segunda-feira, junho 25, 2007


Fabre Montmayou Grand Reserva (T) Malbec 2005

A prova era cega e já muito se tinha tragado naquela tarde. Por fim, um tinto escuro com laivos sedutores azuis e purpurinos, se colocou no nosso caminho...

Grande nariz, forte e intenso, mas não monótono na força bruta. Fruta, muita fruta de excelsa qualidade, barrica perfeita (mais tarde soubemos que acertámos quando não nos parecia ter mais de 1 ano em madeira). Havia qualquer coisa no nariz que apontava para um registo não nacional... não sei bem o que era... podia ser o facto de não existir nenhuma casta nacional naquele lote. Lote? Não... era um monocasta, mas – ao princípio – nada o fazia prever.

Na boca, já podia ser um tinto nacional, talvez do Douro feito com imensa touriga nacional madura. Tem corpo, taninos elegantes e arredondados, um misto de força (sobretudo na fruta) com elegância (notas a tabaco) mas sempre com determinação na sedução do provador (chocolate guloso). Final distinto, exótico, inesquecível mesmo.

Revelou-se ser um malbec da Argentina, um Fabre Montmayou Grand Reserva com mão enológica de Rui Reguinga. Uvas colhidas entre 24 de Março e 5 de Abril, com cerca de 40 hl/ha de rendimento, produzem um retinto vinho com 14,5 % vol..Os luxos que cada vez mais vêm sendo habituais também existem aqui: apanha das uvas de modo manual em caixas de 20 kg, dupla selecção (i.é, por cacho e por uva), fermentação com leveduras indígenas e quatro remontagens diárias. Por fim, 12 meses em carvalho francês.
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Um vinho extraordinário, de vinhas com cerca de 60 anos plantadas a mais de 1000 metros de altitude. Um vinho que chega agora a Portugal na colheita de 2005 (a de 2003 ainda se vende no "winept"). Um vinho que custa menos de € 25 nas "Coisas do Arco do Vinho" em Lisboa e que em breve se esgotará.

17,5

domingo, junho 24, 2007

PRÓXIMAS INICIATIVAS:

  • É já no próximo Sábado, 30 de Junho, na Gare Marítima de Alcântara (das 15h às 20h) que a “Dão, vinhos e sabores” chega a Lisboa. A entrada é livre e todos poderão provar os vinhos desta região associando-se às celebrações do Dia do Vinho, que se assinala a 1 de Julho. Entre outros, estarão presentes os produtores Quinta da Vegia; Casa de Mouraz; Cooperativa Agrícola de Nelas; Grupo Enoport; Quinta da Falorca; Quinta da Fata; Quinta da Garrida; Quinta de Cabriz; Casa de Santar; Quinta de Lemos; Quinta de Reis; Quinta do Cerrado; Quinta dos Carvalhais e Quinta dos Roques.
  • Numa iniciativa do nosso amigo d´ O Copo de 3, decorrerá no próximo dia 7 de Julho (das 16h às 20h), nos Claustros do Convento dos Capuchos, em Vila Viçosa, o evento Vinum Callipole 2007, com a participação, entre outros, dos seguintes produtores: Herdade das Servas, Ervideira, Cortes de Cima, Herdade da Malhadinha Nova, Herdade do Portocarro, Alves de Sousa, Azamor Wines, Adega Cooperativa de Borba, Vinhos Dona Berta, Álvaro de Castro, Bago de Touriga, Quinta da Lagoalva. A entrada custa 5 € com copo Schott Din Sensus incluído. A linha de informação é o 967 344 226 e o contacto para reserva em copo_de_3@hotmail.com (reserva de entradas).

quarta-feira, junho 20, 2007

O mistério do Porto maravilha...
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No final de um jantar muito animado, e no qual muito se deu a provar e a beber, vieram uns copos de Porto para a mesa. Nada se sabia sobre aquele néctar escuro: i) se era novo ou menos novo (pela cor, velho não era certamente); ii) se Ruby, LBV ou Vintage (pela cor, tawny não era certamente); enfim iii) se era caro ou barato (neste aspecto, a cor geralmente não ajuda).
Levou-se ao nariz e logo a dúvida intensificou-se... que mistério: parecia um Vintage tão fechado que estava. Nariz fresco, ele próprio misterioso, sem dúvida havia "fruta" escondida.
Na boca era largo e generoso, doce com notas exuberantes a chocolate, e a dúvida tornou-se uma "quase-certeza": i) ou se tratava de um Vintage daqueles para "se beberem novos" de ano não vintage, com qualidade mas sem pulmão, ii) ou então um grande (mas grande mesmo) LBV de um ano neo-clássico (i.é, demasiado quente). No primeiro caso (e continuávamos às cegas) seria certamente de um ano recente - 2004 ou 2005 -, no segundo caso seria de uma colheita entre o ano 2000 até 2003.
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E não é que era mesmo um LBV, um dos melhores que já provei!
Era o Quinta Nova da Nossa Senhora do Carmo LBV 2003!

PS: O nome do vinho é quase tão longo quanto o seu final de boca.
PS2: Por outros LBV de 2003 já provados, parece que depois de ano vintage, temos um grande ano LBV.

sexta-feira, junho 15, 2007

No Dão com Quinta dos Roques
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Uma prova dos vinhos da Quinta dos Roques exige circunstância!
Por isso, o melhor é mesmo uma visita à quinta e na companhia do muito afável produtor. Dito... e feito!
Depois de visitada parte da quinta, e as instalações da mesma, o melhor é mesmo atacar na bebida que "acompanha" o almoço (do espumante ao licoroso tudo foi provado), e dar umas palavrinhas com enólogo Rui Reguinga. Dito... e feito!


Notas e referências telegráficas de alguns dos vinhos, como se impõe - por serem novidades ainda não lançadas no mercado, à excepção do malvasia fina, as notas são provisórias:


Quinta dos Roques Encruzado (B) 2006: Muito bem no nariz: é certamente o melhor que provámos (ou melhor, cheirámos) nos encruzados dos Roques. É que, a par do lado mineral, surge a fruta madura e delicada com maior intensidade do que em edições anteriores. De resto, o costume... boca cheia, bastante fresco (apenas 65% passou por madeira) e final persistente. Belo branco este, numa das suas melhores edições. 16,5 (provisório)

Quinta dos Roques Malvasia Fina (B) 2005: Ainda não estamos fãs deste malvasia fina... nariz ausente (longe, longe), boca com alguma doçura interessante, mas não (nos) chega. No fim de contas, não tirámos a dúvida se o vinho já "terminou" a sua vida útil ou ainda não a "começou". Estranho, não é? 14,5

Quinta dos Roques Touriga Nacional (T) 2005: Cor violácea forte (mas não opaca) com espuma juvenil, e nariz muito fresco do tipo floral. Ataque muito compacto na boca, cheio de corpo, redondo, só o final ainda está em construção. Poderá vir a ser um dos melhores tourigas dos Roques daqui a umas primaveras, mas o tempo o dirá. 16,5 (provisório)


Quinta dos Roques Garrafeira (T) 2003: Nariz em evolução, complexo e muito intrigante (apetece cheirar e cheirar). Boca muito trabalhada, suave, belíssimo blend de touriga nacional, t. roriz, t. cão e alfrocheiro. Muita baga vermelha, perfil do Dão elegante e gastronómico com um típico final de boca fino e delgado. 17 (provisório)

Fotos (no sentido dos ponteiros do relógio): o produtor e anfitrião Luís Lourenço; vista da Quinta dos Roques com a Serra da Estrela ao fundo; vista de parte dos vinhos provadas; vista do armazém e muitas garrafas.


segunda-feira, junho 11, 2007

Herdade Paço do Conde Reserva (T) 2004
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Cor muito escura – de imediato a noção de calor –, e perfil espesso. No nariz somos "assaltados" por compota de morango, fruta doce, rebuçado (...lá estão as bolas de neve novamente...).

Na boca, o álcool permite um ataque suave, redondo, sai mais fino do que entra e provoca um ligeiro (e muito agradável) amargo de boca. Final médio – /médio que, com algum tempo de garrafa, admitimos que possa melhorar. Como, aliás, todo o conjunto deste lote alentejano de syrah, touriga nacional, aragonês, cab. sauvignon... e muita barrica!


Vinho acetinado, veludo de álcool e fruta, peca pelo final e por um estilo demasiado guloso. O inevitável lost paradise aqui tão perto e a menos de € 10.
16,5

quarta-feira, junho 06, 2007

VALLE PRADINHOS: novidades para 2007
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Foi pena (para mim, só para mim...) que o João Paulo Martins se tenha adiantado e proposto em debut (penso eu) o Valle Pradinhos (T) 2004 no "Fugas" (Público) do passado Sábado. É que a coisa interessante dos blogs, entre outras eventualmente, é a rápida divulgação da prova de novidades. Como pouco posso acrescentar ao conhecido jornalista – para além de se tratarem de 25 mil botelhas de um tinto com 14,5% vl. e 2,0 g/l de açucares redutores – resta-me aconselhar também o Valle Pradinhos (B) 2005 e o Valle Pradinhos (R) 2006 (creio que o JPM desta não se lembrou...).

Valle Pradinhos (T) 2004: No tinto "a coisa pia" de forma muito afinada. Percebe-se que o estilo do vinho está definido e estabilizado com (a passagem d') o tempo e mestria; que qualquer alteração na "fórmula" resulta da procura por maior consistência em cada colheita. Jovem, intenso, com espessura, nariz com frutos vermelhos mas também curiosas notas a fruto tropical. Final fino e longo, é um tinto a meio caminho entre a guarda e o deleite de o beber já (neste caso para quem gosta de tintos a sério). Um produto que (me) agrada muito por (me) agradar sempre. 17

Valle Pradinhos (B) 2006: "Parece que não", mas este branco também já leva alguma tradição... nem que seja pela insistência na singular combinação entre riesling, gewürztraminer e a transmontana malvasia fina. Se a cor é citrina clarinha, e o nariz dominado por líchias e rosas (mas ainda referências a cera, avelãs, noz moscada, bem como a manga madura), também a prova de boca tem valor, e muito! Se bebido fresco, acompanhará muito bem pratos simples como saladas e peixe grelhado. A 14º, pensamos que ainda se aguenta bem para outras andanças (carnes brancas, eventualmente), mas a tal temperatura, e com os seus elevados 14% vol., as sensações e referências adocicadas a pêra em calda e a alperce exigirão atino na combinação gastronómica. 16

Valle Pradinhos (R) 2006: Depois de tudo isto, para mim... este é o ano dos rosés do Douro (é já o terceiro que me enche as medidas, depois do "Apegadas" e do "Quinta da Sequeira"). Quero dizer, este é o ano - 2007 -, e esta é a colheita - 2006 -, sendo certo que nos rosés a estória da colheita não influencia significativamente o resultado final. Clarete no copo, solta um morango silvestre e uma cereja preta deliciosos. Seco, pouco doce, manifesta uma fantástica harmonia na boca. Cheio (sim... cheio!), mantém-se fresco, é um rosé diríamos que inteligente. Explico (na medida do possível): os açúcares não procuram cansar o consumidor mas antes equilibrar a fruta da tinta roriz e as flores da touriga nacional. Corram a comprá-lo: nem que seja por serem apenas 2600 garrafas. 16

terça-feira, junho 05, 2007

Monte da Ravasqueira Vinha das Romãs (T) 2005


Rolo de carne no prato, arroz de tomate e o novo tinto do Monte da Ravasqueira. Cor ruby clara (o rótulo fala de granada), laivos violeta e espuma na auréola... muita juventude, portanto! No nariz nasce o álcool e não é apenas percepção da juventude – tem 14,7% vol.!


Sentem-se demasiado as referências "alentejanas" à syrah (claramente maioritária), mas o vinho é complexo e aguenta-se no limite da doçura. Muito chocolate na boca, ataque doce, intensamente centrado no rebuçado – ora funcho, ora "bola de neve" – um pouco floral no fim de boca conjuga-se com um travo retronasal amargo... a lembrar que sempre há touriga (neste caso tourigas) neste lote. Corpo mediano, concentração igual, mas um longo e belo final surpreendem os amantes da barrica. Decididamente é um caso para guarda, a merecer nova prova talvez daqui a 2 anos.


Um bom vinho (topo de gama?) - de perfil muito jovem como que vai melhorar em garrafa - a merecer mais esforço do produtor nas próximas colheitas.

16

domingo, junho 03, 2007

O primeiro: 2 anos depois.


Chamo-me a atenção (sim, a mim próprio) pela passagem de 2 anos desde que escrevi este texto. Penso que foi o primeiro – garanto que não estou certo disso – que escrevi para o blog, e faz já algum tempo que não tenho a contagem do número de visitantes.

Escrevo este blog como se ninguém o lesse.
Por isso, a passagem destes 2 anos não me surpreendeu o espírito; escreveria mais 2 anos se ninguém o lesse verdadeiramente. Por isso também, o texto de que mais gosto ("aquele" texto) foi este; sim, o primeiro (mas disso não estou certo). Depois desse, vieram muitos outros; vieram novos vinhos; vieram novos blogs; novos amigos. Por isso, finalmente, nem sequer dei conta da passagem do tempo. É que se o primeiro texto foi realmente este – que não estou disso certo –, já passaram, então, mais de 2 anos e falhei o aniversário.

terça-feira, maio 29, 2007

Vinhos de Diogo Frey Ramos


O Diogo Frey Ramos é um dos representantes da mais recente "fornada de enólogos". Nascido no belíssimo ano de 1978, cursou enologia na Univ. De Trás-os-Montes e Alto Douro (Vila Real) e estagiou em várias casas de renome (Gaivosa, Osborne e Muros de Melgaço). Depois de algum tempo a trabalhar para a Calheiros Cruz, surge agora a dar assistência a novos produtores e a cumprir um legado de família. Do projecto familiar "Tavadouro" já comecei por escrever aqui, faltando só a referência a 2 vinhos (o tinto e o branco da gama Vinëu, abaixo dos 6 €) que ora se dá conta. Dos restantes projectos, provámos um potente estreme touriga nacional. A saber:

Quinta dos Urgais Touriga Nacional (T) 2004: cor extremamente violácea e azulada, forte impacto olfativo a tinta-da-china. Claro está: desengace total, maceração prolongada. Nariz com referências curiosas a pimenta e cravinho. Boca fresca, de perfil floral mas demasiado esmagador. De corpo bastante encorpado, é a linha "dura" da touriga nacional e isso reflete-se no final áspero e demasiado curto. Terá os seus adeptos se for consumido já, mas o melhor é esperar.
15

Vinëu (T) 2005: Cor vermelho ruby claro. Nariz moderno, sedutor, directo e "fácil" nas percepções a chocolate de leite, baunilha, cereja negra e torrados. Boca com menos intensidade, mas mais seriedade face a prova do nariz. Fruta certinha a denunciar a presença da tinta roriz, corpo esguio (13,5% vol.), final fino e elegante. Feito a partir da referida roriz, mais as duas tourigas (nacional e franca) e tinta barroca, está um lote guloso capaz de agradar a muita gente. Um Douro moderno, temos aqui. 15,5

Vinëu (B) 2005: Amarelo palha claro no copo. Nariz com um toque a banana verde, fruta tropical madura, quase diríamos ter moscatel no lote... (mas não tem). Prova de boca bastante positiva, é um branco jovem, elegante, mas não foge a um carácter afirmativo na fruta (melão) e por isso é preciso bebê-lo bem fresco. Final médio a médio-curto. Curioso branco e boa relação preço/qualidade. 15

sexta-feira, maio 25, 2007

Notas breves - 3 brancos:

Quinta do Cerrado Malvasia-Fina (B) 2006: Necessariamente longe da mineralidade do encruzado da mesma quinta (que muito apreciamos), é a cor clarinha quase-água que começa por despontar. Depois vem o nariz muito certeiro, fresco, a pedir comida. Na boca, a acidez é demasiado viva e o conjunto perde qualidade pois o fundo tropical não se consegue impôr (demasiado novo?). Em qualquer caso, um malvazia-fina a merecer uma visita, nem que seja pelo carácter lúdico de provar uma casta que, no Continente, pouco aparece isolada. 14

Antão Vaz da Peceguina (B) 2006: Cor séria – temos vinho? – mas o nariz não deixa que percamos muito tempo com ele. Nariz reduzido, pouco atraente mesmo, ninguém diria ser um antão vaz (a prova foi cega). Melhora na boca, tem complexidade e não chega a ser pesado (mas anda lá quase), alperce, pêra, infelizmente muito pouca mineralidade. Abaixo das expectativas. 14,5

Malhadinha (B) 2006: Cor muito parecida com o vinho anterior mas mais escura a mostrar estágio em barrica. Aroma forte, pujante, talvez demasiado maduro (melão, manga), mas em todo o caso cativante. Boca em construção, está muito novo (mesmo para um branco), mas já se mostra gordo e compacto. O arinto está pouco "visível" e pensamos que o conjunto - demasiado meloso - ressente-se disso mesmo. Um vinho de Inverno para acompanhar assados, sem dúvidas, e sem o brilho das estrelas também.
15

quarta-feira, maio 23, 2007

Douro: sexteto afinado mas com diferenças


Foi mesmo em cima da hora (bendita hora para mim) que tive o verdadeiro privilégio de jantar (pois não estava prevista a minha presença) com 5 adeptos de vinho para provar e beber 6 tintos recentes (2003/2004) do Douro. Cada participante trouxe uma botelha, como combinado. Como combinado também já estavam os "nomes" dos ditos vinhos.
Não escrevo sobre quem esteve presente no jantar, pois o que mais importa no âmbito deste blog (a mim, e, eventualmente, ao leitor) são os vinhos; não quem os provou. Direi que eram, no mínimo, um núcleo duro de "entendidos" na matéria. Os vinhos... esses revelo e em bold: Xisto (T) 2003, Abandonado (T) 2004, Quinta de Roriz Reserva (T) 2003, Passadouro Reserva (T) 2004, C.V. (T) 2003 e Maritávora Reserva (T) 2004.

Na cor, pouco se notam as diferenças entre a colheita de 2003 e 2004 e, de vinho para vinho, as assimetrias cromáticas são mesmo mínimas.
[Deveria ter evidenciado antes que todos os vinhos foram decantados com cerca de 30m-1h de antecedência, e vieram para a mesa em decanters numerados para manterem o anonimato].

Já no nariz, os perfis começaram a trocar as voltas: um desiludiu (Xisto) com uma silhueta de demasiada torrefacção (cafés, espuma torrada); outro revelou toques excessivos de menta fresca (era o Abandonado, soube de depois), um acolá com químico latente do tipo "bomba" (Passadouro Res.), outro ainda mais calmo e com doce de leite a lembrar LBV (Quinta de Roriz Res.); por fim, dois mais complexos e intrigantes (C.V. e o Maritávora Res.).

Cerca de meia hora depois levou-se o vinho à boca.

É sabido ser tarefa arrevesada resumir as notas de prova de vários vinhos, sobretudo quando bebidos num único jantar. Diremos então, apenas, que todos são vinhos de belíssimo porte, que deram muito prazer. Contudo, diferenças também as houve, e alguma intrepidez no espírito leva-nos a revelar que o Xisto e o Abandonado (logo este que costumo gostar tanto...) ficaram uns pontos atrás dos outros e, por isso, nesta prova, trouxeram uma leve sensação a desapontamento. Dos restantes, resta-me dizer que o adorei o Passadouro Res. 2004 - o mais brutal e concentrado dos vinhos "em jogo" -, mas também o Quinta de Roriz Res. 2003 que se mostrou surpreendentemente sedutor e maduro (certamente devido ao ano) face a colheitas anteriores.

Todavia... os dois vinhos da noite foram mesmo o C.V. 2003 e o Maritávora Res. 2004. O primeiro, produzido por Cristiano Van Zeller em cooperação com S. Tavares da Silva, foi um todo de perfeição: profundo, enigmático, boca redonda aveludada e um final deveras longo. O segundo - grande relação preço/qualidade (o mais "barato" da mesa) -, foi um poço de complexidade, de perfeição na acidez, exibindo uma integração fantástica da barrica por Jorge Serôdio; tudo merece aplauso neste tinto.

Foi assim...

segunda-feira, maio 21, 2007

Dica de restauração: Salsa & Coentros

Não é propriamente uma dica, pois metade de Lisboa já conhece... ou devia conhecer. Fica junto à Av. da Igreja defronte dos bombeiros de Alvalade e come-se muito bem. É um projecto de gente que trabalhou no restaurante Charcutaria, por isso a comida é de qualidade e alentejana.
Uma surpresa: os óptimos preços praticados nos "comes" mas também nos "bebes"! Vinhos a preços justos – raramente ultrapassa o dobro do preço em garrafeira – e algumas semi-preciosidades. A não perder este Salsa & Coentros.

quinta-feira, maio 17, 2007

Dona Berta Reserva (T) 2004


O denominado Menu do Paço de primavera do restaurante "Terreiro do Paço" (Lisboa) mostra bem o fascínio do chef Vítor Sobral para com produtos nacionais: 2 pratos de bacalhau (um carpaccio com pasteis de mandioca, outro em lombo com compota de tomate), cherne no forno e pintada confitada com goiaba no forno e pinhões.
A bem de ver... a escolha de um vinho não era tarefa fácil. Para não se pedir diversos vinhos (ou vinhos a copo), a harmonia de um só vinho com a maioria dos pratos era obrigatória. Neste difícil contexto, o Dona Berta Reserva (T) 2004 foi valente!

Cor vermelha rubi muito viva, bonita mesmo de tanta alegria. Nariz intenso a flores, de cariz muito jovem e intenso. Na boca, concentrado e focado num travo "blendado" entre flores e fruto vermelho. Madeira ligeiríssima, hesitante... a descobrir e encobrir novamente (mais na boca, menos no nariz). Seco, concentrado, mostra ter taninos bravos e anos pela frente. Final discreto que, contudo, não desaponta.
Não é um douro de topo, nem de perfil moderno. Mas mostrou-se uma escolha imaculada numa mesa difícil, e este é – a meu ver – dos melhores elogios que se pode fazer a um vinho.

17

segunda-feira, maio 14, 2007

Vinha Grande (T) 2000


Aberta a magnum (i.é., garrafa de 1,5 litro), mostrou-se pouco dado a aromas iniciais. Já no copo, de cor rubi algo brilhante, o nariz deste tinto solta-se mais com fruta madura (tão típica da colheita de 2000) a "marcar pontos". Corpo macio, quente, aveludado, tanto que por vezes o vinho parece "apagado" e o conjunto ressente-se da falta de acidez. Em todo o caso, os 7 anos já passados pouco se notam (como é sabido, a evolução é mais lenta quanto maior for a garrafa), e a nossa maledicência vai mais para o estilo do que para o prazer que dá bebê-lo. Final médio de saída fina, admitimos que guloso. Bem puxámos ar pelo nariz, mas notas minerais, vegetais, ou outra coisa que fosse que não fruto madurão e alguma madeira (felizmente não excessiva), não encontrámos!

Um vinho "plano" este.
15,5

quinta-feira, maio 10, 2007

Marquesa de Cadaval (T) 2003


Existem vinhos que só nos surpreendem por nos surpreenderem quase nada. Cor cereja escura, nariz certeiro entre a baunilha e a fruta, corpo cheio e final elegante. Já definimos muitos vinhos assim, e este é mais um.

Muito polido, camadas de fruto guloso, mas pede-se mais exotismo ou "marotice" a este tinto. Na boca mostra-se equilibrado e cheio, mas pede-se mais garra e frescura. O que fazer? Bebê-lo (mais do que prová-lo), pois é do melhor que o Ribatejo para já nos dá. Pela evolução que leva estará perfeito para beber no final deste ano, e não parece ser daqueles que vai melhorar com a idade. Para quem prefere um pouco mais de "sangue na guelra" num tinto ribatejano, este talvez seja mais interessante.
17

terça-feira, maio 08, 2007

Lançamento/apresentação: The Wine Company

O Fernando Magalhães é daqueles jovens empreendedores que o país precisa. Depois de seis anos junto da família Baptista Fino a lançar os vinhos Monte da Penha seguiu um projecto próprio. Com a colaboração de dois sócios, fez nascer a sociedade The Wine Company a qual, segundo o próprio, “visa a distribuição de pequenos produtores de vinho de qualidade na região da Grande Lisboa, bem como de vinhos raros a nível nacional e internacional”.
A fim de promover este projecto (brevemente será lançado o respectivo site), decidiu juntar os produtores com alguns convidados e amigos num evento que decorreu no passado Domingo no novíssimo Hotel Grande Real Villa Itália em Cascais.

Breves apontamentos de uma grande prova:

VT (T) 2004 – 2.ª prova. Mantemos a opinião que se trata de um grande tinto, cor tinta-da-china e muita violeta, boca espantosa, grande final - imaginem um Pintas mas com alguma rusticidade.
Terrenus Res. (T) 2004 – Constantemente um dos nossos predilectos (ver  aqui para prova anterior).
Tributo (T) 2005 – Mais um belo tinto (a par do Terrenus) de Rui Reguinga. Taninos robustos e final elegante. Em todo o caso, preferimos o primeiro.
Quinta da Sequeira (B) 2006 Vinhas VelhasSo far, simplesmente um dos melhores brancos da colheita.
Quinta da Sequeira (R) 2006 – Belíssimo rosé à semelhança da colheita de 2005 (e do seu sucesso). A sensação de menos açúcar assegura maior secura, e o (nosso) palato agradece.
Canto X (T) 2005 – Alentejano "de gema", as vinhas situam-se entre Évora e Estremoz. Quem lhe nota a cor não espera o corpo e a estrutura que demonstra na boca. Muito gastronómico, num perfil genuíno.
Quinta Além-Tanha (T) Vinhas Velhas 2004 – Muita fruta e notas sedutoras de madeira neste tinto do Douro. Ainda está "em construção" e merece que se espere por ele.
Encostas de Estremoz (T) Reserva 2004 – Sempre gostámos dos afamados Touriga Nacional desta casa. Mais complexo, marcado pelo alicante e pela touriga franca, este Reserva está uns pontos acima. Grande compra.
Vale de Rotais (T) 2004 - Apresentação de mais um vinho do Douro Superior, de um novo produtor (julgo que a 1.ª colheia foi de 2001), feito por Luís Soares Duarte. Serão 2500 garrafas de um néctar elegante e distinto. Alguma força inicial, e um final longo.
Casa do Alegretre (T) 2004 – Já o tínhamos provado noutra ocasião. Um tinto de Portalegre bem feito, muito agradável a dar uma belíssima prova para já.

sexta-feira, maio 04, 2007

Um pouco lá por fora


Admito (sem falsa modéstia) que ninguém reparou na ausência de posts entre o dia 22 do mês passado e o dia 2 do corrente Maio. Na verdade, andei por fora de Portugal, pululando entre Holanda, Bélgica e Alemanha. Tudo em 10 dias, sem internet nem"agenda vinícola".
Apesar de me fazer bem pensar noutras coisas que não néctares engarrafados (diz-me o médico...), não consegui resistir a tomar apontamentos, a criar referências, enfim a tudo fazer para me lembrar sobre o escrever nestas linhas. E, assim sendo, deixo breves notas sobre aquilo que os meus olhos viram sobre nos referidos países. Sobre vinho, claro está.

1. Em primeiro lugar, confirma-se facilmente que o gosto pelo vinho – ou melhor, a moda do vinho – também explodiu noutros países (assumindo, como faço, que explodiu em Portugal). É hoje muito frequente a referência a wine bars de Amsterdão a Bruxelas, e, sobretudo, em Berlim. Em qualquer destas cidades europeias surgem "wieners", "enotekes" ou mesmo "enotecas" (como que escrito em Português) nas mais diversas esquinas. E em muito maior quantidade do que sucede no nosso país.
2. Em segundo lugar, à semelhança de Portugal, também existem hoje muitas garrafeiras e lojas especializadas por essa Europa fora (mais do que antes, de acordo com a minha experiência). E, neste particular, as garrafeiras portuguesas não ficam, em regra, a perder para as suas congéneres europeias. Em Berlim, o destaque vai para a "PlanetWine", uma loja fantástica no centro do Mitte com uma selecção prodigiosa de riesilings alemães e austríacos.
3. Depois, também os restaurantes lá fora privilegiam os vinhos. Nas casas mais afamadas de Berlim - como o "Vau" - deparei-me com cartas com mais de 600 vinhos (em Inglaterra ou em França, ou mesmo num ou outro em Espanha, chegam a ter quase mil). Nos locais certos, os preços não são tão inflacionados como na restauração nacional (maldita seja!). Mas claro... também existem aqueles restaurantes que andam à caça dos mais incautos e vendem vinhos três vezes o preço em loja. Mas atenção, os restaurantes de topo não apresentam geralmente qualquer falha no serviço do vinho.
4. Por fim, a nota menos feliz: o vinho português quase não se vê nos países referidos. Com excepção dos Portos, só o "Pintas" (na Alemanha por duas vezes me referiram o vinho quando me identifiquei como português), alguns gama alta da "Ferreirinha", e um ou outro verde branco (surpresa!) pouco se vê nas garrafeiras e menos ainda nos restaurantes. Ao invés, franceses, italianos e espanhóis (por ordem decrescente) dominam por todo o lado. Nos supermercados cabe ao "novo mundo" reinar. Até nos aviões da Luftansa onde se pode comprar pacotes de selecção de 6 vinhos de 6 países diferentes, Portugal não aparece.

quinta-feira, maio 03, 2007

Revista Blue Wine "on line"


Acaba de ser lançada na net a mais recente iniciativa editorial sobre vinhos. Num clique surge o ecrã principal onde se pode escolher entre reportagens (infelizmente não disponíveis), mundo gourmet, restaurantes, enoturismo, painel de provas entre outras opções. No painel de provas pode-se fazer pesquisas nos cerca de 800 vinhos (número mencionado pela publicação) provados para conhecer a opinião da BW.

Cada vez mais o mundo dos vinhos está online. Ainda bem!

(Será) Reacção ao movimento dos blogs?

quarta-feira, maio 02, 2007

Três Bagos Sauvignon (B) 2005


No regresso da iniciativa "Prova à Quinta", na qual os blogs e "comentaristas" enviam as suas provas na sequência de um desafio, a minha escolha foi para um dos meus brancos favoritos (o desafio do amigo Pingus era a prova de um vinho branco extreme).

Nariz a maracujá num conjunto tropical. Boca elegante, leve e suave, com notas alegres a groselha verde. Tem um lado vegetal muito bem integrado num conjunto que termina com um final citrino intenso.
Desde há uns bons anos para cá que se impõe como a melhor escolha preço/qualidade nos brancos nacionais (para prova da colheita de 2003 ver aqui). Nada pesado na boca, é todo ele prazer. Um sauvignon de muito bom porte e de preço razoável (a menos de 13 €) para tanta qualidade. Directamente de Mateus (Vila Real) - onde os ventos nocturnos frios permitem tanta frescura vinícola - para a nossa mesa.
Para mim, melhor sauvignon blanc só noutras latitudes e mais caro.
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domingo, abril 22, 2007

Apegadas: novidades...


Não é a primeira vez que escrevo sobre os vinhos desta quinta (ver aqui). Têm carácter, carácter duriense claro está, são frescos e elegantes. As novidades para este ano resumem-se a um rosé (2006) e ao colheita (2005), pois entendeu-se que as uvas não tinham a qualidade necessária para um reserva. Sacámos a rolha a ambas. Valeu muito a pena! Vejamos:


Apegadas (R) 2006: um rosado que parece ser versátil no binómio aperitivo vs. acompanhamento. Um vinho leve e de nariz muito frutado mas, ao mesmo tempo, de paladar sério, por vezes severo até. É um rosé que não prima pela alegria, mas antes pela seriedade. Mineral, de final longo, é irresistível. 15,5

Apegadas Quinta Velha (T) 2005: Nariz fresco com fruto franco, boca de acidez viva. Conjunto compacto, vermelho cereja, parcialmente estagiado em barricas novas por 12 meses. Um tinto muito equilibrado (apenas 13º), complexo, feito a partir de diversas castas tradicionais do Douro (touriga nacional, franca, barroca, roriz). Forte pendor gastronómico. 16