lágrima persistente, aroma transbordante a álcool, e um fruto vermelho maduro em compota que domina a prova de boca. Que saudades da força balsâmica do de 1999... Ao invés, o ora provado está mais calmo, muito mais amansado (pelo menos face o de 1999, pois tenho a certeza que alguns enófilos também encontrarão "potência" neste 2004), e revela um calor doce que certamente agradará a muita gente (a meio da janta penso que o deveria ter servido refrescado com a sobremesa). Enfim, parece querer juntar-se à lista - cada vez maior - dos tintos que retiram o "menos bom" da tinta roriz para se tornarem monótonos. Nem mesmo o álcool desmedido como dita a moda (14,5º) lhe dá frescura. Final médio+ com as mesmas características já abordadas.
Um tinto (bem) feito a pensar na grande quantidade de consumidores de tintos durienses. Agora percebo os "zuns-zuns"! Até o preço – a menos de 12€ - é acessível. Queremos dizer, é um bom preço para os seus apreciadores (que não faltarão).

14,5

sexta-feira, março 16, 2007

1 pato e 2 brunhedas


Estou a repetir-me se escrever que alguns dos pratos que mais rapidamente preparo para acompanhar vinhos têm como matéria prima o peito do pato (ou "magret", se preferirem a francesisse).

Coloco o lombo, com a pele virada para baixo, numa frigideira alta e grande e, numa primeira fritura, adiciono apenas temperos básicos (sal, pimenta, pouco mais). Depois, retiro o lombo do bicho, e é altura de desferir cortes como que a fatiar finamente, mas sem cortar totalmente em fatias. Passo então outra vez pela frigideira, agora com os outros ingredientes seguindo a imaginação. Dou prevalência a alguns produtos ácidos para cortar a gordura natural do pato (como fruta: laranja é um clássico) e/ou vinho do porto ("ruby" serve bem). Reforçar na pimenta também é essencial.

Para beber? Façam como nós que abrimos dois vinhos da casa duriense Brunheda. Um óptimo branco, à semelhança do que outros produtores vêm fazendo sobretudo do Douro, e um tinto da "velha guarda" com um toque feminino. Duas belas opções.

Vinha da Pala Reserva (B) 2004
Decantado e reintroduzido na garrafa, é mais um daqueles brancos que persegue os melhores da região. A partir de malvasia fina, códega do larinho e viosinho, e com 12 meses de carvalho francês está límpido na cor e fresco na boca. Falta-lhe algum fruto (de caroço, como gostamos), mas está redondo, com estrutura e peso adequado e acidez certeira. Fomos buscá-lo à garrafeira Veneza no Algarve. O preço rondava os 14€. 16,5

Brunheda Reserva (T) 2001
Que excelente cor rubi profunda e sem marca exposta de evolução. Nariz reduzido, com concentração e algum fruto de qualidade. Na boca está fresco, amplo, com acidez muito positiva. O fruto está menos presente, a evolução que não se nota na cor sente-se na boca. É um bom vinho, produzido a partir de castas tradicionais do Douro, ao qual parece faltar algum carácter mais robusto. Está elegante, talvez feminino... 12,5º de álcool é coisa rara nos dias de hoje. O preço não sabemos, pois saiu-nos em sorteio, faz anos, num dos belos jantares da garrafeira "Coisas do Arco do Vinho" em Lisboa. 16,5

quinta-feira, março 15, 2007

Prós e Contras: vinhos brancos nacionais



Muito curiosa a diferença de opiniões que ainda persiste na net sobre a qualidade dos vinhos brancos portugueses.

São os prós e contras...


PS: Basta ver os nossos últimos textos - somos definitivamente "pró".

quarta-feira, março 14, 2007

Francos (T) 2003

Produzido por José Neiva na sua quinta de Alenquer, este tinto está um furo acima da gama DFJ. O primeiro impacto é o da madeira, de excelente qualidade mas não totalmente integrada com a fruta. Esta aparece "de mansinho", pela calada... aroma a frutos maduros como manda a moda. Passada meia hora, a madeira perdura (quando parará?), enquanto que a fruta evolui para notas de canela, produtos lácteos, compota de morango e não faltam até as referências a frutos secos.
Um vinho de perfil moderno, guloso e com um final persistente. Mais um tinto da Estremadura - mais um tinto de Alenquer - de bom perfil. A menos de14 €.
16

domingo, março 11, 2007

Termeão "Pássaro Vermelho" (T) 2003


Perfume e diferença de estilo...
É assim este Termeão (T) 2003!

De um dos produtores mais dinâmicos do país – Manuel Campolargo, pois claro – vem este tinto cujas melhores qualidades, em nossa opinião, ficaram sintetizadas no primeiro período deste texto.
Perfume que não é uma novidade em vinhos da Bairrada, muito menos nos tintos de Campolargo, um produtor que parece sempre privilegiar a elegância em detrimento da força bruta. Aroma estreito, mas franco, tudo muito delicado, de tal modo suave que a touriga (em clara maioria) proporciona aqui um bouquet muito pouco usual para a casta. Digamos que mais... feminino.
Diferença de estilo que também é uma chancela do produtor bairradio que nos habituou aos mais diversos devaneios vinícolas, sempre de qualidade. Pois bem, não está opaco na cor, mas esta é belíssima. O corpo não é super concentrado, mas tem estrutura "para dar e vender". O final não é prolongadíssimo, mas é irresistível. Os taninos não são demolidores, mas está para durar.
Em suma, um belo tinto, a um preço não exagerado tendo em consideração a reduzida produção. Este é o "pássaro vermelho" (ver no rótulo), mas existe também o "pássaro branco" mais acessível. A menos de 18€.

16,5

quarta-feira, março 07, 2007

Monte da Ravasqueira (B) 2006


Aqui está outra surpresa no universo cada vez mais aliciante dos vinhos brancos nacionais abaixo dos 10€. Depois do nosso espanto no Douro (ver aqui), é a vez do Alentejo fazer chegar-nos este Monte da Ravasqueira (B) 2006 que tem tudo para ser um sucesso.

Aliadas a um corpo sólido, redondo até (bem sei que falamos de um branco...) - características provenientes do antão vaz - encontram-se surpreendentes sugestões de frescura inovidável, estas resultantes de uvas tão pouco comuns nas terras quentes do sul de Portugal como a alvarinho, viogner e semillon.

Mais algumas castas (este é um lote de seis castas) e temos este curiosíssimo vinho o qual, em rigor, é muito diferente de tudo o que temos provado em matéria de brancos altentejanos. Doçura graciosa na entrada de boca, bom corpo, leve mineral. Final médio+ com acidez ajustada, enfim tudo muito equilibrado e onde as sensações doces na boca não se mostram nada enjoativas. Por isso, é quase impossível não gostar deste branco. Um brancos que sobressai entre os seus pares alentejanos. Pela diferença de estilo, pela estreia, e mesmo pelo preço pedido, venham mais destas curiosidades...
Entre 5 € a 7,5 €, a ser comercializado em breve.

16

domingo, março 04, 2007

Amália Garcia (T) 2006


Às vezes deparamo-nos com vinhos assim... Diferentes, absolutamente impressionantes, vinhos para os quais os nossos sentidos não estão sequer preparados. É o caso deste Amália Garcia (T) 2006, provado em amostra de casco numa apresentação no restaurante e garrafeira "O Ganhão".

É um alicante bouschet 100%, sem qualquer estágio em madeira e com uns brutais 17,5º de graduação! O que dizer? Que é um monstro... no copo revela-se opaco, quase preto com auréola violácea e azul. Agita-se a mão, roda-se o copo, e um bloco compacto mexe-se de forma lenta e precisa - é incrível a estrutura deste vinho! O nariz está um pouco fechado, com fruta muito madura é certo, mas ainda tímido, com o "mundo a seus pés". A boca está viva, o álcool dá-lhe estrutura e muita frescura. Como é de esperar, por enquanto não existem aromas nem sabores secundários, é tudo um alicante muito maduro, daqueles que só o Alentejo pode proporcionar. Fruta, café moído, um pouco de menta e um enorme mar de paladares balsâmicos intensos com verniz e cera. Final pungente e longo.
É um tinto muito interessante, com a curiosidade da ausência de madeira, é um vinho com uma personalidade que não lhe advém apenas do elevado grau de álcool. O produtor Francisco Garcia (o vinho é uma homenagem à sr.ª sua mãe) vai engarrafar o vinho no próximo dia 15 de Março de 2007. Serão poucos milhares de garrafas a um preço esperado de cerca de 50 € cada. Agarre-o se puder!

17,5

sexta-feira, março 02, 2007

Espumantes: apenas pontuações





  • Porta da Traição s/ ano (s/ indicação de castas) 14

  • Vértice Reserva 2004 (s/ indicação de castas) 15,5

  • Muros Antigos 2004 (alvarelhão / alvarinho) 15,5

  • Borga 2004 (pinot noir / chardonnay) 16

  • Murganheira vintage 2002 (pinot noir) 17

PS: Bem sei que são apenas pontuações, e que foto é uma rolha de "Mumm", mas esta é a nossa maneira de desejar um óptimo fim-de-semana.

quinta-feira, março 01, 2007

Gambozinos Reserva (T) 2004


Mais um tinto duriense proveniente de um pequeno produtor à procura de um lugar ao sol. Mais um tinto bem feito, sem defeitos, apetecível até.

O Douro está com uma nova dinâmica. Juntamente com os "Douro Boys" tem surgido, mais recentemente, uma autêntica "nouveaux vague" com vinhos de gama "premium" muito interessantes. É como se existisse um Douro a duas velocidades, sendo que uma vaga pode muito bem aproveitar as sinergias criadas pela outra (e, naturalmente, o inverso), pelo que estamos perante uma tendência que nos parece muito positiva.

Pois bem, este Gambozinos Reserva – de pouco consensual talvez só tenha o nome comercial escolhido – tem uma bela cor, vermelha muito escura, e no copo mostra-se pesado e de álcool evidente. No nariz predomina a touriga (como vem sendo cada vez mais habitual) e os seus aromas florais, aqui um pouco rústicos e mais duros do que seria desejável. Na boca o vinho é bem curioso, se bem que parece hesitar entre um estilo rústico (que predomina) com algumas notas gulosas a fruta confitada e chocolate que o final acentua.
Em conclusão: temos vinho, e para beber nos próximos 5 anos. A menos de 12 €.

16
PS - Vejo que o Paulo anda a beber o mesmo que nós, aqui.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Calços do Tanha Reserva (T) 2004


Mais uma colheita de Calços do Tanha Reserva, e mais um bom vinho repleto de fruta madura. O estilo dos vinhos de Manuel Pinto Hespanhol são marcados pela fruta, mas não tendem a ser agressivamente doces, bem pelo contrário. Por outro lado, a ausência da touriga nacional no lote deste Reserva (apenas existe em versão monocasta, bem boa por sinal) torna este tinto um dos poucos durienses de qualidade sem recurso à "casta rainha portuguesa".
Não por isso, mas por muito mais (incluindo o preço estável faz anos), os vinhos do referido produtor têm vindo a fazer parte das nossas preferências (ver aqui, ali e ainda ali).

No copo é marcado por uma cor cereja escura no centro, e vermelha claro na auréola - aqui não existem opacidades! Nariz marcado pela fruta vermelha, muito mirtilho e framboesa. É um daqueles tintos que "vai directo ao assunto", muito personalizado, pelo que se torna um vinho sedutor e aprazível. Com o passar dos minutos no copo algumas notas de fruta preta destacam-se e o final, de média intensidade, traz consigo uma complexidade curiosa oriundo de um leve balsâmico e notas achocolatadas.

Em suma, tem tudo aquilo por que se espera de um Calços do Tanha Reserva. Ainda bem!
A menos de 14€.

16,5

domingo, fevereiro 25, 2007

Quinta dos Avidagos (B) 2005


Por esta é que não esperávamos...

Sabíamos que os tintos da casa Nunes de Matos eram valorosos – ver aqui – mas não esperávamos tanta qualidade neste Quinta dos Avidagos (B) 2005. Tanto mais que o preço anda pelos simpáticos 5 €, ou seja muito abaixo do que se cobra actualmente por um branco sério.

Pois bem este Avidagos branco é uma pequena maravilha, resultado de um lote de malvasia fina, gouveio real e vital. É-o logo no nariz, fresco, com notas pujantes a ananás e maracujá. Depois, uma boca leve, elegante e de textura ligeira ajuda as notas levemente citrinas a chegarem a "bom porto". Belo final, vivo, persistente mas não impositivo ou untuoso. Um branco no qual se pode confiar com a subida da temperatura no copo pois mantém-se deleitoso e de acidez graciosamente teimosa.

Talvez o melhor branco do Douro a menos de 10 €, neste caso bastante abaixo desse preço. É caso para abastecer a garrafeira!

16,5

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Terrenus Reserva (T) 2004


Este é já um dos nossos tintos predilectos resultantes da colheita de 2004.
É mesmo caso para dizer que podia muito bem ser um dos melhores do ano - e é mesmo para a RV, vejo agora na edição de Fevereiro.

Carácter vinioso, tudo muito intenso mas não demasiado marcante ou carregado. Toda uma consistência só possível quando se tratam de vinhas muito velhas. É um tinto seco, que começa fechado no nariz, talvez mesmo austero, mas depois revela-se um autêntico "poço sem fundo". É uma estrada sem fim no que toca a aromas, mas também na boca. Saboroso, é um tinto absolutamente sem qualquer traço de monotonia, um daqueles vinhos que até pode passar despercebido senão lhe dermos a atenção merecida.

Madeira delicada, sem excesso, final longo, e fruta sem maçar: que combinação de luxo! Faz tempo que o "terroir" da serra S. Mamede não nos oferecia um vinho assim. Parabéns ao enólogo/produtor Rui Reguinga.

A menos de 27 €, com direito a entrada directa para os nossos favoritos.

18

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Essencialmente...

Eram muitos os vinhos que me esperavam na Essência do Vinho. Estavam anunciados cerca de 2000, mas como o devaneio vai passando com a idade, apressei-me a provar alguns brancos no Sábado e menos tintos ainda no Domingo. Uma imperiosa pré-selecção impõe-se nestes eventos.
Entre os brancos que fiz questão de provar, gostei muito do Quinta da Sequeira (B) 2006 (vai dar que falar...), dos sempre inesperados Dona Berta Rabigato (B) 2005 e Escolha Pessoal Alves de Sousa (B) 2003, e do internacional e deveras perfumado Valle Pradinhos (B) 2005. Curiosamente, muitos dos brancos que mais destaque têm merecido junto da imprensa escrita mostraram-se, na minha boca, um pouco pesados e, em alguns casos, excessivamente madeirosos (num deles, por sinal um dos brancos mais cotados do mercado, cheguei a sentir notas intensas a café).
Nos tintos, o meu gosto virou-se à descoberta de novidades ou de néctares que ainda não tinha provado: Dona Maria Reserva (T) 2004 (infelizmente mais consensual e "fácil" que o maravilhoso 2003), Herdade do Meio Garrafeira (T) 2003 (vinho cheio e gordo, muito bom), Além Tanha VV (T) 2004 (grande salto de qualidade face os anteriores), Quinta da Sequeira Reserva (T) 2003 (o mesmo estilo rústico e directo da casa, mas com fruta mais acessível).
Perguntam-me: e o que dizer dos VT 04 (T), Secret Spot (T) 2004, JM (T) 2004, Talentus (T) 2004? O que dizer desses tintos durienses? Provei-os efectivamente (alguns já os tinha provado), e são realmente bons. Porém, salvo uma ou outra excepção, mostraram um perfil muito semelhante entre eles. Esta é aliás uma característica que começei a detectar nos grande vinhos do Douro e sobre a qual espero escrever mais no futuro. Talvez seja por fugirem a esse registo que alguns vinhos distintos - como o Abandonado (T) 2004 (muito exótico) e o Poeira (T) 2004 (intenso mas com muita frescura) - têm tido merecido maior sucesso. A ausência de contraste levou-me, por vezes quando necessitava de algo diferente, a seguir para o stand da "FineWines" e beber algo diferente... um Quinta Sardónia (T) 2004, por exemplo.
Destaque inevitável para algumas provas comentadas, sobretudo a de vinhos doces, ministrada por Rui Falcão, absolutamente inesquecível entre moscatéis de montanha, "icewines" e "tokais".
É verdade que a quantidade enorme de público torna o evento cansativo, mas esse parece ser o preço da conquista do público do Porto. A Essência do Vinho está consolidada como um dos maiores eventos vinícolas de Portugal.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Os melhores do ano - RV


Cabe aos leitores perdoar, ou não, o perscrutador autor destas linhas por não ter escrito mais cedo o que verdadeiramente se passou - não se pode confiar nas versões oficiais (LOL) - na passada sexta-feira, dia 16. O rigor de um fim de semana de copo na mão, mais uns dias a diambular por travessas de lampreia no Mondego, obrigou o autor a descanso e algum afastamento.
Tudo tomou lugar no belíssimo edifício da Alfândega no Porto para a atribuição dos prémios "Os melhores do ano - Revista dos Vinhos". Como sempre sucede nas cerimónias desta índole, foi prémios para aqui, prémios para ali, intervenções aqui e agradecimentos acolá. A melhor demonstração do impacto dos prémios da RV surge nos dias seguintes à cerimónia. No Sábado já se discutia se A Veneza foi merecedora do prémio de Garrafeira do Ano ("aquilo é um restaurante e não uma garrafeira" - ouviu-se em cada esquina). Dois dias depois ainda se duvidava que o prémio de enoturismo assentava bem à Quinta Nova Nossa Sr.ª do Carmo ("a piscina está sempre suja" - foi um comentário comum). Quanto a nós, como é sabido, gostamos de tanto de comer n' A Veneza (ver aqui e ali) como de pernoitar na Quinta Nova Nossa Sr.ª do Carmo (ver aqui). Por nós tudo bem, prémios bem entregues.
Discussões à parte, os prémios dos vinhos foram consensuais e passearam nas mãos de gente ilustre e conhecida como Domingos Alves de Sousa, Luís Duarte, Peter e Charles Symimgton. Também as equipes por detrás dos projectos Altas Quintas, Real Companhia Velha e Coop. de Santo Isidro de Pegões foram - e bem! - premiadas. O prémio especial entregue a José Quitério foi um verdadeiro momento de emoção, pelo menos para mim que acompanho as suas crónicas faz mais de uma década. Em suma, muitos parabéns à RV pelo fulgor em organizar, uma vez mais, um evento no qual o melhor do universo dos vinhos nacionais se encontra representado.
Mas naquele jantar – belíssimo jantar, fantásticas entradas, sobretudo se pensarmos que se tratavam de mais de 800 convivas – surgiu então algo de inesperado. A normalidade habitual neste tipo de eventos foi interrompida! Como se imagina, a composição das mesas encontrava-se ditada pelos vencedores, pelos produtores mais emblemáticos, por algumas figuras da cidade do Porto e demais convidados solenes, e, evidente, pelos jornalistas e provadores da RV. Ou seja, tudo como mandam os cânones. Porém, eis que, quase no fim da sala, firme se equilibrou a mesa n.º 81 com nove bravos delegados da "imprensa mais independente do país" (a frase é de um conhecido produtor). Por isso, e talvez só por isso, a surpresa da noite não foi o prémio atribuído à Bacalhôa Vinhos como Empresa do Ano de vinhos generosos!
A surpresa da noite foi a presença de nove blogistas, tão independentes que se mostraram mesmo independentes entre si. Foi quase impossível o consenso naquela mesa. Tão independentes e pró-activos que criticaram in loco os vinhos premiados, e poucos são capazes de imaginar o mal dizer que sofreram alguns prémios de excelência... Os blogistas não tiveram descanso, foi sempre a trabalhar. Vinhos premiados, vinhos raros, vinhos de preço altíssimo, uns e outros foram - ali mesmo na mesa n.º 81 - criticados sem apelo nem agravo.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Quinta do Gradil (T) 2003


Não se sabe ao certo se o Marquês de Pombal chegou a ser mesmo o proprietário da Quinta do Gradil (na altura com outra denominação), mas o rumor perdura pelos suaves vales verdes da Estremadura. Perdidas na lindíssima zona do Cadaval - na qual é merecido o passeio, e aproveitem para almoçar no restaurante "O Lagar" -, ficam as vinhas de touriga nacional, alicante bouschet e syrah das quais resultam este vinho. A imagem gráfica da garrafa surge apelativa, e o néctar tem "arrancado" boas classificações um pouco por todos os anuários.
No copo a cor é muito bonita com um tom vermelho escuro curioso, é mesmo um pouco diferente do habitual: imaginem um morango muito maduro e estaremos lá perto. O nariz é intenso e provocador, mas está muito perto de tantos outros vinhos provados. Existe pouca novidade num "bouquet" vinioso, com notas de madeira nova e referências a geleia e compota.
Na boca é mais interessante, profundamente rústico, um paladar amargo de taninos marcados, balsâmico médio e uma fruta muito negra anti-doce. Final médio onde o carácter duro se mantém e realça. Uma meia hora depois surge fumo e algum couro. Sem dúvida um vinho marcante, de carácter robusto e bem feito. É um vinho que está a meio caminho entre a Estremadura de hoje e o seu futuro. Acompanhará bem queijos fortes e pratos puxavantes. A menos de 12 €.

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terça-feira, fevereiro 13, 2007

Os suspeitos do costume

Nem só vinhos portugueses nós vivemos. São também momentos de enorme prazer aqueles em que nos sentamos num bom restaurante em Espanha e nos deixamos levar pelos belos néctares do país vizinho. Parámos em Segóvia, jantámos cochinillo no Cândido e bebemos muito bem...
A primeira nota do jantar vai direita ao preço dos vinhos: nenhum vinho custava mais do que o 1/3 do seu preço em garrafeira! Se a restauração nacional fosse assim, talvez o país não tivesse excedente de vinho e talvez a restauração não fosse um sector onde se apregoa sempre a maldita crise.
A segunda nota foi a diversidade das regiões visitadas. Começamos em Rueda com o belíssimo Palacio del Bornos Barrica (B) 2001, um branco sumptuoso, de cor carregada, com um verdelho menos fresco do que o habitual na região mas de patine excelsa, um branco aristocrata. Depois os tintos e entre estes, alguns dos suspeitos do costume que encontramos quando visitamos Espanha. O muito saboroso San Roman (T) 2003 a mostrar a força e a cor dos vinhos de Toro, carregado de fruta, verniz e "after-eight". Mas também o sempre gastronómico e mui complexo Allion (T) 2001, um tinto feito para a mesa que revelou notas vegetais majestosas provando que Ribera del Duero não é só (ou não é sobretudo) novo-mundo. E claro, o poder de atracção do magnífico Clos Martinet (T) 2001, um Priorat de respeito, ainda jovem com notas fortes a madeira, uma fruta doce muito impudica e um final interminável.
Uma noite imperdível.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Próximos prazeres


Já não se pode aceitar que alguém diga que o vinho português não tem momentos de exposição onde pode ser livremente valorado e apreciado. Em Portugal os certames de vinho estão na moda e ainda bem. Cada vez mais bem organizados, cada vez com mais público (importa, contudo, saber se se trata de um verdadeiro movimento de massas ou apenas uma minoria em cada vez maior número), cada vez com mais expositores, enfim cada vez mais apelativos.
Nos próximos dias 16, 17 e 18 de Fevereiro é a vez da Essência do Vinho (ver programa no site oficial aqui) mostrar o seu valor com um programa ambicioso que promete muita actividade. O local é o do costume, no Palácio da Bolsa, cabendo ao mercado Ferreira Borges receber um verdadeira feira "gourmet". O preço dos bilhetes, como sucede noutros certames, é praticamente simbólico tendo em conta o que pode beber, aprender e conviver. Existirão convidados especiais, provas comentadas, jantares temáticos, descontos, etc. Não existem desculpas para não ir...
Na noite de 16 de Fevereiro, também no Porto, será feita a entrega dos prémios da Revista dos Vinhos, também conhecida pela noite dos "Óscares" no que toca à enofilia nacional. Uma noite sempre especial – já vai na décima edição, é obra! – que irá premiar os melhores néctares, produtores, enólogos e restaurantes, entre muitos outros.
Posto que vamos marcar presença em ambos os eventos, na nossa querida cidade do Porto – é que não existem mesmo razões para não ir... – procuraremos dar o "feedback" de tanta animação e convívio à volta do vinho. Estamos a viver talvez o momento mais activo no que toca a certames e feiras sobre vinho em Portugal. Por isso, toca a aproveitar, "penso eu de que" (cit.)!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Casa de Aguiar (T) 2004


Já não era a primeira vez que tamanha força nos passara pelo estreito. A anterior foi com a colheita de 2002 (ver aqui) e apreciámos tanto que tivemos que repetir, mas agora com as uvas de 2004. Como gostámos ainda mais deste, foi nossa escolha para representar as Beiras no texto "2006 em revista".

Muito vivo na cor carmim intensa. Vivo e vibrante também no copo, nariz algo reduzido, sensação a álcool e a percepção de uma acidez muito interessante. Forte concentração num corpo já perto de se tornar retinto. Apimentado, com notas vegetais, é um tinto forte, que merece um prato robusto a preceito. Final balsâmico de média-longa intensidade. Com um estilo menos rústico que o 2002, apresenta-se mais redondo, gordo... e eu agradeço.
De mim para mim, teremos de esperar um pouco para que a força descanse. A garrafa fará certamente o resto, guarde 1 ou 2 anos. Mais um belo tinto do universo das "
Caves Aliança"! Quando o bebi pensei num cozido das beiras sem couves, mas não o estava a comer. A menos de 10 €.

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sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Pedra Basta (T) 2005


Faz hoje uma exacta semana que provámos, em "estreia mundial", o mais recente fruto da colaboração entre Richard Mayson e Rui Reguinga (ver foto à direita). Ambos dispensam apresentações cabendo apenas referir que o primeiro, antigo crítico da revista "Decanter", é o novo proprietário da Quinta do Centro bem próximo de Portalegre e da Serra de São Mamede, e o segundo dá o respectivo apoio enológico. A prova decorreu em mais um jantar brilhantemente organizado pelas Coisas do Arco do Vinho no restaurante "A Commenda" em Belém.
Mas vamos ao vinho, o Pedra Basta (T) 2005: é um lote de trincadeira, aragonês, alicante bouschet e cabernet sauvignon que se apresenta correcto na cor, viva e saudável. Nariz jovem, com intensidade, mas é madeira que mais se sente "narinas a fora". O conjunto é doce com a fruta saborosa que não chega a ser sobremadura. Pareceu-nos novo, a precisar muito de garrafa pois a madeira (que é de boa qualidade) está para um lado, e o resto - por enquanto só fruta e um breve balsâmico... - está para o outro.
O final é consensual, do tipo novo mundo, mas não é um espanto. No fim ficámos satisfeitos ao saber que este será o vinho de entrada na gama de Richard Mayson que irá lançar mais dois vinhos. Para estreia e vinho de base está muito bem.
15,5