quarta-feira, março 14, 2007

Francos (T) 2003

Produzido por José Neiva na sua quinta de Alenquer, este tinto está um furo acima da gama DFJ. O primeiro impacto é o da madeira, de excelente qualidade mas não totalmente integrada com a fruta. Esta aparece "de mansinho", pela calada... aroma a frutos maduros como manda a moda. Passada meia hora, a madeira perdura (quando parará?), enquanto que a fruta evolui para notas de canela, produtos lácteos, compota de morango e não faltam até as referências a frutos secos.
Um vinho de perfil moderno, guloso e com um final persistente. Mais um tinto da Estremadura - mais um tinto de Alenquer - de bom perfil. A menos de14 €.
16

domingo, março 11, 2007

Termeão "Pássaro Vermelho" (T) 2003


Perfume e diferença de estilo...
É assim este Termeão (T) 2003!

De um dos produtores mais dinâmicos do país – Manuel Campolargo, pois claro – vem este tinto cujas melhores qualidades, em nossa opinião, ficaram sintetizadas no primeiro período deste texto.
Perfume que não é uma novidade em vinhos da Bairrada, muito menos nos tintos de Campolargo, um produtor que parece sempre privilegiar a elegância em detrimento da força bruta. Aroma estreito, mas franco, tudo muito delicado, de tal modo suave que a touriga (em clara maioria) proporciona aqui um bouquet muito pouco usual para a casta. Digamos que mais... feminino.
Diferença de estilo que também é uma chancela do produtor bairradio que nos habituou aos mais diversos devaneios vinícolas, sempre de qualidade. Pois bem, não está opaco na cor, mas esta é belíssima. O corpo não é super concentrado, mas tem estrutura "para dar e vender". O final não é prolongadíssimo, mas é irresistível. Os taninos não são demolidores, mas está para durar.
Em suma, um belo tinto, a um preço não exagerado tendo em consideração a reduzida produção. Este é o "pássaro vermelho" (ver no rótulo), mas existe também o "pássaro branco" mais acessível. A menos de 18€.

16,5

quarta-feira, março 07, 2007

Monte da Ravasqueira (B) 2006


Aqui está outra surpresa no universo cada vez mais aliciante dos vinhos brancos nacionais abaixo dos 10€. Depois do nosso espanto no Douro (ver aqui), é a vez do Alentejo fazer chegar-nos este Monte da Ravasqueira (B) 2006 que tem tudo para ser um sucesso.

Aliadas a um corpo sólido, redondo até (bem sei que falamos de um branco...) - características provenientes do antão vaz - encontram-se surpreendentes sugestões de frescura inovidável, estas resultantes de uvas tão pouco comuns nas terras quentes do sul de Portugal como a alvarinho, viogner e semillon.

Mais algumas castas (este é um lote de seis castas) e temos este curiosíssimo vinho o qual, em rigor, é muito diferente de tudo o que temos provado em matéria de brancos altentejanos. Doçura graciosa na entrada de boca, bom corpo, leve mineral. Final médio+ com acidez ajustada, enfim tudo muito equilibrado e onde as sensações doces na boca não se mostram nada enjoativas. Por isso, é quase impossível não gostar deste branco. Um brancos que sobressai entre os seus pares alentejanos. Pela diferença de estilo, pela estreia, e mesmo pelo preço pedido, venham mais destas curiosidades...
Entre 5 € a 7,5 €, a ser comercializado em breve.

16

domingo, março 04, 2007

Amália Garcia (T) 2006


Às vezes deparamo-nos com vinhos assim... Diferentes, absolutamente impressionantes, vinhos para os quais os nossos sentidos não estão sequer preparados. É o caso deste Amália Garcia (T) 2006, provado em amostra de casco numa apresentação no restaurante e garrafeira "O Ganhão".

É um alicante bouschet 100%, sem qualquer estágio em madeira e com uns brutais 17,5º de graduação! O que dizer? Que é um monstro... no copo revela-se opaco, quase preto com auréola violácea e azul. Agita-se a mão, roda-se o copo, e um bloco compacto mexe-se de forma lenta e precisa - é incrível a estrutura deste vinho! O nariz está um pouco fechado, com fruta muito madura é certo, mas ainda tímido, com o "mundo a seus pés". A boca está viva, o álcool dá-lhe estrutura e muita frescura. Como é de esperar, por enquanto não existem aromas nem sabores secundários, é tudo um alicante muito maduro, daqueles que só o Alentejo pode proporcionar. Fruta, café moído, um pouco de menta e um enorme mar de paladares balsâmicos intensos com verniz e cera. Final pungente e longo.
É um tinto muito interessante, com a curiosidade da ausência de madeira, é um vinho com uma personalidade que não lhe advém apenas do elevado grau de álcool. O produtor Francisco Garcia (o vinho é uma homenagem à sr.ª sua mãe) vai engarrafar o vinho no próximo dia 15 de Março de 2007. Serão poucos milhares de garrafas a um preço esperado de cerca de 50 € cada. Agarre-o se puder!

17,5

sexta-feira, março 02, 2007

Espumantes: apenas pontuações





  • Porta da Traição s/ ano (s/ indicação de castas) 14

  • Vértice Reserva 2004 (s/ indicação de castas) 15,5

  • Muros Antigos 2004 (alvarelhão / alvarinho) 15,5

  • Borga 2004 (pinot noir / chardonnay) 16

  • Murganheira vintage 2002 (pinot noir) 17

PS: Bem sei que são apenas pontuações, e que foto é uma rolha de "Mumm", mas esta é a nossa maneira de desejar um óptimo fim-de-semana.

quinta-feira, março 01, 2007

Gambozinos Reserva (T) 2004


Mais um tinto duriense proveniente de um pequeno produtor à procura de um lugar ao sol. Mais um tinto bem feito, sem defeitos, apetecível até.

O Douro está com uma nova dinâmica. Juntamente com os "Douro Boys" tem surgido, mais recentemente, uma autêntica "nouveaux vague" com vinhos de gama "premium" muito interessantes. É como se existisse um Douro a duas velocidades, sendo que uma vaga pode muito bem aproveitar as sinergias criadas pela outra (e, naturalmente, o inverso), pelo que estamos perante uma tendência que nos parece muito positiva.

Pois bem, este Gambozinos Reserva – de pouco consensual talvez só tenha o nome comercial escolhido – tem uma bela cor, vermelha muito escura, e no copo mostra-se pesado e de álcool evidente. No nariz predomina a touriga (como vem sendo cada vez mais habitual) e os seus aromas florais, aqui um pouco rústicos e mais duros do que seria desejável. Na boca o vinho é bem curioso, se bem que parece hesitar entre um estilo rústico (que predomina) com algumas notas gulosas a fruta confitada e chocolate que o final acentua.
Em conclusão: temos vinho, e para beber nos próximos 5 anos. A menos de 12 €.

16
PS - Vejo que o Paulo anda a beber o mesmo que nós, aqui.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Calços do Tanha Reserva (T) 2004


Mais uma colheita de Calços do Tanha Reserva, e mais um bom vinho repleto de fruta madura. O estilo dos vinhos de Manuel Pinto Hespanhol são marcados pela fruta, mas não tendem a ser agressivamente doces, bem pelo contrário. Por outro lado, a ausência da touriga nacional no lote deste Reserva (apenas existe em versão monocasta, bem boa por sinal) torna este tinto um dos poucos durienses de qualidade sem recurso à "casta rainha portuguesa".
Não por isso, mas por muito mais (incluindo o preço estável faz anos), os vinhos do referido produtor têm vindo a fazer parte das nossas preferências (ver aqui, ali e ainda ali).

No copo é marcado por uma cor cereja escura no centro, e vermelha claro na auréola - aqui não existem opacidades! Nariz marcado pela fruta vermelha, muito mirtilho e framboesa. É um daqueles tintos que "vai directo ao assunto", muito personalizado, pelo que se torna um vinho sedutor e aprazível. Com o passar dos minutos no copo algumas notas de fruta preta destacam-se e o final, de média intensidade, traz consigo uma complexidade curiosa oriundo de um leve balsâmico e notas achocolatadas.

Em suma, tem tudo aquilo por que se espera de um Calços do Tanha Reserva. Ainda bem!
A menos de 14€.

16,5

domingo, fevereiro 25, 2007

Quinta dos Avidagos (B) 2005


Por esta é que não esperávamos...

Sabíamos que os tintos da casa Nunes de Matos eram valorosos – ver aqui – mas não esperávamos tanta qualidade neste Quinta dos Avidagos (B) 2005. Tanto mais que o preço anda pelos simpáticos 5 €, ou seja muito abaixo do que se cobra actualmente por um branco sério.

Pois bem este Avidagos branco é uma pequena maravilha, resultado de um lote de malvasia fina, gouveio real e vital. É-o logo no nariz, fresco, com notas pujantes a ananás e maracujá. Depois, uma boca leve, elegante e de textura ligeira ajuda as notas levemente citrinas a chegarem a "bom porto". Belo final, vivo, persistente mas não impositivo ou untuoso. Um branco no qual se pode confiar com a subida da temperatura no copo pois mantém-se deleitoso e de acidez graciosamente teimosa.

Talvez o melhor branco do Douro a menos de 10 €, neste caso bastante abaixo desse preço. É caso para abastecer a garrafeira!

16,5

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Terrenus Reserva (T) 2004


Este é já um dos nossos tintos predilectos resultantes da colheita de 2004.
É mesmo caso para dizer que podia muito bem ser um dos melhores do ano - e é mesmo para a RV, vejo agora na edição de Fevereiro.

Carácter vinioso, tudo muito intenso mas não demasiado marcante ou carregado. Toda uma consistência só possível quando se tratam de vinhas muito velhas. É um tinto seco, que começa fechado no nariz, talvez mesmo austero, mas depois revela-se um autêntico "poço sem fundo". É uma estrada sem fim no que toca a aromas, mas também na boca. Saboroso, é um tinto absolutamente sem qualquer traço de monotonia, um daqueles vinhos que até pode passar despercebido senão lhe dermos a atenção merecida.

Madeira delicada, sem excesso, final longo, e fruta sem maçar: que combinação de luxo! Faz tempo que o "terroir" da serra S. Mamede não nos oferecia um vinho assim. Parabéns ao enólogo/produtor Rui Reguinga.

A menos de 27 €, com direito a entrada directa para os nossos favoritos.

18

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Essencialmente...

Eram muitos os vinhos que me esperavam na Essência do Vinho. Estavam anunciados cerca de 2000, mas como o devaneio vai passando com a idade, apressei-me a provar alguns brancos no Sábado e menos tintos ainda no Domingo. Uma imperiosa pré-selecção impõe-se nestes eventos.
Entre os brancos que fiz questão de provar, gostei muito do Quinta da Sequeira (B) 2006 (vai dar que falar...), dos sempre inesperados Dona Berta Rabigato (B) 2005 e Escolha Pessoal Alves de Sousa (B) 2003, e do internacional e deveras perfumado Valle Pradinhos (B) 2005. Curiosamente, muitos dos brancos que mais destaque têm merecido junto da imprensa escrita mostraram-se, na minha boca, um pouco pesados e, em alguns casos, excessivamente madeirosos (num deles, por sinal um dos brancos mais cotados do mercado, cheguei a sentir notas intensas a café).
Nos tintos, o meu gosto virou-se à descoberta de novidades ou de néctares que ainda não tinha provado: Dona Maria Reserva (T) 2004 (infelizmente mais consensual e "fácil" que o maravilhoso 2003), Herdade do Meio Garrafeira (T) 2003 (vinho cheio e gordo, muito bom), Além Tanha VV (T) 2004 (grande salto de qualidade face os anteriores), Quinta da Sequeira Reserva (T) 2003 (o mesmo estilo rústico e directo da casa, mas com fruta mais acessível).
Perguntam-me: e o que dizer dos VT 04 (T), Secret Spot (T) 2004, JM (T) 2004, Talentus (T) 2004? O que dizer desses tintos durienses? Provei-os efectivamente (alguns já os tinha provado), e são realmente bons. Porém, salvo uma ou outra excepção, mostraram um perfil muito semelhante entre eles. Esta é aliás uma característica que começei a detectar nos grande vinhos do Douro e sobre a qual espero escrever mais no futuro. Talvez seja por fugirem a esse registo que alguns vinhos distintos - como o Abandonado (T) 2004 (muito exótico) e o Poeira (T) 2004 (intenso mas com muita frescura) - têm tido merecido maior sucesso. A ausência de contraste levou-me, por vezes quando necessitava de algo diferente, a seguir para o stand da "FineWines" e beber algo diferente... um Quinta Sardónia (T) 2004, por exemplo.
Destaque inevitável para algumas provas comentadas, sobretudo a de vinhos doces, ministrada por Rui Falcão, absolutamente inesquecível entre moscatéis de montanha, "icewines" e "tokais".
É verdade que a quantidade enorme de público torna o evento cansativo, mas esse parece ser o preço da conquista do público do Porto. A Essência do Vinho está consolidada como um dos maiores eventos vinícolas de Portugal.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Os melhores do ano - RV


Cabe aos leitores perdoar, ou não, o perscrutador autor destas linhas por não ter escrito mais cedo o que verdadeiramente se passou - não se pode confiar nas versões oficiais (LOL) - na passada sexta-feira, dia 16. O rigor de um fim de semana de copo na mão, mais uns dias a diambular por travessas de lampreia no Mondego, obrigou o autor a descanso e algum afastamento.
Tudo tomou lugar no belíssimo edifício da Alfândega no Porto para a atribuição dos prémios "Os melhores do ano - Revista dos Vinhos". Como sempre sucede nas cerimónias desta índole, foi prémios para aqui, prémios para ali, intervenções aqui e agradecimentos acolá. A melhor demonstração do impacto dos prémios da RV surge nos dias seguintes à cerimónia. No Sábado já se discutia se A Veneza foi merecedora do prémio de Garrafeira do Ano ("aquilo é um restaurante e não uma garrafeira" - ouviu-se em cada esquina). Dois dias depois ainda se duvidava que o prémio de enoturismo assentava bem à Quinta Nova Nossa Sr.ª do Carmo ("a piscina está sempre suja" - foi um comentário comum). Quanto a nós, como é sabido, gostamos de tanto de comer n' A Veneza (ver aqui e ali) como de pernoitar na Quinta Nova Nossa Sr.ª do Carmo (ver aqui). Por nós tudo bem, prémios bem entregues.
Discussões à parte, os prémios dos vinhos foram consensuais e passearam nas mãos de gente ilustre e conhecida como Domingos Alves de Sousa, Luís Duarte, Peter e Charles Symimgton. Também as equipes por detrás dos projectos Altas Quintas, Real Companhia Velha e Coop. de Santo Isidro de Pegões foram - e bem! - premiadas. O prémio especial entregue a José Quitério foi um verdadeiro momento de emoção, pelo menos para mim que acompanho as suas crónicas faz mais de uma década. Em suma, muitos parabéns à RV pelo fulgor em organizar, uma vez mais, um evento no qual o melhor do universo dos vinhos nacionais se encontra representado.
Mas naquele jantar – belíssimo jantar, fantásticas entradas, sobretudo se pensarmos que se tratavam de mais de 800 convivas – surgiu então algo de inesperado. A normalidade habitual neste tipo de eventos foi interrompida! Como se imagina, a composição das mesas encontrava-se ditada pelos vencedores, pelos produtores mais emblemáticos, por algumas figuras da cidade do Porto e demais convidados solenes, e, evidente, pelos jornalistas e provadores da RV. Ou seja, tudo como mandam os cânones. Porém, eis que, quase no fim da sala, firme se equilibrou a mesa n.º 81 com nove bravos delegados da "imprensa mais independente do país" (a frase é de um conhecido produtor). Por isso, e talvez só por isso, a surpresa da noite não foi o prémio atribuído à Bacalhôa Vinhos como Empresa do Ano de vinhos generosos!
A surpresa da noite foi a presença de nove blogistas, tão independentes que se mostraram mesmo independentes entre si. Foi quase impossível o consenso naquela mesa. Tão independentes e pró-activos que criticaram in loco os vinhos premiados, e poucos são capazes de imaginar o mal dizer que sofreram alguns prémios de excelência... Os blogistas não tiveram descanso, foi sempre a trabalhar. Vinhos premiados, vinhos raros, vinhos de preço altíssimo, uns e outros foram - ali mesmo na mesa n.º 81 - criticados sem apelo nem agravo.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Quinta do Gradil (T) 2003


Não se sabe ao certo se o Marquês de Pombal chegou a ser mesmo o proprietário da Quinta do Gradil (na altura com outra denominação), mas o rumor perdura pelos suaves vales verdes da Estremadura. Perdidas na lindíssima zona do Cadaval - na qual é merecido o passeio, e aproveitem para almoçar no restaurante "O Lagar" -, ficam as vinhas de touriga nacional, alicante bouschet e syrah das quais resultam este vinho. A imagem gráfica da garrafa surge apelativa, e o néctar tem "arrancado" boas classificações um pouco por todos os anuários.
No copo a cor é muito bonita com um tom vermelho escuro curioso, é mesmo um pouco diferente do habitual: imaginem um morango muito maduro e estaremos lá perto. O nariz é intenso e provocador, mas está muito perto de tantos outros vinhos provados. Existe pouca novidade num "bouquet" vinioso, com notas de madeira nova e referências a geleia e compota.
Na boca é mais interessante, profundamente rústico, um paladar amargo de taninos marcados, balsâmico médio e uma fruta muito negra anti-doce. Final médio onde o carácter duro se mantém e realça. Uma meia hora depois surge fumo e algum couro. Sem dúvida um vinho marcante, de carácter robusto e bem feito. É um vinho que está a meio caminho entre a Estremadura de hoje e o seu futuro. Acompanhará bem queijos fortes e pratos puxavantes. A menos de 12 €.

16

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Os suspeitos do costume

Nem só vinhos portugueses nós vivemos. São também momentos de enorme prazer aqueles em que nos sentamos num bom restaurante em Espanha e nos deixamos levar pelos belos néctares do país vizinho. Parámos em Segóvia, jantámos cochinillo no Cândido e bebemos muito bem...
A primeira nota do jantar vai direita ao preço dos vinhos: nenhum vinho custava mais do que o 1/3 do seu preço em garrafeira! Se a restauração nacional fosse assim, talvez o país não tivesse excedente de vinho e talvez a restauração não fosse um sector onde se apregoa sempre a maldita crise.
A segunda nota foi a diversidade das regiões visitadas. Começamos em Rueda com o belíssimo Palacio del Bornos Barrica (B) 2001, um branco sumptuoso, de cor carregada, com um verdelho menos fresco do que o habitual na região mas de patine excelsa, um branco aristocrata. Depois os tintos e entre estes, alguns dos suspeitos do costume que encontramos quando visitamos Espanha. O muito saboroso San Roman (T) 2003 a mostrar a força e a cor dos vinhos de Toro, carregado de fruta, verniz e "after-eight". Mas também o sempre gastronómico e mui complexo Allion (T) 2001, um tinto feito para a mesa que revelou notas vegetais majestosas provando que Ribera del Duero não é só (ou não é sobretudo) novo-mundo. E claro, o poder de atracção do magnífico Clos Martinet (T) 2001, um Priorat de respeito, ainda jovem com notas fortes a madeira, uma fruta doce muito impudica e um final interminável.
Uma noite imperdível.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Próximos prazeres


Já não se pode aceitar que alguém diga que o vinho português não tem momentos de exposição onde pode ser livremente valorado e apreciado. Em Portugal os certames de vinho estão na moda e ainda bem. Cada vez mais bem organizados, cada vez com mais público (importa, contudo, saber se se trata de um verdadeiro movimento de massas ou apenas uma minoria em cada vez maior número), cada vez com mais expositores, enfim cada vez mais apelativos.
Nos próximos dias 16, 17 e 18 de Fevereiro é a vez da Essência do Vinho (ver programa no site oficial aqui) mostrar o seu valor com um programa ambicioso que promete muita actividade. O local é o do costume, no Palácio da Bolsa, cabendo ao mercado Ferreira Borges receber um verdadeira feira "gourmet". O preço dos bilhetes, como sucede noutros certames, é praticamente simbólico tendo em conta o que pode beber, aprender e conviver. Existirão convidados especiais, provas comentadas, jantares temáticos, descontos, etc. Não existem desculpas para não ir...
Na noite de 16 de Fevereiro, também no Porto, será feita a entrega dos prémios da Revista dos Vinhos, também conhecida pela noite dos "Óscares" no que toca à enofilia nacional. Uma noite sempre especial – já vai na décima edição, é obra! – que irá premiar os melhores néctares, produtores, enólogos e restaurantes, entre muitos outros.
Posto que vamos marcar presença em ambos os eventos, na nossa querida cidade do Porto – é que não existem mesmo razões para não ir... – procuraremos dar o "feedback" de tanta animação e convívio à volta do vinho. Estamos a viver talvez o momento mais activo no que toca a certames e feiras sobre vinho em Portugal. Por isso, toca a aproveitar, "penso eu de que" (cit.)!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Casa de Aguiar (T) 2004


Já não era a primeira vez que tamanha força nos passara pelo estreito. A anterior foi com a colheita de 2002 (ver aqui) e apreciámos tanto que tivemos que repetir, mas agora com as uvas de 2004. Como gostámos ainda mais deste, foi nossa escolha para representar as Beiras no texto "2006 em revista".

Muito vivo na cor carmim intensa. Vivo e vibrante também no copo, nariz algo reduzido, sensação a álcool e a percepção de uma acidez muito interessante. Forte concentração num corpo já perto de se tornar retinto. Apimentado, com notas vegetais, é um tinto forte, que merece um prato robusto a preceito. Final balsâmico de média-longa intensidade. Com um estilo menos rústico que o 2002, apresenta-se mais redondo, gordo... e eu agradeço.
De mim para mim, teremos de esperar um pouco para que a força descanse. A garrafa fará certamente o resto, guarde 1 ou 2 anos. Mais um belo tinto do universo das "
Caves Aliança"! Quando o bebi pensei num cozido das beiras sem couves, mas não o estava a comer. A menos de 10 €.

17

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Pedra Basta (T) 2005


Faz hoje uma exacta semana que provámos, em "estreia mundial", o mais recente fruto da colaboração entre Richard Mayson e Rui Reguinga (ver foto à direita). Ambos dispensam apresentações cabendo apenas referir que o primeiro, antigo crítico da revista "Decanter", é o novo proprietário da Quinta do Centro bem próximo de Portalegre e da Serra de São Mamede, e o segundo dá o respectivo apoio enológico. A prova decorreu em mais um jantar brilhantemente organizado pelas Coisas do Arco do Vinho no restaurante "A Commenda" em Belém.
Mas vamos ao vinho, o Pedra Basta (T) 2005: é um lote de trincadeira, aragonês, alicante bouschet e cabernet sauvignon que se apresenta correcto na cor, viva e saudável. Nariz jovem, com intensidade, mas é madeira que mais se sente "narinas a fora". O conjunto é doce com a fruta saborosa que não chega a ser sobremadura. Pareceu-nos novo, a precisar muito de garrafa pois a madeira (que é de boa qualidade) está para um lado, e o resto - por enquanto só fruta e um breve balsâmico... - está para o outro.
O final é consensual, do tipo novo mundo, mas não é um espanto. No fim ficámos satisfeitos ao saber que este será o vinho de entrada na gama de Richard Mayson que irá lançar mais dois vinhos. Para estreia e vinho de base está muito bem.
15,5

terça-feira, janeiro 30, 2007

Vinhos da Quinta da Atela



Uma das regiões que cedo arrancou com projectos com "pés e cabeça" foi o Ribatejo. É difícil saber o futuro da região, mas, em rigor, é difícil saber qual o futuro de várias regiões portuguesas - o que fazer com tanta vinha e com tanto vinho?. Às portas de Lisboa, o Ribatejo tem vindo a aproveitar a grande quantidade de vinha que dispõe para elaborar vinhos com preços comedidos e qualidade certeira. Acresce que a aposta de muitos produtores em tintos de carácter moderno e internacional deu um empurrão adicional para colocar a região no mapa. E bem o merece!
Ora, situada neste mesmo Ribatejo, mais concretamente no Concelho de Alpiarça, ficam os 600 hectares da
Quinta da Atela, com regadio, montado e vinha. Pertencente à mesma família há várias gerações, foi contudo nos anos noventa que teve lugar uma importante reestruturação da vinha, e, já em 2003, uma profunda reestruturação na adega.
A gama dos vinhos é variada, mas os mais interessantes carregam o nome da casa. Destes provámos 3, um surpreendente sauvignon e dois tintos.
  • Quinta da Atela Sauvignon (B) 2005: Que surpresa! Um nariz fantástico, mineral e muito herbáceo. Na boca é suave, notas a toranja que transmitem uma sensação amarga típica da casta. Bom corpo mas nada pesado ou chato. Elegante e muito afinado é um dos melhores brancos das terras ribatejanas que já provei. A menos de 5 € é um excelente preço. 16
  • Quinta da Atela Merlot (T) 2004: No copo mostra-se com ligeira concentração, cor cereja suave. O nariz está noviço e com força, transborda framboesa, compota de morangos e álcool no "retronassal". Linear na boca, ataque dócil, mantém-se a percepção da casta francesa com frutos vermelhos exuberantes e... novamente o álcool. Final de média intensidade, taninos no sítio, mas a dar boa prova para já. O carácter didáctico (merlot bem marcado), e facto de estar pronto a beber (álcool à parte) são o melhor a retirar deste vinho. A menos de 7 €. 15
  • Quinta da Atela (T) 2004: Por ser de um lote no qual entra um bom punhado de castas está bem melhor e menos linear que o extreme merlot. Aroma franco, acidez elegante, fresco e frutado. Sentem-se o syrah e o merlot na boca com muita fruta, enquanto o nariz mantém-se apimentado pelo cabernet. Suave, redondo, bom final (médio/longo), poderá beneficiar com mais 1 ano de garrafa. Um tinto muito interessante e mais complexo do que é costume no Ribatejo. A menos de 12 € não é propriamente caro.16

quinta-feira, janeiro 25, 2007

AALTO (T) 2001


Este é um daqueles vinhos recentes mas já com alguma história. Estórias, melhor dizendo e quase todas em torno dos seus fundadores carismáticos Mariano García (Bodegas Mauro, ex-Vega Sicilia) e Javier Zaccagnini (presidente durante anos do "Consejo Regulador de Ribera del Duero"). A bodega foi fundada em plena Ribera em 1998 e, desde a primeira colheita, tem coleccionado 90 e mais pontos atribuídos pelo Sr. Robert Parker. Com este início, está bem de ver, é só sucessos, contanto agora com um topo de gama ainda mais impressionante: o "Aalto PS (T)".
Sucede que não é por estas exéquias que a minha garrafa é (era!) especial. Lembro-me sim de ter parado o jipe, faz quase dois anos, fazer depois uma perigosa inversão de marcha e ter voltado para a direcção de Peñafiel. Na primeira tienda de "vinos y quesos" que encontrei comprei-a por um preço que hoje parecerá ridículo. Que viagem!
Mas, vamos ao nosso AALTO (T) 2001, o qual impressiona logo na cor, lindíssima num rubi muito escuro sem qualquer sinal aparente de evolução e escondendo os mais de 20 meses (é verdade!) de estágio em barrica. O nariz começa com muita fruta no primeiro impacto - é impossível não recordar o cheio característico do tempranillo espalhado pelas bodegas de Pesquera. Depois, pouco depois, evolui para um conjunto extraordinário de aromas minerais, fumo e um fundo vegetal e terra molhada. Na boca, frutos negros e tabaco voltam a repartir o jogo das sensações, algum final de boca animal que não chega a desagradar e taninos ainda totalmente firmes. Este está daqueles tintos "que dura e dura...". Final médio/longo que peca por não ser saboroso. No geral, um pouco mais guloso e seria perto da perfeição.


17,5

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Carmim Aragonês (T) 2004


Cor rubi escura, aureola clareada e muitos indícios de falta de concentração. Nariz com referências obvias à casta mas tudo muito limitado. Na boca está muito fraco, fruta monótona, sem qualquer intensidade e alguma madeira queimada enjoativa. Corpo inexpressivo e um final... mas qual final?
Um vinho que faz lembrar algumas "coisas" que já não provava faz tempo. Com este vinho a Adega Cooperativa de Monsaraz recua anos em termos de qualidade ("não havia necessidade"). Uma vila tão bonita merece melhor vinho! Vale o carácter aromático no início de prova para o salvar de uma nota mais próxima da negativa.
A menos de 5 €, mas não se recomenda a compra.

13
PS - A foto foi pedida de empréstimo ao Pedro, ao qual agradecemos.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Quinta do Além Tanha (T) 2001

É caso para dizer: a importância do estágio em garrafa!
É assente que o estágio em garrafa assume, à semelhança do estágio em barrica, uma importância fulcral no resultado final de um vinho. A tendência recente de colocação dos vinhos no mercado após um ano (nos brancos) ou dois (nos tintos) da colheita faz com que alguns néctares sejam consumidos demasiado novos. Pode dizer-se: "compra novo e bebe passados uns anos". Mas, como bem sabemos, isso não é fácil: se um vinho sai para o mercado em 2006 é muito provável que o enófilo curioso já o tenha provado antes de 2007. E nem toda a gente pode ter o luxo de comprar caixas de vinhos para observar a sua evolução.
Mas como dizia, já lá vão 5 anos desde a colheita de 2001. Elaborado pela "Quinta dos Avidagos" a partir de vinhas velhas (indicação que passa a constar do rótulo a partir da colheita de 2003), provámos pela primeira vez este Quinta do Além Tanha (T) 2001 em Novembro de 2005, faz já quase 15 meses (ver aqui). Então, pareceu-nos já guloso, mas um pouco duro com algumas notas verdes e minerais não totalmente enquadradas no perfil do vinho. É verdade que tinha tudo para ser um vinho deveras aprazível - foi sempre uma recomendação nossa - mas faltava-lhe algo... o "bouquet" parecia reduzido, e os frutos negros que surgiam na boca tapavam demasiado a madeira.
Sucede que, passados os tais 15 meses no silêncio da cave, muito mudou! O vinho mantém-se jovem na cor num bonito tom vermelho escuro, e jovem continua também o nariz. Mas agora está absolutamente perfumado com compota doce de amora e um final especiado que lhe atribui um toque exótico e oriental. Na boca está ainda mais guloso do que na prova anterior - frutos negros em camada, chocolate de leite - num final médio/longo marcado pela baunilha da barrica. Onde antes havia dureza e alguma secura, encontramos hoje delicadeza e diplomacia. Muito redondo, falta-lhe pouco para atingir o seu melhor, mas está ainda em crescendo. Menos linearidade na boca e seria certamente um "tomba-gigantes" do Douro. Um vinho belíssimo, em suma. Mais um pela mão do enólogo Rui Cunha. Beba-o nos próximos 2 anos.
Passados 15 meses da prova anterior, 5 anos da colheita e 4 anos do engarrafamento... a importância do estágio em garrafa!
17