domingo, março 25, 2007

Dois tintos alentejanos em forma


Diz-se muito frequentemente que os tintos do Alentejo devem-se beber novos. Pegámos em dois exemplares que, não sendo propriamente antigos, já levam 4 e 6 anos desde a colheita, respectivamente. Não são, nem pretendem ser, os topos de gama das marcas respectivas, por isso maior era a expectativa na prova. Sem surpresas – agora digo eu – portaram-se ambos de forma muito positiva. Vejamos então.

  • Quatro Castas (T) 2002: Este tinto da Herdade do Esporão combina - como o próprio nome sugere - quatro castas e, faz já alguns anos, que se situa entre os monocasta do Esporão e os topos de gama "Private Selection", agora acompanhados do recém chegado Torre (T) 2004. Cor jovem, vermelho muito escura. Baunilha no nariz e fruta sedutora na boca (ameixas e morangos maduros). Não fosse aliás o devaneio da madeira, e estaria ainda melhor. Fizémos bem em servi-lo a uma temperatura de 16º. Final muito correcto. Está pronto a beber, e é muito saboroso. Admito que se possa guardar mais uns anos. Mas para quê? 16
  • Quinta da Terrugem (T) 2000: As portuguesas castas trincadeira e aragonês dão-nos aqui um vinho muito profundo e de perfil moderno (mas sem "modernices"). Todo ele está em bela forma (prefiro sempre os Terrugem com alguns anos, confesso). Nariz fechado mas em evolução. Corpo elegante, quase redondo. Na boca encontramos uma panóplia de sabores muito complexos e uma persistente presença de fruto de qualidade a transitar para algum balsâmico. Final médio+/longo. Está pronto a beber e irresistível para agradar. 16,5

terça-feira, março 20, 2007

Novidades de Celso Pereira


Só a imensa simpatia de Celso Pereira se atreve a superar as virtudes dos vinhos que ajuda a produzir. Por isso, a apresentação dos seus néctares mais recentes é sempre um momento de convívio e "bem beber". Este ano começámos pelos espumantes: o "cada-colheita-melhor" Vértice Reserva 2004 e o belíssimo Super Reserva (bruto zero) 2000. Após mais de uma década e meia a produzir belos espumantes, ninguém duvida da consistência desta marca das Caves Transmontanas. Depois, provou-se o Vértice (B) 2006 em amostra de casco, já que branco de 2005 não haverá para venda por não se ter conseguido a qualidade habitual.

Mas foi nos tintos que a coisa mais brilhou. A saber:

  • Vértice Grande Reserva (T) 2003: Cor vermelha escura muito bonita com ligeiro sinal de evolução. Corpo fino e elegante, dá a sensação imediata que é um vinho de perfil gastronómico. Fruto de qualidade, alguma menta e várias sensações a café (provenientes da madeira, segundo o enólogo) que se combinam num néctar com "pattine" e de final longo. Um mimo pronto a beber (preço aprox. 15€). 17
  • Quanta Terra Grande Reserva (T) 2004: Este projecto de João Alves e Celso Pereira continua a superar as expectativas ano após ano. Este 2004 é um caso muito sério: muito escuro na cor, nariz fresco e cintilante, fruta madura (mas longe da sobrematuração). É preciso esperar por ele, é preciso um copo a sério para o provar, mas nota-se uma capacidade de evoluir enorme. Pesado e cheio de corpo e juventude, é um tinto muito complexo que vai certamente dar que falar. Também pelo preço, a menos de 20€. 17,5

domingo, março 18, 2007

Churchill Estates 2004


Confesso que tinha algumas expectativas. Não pelos actuais "zuns-zuns" (nacionais e internacionais) em torno deste 2004, mas pela bela experiência que tive com o primeiro Churchill de mesa, o Churchill 1999. Era intenso, pujante, repleto de taninos agrestes, mas também era saboroso sem ter excesso de fruto maduro. Passou despercebido. Lembro-me de o provar ao jantar e, no dia seguinte, ter tido ainda mais prazer ao almoço com o que dele restou do dia anterior. Até o rótulo, singelo e discreto, era outro. Teria esse episódio decorrido numa época distante... (?) vendo bem, não foi assim há tanto tempo, passaram-se, talvez, menos de 5 anos. Por isso, uma advertência: este é um texto de algum amargo de boca.

Ora, na colheita de 2004, tudo está "politicamente correcto": tinto de cor quase opaca, com lágrima persistente, aroma transbordante a álcool, e um fruto vermelho maduro em compota que domina a prova de boca. Que saudades da força balsâmica do de 1999... Ao invés, o ora provado está mais calmo, muito mais amansado (pelo menos face o de 1999, pois tenho a certeza que alguns enófilos também encontrarão "potência" neste 2004), e revela um calor doce que certamente agradará a muita gente (a meio da janta penso que o deveria ter servido refrescado com a sobremesa). Enfim, parece querer juntar-se à lista - cada vez maior - dos tintos que retiram o "menos bom" da tinta roriz para se tornarem monótonos. Nem mesmo o álcool desmedido como dita a moda (14,5º) lhe dá frescura. Final médio+ com as mesmas características já abordadas.
Um tinto (bem) feito a pensar na grande quantidade de consumidores de tintos durienses. Agora percebo os "zuns-zuns"! Até o preço – a menos de 12€ - é acessível. Queremos dizer, é um bom preço para os seus apreciadores (que não faltarão).

14,5

sexta-feira, março 16, 2007

1 pato e 2 brunhedas


Estou a repetir-me se escrever que alguns dos pratos que mais rapidamente preparo para acompanhar vinhos têm como matéria prima o peito do pato (ou "magret", se preferirem a francesisse).

Coloco o lombo, com a pele virada para baixo, numa frigideira alta e grande e, numa primeira fritura, adiciono apenas temperos básicos (sal, pimenta, pouco mais). Depois, retiro o lombo do bicho, e é altura de desferir cortes como que a fatiar finamente, mas sem cortar totalmente em fatias. Passo então outra vez pela frigideira, agora com os outros ingredientes seguindo a imaginação. Dou prevalência a alguns produtos ácidos para cortar a gordura natural do pato (como fruta: laranja é um clássico) e/ou vinho do porto ("ruby" serve bem). Reforçar na pimenta também é essencial.

Para beber? Façam como nós que abrimos dois vinhos da casa duriense Brunheda. Um óptimo branco, à semelhança do que outros produtores vêm fazendo sobretudo do Douro, e um tinto da "velha guarda" com um toque feminino. Duas belas opções.

Vinha da Pala Reserva (B) 2004
Decantado e reintroduzido na garrafa, é mais um daqueles brancos que persegue os melhores da região. A partir de malvasia fina, códega do larinho e viosinho, e com 12 meses de carvalho francês está límpido na cor e fresco na boca. Falta-lhe algum fruto (de caroço, como gostamos), mas está redondo, com estrutura e peso adequado e acidez certeira. Fomos buscá-lo à garrafeira Veneza no Algarve. O preço rondava os 14€. 16,5

Brunheda Reserva (T) 2001
Que excelente cor rubi profunda e sem marca exposta de evolução. Nariz reduzido, com concentração e algum fruto de qualidade. Na boca está fresco, amplo, com acidez muito positiva. O fruto está menos presente, a evolução que não se nota na cor sente-se na boca. É um bom vinho, produzido a partir de castas tradicionais do Douro, ao qual parece faltar algum carácter mais robusto. Está elegante, talvez feminino... 12,5º de álcool é coisa rara nos dias de hoje. O preço não sabemos, pois saiu-nos em sorteio, faz anos, num dos belos jantares da garrafeira "Coisas do Arco do Vinho" em Lisboa. 16,5

quinta-feira, março 15, 2007

Prós e Contras: vinhos brancos nacionais



Muito curiosa a diferença de opiniões que ainda persiste na net sobre a qualidade dos vinhos brancos portugueses.

São os prós e contras...


PS: Basta ver os nossos últimos textos - somos definitivamente "pró".

quarta-feira, março 14, 2007

Francos (T) 2003

Produzido por José Neiva na sua quinta de Alenquer, este tinto está um furo acima da gama DFJ. O primeiro impacto é o da madeira, de excelente qualidade mas não totalmente integrada com a fruta. Esta aparece "de mansinho", pela calada... aroma a frutos maduros como manda a moda. Passada meia hora, a madeira perdura (quando parará?), enquanto que a fruta evolui para notas de canela, produtos lácteos, compota de morango e não faltam até as referências a frutos secos.
Um vinho de perfil moderno, guloso e com um final persistente. Mais um tinto da Estremadura - mais um tinto de Alenquer - de bom perfil. A menos de14 €.
16

domingo, março 11, 2007

Termeão "Pássaro Vermelho" (T) 2003


Perfume e diferença de estilo...
É assim este Termeão (T) 2003!

De um dos produtores mais dinâmicos do país – Manuel Campolargo, pois claro – vem este tinto cujas melhores qualidades, em nossa opinião, ficaram sintetizadas no primeiro período deste texto.
Perfume que não é uma novidade em vinhos da Bairrada, muito menos nos tintos de Campolargo, um produtor que parece sempre privilegiar a elegância em detrimento da força bruta. Aroma estreito, mas franco, tudo muito delicado, de tal modo suave que a touriga (em clara maioria) proporciona aqui um bouquet muito pouco usual para a casta. Digamos que mais... feminino.
Diferença de estilo que também é uma chancela do produtor bairradio que nos habituou aos mais diversos devaneios vinícolas, sempre de qualidade. Pois bem, não está opaco na cor, mas esta é belíssima. O corpo não é super concentrado, mas tem estrutura "para dar e vender". O final não é prolongadíssimo, mas é irresistível. Os taninos não são demolidores, mas está para durar.
Em suma, um belo tinto, a um preço não exagerado tendo em consideração a reduzida produção. Este é o "pássaro vermelho" (ver no rótulo), mas existe também o "pássaro branco" mais acessível. A menos de 18€.

16,5

quarta-feira, março 07, 2007

Monte da Ravasqueira (B) 2006


Aqui está outra surpresa no universo cada vez mais aliciante dos vinhos brancos nacionais abaixo dos 10€. Depois do nosso espanto no Douro (ver aqui), é a vez do Alentejo fazer chegar-nos este Monte da Ravasqueira (B) 2006 que tem tudo para ser um sucesso.

Aliadas a um corpo sólido, redondo até (bem sei que falamos de um branco...) - características provenientes do antão vaz - encontram-se surpreendentes sugestões de frescura inovidável, estas resultantes de uvas tão pouco comuns nas terras quentes do sul de Portugal como a alvarinho, viogner e semillon.

Mais algumas castas (este é um lote de seis castas) e temos este curiosíssimo vinho o qual, em rigor, é muito diferente de tudo o que temos provado em matéria de brancos altentejanos. Doçura graciosa na entrada de boca, bom corpo, leve mineral. Final médio+ com acidez ajustada, enfim tudo muito equilibrado e onde as sensações doces na boca não se mostram nada enjoativas. Por isso, é quase impossível não gostar deste branco. Um brancos que sobressai entre os seus pares alentejanos. Pela diferença de estilo, pela estreia, e mesmo pelo preço pedido, venham mais destas curiosidades...
Entre 5 € a 7,5 €, a ser comercializado em breve.

16

domingo, março 04, 2007

Amália Garcia (T) 2006


Às vezes deparamo-nos com vinhos assim... Diferentes, absolutamente impressionantes, vinhos para os quais os nossos sentidos não estão sequer preparados. É o caso deste Amália Garcia (T) 2006, provado em amostra de casco numa apresentação no restaurante e garrafeira "O Ganhão".

É um alicante bouschet 100%, sem qualquer estágio em madeira e com uns brutais 17,5º de graduação! O que dizer? Que é um monstro... no copo revela-se opaco, quase preto com auréola violácea e azul. Agita-se a mão, roda-se o copo, e um bloco compacto mexe-se de forma lenta e precisa - é incrível a estrutura deste vinho! O nariz está um pouco fechado, com fruta muito madura é certo, mas ainda tímido, com o "mundo a seus pés". A boca está viva, o álcool dá-lhe estrutura e muita frescura. Como é de esperar, por enquanto não existem aromas nem sabores secundários, é tudo um alicante muito maduro, daqueles que só o Alentejo pode proporcionar. Fruta, café moído, um pouco de menta e um enorme mar de paladares balsâmicos intensos com verniz e cera. Final pungente e longo.
É um tinto muito interessante, com a curiosidade da ausência de madeira, é um vinho com uma personalidade que não lhe advém apenas do elevado grau de álcool. O produtor Francisco Garcia (o vinho é uma homenagem à sr.ª sua mãe) vai engarrafar o vinho no próximo dia 15 de Março de 2007. Serão poucos milhares de garrafas a um preço esperado de cerca de 50 € cada. Agarre-o se puder!

17,5

sexta-feira, março 02, 2007

Espumantes: apenas pontuações





  • Porta da Traição s/ ano (s/ indicação de castas) 14

  • Vértice Reserva 2004 (s/ indicação de castas) 15,5

  • Muros Antigos 2004 (alvarelhão / alvarinho) 15,5

  • Borga 2004 (pinot noir / chardonnay) 16

  • Murganheira vintage 2002 (pinot noir) 17

PS: Bem sei que são apenas pontuações, e que foto é uma rolha de "Mumm", mas esta é a nossa maneira de desejar um óptimo fim-de-semana.

quinta-feira, março 01, 2007

Gambozinos Reserva (T) 2004


Mais um tinto duriense proveniente de um pequeno produtor à procura de um lugar ao sol. Mais um tinto bem feito, sem defeitos, apetecível até.

O Douro está com uma nova dinâmica. Juntamente com os "Douro Boys" tem surgido, mais recentemente, uma autêntica "nouveaux vague" com vinhos de gama "premium" muito interessantes. É como se existisse um Douro a duas velocidades, sendo que uma vaga pode muito bem aproveitar as sinergias criadas pela outra (e, naturalmente, o inverso), pelo que estamos perante uma tendência que nos parece muito positiva.

Pois bem, este Gambozinos Reserva – de pouco consensual talvez só tenha o nome comercial escolhido – tem uma bela cor, vermelha muito escura, e no copo mostra-se pesado e de álcool evidente. No nariz predomina a touriga (como vem sendo cada vez mais habitual) e os seus aromas florais, aqui um pouco rústicos e mais duros do que seria desejável. Na boca o vinho é bem curioso, se bem que parece hesitar entre um estilo rústico (que predomina) com algumas notas gulosas a fruta confitada e chocolate que o final acentua.
Em conclusão: temos vinho, e para beber nos próximos 5 anos. A menos de 12 €.

16
PS - Vejo que o Paulo anda a beber o mesmo que nós, aqui.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Calços do Tanha Reserva (T) 2004


Mais uma colheita de Calços do Tanha Reserva, e mais um bom vinho repleto de fruta madura. O estilo dos vinhos de Manuel Pinto Hespanhol são marcados pela fruta, mas não tendem a ser agressivamente doces, bem pelo contrário. Por outro lado, a ausência da touriga nacional no lote deste Reserva (apenas existe em versão monocasta, bem boa por sinal) torna este tinto um dos poucos durienses de qualidade sem recurso à "casta rainha portuguesa".
Não por isso, mas por muito mais (incluindo o preço estável faz anos), os vinhos do referido produtor têm vindo a fazer parte das nossas preferências (ver aqui, ali e ainda ali).

No copo é marcado por uma cor cereja escura no centro, e vermelha claro na auréola - aqui não existem opacidades! Nariz marcado pela fruta vermelha, muito mirtilho e framboesa. É um daqueles tintos que "vai directo ao assunto", muito personalizado, pelo que se torna um vinho sedutor e aprazível. Com o passar dos minutos no copo algumas notas de fruta preta destacam-se e o final, de média intensidade, traz consigo uma complexidade curiosa oriundo de um leve balsâmico e notas achocolatadas.

Em suma, tem tudo aquilo por que se espera de um Calços do Tanha Reserva. Ainda bem!
A menos de 14€.

16,5

domingo, fevereiro 25, 2007

Quinta dos Avidagos (B) 2005


Por esta é que não esperávamos...

Sabíamos que os tintos da casa Nunes de Matos eram valorosos – ver aqui – mas não esperávamos tanta qualidade neste Quinta dos Avidagos (B) 2005. Tanto mais que o preço anda pelos simpáticos 5 €, ou seja muito abaixo do que se cobra actualmente por um branco sério.

Pois bem este Avidagos branco é uma pequena maravilha, resultado de um lote de malvasia fina, gouveio real e vital. É-o logo no nariz, fresco, com notas pujantes a ananás e maracujá. Depois, uma boca leve, elegante e de textura ligeira ajuda as notas levemente citrinas a chegarem a "bom porto". Belo final, vivo, persistente mas não impositivo ou untuoso. Um branco no qual se pode confiar com a subida da temperatura no copo pois mantém-se deleitoso e de acidez graciosamente teimosa.

Talvez o melhor branco do Douro a menos de 10 €, neste caso bastante abaixo desse preço. É caso para abastecer a garrafeira!

16,5

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Terrenus Reserva (T) 2004


Este é já um dos nossos tintos predilectos resultantes da colheita de 2004.
É mesmo caso para dizer que podia muito bem ser um dos melhores do ano - e é mesmo para a RV, vejo agora na edição de Fevereiro.

Carácter vinioso, tudo muito intenso mas não demasiado marcante ou carregado. Toda uma consistência só possível quando se tratam de vinhas muito velhas. É um tinto seco, que começa fechado no nariz, talvez mesmo austero, mas depois revela-se um autêntico "poço sem fundo". É uma estrada sem fim no que toca a aromas, mas também na boca. Saboroso, é um tinto absolutamente sem qualquer traço de monotonia, um daqueles vinhos que até pode passar despercebido senão lhe dermos a atenção merecida.

Madeira delicada, sem excesso, final longo, e fruta sem maçar: que combinação de luxo! Faz tempo que o "terroir" da serra S. Mamede não nos oferecia um vinho assim. Parabéns ao enólogo/produtor Rui Reguinga.

A menos de 27 €, com direito a entrada directa para os nossos favoritos.

18

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Essencialmente...

Eram muitos os vinhos que me esperavam na Essência do Vinho. Estavam anunciados cerca de 2000, mas como o devaneio vai passando com a idade, apressei-me a provar alguns brancos no Sábado e menos tintos ainda no Domingo. Uma imperiosa pré-selecção impõe-se nestes eventos.
Entre os brancos que fiz questão de provar, gostei muito do Quinta da Sequeira (B) 2006 (vai dar que falar...), dos sempre inesperados Dona Berta Rabigato (B) 2005 e Escolha Pessoal Alves de Sousa (B) 2003, e do internacional e deveras perfumado Valle Pradinhos (B) 2005. Curiosamente, muitos dos brancos que mais destaque têm merecido junto da imprensa escrita mostraram-se, na minha boca, um pouco pesados e, em alguns casos, excessivamente madeirosos (num deles, por sinal um dos brancos mais cotados do mercado, cheguei a sentir notas intensas a café).
Nos tintos, o meu gosto virou-se à descoberta de novidades ou de néctares que ainda não tinha provado: Dona Maria Reserva (T) 2004 (infelizmente mais consensual e "fácil" que o maravilhoso 2003), Herdade do Meio Garrafeira (T) 2003 (vinho cheio e gordo, muito bom), Além Tanha VV (T) 2004 (grande salto de qualidade face os anteriores), Quinta da Sequeira Reserva (T) 2003 (o mesmo estilo rústico e directo da casa, mas com fruta mais acessível).
Perguntam-me: e o que dizer dos VT 04 (T), Secret Spot (T) 2004, JM (T) 2004, Talentus (T) 2004? O que dizer desses tintos durienses? Provei-os efectivamente (alguns já os tinha provado), e são realmente bons. Porém, salvo uma ou outra excepção, mostraram um perfil muito semelhante entre eles. Esta é aliás uma característica que começei a detectar nos grande vinhos do Douro e sobre a qual espero escrever mais no futuro. Talvez seja por fugirem a esse registo que alguns vinhos distintos - como o Abandonado (T) 2004 (muito exótico) e o Poeira (T) 2004 (intenso mas com muita frescura) - têm tido merecido maior sucesso. A ausência de contraste levou-me, por vezes quando necessitava de algo diferente, a seguir para o stand da "FineWines" e beber algo diferente... um Quinta Sardónia (T) 2004, por exemplo.
Destaque inevitável para algumas provas comentadas, sobretudo a de vinhos doces, ministrada por Rui Falcão, absolutamente inesquecível entre moscatéis de montanha, "icewines" e "tokais".
É verdade que a quantidade enorme de público torna o evento cansativo, mas esse parece ser o preço da conquista do público do Porto. A Essência do Vinho está consolidada como um dos maiores eventos vinícolas de Portugal.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Os melhores do ano - RV


Cabe aos leitores perdoar, ou não, o perscrutador autor destas linhas por não ter escrito mais cedo o que verdadeiramente se passou - não se pode confiar nas versões oficiais (LOL) - na passada sexta-feira, dia 16. O rigor de um fim de semana de copo na mão, mais uns dias a diambular por travessas de lampreia no Mondego, obrigou o autor a descanso e algum afastamento.
Tudo tomou lugar no belíssimo edifício da Alfândega no Porto para a atribuição dos prémios "Os melhores do ano - Revista dos Vinhos". Como sempre sucede nas cerimónias desta índole, foi prémios para aqui, prémios para ali, intervenções aqui e agradecimentos acolá. A melhor demonstração do impacto dos prémios da RV surge nos dias seguintes à cerimónia. No Sábado já se discutia se A Veneza foi merecedora do prémio de Garrafeira do Ano ("aquilo é um restaurante e não uma garrafeira" - ouviu-se em cada esquina). Dois dias depois ainda se duvidava que o prémio de enoturismo assentava bem à Quinta Nova Nossa Sr.ª do Carmo ("a piscina está sempre suja" - foi um comentário comum). Quanto a nós, como é sabido, gostamos de tanto de comer n' A Veneza (ver aqui e ali) como de pernoitar na Quinta Nova Nossa Sr.ª do Carmo (ver aqui). Por nós tudo bem, prémios bem entregues.
Discussões à parte, os prémios dos vinhos foram consensuais e passearam nas mãos de gente ilustre e conhecida como Domingos Alves de Sousa, Luís Duarte, Peter e Charles Symimgton. Também as equipes por detrás dos projectos Altas Quintas, Real Companhia Velha e Coop. de Santo Isidro de Pegões foram - e bem! - premiadas. O prémio especial entregue a José Quitério foi um verdadeiro momento de emoção, pelo menos para mim que acompanho as suas crónicas faz mais de uma década. Em suma, muitos parabéns à RV pelo fulgor em organizar, uma vez mais, um evento no qual o melhor do universo dos vinhos nacionais se encontra representado.
Mas naquele jantar – belíssimo jantar, fantásticas entradas, sobretudo se pensarmos que se tratavam de mais de 800 convivas – surgiu então algo de inesperado. A normalidade habitual neste tipo de eventos foi interrompida! Como se imagina, a composição das mesas encontrava-se ditada pelos vencedores, pelos produtores mais emblemáticos, por algumas figuras da cidade do Porto e demais convidados solenes, e, evidente, pelos jornalistas e provadores da RV. Ou seja, tudo como mandam os cânones. Porém, eis que, quase no fim da sala, firme se equilibrou a mesa n.º 81 com nove bravos delegados da "imprensa mais independente do país" (a frase é de um conhecido produtor). Por isso, e talvez só por isso, a surpresa da noite não foi o prémio atribuído à Bacalhôa Vinhos como Empresa do Ano de vinhos generosos!
A surpresa da noite foi a presença de nove blogistas, tão independentes que se mostraram mesmo independentes entre si. Foi quase impossível o consenso naquela mesa. Tão independentes e pró-activos que criticaram in loco os vinhos premiados, e poucos são capazes de imaginar o mal dizer que sofreram alguns prémios de excelência... Os blogistas não tiveram descanso, foi sempre a trabalhar. Vinhos premiados, vinhos raros, vinhos de preço altíssimo, uns e outros foram - ali mesmo na mesa n.º 81 - criticados sem apelo nem agravo.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Quinta do Gradil (T) 2003


Não se sabe ao certo se o Marquês de Pombal chegou a ser mesmo o proprietário da Quinta do Gradil (na altura com outra denominação), mas o rumor perdura pelos suaves vales verdes da Estremadura. Perdidas na lindíssima zona do Cadaval - na qual é merecido o passeio, e aproveitem para almoçar no restaurante "O Lagar" -, ficam as vinhas de touriga nacional, alicante bouschet e syrah das quais resultam este vinho. A imagem gráfica da garrafa surge apelativa, e o néctar tem "arrancado" boas classificações um pouco por todos os anuários.
No copo a cor é muito bonita com um tom vermelho escuro curioso, é mesmo um pouco diferente do habitual: imaginem um morango muito maduro e estaremos lá perto. O nariz é intenso e provocador, mas está muito perto de tantos outros vinhos provados. Existe pouca novidade num "bouquet" vinioso, com notas de madeira nova e referências a geleia e compota.
Na boca é mais interessante, profundamente rústico, um paladar amargo de taninos marcados, balsâmico médio e uma fruta muito negra anti-doce. Final médio onde o carácter duro se mantém e realça. Uma meia hora depois surge fumo e algum couro. Sem dúvida um vinho marcante, de carácter robusto e bem feito. É um vinho que está a meio caminho entre a Estremadura de hoje e o seu futuro. Acompanhará bem queijos fortes e pratos puxavantes. A menos de 12 €.

16

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Os suspeitos do costume

Nem só vinhos portugueses nós vivemos. São também momentos de enorme prazer aqueles em que nos sentamos num bom restaurante em Espanha e nos deixamos levar pelos belos néctares do país vizinho. Parámos em Segóvia, jantámos cochinillo no Cândido e bebemos muito bem...
A primeira nota do jantar vai direita ao preço dos vinhos: nenhum vinho custava mais do que o 1/3 do seu preço em garrafeira! Se a restauração nacional fosse assim, talvez o país não tivesse excedente de vinho e talvez a restauração não fosse um sector onde se apregoa sempre a maldita crise.
A segunda nota foi a diversidade das regiões visitadas. Começamos em Rueda com o belíssimo Palacio del Bornos Barrica (B) 2001, um branco sumptuoso, de cor carregada, com um verdelho menos fresco do que o habitual na região mas de patine excelsa, um branco aristocrata. Depois os tintos e entre estes, alguns dos suspeitos do costume que encontramos quando visitamos Espanha. O muito saboroso San Roman (T) 2003 a mostrar a força e a cor dos vinhos de Toro, carregado de fruta, verniz e "after-eight". Mas também o sempre gastronómico e mui complexo Allion (T) 2001, um tinto feito para a mesa que revelou notas vegetais majestosas provando que Ribera del Duero não é só (ou não é sobretudo) novo-mundo. E claro, o poder de atracção do magnífico Clos Martinet (T) 2001, um Priorat de respeito, ainda jovem com notas fortes a madeira, uma fruta doce muito impudica e um final interminável.
Uma noite imperdível.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Próximos prazeres


Já não se pode aceitar que alguém diga que o vinho português não tem momentos de exposição onde pode ser livremente valorado e apreciado. Em Portugal os certames de vinho estão na moda e ainda bem. Cada vez mais bem organizados, cada vez com mais público (importa, contudo, saber se se trata de um verdadeiro movimento de massas ou apenas uma minoria em cada vez maior número), cada vez com mais expositores, enfim cada vez mais apelativos.
Nos próximos dias 16, 17 e 18 de Fevereiro é a vez da Essência do Vinho (ver programa no site oficial aqui) mostrar o seu valor com um programa ambicioso que promete muita actividade. O local é o do costume, no Palácio da Bolsa, cabendo ao mercado Ferreira Borges receber um verdadeira feira "gourmet". O preço dos bilhetes, como sucede noutros certames, é praticamente simbólico tendo em conta o que pode beber, aprender e conviver. Existirão convidados especiais, provas comentadas, jantares temáticos, descontos, etc. Não existem desculpas para não ir...
Na noite de 16 de Fevereiro, também no Porto, será feita a entrega dos prémios da Revista dos Vinhos, também conhecida pela noite dos "Óscares" no que toca à enofilia nacional. Uma noite sempre especial – já vai na décima edição, é obra! – que irá premiar os melhores néctares, produtores, enólogos e restaurantes, entre muitos outros.
Posto que vamos marcar presença em ambos os eventos, na nossa querida cidade do Porto – é que não existem mesmo razões para não ir... – procuraremos dar o "feedback" de tanta animação e convívio à volta do vinho. Estamos a viver talvez o momento mais activo no que toca a certames e feiras sobre vinho em Portugal. Por isso, toca a aproveitar, "penso eu de que" (cit.)!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Casa de Aguiar (T) 2004


Já não era a primeira vez que tamanha força nos passara pelo estreito. A anterior foi com a colheita de 2002 (ver aqui) e apreciámos tanto que tivemos que repetir, mas agora com as uvas de 2004. Como gostámos ainda mais deste, foi nossa escolha para representar as Beiras no texto "2006 em revista".

Muito vivo na cor carmim intensa. Vivo e vibrante também no copo, nariz algo reduzido, sensação a álcool e a percepção de uma acidez muito interessante. Forte concentração num corpo já perto de se tornar retinto. Apimentado, com notas vegetais, é um tinto forte, que merece um prato robusto a preceito. Final balsâmico de média-longa intensidade. Com um estilo menos rústico que o 2002, apresenta-se mais redondo, gordo... e eu agradeço.
De mim para mim, teremos de esperar um pouco para que a força descanse. A garrafa fará certamente o resto, guarde 1 ou 2 anos. Mais um belo tinto do universo das "
Caves Aliança"! Quando o bebi pensei num cozido das beiras sem couves, mas não o estava a comer. A menos de 10 €.

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sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Pedra Basta (T) 2005


Faz hoje uma exacta semana que provámos, em "estreia mundial", o mais recente fruto da colaboração entre Richard Mayson e Rui Reguinga (ver foto à direita). Ambos dispensam apresentações cabendo apenas referir que o primeiro, antigo crítico da revista "Decanter", é o novo proprietário da Quinta do Centro bem próximo de Portalegre e da Serra de São Mamede, e o segundo dá o respectivo apoio enológico. A prova decorreu em mais um jantar brilhantemente organizado pelas Coisas do Arco do Vinho no restaurante "A Commenda" em Belém.
Mas vamos ao vinho, o Pedra Basta (T) 2005: é um lote de trincadeira, aragonês, alicante bouschet e cabernet sauvignon que se apresenta correcto na cor, viva e saudável. Nariz jovem, com intensidade, mas é madeira que mais se sente "narinas a fora". O conjunto é doce com a fruta saborosa que não chega a ser sobremadura. Pareceu-nos novo, a precisar muito de garrafa pois a madeira (que é de boa qualidade) está para um lado, e o resto - por enquanto só fruta e um breve balsâmico... - está para o outro.
O final é consensual, do tipo novo mundo, mas não é um espanto. No fim ficámos satisfeitos ao saber que este será o vinho de entrada na gama de Richard Mayson que irá lançar mais dois vinhos. Para estreia e vinho de base está muito bem.
15,5

terça-feira, janeiro 30, 2007

Vinhos da Quinta da Atela



Uma das regiões que cedo arrancou com projectos com "pés e cabeça" foi o Ribatejo. É difícil saber o futuro da região, mas, em rigor, é difícil saber qual o futuro de várias regiões portuguesas - o que fazer com tanta vinha e com tanto vinho?. Às portas de Lisboa, o Ribatejo tem vindo a aproveitar a grande quantidade de vinha que dispõe para elaborar vinhos com preços comedidos e qualidade certeira. Acresce que a aposta de muitos produtores em tintos de carácter moderno e internacional deu um empurrão adicional para colocar a região no mapa. E bem o merece!
Ora, situada neste mesmo Ribatejo, mais concretamente no Concelho de Alpiarça, ficam os 600 hectares da
Quinta da Atela, com regadio, montado e vinha. Pertencente à mesma família há várias gerações, foi contudo nos anos noventa que teve lugar uma importante reestruturação da vinha, e, já em 2003, uma profunda reestruturação na adega.
A gama dos vinhos é variada, mas os mais interessantes carregam o nome da casa. Destes provámos 3, um surpreendente sauvignon e dois tintos.
  • Quinta da Atela Sauvignon (B) 2005: Que surpresa! Um nariz fantástico, mineral e muito herbáceo. Na boca é suave, notas a toranja que transmitem uma sensação amarga típica da casta. Bom corpo mas nada pesado ou chato. Elegante e muito afinado é um dos melhores brancos das terras ribatejanas que já provei. A menos de 5 € é um excelente preço. 16
  • Quinta da Atela Merlot (T) 2004: No copo mostra-se com ligeira concentração, cor cereja suave. O nariz está noviço e com força, transborda framboesa, compota de morangos e álcool no "retronassal". Linear na boca, ataque dócil, mantém-se a percepção da casta francesa com frutos vermelhos exuberantes e... novamente o álcool. Final de média intensidade, taninos no sítio, mas a dar boa prova para já. O carácter didáctico (merlot bem marcado), e facto de estar pronto a beber (álcool à parte) são o melhor a retirar deste vinho. A menos de 7 €. 15
  • Quinta da Atela (T) 2004: Por ser de um lote no qual entra um bom punhado de castas está bem melhor e menos linear que o extreme merlot. Aroma franco, acidez elegante, fresco e frutado. Sentem-se o syrah e o merlot na boca com muita fruta, enquanto o nariz mantém-se apimentado pelo cabernet. Suave, redondo, bom final (médio/longo), poderá beneficiar com mais 1 ano de garrafa. Um tinto muito interessante e mais complexo do que é costume no Ribatejo. A menos de 12 € não é propriamente caro.16

quinta-feira, janeiro 25, 2007

AALTO (T) 2001


Este é um daqueles vinhos recentes mas já com alguma história. Estórias, melhor dizendo e quase todas em torno dos seus fundadores carismáticos Mariano García (Bodegas Mauro, ex-Vega Sicilia) e Javier Zaccagnini (presidente durante anos do "Consejo Regulador de Ribera del Duero"). A bodega foi fundada em plena Ribera em 1998 e, desde a primeira colheita, tem coleccionado 90 e mais pontos atribuídos pelo Sr. Robert Parker. Com este início, está bem de ver, é só sucessos, contanto agora com um topo de gama ainda mais impressionante: o "Aalto PS (T)".
Sucede que não é por estas exéquias que a minha garrafa é (era!) especial. Lembro-me sim de ter parado o jipe, faz quase dois anos, fazer depois uma perigosa inversão de marcha e ter voltado para a direcção de Peñafiel. Na primeira tienda de "vinos y quesos" que encontrei comprei-a por um preço que hoje parecerá ridículo. Que viagem!
Mas, vamos ao nosso AALTO (T) 2001, o qual impressiona logo na cor, lindíssima num rubi muito escuro sem qualquer sinal aparente de evolução e escondendo os mais de 20 meses (é verdade!) de estágio em barrica. O nariz começa com muita fruta no primeiro impacto - é impossível não recordar o cheio característico do tempranillo espalhado pelas bodegas de Pesquera. Depois, pouco depois, evolui para um conjunto extraordinário de aromas minerais, fumo e um fundo vegetal e terra molhada. Na boca, frutos negros e tabaco voltam a repartir o jogo das sensações, algum final de boca animal que não chega a desagradar e taninos ainda totalmente firmes. Este está daqueles tintos "que dura e dura...". Final médio/longo que peca por não ser saboroso. No geral, um pouco mais guloso e seria perto da perfeição.


17,5

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Carmim Aragonês (T) 2004


Cor rubi escura, aureola clareada e muitos indícios de falta de concentração. Nariz com referências obvias à casta mas tudo muito limitado. Na boca está muito fraco, fruta monótona, sem qualquer intensidade e alguma madeira queimada enjoativa. Corpo inexpressivo e um final... mas qual final?
Um vinho que faz lembrar algumas "coisas" que já não provava faz tempo. Com este vinho a Adega Cooperativa de Monsaraz recua anos em termos de qualidade ("não havia necessidade"). Uma vila tão bonita merece melhor vinho! Vale o carácter aromático no início de prova para o salvar de uma nota mais próxima da negativa.
A menos de 5 €, mas não se recomenda a compra.

13
PS - A foto foi pedida de empréstimo ao Pedro, ao qual agradecemos.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Quinta do Além Tanha (T) 2001

É caso para dizer: a importância do estágio em garrafa!
É assente que o estágio em garrafa assume, à semelhança do estágio em barrica, uma importância fulcral no resultado final de um vinho. A tendência recente de colocação dos vinhos no mercado após um ano (nos brancos) ou dois (nos tintos) da colheita faz com que alguns néctares sejam consumidos demasiado novos. Pode dizer-se: "compra novo e bebe passados uns anos". Mas, como bem sabemos, isso não é fácil: se um vinho sai para o mercado em 2006 é muito provável que o enófilo curioso já o tenha provado antes de 2007. E nem toda a gente pode ter o luxo de comprar caixas de vinhos para observar a sua evolução.
Mas como dizia, já lá vão 5 anos desde a colheita de 2001. Elaborado pela "Quinta dos Avidagos" a partir de vinhas velhas (indicação que passa a constar do rótulo a partir da colheita de 2003), provámos pela primeira vez este Quinta do Além Tanha (T) 2001 em Novembro de 2005, faz já quase 15 meses (ver aqui). Então, pareceu-nos já guloso, mas um pouco duro com algumas notas verdes e minerais não totalmente enquadradas no perfil do vinho. É verdade que tinha tudo para ser um vinho deveras aprazível - foi sempre uma recomendação nossa - mas faltava-lhe algo... o "bouquet" parecia reduzido, e os frutos negros que surgiam na boca tapavam demasiado a madeira.
Sucede que, passados os tais 15 meses no silêncio da cave, muito mudou! O vinho mantém-se jovem na cor num bonito tom vermelho escuro, e jovem continua também o nariz. Mas agora está absolutamente perfumado com compota doce de amora e um final especiado que lhe atribui um toque exótico e oriental. Na boca está ainda mais guloso do que na prova anterior - frutos negros em camada, chocolate de leite - num final médio/longo marcado pela baunilha da barrica. Onde antes havia dureza e alguma secura, encontramos hoje delicadeza e diplomacia. Muito redondo, falta-lhe pouco para atingir o seu melhor, mas está ainda em crescendo. Menos linearidade na boca e seria certamente um "tomba-gigantes" do Douro. Um vinho belíssimo, em suma. Mais um pela mão do enólogo Rui Cunha. Beba-o nos próximos 2 anos.
Passados 15 meses da prova anterior, 5 anos da colheita e 4 anos do engarrafamento... a importância do estágio em garrafa!
17

Garrafeira Diogos (Funchal)


É sabido que a Madeira é a pérola do Atlântico. O que eu não sabia é que quase a meio do Atlântico existia uma pérola para o enófilo. É verdade, bem no centro do Funchal, na elegante Avenida Arriaga, fica a garrafeira Diogos. Naturalmente, a selecção de vinhos da Madeira é vasta (muito superior ao que se encontra no continente), mas o que mais agrada é a criteriosa selecção dos vinhos DOC e de mesa nacionais, com destaque inevitável para as regiões do Douro e Alentejo. Interessante – e até certo ponto surpreendente pois a insularidade tende a onerar os mais diversos produtos – é o preço simpático de várias propostas vinícolas. Em alguns casos, o preço é verdadeiramente fantástico se pensarmos que estamos numa garrafeira repleta de requinte com atendimento personalizado. Querem 2 exemplos? Meandro do Vale Meão (T) 2004 a 8 € e La Rosa Reserve (T) 2004 a 21 €. Existe ainda a possibilidade de provar vários licores e alguns Madeira 10 anos (Boal/ Verdelho), bem como participar em eventos como encontros com produtores. A simpatia de quem nos atende (o Sr. Américo e o Sr. Leandro no meu caso) é outro plus. Não admira que enófilos despontem na ilha, como o Rui Sousa.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Apegadas Quinta Velha Res. (T) 2004


Há apenas 5 anos atrás era quase impossível encontrar um vinho como este no Douro. Sem tradição familiar, sem um grupo económico de suporte, apenas o incansável desejo e "carinho muito especial" pela região (fazem questão de o dizer) dos dois sócios. A Quinta das Apegadas é assim mais um recente projecto fruto da paixão de querer fazer vinhos. Hoje em dia começa a ser comum esta aposta no cometimento de produzir vinho, de viver afastado da cidade, de ajudar a natureza a recuperar tempo perdido. Foi isso que decidiram fazer Cândida e António Amorim adquirindo, em momentos diferentes, duas quintas, a Quinta das Apegadas no concelho de Mesão Frio (Baixo Corgo) e a Quinta Velha, uma propriedade centenária, situada na margem direita do Douro Cima Corgo. É desta última Quinta que sai o tinto ora provado. Cor jovial, generoso de tintura em tons cereja muito vermelha. Nariz arrepiante, uma capa de álcool sobrepõem-se imediatamente a uma madeira discreta mas gulosa. Na boca é compacto, arredondado por uma barrica que ajuda a harmonizar um conjunto forte e complexo. Tudo no sítio, muito agradável, acidez média. Final médio/longo com notas a compota e café. Um belo vinho! E uma grande estreia! A menos de € 20.

16,5

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Revisitação:


  • Damasceno (T) 2003: Quando o provámos faz mais de ano e meio (ver aqui) gostámos do que bebemos apesar de excessivamente doce, carregado, estruturado pelo álcool (14,5%). Por tudo isso, ficámos com dúvidas sobre a saúde que teria neste início de 2007. Pois bem, continua vivo de açúcares - pelo que me atrevo a sugerir servir a uma temperatura entre 15º a 16º - e a boca cheia a fruta madura. Estará porventura mais equilibrado, mas mantém-se muito centrado na fruta e de final apimentado, com uma sensação a "pico" que, por vezes, o castelão teima em largar na língua. Para beber já, e a acompanhar uma mousse de chocolate apesar de não se tratar de vinho generoso. Provem a edição de 2005, mais harmoniosa com 13,5% álcool e sem castelão a entrar no lote. A menos de € 9. 14,5

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Quinta da Padrela


A Quinta da Padrela situa-se no Concelho de Tabuaço, Cima Corgo portanto. Em termos de longitude está, de forma pouco precisa, no enfiamento de Ferrão, mas na margem oposta e mais a sul. Com 12 hectares, vinhas dos 20 ao 70 anos, todas em solo xistoso e a 400 metros de altitude, está bom de ver que os seus néctares transpiram os aromas do Douro. Com um cariz familiar, lançou-se no sonho de comercializar a "bebida mais civilizada do mundo" (disse-o Hemingway) e tem dois vinhos a postos cuja exportação tem sido um êxito. O primeiro foi provado 2 vezes – com um intervalo de mais de seis meses – e as notas que se seguem são as da segunda prova realizada já no início deste mês de Janeiro. Trata-se de um projecto promissor que parece assentar num perfil claramente duriense e que, neste momento de voragem de marcas, merece o nosso destaque pela genuinidade dos seus vinhos. Original é a escolha das garrafas, de vidro fino e dimensão reduzida (mas mantendo 75cl de capacidade), muito práticas e leves de transportar. Vejamos então:

  • Quinta da Padrela (T) 2004: Cor viniosa de tons cereja. Nariz intenso, algum álcool e uma combinação curiosa entre estilo marcadamente vegetal (duro) e notas de fruta preta amarga. Na boca temos harmonia sem laivos de madeira por perto com taninos agrestes a pedir tempo de garrafa. Com o trago mantém-se vigoroso o seu lado vegetal com notas a espargos e aneto. Tudo muito vivo, fresco mas também curto, com um final pouco persistente. Está menos acabado que o irmão reserva e, por isso, um ano de garrafa (pelo menos) só lhe fará bem para diminuir a adstringência e irreverência da juventude. A menos de 8 €. 15
  • Quinta da Padrela Reserva (T) 2004: Rubi muito negro, com auréola escura e alguma espuma. Nariz novo, menos vegetal que o anterior, arrebita um nariz sedutor a cereja, noz moscada e alguma pimenta branca. Na boca mantém o equilíbiro do irmão, mas eleva-se num (ou mais) patamar de qualidade. Muita concentração, esgaço, notas amargas a chocolate preto e azeitonas, castas bem trabalhadas, enfim um vinho que pede uma refeição. Final médio a prometer mais. Em crescendo. O contra-rótulo fala em cariz moderno mas não parece ser o caso. "Douro clássico bem feito" isso sim! E não é pouco. Se gostei? Gostei muito. A menos de 14 €. 16

terça-feira, janeiro 16, 2007

Quinta do Portal Touriga Nacional (T) 2000


Cor cereja escura, sem evolução precoce ou evidente. No nariz: touriga, touriga e touriga. Muita bergamota, num conjunto floral agreste e seco, mas cativante e insinuante! Depois, na boca, seguem-se as notas a casca de laranja, algum caramelo e referências sumidas a chá preto, tudo onde um final médio/curto desaponta e destoa. Curiosamente, passada a primeira meia hora, o vinho como que cai, desmaia na boca, gasta-se rápido e parece perder fôlego.
Por não ser um maratonista não deixa de ser um bom representante da casta nacional tida como a mais reputada da actualidade. E está pronto a beber. Não espere por ele.
A menos de € 22 nas boas garrafeiras. 16
PS - Faz precisamente um ano provámos o "Portal Reserva 2000" (aqui).

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Inesquecível!

Tudo começou aqui faz quase um ano. Depois ali. E depois já não consigo saber mais ao certo, pois o Rui e o João arregaçaram as mangas. E...
Na passada sexta-feira encontrámo-nos quase todos, os já referenciados e mais ainda a cambada amiga do vinho a copo (com o seu "camisola amarela"), os krónicas e mais os vinhos. Na "York House", como combinado, estava a sala de prova quase cheia quando entrei. Um encontro deste calibre, só possível após a existência consolidada de enoblogs, é algo para qual não se está preparado, não se sabe o que esperar, o que pode acontecer. Neste caso, tudo correu como se uma organização profissional estivesse por detrás do "evento". E estava, se pensarmos na tarimba do anfitrião ZT Mello Breyner!
As provas foram em catadupa, do Alentejo à Madeira (graças a este homem nas ilhas), passando pela Bairrada e Palmela, da Estremadura ao Algarve. Do Douro vieram duas ante-estreiras pela mão amiga do AJS: o Pintas (T) 2005 e o Pintas Character (T) 2005. Do Douro veio ainda o vinho mais gastronómico da noite, o Sirga (T) 2004. Convidados especiais também os houve: para além dos amigos "independentes" - Chapim, Pedro Sousa e Chicão obrigado pela V. presença -, recebemos a Allison e o Joaquim, principais responsáveis pela recente marca alentejana "Azamor".
Depois a comida, quase imaculada a não fazer sombra aos vinhos (como competia), e de novo os néctares. Brancos doces, brancos, tintos, tintos em magnum - Hexagnon (T) 2000 em bom nível -, Portos - santo Warre's 1995 LBV! - e um Madeira - fantástico Boal 10 anos. Deu ainda tempo para provar - off the record - o Quinta da Gaivosa (T) 2003.
Fica muito por (d)escrever? Certamente! Mas não para esquecer.
Certamente inesquecível.

domingo, janeiro 14, 2007

Fonte das Moças (T) 2003


João Melícias já nos habituou a óptimos vinhos. Lembro-me, de repente, de uma mão cheia de grandes tintos alentejanos (de Montemor a Cuba) feito pelo "Enólogo do Ano 2005 (RV)". Agora dá-nos o prazer de provar um projecto mais pessoal, concretizado pela sociedade "Agro Vitis" na Estremadura (Torres Vedras).
Mostra-se novo na cor, cereja escura tintada, mas o que sobressai de imediato é o nariz... que "bouquet" explosivo: fruta confitada, ameixa preta e amora, bombom de chocolate, fundo lácteo, tudo muito internacional. Na boca, a combinação do aragonês (30%) e da syrah (20%) domina num estilo impositivo, com fruta muito marcada a pedir mais uns meses de garrafa. Por seu lado, a touriga nacional (50%) parece dar-lhe um futuro radioso com taninos rijos. Final de grande intensidade. É de gritar: modernidade na Estremadura!
Com um preço quase imbatível, tudo tem para ser um sucesso de vendas, excepto o facto do mercado não estar virado para sucessos de venda e a produção ser limitada a menos de 7.000 botelhas. É pena. Não é fácil encontrá-lo, mas o preço não deverá ascender uns simpáticos € 6. 16

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Tapada de Coelheiros (T) 2001


Aconteceu o vinho ser a melhor coisa da noite passada. O vinho pode ter esta virtude, a qualidade de se manter fielmente aprazível numa refeição que está a correr mal. Foi isso que aconteceu ontem...
Intróito à parte, faz tempo que adoro beber um tinto alentejano com 5/6 anos a acompanhar carne vermelha simples. O Tapada de Coelheiros (T) 2001 foi o sacrificado; para mim, o seu sacrifício foi o único prazer. Mostrou-se vivo no copo, a cor está cereja vermelha com um círculo aureolar mais esbatido. Após alguns minutos de arejamento, transpirou aromas finos e elegantes a fruta vermelha fresca, esteva com notas de menta suaves, tudo muito elegante e afinado. Nada de brutalidade, apenas serenidade. A boca mostrou-se complexa, com a fruta menos presente parcialmente substituída por referências herbáceas e apimentadas (do cabernet) e alguma baunilha do carvalho francês. Final conivente , médio/longo.
Não se tratando do famoso "garrafeira", este Tapada tinto de 2001 surpreendeu muito positivamente com sua evolução. O preço vai variar muito do local onde o comprar (e será preciso procurar um pouco), e poderá ser particularmente elevado na restauração. 16,5

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Tintos para o "dia a dia" ou para várias ocasiões: Lybra e Taká

Um bom tinto para o dia a dia não é fácil de se encontrar. Dir-se-á que basta que seja bom e barato, mas sabemos bem que isso não é verdade. Para além dos dois referidos indispensáveis requisitos, é ainda preciso que o vinho não seja chato ou monótono, que combine com vários pratos de diferente culinária, que se adeqúe a refeições que viram em festas de um momento para outro, enfim vinhos nos quais se pode confiar quase a 100% para todos os trabalhos. Nesta nossa busca incessante desse vinho ideal para o quotidiano surgiram-nos dois recentes concorrentes. Foi assim que provámos o Lybra (T) 2004 de José Bento dos Santos e o Taká (T) 2005, projecto resultante da fusão dos esforços do escanção Bruno Antunes (Ritz), da Adega Algarvia e do enólogo Paulo Loureano.

  • Lybra (T) 2004: Cor cereja escura e notas aromáticas a fruto preto (amoras) marcam a apreciação inicial. Entra com confiança no nariz, rapidamente dá a entender ao que vem. Os 90% de Syrah, e as manhãs frias da Estremadura, são suficientes para criar uma sensação muito agradável entre fruta e frescura. O estágio em madeira de 12 meses quase não se nota (madeira de 2.º ano), o que se agradece num vinho deste perfil. Na boca sentem-se notas a balsâmico, é quase pastoso sem ser imponente e mantém-se de perfil atraente - e final de boca médio - durante toda uma refeição. Acompanhou com muita bravura um creme de castanhas com espuma em cappuccino e pinhões torrados, bem como umas tenras bochechas de porco preto em cama de couves. A menos de € 12 em garrafeira, é um óptimo vinho para várias ocasiões mas não é propriamente acessível para todos os dias. 15,5
  • Taká (T) 2005: Muita cor no copo fruto da juventude: cereja escuro no copo meio cheio, e tons arroxeados com o copo quase vazio ("vis-a-vis" alicante bouschet). Nariz intenso, vibrante, é um lote alentejano com o aragonês em maioria e cheio de força, sem pretensões de elegância ou romantismos. Mais guloso do que propriamente sedutor na boca, pode-se tornar aborrecido pela linearidade da fruta doce e compota que demonstra, mas será muito eficaz na hora de atacar carne vermelha simples. No nosso teste, deu luta a um pato com laranja acompanhado por um risotto de pimentos feito em casa. A menos de € 5 no Supercor ECI. 15

domingo, dezembro 31, 2006

2006 em revista


O que segue não se trata de uma lista dos melhores vinhos provados em 2006. Muito menos de uma selecção rigorosa das novidades ou estreias que viram luz neste ano que finda. Em rigor, nem se trata sequer de uma lista… mas antes de um apanhado de boas coisas nacionais – sobretudo surpresas e estreias, mas também algumas confirmações – com que nos deparámos em 2006 e nos lembrámos de escrever. Como é natural, os preços são meramente indicativos.

Comecemos pelas surpresas. O ano de 2006 foi o ano da afirmação do Vértice (T) 2003 (€ 12), um dos melhores e mais acessíveis tintos do Douro. Elegante, sem problemas ou dilemas de estilo, directo e frutado qb foi, sem dúvida, uma das melhores surpresas do ano que está prestes a terminar; a crítica internacional muito favorável tornou-se, por isso, inevitável. Outra surpresa acessível foi o Ermelinda Freitas Touriga Nacional (T) 2003 (€10), que já conta com uma edição de 2004 na mesma linha. Forte e carnudo, mas fresco e revigorante também, é um tinto que merece ser guardado por uns alguns anos na garrafeira.
Mais dispendioso do que os anteriores, mas nem por isso caro, o Quinta da Vegia Reserva (T) 2003 (€ 20) foi um dos vários vinhos do Dão que saltaram para a ribalta em 2006. A par dos nomes mais conhecidos da região (eg., Roques, Perdigão, Pellada), a Quinta da Vegia e o produtor "Casa de Cello" são já um marco no Dão graças aos seus vinhos prazenteiros e com muita "patine".
Do Alentejo, o Grou (T) 2004 (€ 25) foi uma das novidades que mais nos deu prazer beber. Um tinto cheio de cor, incisivo e inesquecível, perfeitamente apto para devaneios gastronómicos de forte impacto. Os tintos alentejanos do produtor "Dão Sul" também surpreenderam: o complexo Monte da Cal Reserva (T) 2003 (€ 9) e o sedutor Monte da Cal Aragonês (T) 2004 (€ 6).
Da Bairrada, o projecto de Manuel Campolargo parece arrastar toda uma região aparentemente parada para as prateleiras das garrafeiras e supermercados. A hiper-criatividade trouxe belos tintos como o Termeão Pássaro Ver. (T) 2004 (€ 17) e o Diga? (T) 2004 (€ 25).
Das Beiras, o pódio é ocupado pelo fantástico Casa de Aguiar (T) 2004 (€ 10), uma marca em ascensão no universo das "Caves Aliança", e que, na colheita de 2004, atingiu um nível elevadíssimo. Menção honrosa também para o Versus (T) 2004 (€ 6), um tinto forte e duro que deu muito de falar na imprensa escrita e na blogosfera, ainda que nem sempre de forma unânime.
Mas o ano de 2006 também foi um ano da confirmação dos tintos da Estremadura. O lançamento dos vinhos da "Quinta de Pancas" - o nem sempre consensual Reserva Especial (T) 2003 (€ 25) e o magnífico Pancas Premium (T) 2003 (€ 45) -, os da "Quinta da Monte d’Oiro" com a estreia do day-to-day Lybra (T) 2004 (€ 12), e os topos de gama dos projectos pessoais dos enólogos José Neiva [Francos Reserva (T) 2003 (€ 25)] e de João Melícias [Fonte das Moças Reserva (T) 2003 (€ 10)], são hoje confirmações mais do que certas, redundância à parte.
Do Ribatejo, e na sequência do melhor vinho de sempre da "Casa Cadaval", mostrou a sua raça um novo tinto de gama média/alta com elevado aprumo e estilo “novo mundista”: o Mythos (T) 2003 ( € 15): néctar escuro e muito poderoso cabaz de ombrear com tintos de outras paragens mais a sul.
Das várias "segundas marcas" que proporcionam muito prazer, os durienses Prazo de Roriz (T) 2003 e Post Scriptum (T) 2004, e o Quinta da Chocapalha (T) 2004 de Alenquer, são três sólidos destaques de 2006 (€ 7 - € 9).
No Douro, sempre o Douro, merece uma palavra de elogio os projectos que começaram a consolidar-se e deram luz ao poderoso Quinta da Touriga-Chã (T) 2004 (€ 30), ao distinto Quinta da Sequeira Grande Escolha (T) 2002 (€ 20) e ao concentradíssimo Odisseia Touriga (T) 2004 (€ 22), entre outros exemplos. Ainda no Douro, para além de várias marcas com tintos ainda não provados - CV 2004, Quinta de Macedos 2003, Gouvyas 2004, Vallado Reserva 2004, Poeira 2004, VT 2004 -, tivémos a confirmação do La Rosa Reserve (T) 2004 (€ 22), talvez o melhor de sempre da casa centenária, bem como dos Quinta de Roriz (T) 2004 (€ 30) e Quinta de Vale Meão (T) 2004 (€ 48).
Nos brancos, o ano de 2006 deu a provar a óptima colheita de 2005 da qual foram lançados vinhos verdadeiramente surpreendentes. Se em 2004/2005 o mercado notou o surgimento de um conjunto selecto de vinhos com muita qualidade, já em 2006 a diferença foi a maior quantidade de propostas cativantes. A par das confirmações do untuoso Esporão Private Selection (B) 2005 (€ 17) e do delicado Soalheiro (B) 2005 (€ 10), ficámos com sede para o floral Tiara (B) 2005 (€ 15) da Niepoort e para o citrino Muros Antigos Loureiro (B) 2005 (€ 6). Isto claro, para não falar de voos mais altos (leia-se Redoma Reserva 2005 a € 30).
Finalmente, nos generosos, o Quinta do Noval Vintage (P) 2004 (€ 60) encheu-nos as medidas. Não é original, mas também não se amam os Portos pela originalidade.
Fica por aqui este périplo de alguns destaques pessoais provados em 2006, com a certeza que muito ficou por escrever, e com o desejo de um 2007 com muito mais para provar e divulgar.
Votos de um fantástico 2007 para todos.
NOG
PS - Ah... já me esquecia, 2006 também foi ano de nova edição de Barca Velha (1999) mas, por motivos vários, só o provarei para o ano.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Reserva Especial Ferreirinha (T) 1986

Abertas mas não decantadas. A decisão pareceu-nos acertada tanto mais que as "borras" foram muito reduzidas. Desta feita, ao contrário do que tem sido a regra com estas reservas, a rolha mostrou-se perfeita em ambas as garrafas.
A cor é um autêntico assombro; pode mesmo dizer-se que nos enganava totalmente. Pela cor o vinho tem cinco, oito anos no máximo... vermelho intenso, quase vibrante! O nariz inicial está muito reduzido com notas menos agradáveis típicas do estágio em garrafa. Após arejamento mostra aromas terceários nobres como madeira antiga (armários), tabaco e couro. A boca está imperial, com uma acidez pouco vulgar e uma óptima vivacidade. O que peca é mesmo a fruta: com tantas indicações que estaria em plena forma (cor, acidez, como já referimos) sentimos falta dos elegantes morangos e cassis que os "irmãos ferreirinhas", mesmo "velhos", nos habituam. Não somos loucos por fruta, mas este reserva especial deixa água na boca. Mesmo sabendo que já lá vão mais de vinte anos, o palato ficou algo pobre e o final quase mediano. É morrer na praia...

domingo, dezembro 24, 2006

Feliz Consoada

Para aqueles que têm dúvidas de última hora a respeito dos vinhos a beber na Consoada, aqui fica a sugestão para um repasto bem regado.
À vossa!
NOG
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Quinta dos Minotes (BV) 2005
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Chardonnay Projectos Niepoort (B) 2004
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Numanthia (T) 2003
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Esporão Private Selection Garrafeira (T) 2001
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Reserva Ferreirinha (T) 1996
*
Quinta do Noval vintage (P) 2003

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Um bom ano


Russell Crowe aos gritos em pleno Coliseu de Roma de espada em punho é uma imagem difícil de esquecer. Talvez pela maneira impressionante como se vestiu de Maximus (também pela mão de Scott), seja difícil agora convencer-nos que pode ser um "broker" da bolsa de Londres que, paulatinamente, descobre uma paixão antiga por uma vinha algures em França herdada de um tio (a localização exacta da vinha não é revelada para não ferir susceptibilidades...). Também por isto, o mais recente filme de Ridley Scott e Russell Crowe não deverá esperar o mesmo sucesso de "The Gladiator" (2000). Mas "A Good Year" fala de uma vinha…
A ideia central do filme gira em torno do dilema moderno do Homem que vive numa metrópole e vive para o seu trabalho e sucesso. Como é endinheirado, julga ter conquistado tudo na sua vida mesmo que o contacto com a natureza, e, já agora, com o amor e família, estejam totalmente ausentes do seu quotidiano. Depois, descobre que herdou uma vinha em França e vai visitá-la a fim de conhecer o seu potencial de venda. O resto já imaginam.
De Ridley Scott estou sempre à espera de um pouco mais, pois ainda revejo com muito agrado as suas primeiras e auspiciosas películas. Em todo o caso, para quem está a descansar (como é o meu caso) ou está de férias, é uma boa distracção de hora e meia que, ainda por cima, fala um pouco de vinhas, pisca o olho a Mondavi e dá dicas sobre "vinhos de garagem". Mas atenção, tem pouco que ver com "Sideways" (2004) e muito menos com "Mondovino" (2004).

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Esporão Trincadeira (T) 2004


Os monocastas da Herdade do Esporão têm vindo a melhorar significativamente. Este é talvez o melhor Trincadeira produzido pelo Esporão (Finagra) que provámos. A cor esteve correcta num vermelho escuro discreto. O nariz impecável, com notas florais quentes e mesmo alguma esteva. Complexidade média, concentração elevada e corpo elegante. Fruta madura em camadas e um toque ligeiro balsâmico tornam o conjunto muito sedutor. Tudo afinado, a madeira quase não se sente. Um vinho de laboratório para ser consumido já. Pena o final, apenas médio/curto.
Bom (16). A menos de € 12.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Quinta da Pedra (B) Alvarinho 2004


É verdade que o Inverno não pede sempre por um branco verde fresco. Mas quando nos deparamos com camarão frito e uma dourada escalada (escalada mas conservando o suco do bicho) é difícil resistir. A colheita de 2004 não foi das melhores para os verdes e os Alvarinhos da Quinta da Pedra teimam em apostar na vertente vegetal. Este que se provou veio atestar tudo isso. Cor marcada e amarela, bouquet pouco evidente. Na boca a fruta andou desaparecida, só muito ao longe se sentia um pouco de melão picante. Falta-lhe garra mas pode ser do ano. Já as notas vegetais, ainda que não exuberantes, foram constantes e bem blendadas com uma acidez fina e elegante. É um daqueles Alvarinhos que "aproveita" a fama da casta e que pouco acrescenta, nesta colheita de 2004, ao panorama existente. Em todo o caso, mostrou se um branco eficaz na hora de atacar o marisco e peixe.
Suficiente (13). A menos de € 10.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Dica de restauração: Néctar

Nem dez dias da inauguração tinham decorrido e já estávamos sentados numa das bonitas mesas do mais recente winebar de Lisboa. O "Néctar" abriu portas no final de Novembro em plena R. dos Douradores na Baixa (uma paralela à R. Augusta). A decoração é simples, valorizando os arcos de pedra de um bonito rés-do-chão pombalino. Fazia frio no interior (pedimos para ligar o aquecimento), sensação infelizmente comum na restauração em Portugal que teima em não investir em bons caloríferos.
Existe uma carta para jantar e outra, mais interessante, para petiscar à base de queijos, saladas e enchidos. A carta de vinhos não é monumental mas tem uma escolha criteriosa e nota-se a preocupação em disponibilizar alguns vinhos que se encontram na berra. Todos os vinhos podem ser consumidos a copo pois decidiu-se investir - e bem! - no sistema “Le Verre du vin” (na versão simples). O serviço esteve eficiente e os copos eram de boa qualidade. Um dos vinhos foi provado a uma temperatura que não a adequada mas foi rectificada aquando do serviço. Provámos o "Quinta dos Roques Encruzado (B) 2005" e o "Azamor (T) 2003". O primeiro confirmou ser um dos vinhos brancos mais minerais de Portugal, e o segundo primou por um estilo Novo Mundo que vem sendo habitual em alguns (cada vez mais...) produtores do Alentejo.
Uma visita com um saldo muito positivo. Sem dúvida uma experiência a repetir no coração da Baixa lisboeta.

domingo, dezembro 10, 2006

K(olheita) (T) 2002


Fim-de-semana grande no Algarve: não o Algarve da praia, do calor e das filas no Verão, mas da calma fortificante e das águas santas das Caldas de Monchique. Após banhos retemperantes, foi tempo de revisitar o "Veneza", restaurante/garrafeira perto de Paderne em Ferreiras (para a primeira visita ver aqui). As comidas – próprias do Inverno – estiveram óptimas com destaque para o ensopado de javali (com um toque de alecrim). Nos vinhos a escolha é obra demorada, pois a variedade é próxima do infinito. Escolhemos um "K 2002" do projecto "Kolheita de Ideias" (que belo nome!) dos três amigos Rui Moreira, Luís Soares Duarte (eg., "Gouvyas", "Infantado"), Francisco Ferreira ("Vallado"). No copo mostrou-se bonito, cor acertada entre o cereja escuro e o vermelho purpurino. Corpo cheio, muito elegante no nariz, bom balanço entre o álcool e a fruta. A madeira está totalmente integrada, tudo em harmonia. Guloso q.b., com frescura vibrante (típica do ano), tem fruta com realce para a bergamota, também evidente no final médio/longo. Belo tinto do Douro a provar que a colheita de 2002 (ou, pelo menos, este Kolheita) esteve e está a um bom nível.
Bom + (17). A menos de € 20.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Adega Coop. Borba Reserva (T) 2001


A colheita de 2001 tem trazido altivos momentos com tintos alentejanos (ver aqui e ali). Este, também conhecido por “rótulo de cortiça”, acompanhou bem um entrecosto à Mestre d’Avis no "Grémio" (Évora), mas não passou disso. Na cor nota-se a evolução com um ligeiro tom laranja desmaiado, mas não em demasia: bem feitas as contas o vermelho cereja ainda impera. No nariz está certinho, a fruta já quase não tem garra, mas o que ainda persiste faz aguentar bem o vinho que está naturalmente macio e com notas a especiarias. Na boca já domina a madeira com sensações a carvalho queimado e algum balsâmico, a fruta está sisuda, e pouco mais. Se existe alguma garrafa por abrir deste alentejano de 2001 é altura de a beber sem saudosismos. E rapidamente.
Suficiente + (14,5).

PS – Faz dias, no Hotel Ritz, foram apresentados os novos Adega Coop. de Borba, de estilo mais moderno e com cara lavada. O "Reserva (T) 2004" mostrou-se em forma e continua a apostar no rótulo de cortiça, agora com dimensão mais pequena contribuindo para um resultado gráfico final menos rústico.
PS 2 - Outras provas a este vinho podem ser encontradas no Copo d' 3 e nas Krónicas Vinicolas.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Vértice (T) 2003



Já íamos avisados – é inegável que a opinião dos outros nos pode influenciar, mas neste caso a qualidade do vinho é uma evidência. A todos.
A cor está rubi escura, profunda e bem bonita com laivos e tons arroxeados. Nada de opacidades! O nariz revela-se muito afinado e sedutor. As notas a baunilha derretem-se (literalmente) na fruta vermelha macia e quente – que intenso prazer... Na boca atesta a sensualidade do nariz, fácil de se beber (elogio), muito acetinado. Peca apenas o final, guloso mas curto (ou curto demais para tanta gulodice).
Uma única divergência de opinião parece residir num eventual estágio em garrafa: alguns juram que se deverá bebê-lo num vértice até 2008, outros pregoam que a cave será o mais indicado para o néctar. Eu? Eu alinho, quase sem dúvidas, pela primeira tese: beber já pois não vejo como o vinho possa melhorar mais (a não ser que fosse outro o vinho e de uma qualidade ainda superior). Um belo tinto do Douro a um belíssimo preço.
Bom + (17). A menos de € 12.

sábado, dezembro 02, 2006

Quinta da Sequeira GE (T) 2002



Respondendo ao desafio lançado pelo Vinho da Casa - ie., uma prova a um vinho de 2002 -, o vinho ora provado é uma grande escolha. E é mesmo! Este "Quinta da Sequeira Grande Escolha (T) 2002" mostra-se perto do negrito no copo e o aroma é marcadamente vegetal com nuances simpáticas de madeira de qualidade (10 meses em barricas de carvalho Allier e Limousin).
Na boca mantém um certo estilo da casa, entre o carácter terroso e notas a fruta muito madura. Já está pronto para consumo mas eu esperaria por ele mais um ano. Final elegante com notas frescas a esteva e um fundo animal que pode, aqui e ali, assustar os mais desprevenidos.
Bom (16). A menos de € 20.
PS: Aqui está um tinto douriense de 2002 bem acima da média. Daqui a um ano estará provavelmente melhor. Uma imagem cuidada e consistência na gama (dos tintos aos brancos, passando pelos rosés) a Quinta da Sequeira é um projecto a ter em muita atenção.