quarta-feira, março 28, 2007

Prazer a menos de 20€

Para o leitor cuja ansiedade acabou de aumentar com o título deste texto fica uma advertência: não se trata de um vinho, mas de dois. E não, cada um não custa 20€... os dois juntos, isso sim, quedam-se por esse preço.
Pois é, para quê comprar um bom vinho por 20€ quando, pelo mesmo preço, se pode comprar dois. O problema reside na dificuldade em adquirir os vinhos que se seguem, posto que não se encontram nos hiper ou supermercados, nem mesmo em qualquer garrafeira. Mas calma... também não são assim tão raros.


Gouvyas (T) 2003: Já não constitui novidade que os vinhos do João "Redrose" e de L. Soares Duarte são vinhos de puro prazer. Os próprios gostam de caracterizá-los como "gastronómicos". Quem sou eu para os contradizer, mas vou dizendo que, para mim, são muito mais do que isso. Este "Gouvyas 2003" nem sequer é o afamado "Vinhas Velhas" (18v. p/ RV), e – talvez heresia – é mesmo melhor escolha que o topo de gama numa mera relação de preço/qualidade. Nariz absolutamente perfumado – não costumo utilizar este adjectivo, mas neste tinto "assenta como uma luva" – com fruto irrepreensível e uma madeira muito discreta. Na boca é uma pequena tentação: guloso, intensamente centrado no fruto mas sem exuberância enfadonha, redondo e "sedosamente" macio. Final médio/médio+ saboroso, novamente com referências tímidas provenientes da madeira presentes num ou outro "tique balsâmico". A menos de 12€ na garrafeira "Coisas do Arco do Vinho" em Lisboa. 17

Monte da Cal Aragonês (T) 2004: Mais um "furo"na planície alentejana... e logo quando começávamos a pensar que os extremes de aragonês desta região não podiam mais surpreender. Um vinho cujo único pecado é bebê-lo já, pois certamente ganhará com mais um ou dois anos em garrafa (mas como resistir?). Este é, aliás, um dos aspectos muitos positivos deste tinto – apresenta-se jovem e sedutor, mas de taninos a pedirem cave. Nariz intenso a morangos muito maduros, a ameixa e, minutos depois... a esteva. Marcado pela "tinta da china", é um alentejano de carácter moderno onde as notas químicas se sobrepõem na boca ao fruto e uma madeira que (quase) não se nota. Final muito persistente, frescura proveniente do álcool (14,5º), secura nos lábios e apetite para mais. Atenção a esta marca (do grupo "Dão Sul") que dará que falar (uma dica mais: provem também o "Reserva 2003"). A menos de 8€ na garrafeira do ano/2006 (prémio RV) "Veneza" em Paderne (Algarve). 17

Torre do Frade Reserva (T) 2004

Em prova cega, e entre muitos vinhos, este Torre do Frade (T) Reserva destacou-se. Pela cor marcante, tinturada, aroma potente a lembrar bosque e fruto preto não confitado. Pelo corpo muito estrutrado, elegante mas afirmativo, e pelo seu final médio+/longo especiado e muito guloso. Um tinto "e tanto" do Alentejo, que merece ser conhecido. Se ao menos eu tivesse uma foto do rótulo... 16
PS: Nessa prova, na qual também estava o Rui, apenas um outro vinho se destacou ainda mais. Foi este.

terça-feira, março 27, 2007

RV de Março: um deleite

Se existiam razões para descansar depois de uma certamente exaustiva organização dos prémios "Os melhores do ano - 2007", a Revista dos Vinho (RV) não aproveitou a folga.
Na verdade, ao invés, a edição deste mês de Março (que só ontem comecei a ler) está das melhores que tenho memória. Entrevista oportuna (exclusiva?) aos dois grandes homens do momento, reportagens (se assim lhe posso chamar pois são muito mais do que isso) a partir da Quinta do Vale Meão e do berço do "Poeira", belíssima prova de vinhos internacionais (os espanhóis ficaram um pouco abaixo do que eu previa...), de colheitas do Noval, etc e etc.
Grande número da RV. A prova que a exigência da excelência pode muito bem ser de carácter mensal.

domingo, março 25, 2007

Dois tintos alentejanos em forma


Diz-se muito frequentemente que os tintos do Alentejo devem-se beber novos. Pegámos em dois exemplares que, não sendo propriamente antigos, já levam 4 e 6 anos desde a colheita, respectivamente. Não são, nem pretendem ser, os topos de gama das marcas respectivas, por isso maior era a expectativa na prova. Sem surpresas – agora digo eu – portaram-se ambos de forma muito positiva. Vejamos então.

  • Quatro Castas (T) 2002: Este tinto da Herdade do Esporão combina - como o próprio nome sugere - quatro castas e, faz já alguns anos, que se situa entre os monocasta do Esporão e os topos de gama "Private Selection", agora acompanhados do recém chegado Torre (T) 2004. Cor jovem, vermelho muito escura. Baunilha no nariz e fruta sedutora na boca (ameixas e morangos maduros). Não fosse aliás o devaneio da madeira, e estaria ainda melhor. Fizémos bem em servi-lo a uma temperatura de 16º. Final muito correcto. Está pronto a beber, e é muito saboroso. Admito que se possa guardar mais uns anos. Mas para quê? 16
  • Quinta da Terrugem (T) 2000: As portuguesas castas trincadeira e aragonês dão-nos aqui um vinho muito profundo e de perfil moderno (mas sem "modernices"). Todo ele está em bela forma (prefiro sempre os Terrugem com alguns anos, confesso). Nariz fechado mas em evolução. Corpo elegante, quase redondo. Na boca encontramos uma panóplia de sabores muito complexos e uma persistente presença de fruto de qualidade a transitar para algum balsâmico. Final médio+/longo. Está pronto a beber e irresistível para agradar. 16,5

terça-feira, março 20, 2007

Novidades de Celso Pereira


Só a imensa simpatia de Celso Pereira se atreve a superar as virtudes dos vinhos que ajuda a produzir. Por isso, a apresentação dos seus néctares mais recentes é sempre um momento de convívio e "bem beber". Este ano começámos pelos espumantes: o "cada-colheita-melhor" Vértice Reserva 2004 e o belíssimo Super Reserva (bruto zero) 2000. Após mais de uma década e meia a produzir belos espumantes, ninguém duvida da consistência desta marca das Caves Transmontanas. Depois, provou-se o Vértice (B) 2006 em amostra de casco, já que branco de 2005 não haverá para venda por não se ter conseguido a qualidade habitual.

Mas foi nos tintos que a coisa mais brilhou. A saber:

  • Vértice Grande Reserva (T) 2003: Cor vermelha escura muito bonita com ligeiro sinal de evolução. Corpo fino e elegante, dá a sensação imediata que é um vinho de perfil gastronómico. Fruto de qualidade, alguma menta e várias sensações a café (provenientes da madeira, segundo o enólogo) que se combinam num néctar com "pattine" e de final longo. Um mimo pronto a beber (preço aprox. 15€). 17
  • Quanta Terra Grande Reserva (T) 2004: Este projecto de João Alves e Celso Pereira continua a superar as expectativas ano após ano. Este 2004 é um caso muito sério: muito escuro na cor, nariz fresco e cintilante, fruta madura (mas longe da sobrematuração). É preciso esperar por ele, é preciso um copo a sério para o provar, mas nota-se uma capacidade de evoluir enorme. Pesado e cheio de corpo e juventude, é um tinto muito complexo que vai certamente dar que falar. Também pelo preço, a menos de 20€. 17,5

domingo, março 18, 2007

Churchill Estates 2004


Confesso que tinha algumas expectativas. Não pelos actuais "zuns-zuns" (nacionais e internacionais) em torno deste 2004, mas pela bela experiência que tive com o primeiro Churchill de mesa, o Churchill 1999. Era intenso, pujante, repleto de taninos agrestes, mas também era saboroso sem ter excesso de fruto maduro. Passou despercebido. Lembro-me de o provar ao jantar e, no dia seguinte, ter tido ainda mais prazer ao almoço com o que dele restou do dia anterior. Até o rótulo, singelo e discreto, era outro. Teria esse episódio decorrido numa época distante... (?) vendo bem, não foi assim há tanto tempo, passaram-se, talvez, menos de 5 anos. Por isso, uma advertência: este é um texto de algum amargo de boca.

Ora, na colheita de 2004, tudo está "politicamente correcto": tinto de cor quase opaca, com lágrima persistente, aroma transbordante a álcool, e um fruto vermelho maduro em compota que domina a prova de boca. Que saudades da força balsâmica do de 1999... Ao invés, o ora provado está mais calmo, muito mais amansado (pelo menos face o de 1999, pois tenho a certeza que alguns enófilos também encontrarão "potência" neste 2004), e revela um calor doce que certamente agradará a muita gente (a meio da janta penso que o deveria ter servido refrescado com a sobremesa). Enfim, parece querer juntar-se à lista - cada vez maior - dos tintos que retiram o "menos bom" da tinta roriz para se tornarem monótonos. Nem mesmo o álcool desmedido como dita a moda (14,5º) lhe dá frescura. Final médio+ com as mesmas características já abordadas.
Um tinto (bem) feito a pensar na grande quantidade de consumidores de tintos durienses. Agora percebo os "zuns-zuns"! Até o preço – a menos de 12€ - é acessível. Queremos dizer, é um bom preço para os seus apreciadores (que não faltarão).

14,5

sexta-feira, março 16, 2007

1 pato e 2 brunhedas


Estou a repetir-me se escrever que alguns dos pratos que mais rapidamente preparo para acompanhar vinhos têm como matéria prima o peito do pato (ou "magret", se preferirem a francesisse).

Coloco o lombo, com a pele virada para baixo, numa frigideira alta e grande e, numa primeira fritura, adiciono apenas temperos básicos (sal, pimenta, pouco mais). Depois, retiro o lombo do bicho, e é altura de desferir cortes como que a fatiar finamente, mas sem cortar totalmente em fatias. Passo então outra vez pela frigideira, agora com os outros ingredientes seguindo a imaginação. Dou prevalência a alguns produtos ácidos para cortar a gordura natural do pato (como fruta: laranja é um clássico) e/ou vinho do porto ("ruby" serve bem). Reforçar na pimenta também é essencial.

Para beber? Façam como nós que abrimos dois vinhos da casa duriense Brunheda. Um óptimo branco, à semelhança do que outros produtores vêm fazendo sobretudo do Douro, e um tinto da "velha guarda" com um toque feminino. Duas belas opções.

Vinha da Pala Reserva (B) 2004
Decantado e reintroduzido na garrafa, é mais um daqueles brancos que persegue os melhores da região. A partir de malvasia fina, códega do larinho e viosinho, e com 12 meses de carvalho francês está límpido na cor e fresco na boca. Falta-lhe algum fruto (de caroço, como gostamos), mas está redondo, com estrutura e peso adequado e acidez certeira. Fomos buscá-lo à garrafeira Veneza no Algarve. O preço rondava os 14€. 16,5

Brunheda Reserva (T) 2001
Que excelente cor rubi profunda e sem marca exposta de evolução. Nariz reduzido, com concentração e algum fruto de qualidade. Na boca está fresco, amplo, com acidez muito positiva. O fruto está menos presente, a evolução que não se nota na cor sente-se na boca. É um bom vinho, produzido a partir de castas tradicionais do Douro, ao qual parece faltar algum carácter mais robusto. Está elegante, talvez feminino... 12,5º de álcool é coisa rara nos dias de hoje. O preço não sabemos, pois saiu-nos em sorteio, faz anos, num dos belos jantares da garrafeira "Coisas do Arco do Vinho" em Lisboa. 16,5

quinta-feira, março 15, 2007

Prós e Contras: vinhos brancos nacionais



Muito curiosa a diferença de opiniões que ainda persiste na net sobre a qualidade dos vinhos brancos portugueses.

São os prós e contras...


PS: Basta ver os nossos últimos textos - somos definitivamente "pró".

quarta-feira, março 14, 2007

Francos (T) 2003

Produzido por José Neiva na sua quinta de Alenquer, este tinto está um furo acima da gama DFJ. O primeiro impacto é o da madeira, de excelente qualidade mas não totalmente integrada com a fruta. Esta aparece "de mansinho", pela calada... aroma a frutos maduros como manda a moda. Passada meia hora, a madeira perdura (quando parará?), enquanto que a fruta evolui para notas de canela, produtos lácteos, compota de morango e não faltam até as referências a frutos secos.
Um vinho de perfil moderno, guloso e com um final persistente. Mais um tinto da Estremadura - mais um tinto de Alenquer - de bom perfil. A menos de14 €.
16

domingo, março 11, 2007

Termeão "Pássaro Vermelho" (T) 2003


Perfume e diferença de estilo...
É assim este Termeão (T) 2003!

De um dos produtores mais dinâmicos do país – Manuel Campolargo, pois claro – vem este tinto cujas melhores qualidades, em nossa opinião, ficaram sintetizadas no primeiro período deste texto.
Perfume que não é uma novidade em vinhos da Bairrada, muito menos nos tintos de Campolargo, um produtor que parece sempre privilegiar a elegância em detrimento da força bruta. Aroma estreito, mas franco, tudo muito delicado, de tal modo suave que a touriga (em clara maioria) proporciona aqui um bouquet muito pouco usual para a casta. Digamos que mais... feminino.
Diferença de estilo que também é uma chancela do produtor bairradio que nos habituou aos mais diversos devaneios vinícolas, sempre de qualidade. Pois bem, não está opaco na cor, mas esta é belíssima. O corpo não é super concentrado, mas tem estrutura "para dar e vender". O final não é prolongadíssimo, mas é irresistível. Os taninos não são demolidores, mas está para durar.
Em suma, um belo tinto, a um preço não exagerado tendo em consideração a reduzida produção. Este é o "pássaro vermelho" (ver no rótulo), mas existe também o "pássaro branco" mais acessível. A menos de 18€.

16,5

quarta-feira, março 07, 2007

Monte da Ravasqueira (B) 2006


Aqui está outra surpresa no universo cada vez mais aliciante dos vinhos brancos nacionais abaixo dos 10€. Depois do nosso espanto no Douro (ver aqui), é a vez do Alentejo fazer chegar-nos este Monte da Ravasqueira (B) 2006 que tem tudo para ser um sucesso.

Aliadas a um corpo sólido, redondo até (bem sei que falamos de um branco...) - características provenientes do antão vaz - encontram-se surpreendentes sugestões de frescura inovidável, estas resultantes de uvas tão pouco comuns nas terras quentes do sul de Portugal como a alvarinho, viogner e semillon.

Mais algumas castas (este é um lote de seis castas) e temos este curiosíssimo vinho o qual, em rigor, é muito diferente de tudo o que temos provado em matéria de brancos altentejanos. Doçura graciosa na entrada de boca, bom corpo, leve mineral. Final médio+ com acidez ajustada, enfim tudo muito equilibrado e onde as sensações doces na boca não se mostram nada enjoativas. Por isso, é quase impossível não gostar deste branco. Um brancos que sobressai entre os seus pares alentejanos. Pela diferença de estilo, pela estreia, e mesmo pelo preço pedido, venham mais destas curiosidades...
Entre 5 € a 7,5 €, a ser comercializado em breve.

16

domingo, março 04, 2007

Amália Garcia (T) 2006


Às vezes deparamo-nos com vinhos assim... Diferentes, absolutamente impressionantes, vinhos para os quais os nossos sentidos não estão sequer preparados. É o caso deste Amália Garcia (T) 2006, provado em amostra de casco numa apresentação no restaurante e garrafeira "O Ganhão".

É um alicante bouschet 100%, sem qualquer estágio em madeira e com uns brutais 17,5º de graduação! O que dizer? Que é um monstro... no copo revela-se opaco, quase preto com auréola violácea e azul. Agita-se a mão, roda-se o copo, e um bloco compacto mexe-se de forma lenta e precisa - é incrível a estrutura deste vinho! O nariz está um pouco fechado, com fruta muito madura é certo, mas ainda tímido, com o "mundo a seus pés". A boca está viva, o álcool dá-lhe estrutura e muita frescura. Como é de esperar, por enquanto não existem aromas nem sabores secundários, é tudo um alicante muito maduro, daqueles que só o Alentejo pode proporcionar. Fruta, café moído, um pouco de menta e um enorme mar de paladares balsâmicos intensos com verniz e cera. Final pungente e longo.
É um tinto muito interessante, com a curiosidade da ausência de madeira, é um vinho com uma personalidade que não lhe advém apenas do elevado grau de álcool. O produtor Francisco Garcia (o vinho é uma homenagem à sr.ª sua mãe) vai engarrafar o vinho no próximo dia 15 de Março de 2007. Serão poucos milhares de garrafas a um preço esperado de cerca de 50 € cada. Agarre-o se puder!

17,5

sexta-feira, março 02, 2007

Espumantes: apenas pontuações





  • Porta da Traição s/ ano (s/ indicação de castas) 14

  • Vértice Reserva 2004 (s/ indicação de castas) 15,5

  • Muros Antigos 2004 (alvarelhão / alvarinho) 15,5

  • Borga 2004 (pinot noir / chardonnay) 16

  • Murganheira vintage 2002 (pinot noir) 17

PS: Bem sei que são apenas pontuações, e que foto é uma rolha de "Mumm", mas esta é a nossa maneira de desejar um óptimo fim-de-semana.

quinta-feira, março 01, 2007

Gambozinos Reserva (T) 2004


Mais um tinto duriense proveniente de um pequeno produtor à procura de um lugar ao sol. Mais um tinto bem feito, sem defeitos, apetecível até.

O Douro está com uma nova dinâmica. Juntamente com os "Douro Boys" tem surgido, mais recentemente, uma autêntica "nouveaux vague" com vinhos de gama "premium" muito interessantes. É como se existisse um Douro a duas velocidades, sendo que uma vaga pode muito bem aproveitar as sinergias criadas pela outra (e, naturalmente, o inverso), pelo que estamos perante uma tendência que nos parece muito positiva.

Pois bem, este Gambozinos Reserva – de pouco consensual talvez só tenha o nome comercial escolhido – tem uma bela cor, vermelha muito escura, e no copo mostra-se pesado e de álcool evidente. No nariz predomina a touriga (como vem sendo cada vez mais habitual) e os seus aromas florais, aqui um pouco rústicos e mais duros do que seria desejável. Na boca o vinho é bem curioso, se bem que parece hesitar entre um estilo rústico (que predomina) com algumas notas gulosas a fruta confitada e chocolate que o final acentua.
Em conclusão: temos vinho, e para beber nos próximos 5 anos. A menos de 12 €.

16
PS - Vejo que o Paulo anda a beber o mesmo que nós, aqui.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Calços do Tanha Reserva (T) 2004


Mais uma colheita de Calços do Tanha Reserva, e mais um bom vinho repleto de fruta madura. O estilo dos vinhos de Manuel Pinto Hespanhol são marcados pela fruta, mas não tendem a ser agressivamente doces, bem pelo contrário. Por outro lado, a ausência da touriga nacional no lote deste Reserva (apenas existe em versão monocasta, bem boa por sinal) torna este tinto um dos poucos durienses de qualidade sem recurso à "casta rainha portuguesa".
Não por isso, mas por muito mais (incluindo o preço estável faz anos), os vinhos do referido produtor têm vindo a fazer parte das nossas preferências (ver aqui, ali e ainda ali).

No copo é marcado por uma cor cereja escura no centro, e vermelha claro na auréola - aqui não existem opacidades! Nariz marcado pela fruta vermelha, muito mirtilho e framboesa. É um daqueles tintos que "vai directo ao assunto", muito personalizado, pelo que se torna um vinho sedutor e aprazível. Com o passar dos minutos no copo algumas notas de fruta preta destacam-se e o final, de média intensidade, traz consigo uma complexidade curiosa oriundo de um leve balsâmico e notas achocolatadas.

Em suma, tem tudo aquilo por que se espera de um Calços do Tanha Reserva. Ainda bem!
A menos de 14€.

16,5

domingo, fevereiro 25, 2007

Quinta dos Avidagos (B) 2005


Por esta é que não esperávamos...

Sabíamos que os tintos da casa Nunes de Matos eram valorosos – ver aqui – mas não esperávamos tanta qualidade neste Quinta dos Avidagos (B) 2005. Tanto mais que o preço anda pelos simpáticos 5 €, ou seja muito abaixo do que se cobra actualmente por um branco sério.

Pois bem este Avidagos branco é uma pequena maravilha, resultado de um lote de malvasia fina, gouveio real e vital. É-o logo no nariz, fresco, com notas pujantes a ananás e maracujá. Depois, uma boca leve, elegante e de textura ligeira ajuda as notas levemente citrinas a chegarem a "bom porto". Belo final, vivo, persistente mas não impositivo ou untuoso. Um branco no qual se pode confiar com a subida da temperatura no copo pois mantém-se deleitoso e de acidez graciosamente teimosa.

Talvez o melhor branco do Douro a menos de 10 €, neste caso bastante abaixo desse preço. É caso para abastecer a garrafeira!

16,5

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Terrenus Reserva (T) 2004


Este é já um dos nossos tintos predilectos resultantes da colheita de 2004.
É mesmo caso para dizer que podia muito bem ser um dos melhores do ano - e é mesmo para a RV, vejo agora na edição de Fevereiro.

Carácter vinioso, tudo muito intenso mas não demasiado marcante ou carregado. Toda uma consistência só possível quando se tratam de vinhas muito velhas. É um tinto seco, que começa fechado no nariz, talvez mesmo austero, mas depois revela-se um autêntico "poço sem fundo". É uma estrada sem fim no que toca a aromas, mas também na boca. Saboroso, é um tinto absolutamente sem qualquer traço de monotonia, um daqueles vinhos que até pode passar despercebido senão lhe dermos a atenção merecida.

Madeira delicada, sem excesso, final longo, e fruta sem maçar: que combinação de luxo! Faz tempo que o "terroir" da serra S. Mamede não nos oferecia um vinho assim. Parabéns ao enólogo/produtor Rui Reguinga.

A menos de 27 €, com direito a entrada directa para os nossos favoritos.

18

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Essencialmente...

Eram muitos os vinhos que me esperavam na Essência do Vinho. Estavam anunciados cerca de 2000, mas como o devaneio vai passando com a idade, apressei-me a provar alguns brancos no Sábado e menos tintos ainda no Domingo. Uma imperiosa pré-selecção impõe-se nestes eventos.
Entre os brancos que fiz questão de provar, gostei muito do Quinta da Sequeira (B) 2006 (vai dar que falar...), dos sempre inesperados Dona Berta Rabigato (B) 2005 e Escolha Pessoal Alves de Sousa (B) 2003, e do internacional e deveras perfumado Valle Pradinhos (B) 2005. Curiosamente, muitos dos brancos que mais destaque têm merecido junto da imprensa escrita mostraram-se, na minha boca, um pouco pesados e, em alguns casos, excessivamente madeirosos (num deles, por sinal um dos brancos mais cotados do mercado, cheguei a sentir notas intensas a café).
Nos tintos, o meu gosto virou-se à descoberta de novidades ou de néctares que ainda não tinha provado: Dona Maria Reserva (T) 2004 (infelizmente mais consensual e "fácil" que o maravilhoso 2003), Herdade do Meio Garrafeira (T) 2003 (vinho cheio e gordo, muito bom), Além Tanha VV (T) 2004 (grande salto de qualidade face os anteriores), Quinta da Sequeira Reserva (T) 2003 (o mesmo estilo rústico e directo da casa, mas com fruta mais acessível).
Perguntam-me: e o que dizer dos VT 04 (T), Secret Spot (T) 2004, JM (T) 2004, Talentus (T) 2004? O que dizer desses tintos durienses? Provei-os efectivamente (alguns já os tinha provado), e são realmente bons. Porém, salvo uma ou outra excepção, mostraram um perfil muito semelhante entre eles. Esta é aliás uma característica que começei a detectar nos grande vinhos do Douro e sobre a qual espero escrever mais no futuro. Talvez seja por fugirem a esse registo que alguns vinhos distintos - como o Abandonado (T) 2004 (muito exótico) e o Poeira (T) 2004 (intenso mas com muita frescura) - têm tido merecido maior sucesso. A ausência de contraste levou-me, por vezes quando necessitava de algo diferente, a seguir para o stand da "FineWines" e beber algo diferente... um Quinta Sardónia (T) 2004, por exemplo.
Destaque inevitável para algumas provas comentadas, sobretudo a de vinhos doces, ministrada por Rui Falcão, absolutamente inesquecível entre moscatéis de montanha, "icewines" e "tokais".
É verdade que a quantidade enorme de público torna o evento cansativo, mas esse parece ser o preço da conquista do público do Porto. A Essência do Vinho está consolidada como um dos maiores eventos vinícolas de Portugal.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Os melhores do ano - RV


Cabe aos leitores perdoar, ou não, o perscrutador autor destas linhas por não ter escrito mais cedo o que verdadeiramente se passou - não se pode confiar nas versões oficiais (LOL) - na passada sexta-feira, dia 16. O rigor de um fim de semana de copo na mão, mais uns dias a diambular por travessas de lampreia no Mondego, obrigou o autor a descanso e algum afastamento.
Tudo tomou lugar no belíssimo edifício da Alfândega no Porto para a atribuição dos prémios "Os melhores do ano - Revista dos Vinhos". Como sempre sucede nas cerimónias desta índole, foi prémios para aqui, prémios para ali, intervenções aqui e agradecimentos acolá. A melhor demonstração do impacto dos prémios da RV surge nos dias seguintes à cerimónia. No Sábado já se discutia se A Veneza foi merecedora do prémio de Garrafeira do Ano ("aquilo é um restaurante e não uma garrafeira" - ouviu-se em cada esquina). Dois dias depois ainda se duvidava que o prémio de enoturismo assentava bem à Quinta Nova Nossa Sr.ª do Carmo ("a piscina está sempre suja" - foi um comentário comum). Quanto a nós, como é sabido, gostamos de tanto de comer n' A Veneza (ver aqui e ali) como de pernoitar na Quinta Nova Nossa Sr.ª do Carmo (ver aqui). Por nós tudo bem, prémios bem entregues.
Discussões à parte, os prémios dos vinhos foram consensuais e passearam nas mãos de gente ilustre e conhecida como Domingos Alves de Sousa, Luís Duarte, Peter e Charles Symimgton. Também as equipes por detrás dos projectos Altas Quintas, Real Companhia Velha e Coop. de Santo Isidro de Pegões foram - e bem! - premiadas. O prémio especial entregue a José Quitério foi um verdadeiro momento de emoção, pelo menos para mim que acompanho as suas crónicas faz mais de uma década. Em suma, muitos parabéns à RV pelo fulgor em organizar, uma vez mais, um evento no qual o melhor do universo dos vinhos nacionais se encontra representado.
Mas naquele jantar – belíssimo jantar, fantásticas entradas, sobretudo se pensarmos que se tratavam de mais de 800 convivas – surgiu então algo de inesperado. A normalidade habitual neste tipo de eventos foi interrompida! Como se imagina, a composição das mesas encontrava-se ditada pelos vencedores, pelos produtores mais emblemáticos, por algumas figuras da cidade do Porto e demais convidados solenes, e, evidente, pelos jornalistas e provadores da RV. Ou seja, tudo como mandam os cânones. Porém, eis que, quase no fim da sala, firme se equilibrou a mesa n.º 81 com nove bravos delegados da "imprensa mais independente do país" (a frase é de um conhecido produtor). Por isso, e talvez só por isso, a surpresa da noite não foi o prémio atribuído à Bacalhôa Vinhos como Empresa do Ano de vinhos generosos!
A surpresa da noite foi a presença de nove blogistas, tão independentes que se mostraram mesmo independentes entre si. Foi quase impossível o consenso naquela mesa. Tão independentes e pró-activos que criticaram in loco os vinhos premiados, e poucos são capazes de imaginar o mal dizer que sofreram alguns prémios de excelência... Os blogistas não tiveram descanso, foi sempre a trabalhar. Vinhos premiados, vinhos raros, vinhos de preço altíssimo, uns e outros foram - ali mesmo na mesa n.º 81 - criticados sem apelo nem agravo.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Quinta do Gradil (T) 2003


Não se sabe ao certo se o Marquês de Pombal chegou a ser mesmo o proprietário da Quinta do Gradil (na altura com outra denominação), mas o rumor perdura pelos suaves vales verdes da Estremadura. Perdidas na lindíssima zona do Cadaval - na qual é merecido o passeio, e aproveitem para almoçar no restaurante "O Lagar" -, ficam as vinhas de touriga nacional, alicante bouschet e syrah das quais resultam este vinho. A imagem gráfica da garrafa surge apelativa, e o néctar tem "arrancado" boas classificações um pouco por todos os anuários.
No copo a cor é muito bonita com um tom vermelho escuro curioso, é mesmo um pouco diferente do habitual: imaginem um morango muito maduro e estaremos lá perto. O nariz é intenso e provocador, mas está muito perto de tantos outros vinhos provados. Existe pouca novidade num "bouquet" vinioso, com notas de madeira nova e referências a geleia e compota.
Na boca é mais interessante, profundamente rústico, um paladar amargo de taninos marcados, balsâmico médio e uma fruta muito negra anti-doce. Final médio onde o carácter duro se mantém e realça. Uma meia hora depois surge fumo e algum couro. Sem dúvida um vinho marcante, de carácter robusto e bem feito. É um vinho que está a meio caminho entre a Estremadura de hoje e o seu futuro. Acompanhará bem queijos fortes e pratos puxavantes. A menos de 12 €.

16