quarta-feira, janeiro 17, 2007

Quinta da Padrela


A Quinta da Padrela situa-se no Concelho de Tabuaço, Cima Corgo portanto. Em termos de longitude está, de forma pouco precisa, no enfiamento de Ferrão, mas na margem oposta e mais a sul. Com 12 hectares, vinhas dos 20 ao 70 anos, todas em solo xistoso e a 400 metros de altitude, está bom de ver que os seus néctares transpiram os aromas do Douro. Com um cariz familiar, lançou-se no sonho de comercializar a "bebida mais civilizada do mundo" (disse-o Hemingway) e tem dois vinhos a postos cuja exportação tem sido um êxito. O primeiro foi provado 2 vezes – com um intervalo de mais de seis meses – e as notas que se seguem são as da segunda prova realizada já no início deste mês de Janeiro. Trata-se de um projecto promissor que parece assentar num perfil claramente duriense e que, neste momento de voragem de marcas, merece o nosso destaque pela genuinidade dos seus vinhos. Original é a escolha das garrafas, de vidro fino e dimensão reduzida (mas mantendo 75cl de capacidade), muito práticas e leves de transportar. Vejamos então:

  • Quinta da Padrela (T) 2004: Cor viniosa de tons cereja. Nariz intenso, algum álcool e uma combinação curiosa entre estilo marcadamente vegetal (duro) e notas de fruta preta amarga. Na boca temos harmonia sem laivos de madeira por perto com taninos agrestes a pedir tempo de garrafa. Com o trago mantém-se vigoroso o seu lado vegetal com notas a espargos e aneto. Tudo muito vivo, fresco mas também curto, com um final pouco persistente. Está menos acabado que o irmão reserva e, por isso, um ano de garrafa (pelo menos) só lhe fará bem para diminuir a adstringência e irreverência da juventude. A menos de 8 €. 15
  • Quinta da Padrela Reserva (T) 2004: Rubi muito negro, com auréola escura e alguma espuma. Nariz novo, menos vegetal que o anterior, arrebita um nariz sedutor a cereja, noz moscada e alguma pimenta branca. Na boca mantém o equilíbiro do irmão, mas eleva-se num (ou mais) patamar de qualidade. Muita concentração, esgaço, notas amargas a chocolate preto e azeitonas, castas bem trabalhadas, enfim um vinho que pede uma refeição. Final médio a prometer mais. Em crescendo. O contra-rótulo fala em cariz moderno mas não parece ser o caso. "Douro clássico bem feito" isso sim! E não é pouco. Se gostei? Gostei muito. A menos de 14 €. 16

terça-feira, janeiro 16, 2007

Quinta do Portal Touriga Nacional (T) 2000


Cor cereja escura, sem evolução precoce ou evidente. No nariz: touriga, touriga e touriga. Muita bergamota, num conjunto floral agreste e seco, mas cativante e insinuante! Depois, na boca, seguem-se as notas a casca de laranja, algum caramelo e referências sumidas a chá preto, tudo onde um final médio/curto desaponta e destoa. Curiosamente, passada a primeira meia hora, o vinho como que cai, desmaia na boca, gasta-se rápido e parece perder fôlego.
Por não ser um maratonista não deixa de ser um bom representante da casta nacional tida como a mais reputada da actualidade. E está pronto a beber. Não espere por ele.
A menos de € 22 nas boas garrafeiras. 16
PS - Faz precisamente um ano provámos o "Portal Reserva 2000" (aqui).

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Inesquecível!

Tudo começou aqui faz quase um ano. Depois ali. E depois já não consigo saber mais ao certo, pois o Rui e o João arregaçaram as mangas. E...
Na passada sexta-feira encontrámo-nos quase todos, os já referenciados e mais ainda a cambada amiga do vinho a copo (com o seu "camisola amarela"), os krónicas e mais os vinhos. Na "York House", como combinado, estava a sala de prova quase cheia quando entrei. Um encontro deste calibre, só possível após a existência consolidada de enoblogs, é algo para qual não se está preparado, não se sabe o que esperar, o que pode acontecer. Neste caso, tudo correu como se uma organização profissional estivesse por detrás do "evento". E estava, se pensarmos na tarimba do anfitrião ZT Mello Breyner!
As provas foram em catadupa, do Alentejo à Madeira (graças a este homem nas ilhas), passando pela Bairrada e Palmela, da Estremadura ao Algarve. Do Douro vieram duas ante-estreiras pela mão amiga do AJS: o Pintas (T) 2005 e o Pintas Character (T) 2005. Do Douro veio ainda o vinho mais gastronómico da noite, o Sirga (T) 2004. Convidados especiais também os houve: para além dos amigos "independentes" - Chapim, Pedro Sousa e Chicão obrigado pela V. presença -, recebemos a Allison e o Joaquim, principais responsáveis pela recente marca alentejana "Azamor".
Depois a comida, quase imaculada a não fazer sombra aos vinhos (como competia), e de novo os néctares. Brancos doces, brancos, tintos, tintos em magnum - Hexagnon (T) 2000 em bom nível -, Portos - santo Warre's 1995 LBV! - e um Madeira - fantástico Boal 10 anos. Deu ainda tempo para provar - off the record - o Quinta da Gaivosa (T) 2003.
Fica muito por (d)escrever? Certamente! Mas não para esquecer.
Certamente inesquecível.

domingo, janeiro 14, 2007

Fonte das Moças (T) 2003


João Melícias já nos habituou a óptimos vinhos. Lembro-me, de repente, de uma mão cheia de grandes tintos alentejanos (de Montemor a Cuba) feito pelo "Enólogo do Ano 2005 (RV)". Agora dá-nos o prazer de provar um projecto mais pessoal, concretizado pela sociedade "Agro Vitis" na Estremadura (Torres Vedras).
Mostra-se novo na cor, cereja escura tintada, mas o que sobressai de imediato é o nariz... que "bouquet" explosivo: fruta confitada, ameixa preta e amora, bombom de chocolate, fundo lácteo, tudo muito internacional. Na boca, a combinação do aragonês (30%) e da syrah (20%) domina num estilo impositivo, com fruta muito marcada a pedir mais uns meses de garrafa. Por seu lado, a touriga nacional (50%) parece dar-lhe um futuro radioso com taninos rijos. Final de grande intensidade. É de gritar: modernidade na Estremadura!
Com um preço quase imbatível, tudo tem para ser um sucesso de vendas, excepto o facto do mercado não estar virado para sucessos de venda e a produção ser limitada a menos de 7.000 botelhas. É pena. Não é fácil encontrá-lo, mas o preço não deverá ascender uns simpáticos € 6. 16

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Tapada de Coelheiros (T) 2001


Aconteceu o vinho ser a melhor coisa da noite passada. O vinho pode ter esta virtude, a qualidade de se manter fielmente aprazível numa refeição que está a correr mal. Foi isso que aconteceu ontem...
Intróito à parte, faz tempo que adoro beber um tinto alentejano com 5/6 anos a acompanhar carne vermelha simples. O Tapada de Coelheiros (T) 2001 foi o sacrificado; para mim, o seu sacrifício foi o único prazer. Mostrou-se vivo no copo, a cor está cereja vermelha com um círculo aureolar mais esbatido. Após alguns minutos de arejamento, transpirou aromas finos e elegantes a fruta vermelha fresca, esteva com notas de menta suaves, tudo muito elegante e afinado. Nada de brutalidade, apenas serenidade. A boca mostrou-se complexa, com a fruta menos presente parcialmente substituída por referências herbáceas e apimentadas (do cabernet) e alguma baunilha do carvalho francês. Final conivente , médio/longo.
Não se tratando do famoso "garrafeira", este Tapada tinto de 2001 surpreendeu muito positivamente com sua evolução. O preço vai variar muito do local onde o comprar (e será preciso procurar um pouco), e poderá ser particularmente elevado na restauração. 16,5

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Tintos para o "dia a dia" ou para várias ocasiões: Lybra e Taká

Um bom tinto para o dia a dia não é fácil de se encontrar. Dir-se-á que basta que seja bom e barato, mas sabemos bem que isso não é verdade. Para além dos dois referidos indispensáveis requisitos, é ainda preciso que o vinho não seja chato ou monótono, que combine com vários pratos de diferente culinária, que se adeqúe a refeições que viram em festas de um momento para outro, enfim vinhos nos quais se pode confiar quase a 100% para todos os trabalhos. Nesta nossa busca incessante desse vinho ideal para o quotidiano surgiram-nos dois recentes concorrentes. Foi assim que provámos o Lybra (T) 2004 de José Bento dos Santos e o Taká (T) 2005, projecto resultante da fusão dos esforços do escanção Bruno Antunes (Ritz), da Adega Algarvia e do enólogo Paulo Loureano.

  • Lybra (T) 2004: Cor cereja escura e notas aromáticas a fruto preto (amoras) marcam a apreciação inicial. Entra com confiança no nariz, rapidamente dá a entender ao que vem. Os 90% de Syrah, e as manhãs frias da Estremadura, são suficientes para criar uma sensação muito agradável entre fruta e frescura. O estágio em madeira de 12 meses quase não se nota (madeira de 2.º ano), o que se agradece num vinho deste perfil. Na boca sentem-se notas a balsâmico, é quase pastoso sem ser imponente e mantém-se de perfil atraente - e final de boca médio - durante toda uma refeição. Acompanhou com muita bravura um creme de castanhas com espuma em cappuccino e pinhões torrados, bem como umas tenras bochechas de porco preto em cama de couves. A menos de € 12 em garrafeira, é um óptimo vinho para várias ocasiões mas não é propriamente acessível para todos os dias. 15,5
  • Taká (T) 2005: Muita cor no copo fruto da juventude: cereja escuro no copo meio cheio, e tons arroxeados com o copo quase vazio ("vis-a-vis" alicante bouschet). Nariz intenso, vibrante, é um lote alentejano com o aragonês em maioria e cheio de força, sem pretensões de elegância ou romantismos. Mais guloso do que propriamente sedutor na boca, pode-se tornar aborrecido pela linearidade da fruta doce e compota que demonstra, mas será muito eficaz na hora de atacar carne vermelha simples. No nosso teste, deu luta a um pato com laranja acompanhado por um risotto de pimentos feito em casa. A menos de € 5 no Supercor ECI. 15

domingo, dezembro 31, 2006

2006 em revista


O que segue não se trata de uma lista dos melhores vinhos provados em 2006. Muito menos de uma selecção rigorosa das novidades ou estreias que viram luz neste ano que finda. Em rigor, nem se trata sequer de uma lista… mas antes de um apanhado de boas coisas nacionais – sobretudo surpresas e estreias, mas também algumas confirmações – com que nos deparámos em 2006 e nos lembrámos de escrever. Como é natural, os preços são meramente indicativos.

Comecemos pelas surpresas. O ano de 2006 foi o ano da afirmação do Vértice (T) 2003 (€ 12), um dos melhores e mais acessíveis tintos do Douro. Elegante, sem problemas ou dilemas de estilo, directo e frutado qb foi, sem dúvida, uma das melhores surpresas do ano que está prestes a terminar; a crítica internacional muito favorável tornou-se, por isso, inevitável. Outra surpresa acessível foi o Ermelinda Freitas Touriga Nacional (T) 2003 (€10), que já conta com uma edição de 2004 na mesma linha. Forte e carnudo, mas fresco e revigorante também, é um tinto que merece ser guardado por uns alguns anos na garrafeira.
Mais dispendioso do que os anteriores, mas nem por isso caro, o Quinta da Vegia Reserva (T) 2003 (€ 20) foi um dos vários vinhos do Dão que saltaram para a ribalta em 2006. A par dos nomes mais conhecidos da região (eg., Roques, Perdigão, Pellada), a Quinta da Vegia e o produtor "Casa de Cello" são já um marco no Dão graças aos seus vinhos prazenteiros e com muita "patine".
Do Alentejo, o Grou (T) 2004 (€ 25) foi uma das novidades que mais nos deu prazer beber. Um tinto cheio de cor, incisivo e inesquecível, perfeitamente apto para devaneios gastronómicos de forte impacto. Os tintos alentejanos do produtor "Dão Sul" também surpreenderam: o complexo Monte da Cal Reserva (T) 2003 (€ 9) e o sedutor Monte da Cal Aragonês (T) 2004 (€ 6).
Da Bairrada, o projecto de Manuel Campolargo parece arrastar toda uma região aparentemente parada para as prateleiras das garrafeiras e supermercados. A hiper-criatividade trouxe belos tintos como o Termeão Pássaro Ver. (T) 2004 (€ 17) e o Diga? (T) 2004 (€ 25).
Das Beiras, o pódio é ocupado pelo fantástico Casa de Aguiar (T) 2004 (€ 10), uma marca em ascensão no universo das "Caves Aliança", e que, na colheita de 2004, atingiu um nível elevadíssimo. Menção honrosa também para o Versus (T) 2004 (€ 6), um tinto forte e duro que deu muito de falar na imprensa escrita e na blogosfera, ainda que nem sempre de forma unânime.
Mas o ano de 2006 também foi um ano da confirmação dos tintos da Estremadura. O lançamento dos vinhos da "Quinta de Pancas" - o nem sempre consensual Reserva Especial (T) 2003 (€ 25) e o magnífico Pancas Premium (T) 2003 (€ 45) -, os da "Quinta da Monte d’Oiro" com a estreia do day-to-day Lybra (T) 2004 (€ 12), e os topos de gama dos projectos pessoais dos enólogos José Neiva [Francos Reserva (T) 2003 (€ 25)] e de João Melícias [Fonte das Moças Reserva (T) 2003 (€ 10)], são hoje confirmações mais do que certas, redundância à parte.
Do Ribatejo, e na sequência do melhor vinho de sempre da "Casa Cadaval", mostrou a sua raça um novo tinto de gama média/alta com elevado aprumo e estilo “novo mundista”: o Mythos (T) 2003 ( € 15): néctar escuro e muito poderoso cabaz de ombrear com tintos de outras paragens mais a sul.
Das várias "segundas marcas" que proporcionam muito prazer, os durienses Prazo de Roriz (T) 2003 e Post Scriptum (T) 2004, e o Quinta da Chocapalha (T) 2004 de Alenquer, são três sólidos destaques de 2006 (€ 7 - € 9).
No Douro, sempre o Douro, merece uma palavra de elogio os projectos que começaram a consolidar-se e deram luz ao poderoso Quinta da Touriga-Chã (T) 2004 (€ 30), ao distinto Quinta da Sequeira Grande Escolha (T) 2002 (€ 20) e ao concentradíssimo Odisseia Touriga (T) 2004 (€ 22), entre outros exemplos. Ainda no Douro, para além de várias marcas com tintos ainda não provados - CV 2004, Quinta de Macedos 2003, Gouvyas 2004, Vallado Reserva 2004, Poeira 2004, VT 2004 -, tivémos a confirmação do La Rosa Reserve (T) 2004 (€ 22), talvez o melhor de sempre da casa centenária, bem como dos Quinta de Roriz (T) 2004 (€ 30) e Quinta de Vale Meão (T) 2004 (€ 48).
Nos brancos, o ano de 2006 deu a provar a óptima colheita de 2005 da qual foram lançados vinhos verdadeiramente surpreendentes. Se em 2004/2005 o mercado notou o surgimento de um conjunto selecto de vinhos com muita qualidade, já em 2006 a diferença foi a maior quantidade de propostas cativantes. A par das confirmações do untuoso Esporão Private Selection (B) 2005 (€ 17) e do delicado Soalheiro (B) 2005 (€ 10), ficámos com sede para o floral Tiara (B) 2005 (€ 15) da Niepoort e para o citrino Muros Antigos Loureiro (B) 2005 (€ 6). Isto claro, para não falar de voos mais altos (leia-se Redoma Reserva 2005 a € 30).
Finalmente, nos generosos, o Quinta do Noval Vintage (P) 2004 (€ 60) encheu-nos as medidas. Não é original, mas também não se amam os Portos pela originalidade.
Fica por aqui este périplo de alguns destaques pessoais provados em 2006, com a certeza que muito ficou por escrever, e com o desejo de um 2007 com muito mais para provar e divulgar.
Votos de um fantástico 2007 para todos.
NOG
PS - Ah... já me esquecia, 2006 também foi ano de nova edição de Barca Velha (1999) mas, por motivos vários, só o provarei para o ano.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Reserva Especial Ferreirinha (T) 1986

Abertas mas não decantadas. A decisão pareceu-nos acertada tanto mais que as "borras" foram muito reduzidas. Desta feita, ao contrário do que tem sido a regra com estas reservas, a rolha mostrou-se perfeita em ambas as garrafas.
A cor é um autêntico assombro; pode mesmo dizer-se que nos enganava totalmente. Pela cor o vinho tem cinco, oito anos no máximo... vermelho intenso, quase vibrante! O nariz inicial está muito reduzido com notas menos agradáveis típicas do estágio em garrafa. Após arejamento mostra aromas terceários nobres como madeira antiga (armários), tabaco e couro. A boca está imperial, com uma acidez pouco vulgar e uma óptima vivacidade. O que peca é mesmo a fruta: com tantas indicações que estaria em plena forma (cor, acidez, como já referimos) sentimos falta dos elegantes morangos e cassis que os "irmãos ferreirinhas", mesmo "velhos", nos habituam. Não somos loucos por fruta, mas este reserva especial deixa água na boca. Mesmo sabendo que já lá vão mais de vinte anos, o palato ficou algo pobre e o final quase mediano. É morrer na praia...

domingo, dezembro 24, 2006

Feliz Consoada

Para aqueles que têm dúvidas de última hora a respeito dos vinhos a beber na Consoada, aqui fica a sugestão para um repasto bem regado.
À vossa!
NOG
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Quinta dos Minotes (BV) 2005
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Chardonnay Projectos Niepoort (B) 2004
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Numanthia (T) 2003
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Esporão Private Selection Garrafeira (T) 2001
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Reserva Ferreirinha (T) 1996
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Quinta do Noval vintage (P) 2003

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Um bom ano


Russell Crowe aos gritos em pleno Coliseu de Roma de espada em punho é uma imagem difícil de esquecer. Talvez pela maneira impressionante como se vestiu de Maximus (também pela mão de Scott), seja difícil agora convencer-nos que pode ser um "broker" da bolsa de Londres que, paulatinamente, descobre uma paixão antiga por uma vinha algures em França herdada de um tio (a localização exacta da vinha não é revelada para não ferir susceptibilidades...). Também por isto, o mais recente filme de Ridley Scott e Russell Crowe não deverá esperar o mesmo sucesso de "The Gladiator" (2000). Mas "A Good Year" fala de uma vinha…
A ideia central do filme gira em torno do dilema moderno do Homem que vive numa metrópole e vive para o seu trabalho e sucesso. Como é endinheirado, julga ter conquistado tudo na sua vida mesmo que o contacto com a natureza, e, já agora, com o amor e família, estejam totalmente ausentes do seu quotidiano. Depois, descobre que herdou uma vinha em França e vai visitá-la a fim de conhecer o seu potencial de venda. O resto já imaginam.
De Ridley Scott estou sempre à espera de um pouco mais, pois ainda revejo com muito agrado as suas primeiras e auspiciosas películas. Em todo o caso, para quem está a descansar (como é o meu caso) ou está de férias, é uma boa distracção de hora e meia que, ainda por cima, fala um pouco de vinhas, pisca o olho a Mondavi e dá dicas sobre "vinhos de garagem". Mas atenção, tem pouco que ver com "Sideways" (2004) e muito menos com "Mondovino" (2004).

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Esporão Trincadeira (T) 2004


Os monocastas da Herdade do Esporão têm vindo a melhorar significativamente. Este é talvez o melhor Trincadeira produzido pelo Esporão (Finagra) que provámos. A cor esteve correcta num vermelho escuro discreto. O nariz impecável, com notas florais quentes e mesmo alguma esteva. Complexidade média, concentração elevada e corpo elegante. Fruta madura em camadas e um toque ligeiro balsâmico tornam o conjunto muito sedutor. Tudo afinado, a madeira quase não se sente. Um vinho de laboratório para ser consumido já. Pena o final, apenas médio/curto.
Bom (16). A menos de € 12.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Quinta da Pedra (B) Alvarinho 2004


É verdade que o Inverno não pede sempre por um branco verde fresco. Mas quando nos deparamos com camarão frito e uma dourada escalada (escalada mas conservando o suco do bicho) é difícil resistir. A colheita de 2004 não foi das melhores para os verdes e os Alvarinhos da Quinta da Pedra teimam em apostar na vertente vegetal. Este que se provou veio atestar tudo isso. Cor marcada e amarela, bouquet pouco evidente. Na boca a fruta andou desaparecida, só muito ao longe se sentia um pouco de melão picante. Falta-lhe garra mas pode ser do ano. Já as notas vegetais, ainda que não exuberantes, foram constantes e bem blendadas com uma acidez fina e elegante. É um daqueles Alvarinhos que "aproveita" a fama da casta e que pouco acrescenta, nesta colheita de 2004, ao panorama existente. Em todo o caso, mostrou se um branco eficaz na hora de atacar o marisco e peixe.
Suficiente (13). A menos de € 10.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Dica de restauração: Néctar

Nem dez dias da inauguração tinham decorrido e já estávamos sentados numa das bonitas mesas do mais recente winebar de Lisboa. O "Néctar" abriu portas no final de Novembro em plena R. dos Douradores na Baixa (uma paralela à R. Augusta). A decoração é simples, valorizando os arcos de pedra de um bonito rés-do-chão pombalino. Fazia frio no interior (pedimos para ligar o aquecimento), sensação infelizmente comum na restauração em Portugal que teima em não investir em bons caloríferos.
Existe uma carta para jantar e outra, mais interessante, para petiscar à base de queijos, saladas e enchidos. A carta de vinhos não é monumental mas tem uma escolha criteriosa e nota-se a preocupação em disponibilizar alguns vinhos que se encontram na berra. Todos os vinhos podem ser consumidos a copo pois decidiu-se investir - e bem! - no sistema “Le Verre du vin” (na versão simples). O serviço esteve eficiente e os copos eram de boa qualidade. Um dos vinhos foi provado a uma temperatura que não a adequada mas foi rectificada aquando do serviço. Provámos o "Quinta dos Roques Encruzado (B) 2005" e o "Azamor (T) 2003". O primeiro confirmou ser um dos vinhos brancos mais minerais de Portugal, e o segundo primou por um estilo Novo Mundo que vem sendo habitual em alguns (cada vez mais...) produtores do Alentejo.
Uma visita com um saldo muito positivo. Sem dúvida uma experiência a repetir no coração da Baixa lisboeta.

domingo, dezembro 10, 2006

K(olheita) (T) 2002


Fim-de-semana grande no Algarve: não o Algarve da praia, do calor e das filas no Verão, mas da calma fortificante e das águas santas das Caldas de Monchique. Após banhos retemperantes, foi tempo de revisitar o "Veneza", restaurante/garrafeira perto de Paderne em Ferreiras (para a primeira visita ver aqui). As comidas – próprias do Inverno – estiveram óptimas com destaque para o ensopado de javali (com um toque de alecrim). Nos vinhos a escolha é obra demorada, pois a variedade é próxima do infinito. Escolhemos um "K 2002" do projecto "Kolheita de Ideias" (que belo nome!) dos três amigos Rui Moreira, Luís Soares Duarte (eg., "Gouvyas", "Infantado"), Francisco Ferreira ("Vallado"). No copo mostrou-se bonito, cor acertada entre o cereja escuro e o vermelho purpurino. Corpo cheio, muito elegante no nariz, bom balanço entre o álcool e a fruta. A madeira está totalmente integrada, tudo em harmonia. Guloso q.b., com frescura vibrante (típica do ano), tem fruta com realce para a bergamota, também evidente no final médio/longo. Belo tinto do Douro a provar que a colheita de 2002 (ou, pelo menos, este Kolheita) esteve e está a um bom nível.
Bom + (17). A menos de € 20.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Adega Coop. Borba Reserva (T) 2001


A colheita de 2001 tem trazido altivos momentos com tintos alentejanos (ver aqui e ali). Este, também conhecido por “rótulo de cortiça”, acompanhou bem um entrecosto à Mestre d’Avis no "Grémio" (Évora), mas não passou disso. Na cor nota-se a evolução com um ligeiro tom laranja desmaiado, mas não em demasia: bem feitas as contas o vermelho cereja ainda impera. No nariz está certinho, a fruta já quase não tem garra, mas o que ainda persiste faz aguentar bem o vinho que está naturalmente macio e com notas a especiarias. Na boca já domina a madeira com sensações a carvalho queimado e algum balsâmico, a fruta está sisuda, e pouco mais. Se existe alguma garrafa por abrir deste alentejano de 2001 é altura de a beber sem saudosismos. E rapidamente.
Suficiente + (14,5).

PS – Faz dias, no Hotel Ritz, foram apresentados os novos Adega Coop. de Borba, de estilo mais moderno e com cara lavada. O "Reserva (T) 2004" mostrou-se em forma e continua a apostar no rótulo de cortiça, agora com dimensão mais pequena contribuindo para um resultado gráfico final menos rústico.
PS 2 - Outras provas a este vinho podem ser encontradas no Copo d' 3 e nas Krónicas Vinicolas.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Vértice (T) 2003



Já íamos avisados – é inegável que a opinião dos outros nos pode influenciar, mas neste caso a qualidade do vinho é uma evidência. A todos.
A cor está rubi escura, profunda e bem bonita com laivos e tons arroxeados. Nada de opacidades! O nariz revela-se muito afinado e sedutor. As notas a baunilha derretem-se (literalmente) na fruta vermelha macia e quente – que intenso prazer... Na boca atesta a sensualidade do nariz, fácil de se beber (elogio), muito acetinado. Peca apenas o final, guloso mas curto (ou curto demais para tanta gulodice).
Uma única divergência de opinião parece residir num eventual estágio em garrafa: alguns juram que se deverá bebê-lo num vértice até 2008, outros pregoam que a cave será o mais indicado para o néctar. Eu? Eu alinho, quase sem dúvidas, pela primeira tese: beber já pois não vejo como o vinho possa melhorar mais (a não ser que fosse outro o vinho e de uma qualidade ainda superior). Um belo tinto do Douro a um belíssimo preço.
Bom + (17). A menos de € 12.

sábado, dezembro 02, 2006

Quinta da Sequeira GE (T) 2002



Respondendo ao desafio lançado pelo Vinho da Casa - ie., uma prova a um vinho de 2002 -, o vinho ora provado é uma grande escolha. E é mesmo! Este "Quinta da Sequeira Grande Escolha (T) 2002" mostra-se perto do negrito no copo e o aroma é marcadamente vegetal com nuances simpáticas de madeira de qualidade (10 meses em barricas de carvalho Allier e Limousin).
Na boca mantém um certo estilo da casa, entre o carácter terroso e notas a fruta muito madura. Já está pronto para consumo mas eu esperaria por ele mais um ano. Final elegante com notas frescas a esteva e um fundo animal que pode, aqui e ali, assustar os mais desprevenidos.
Bom (16). A menos de € 20.
PS: Aqui está um tinto douriense de 2002 bem acima da média. Daqui a um ano estará provavelmente melhor. Uma imagem cuidada e consistência na gama (dos tintos aos brancos, passando pelos rosés) a Quinta da Sequeira é um projecto a ter em muita atenção.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Dom Martinho (T) 2004 - Licença para agradar


Finalmente um Dom Martinho capaz de não malfadar o nome da família Lafite Rothschild. Após várias colheitas onde "qualidade" parecia palavra proibida, e quando já não acalentávamos esperanças, heis o Dom Martinho (T) 2004 a portar-se bem à mesa. Para acompanhar uma cabidela séria (coisa para adultos!) o vinho mostrou-se estreito, jovem mas com vontade de agradar. Notas frescas a cereja, cassis, tudo num corpo discreto e de taninos suaves que nem água. Mesmo com 13º mostra-se bem equilibrado, rico em sabor com extracto.
Este Dom Martinho, versão tinta de 2004, está tal e qual o novo filme do James Bond: quando já nada o faria esperar, renasce com garra para nos animar e para ser consumido rapidamente.
Bom - (15). A menos de € 6.

PS – Distribuído pela Vinalda, o Dom Martinho (T) 2004 encontra-se com muita facildiade quer nos hipermercados quer na restauração. Acresce que a "meia-garrafa", ideal para um almoço com o jornal, é também uma vantagem.

Herdade das Pias Reserva (T) 2003

De regresso pois aos néctares do Alentejo. Mas comecemos por uma breve referência ao p(r)ato que acompanhou o vinho: peito de pato (que hoje em dia se compra com facilidade), colocado numa sertã com a gordura do bicho (que se quer abundante) virada para baixo. Adicionar a gosto sumo de laranja e mel (que pode e deve ser substituído por vinho do Porto) e deixar ao lume cerca de 15 minutos. Perto do ponto tempera-se com especiarias e já está. A acompanhar: um arroz de pimentos. Nada mais simples, verdade?
Para beber sacou-se a rolha a um Herdade das Pias Reserva (T) 2003, disponível na última feira do "Jumbo" a menos de € 12. E que belo tinto regional do Alentejo! Se bem que no copo a cor não seduz pois mostra-se clarinha e fina, já o corpo (delgado) antecipa um aroma elegante. O bouquet entusiasma efectivamente, primeiro fechado e medroso, depois mais aberto e afirmativo, mas sempre contido na fruta (ainda bem!) com notas sedutoras de chocolate de leite e pudim de ameixas pretas. Na boca mantém-se fino, não está um típico alentejano da colheita de 2003 (!), antes um tinto verdadeiramente "contra a corrente". Este que se bebeu está equilibrado e demonstra uma total harmonia entre os elementos, com um suave final capitoso a especiarias. Pronto a beber.
Bom + (17). A menos de € 12.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Douro Wine Show


Mais uma iniciativa da "Essência do Vinho". Mais glamour. Mais novidades. Podíamos descrever assim o evento do fim-de-semana que passou. Realizado no Casino de Lisboa, ambiente nocturno, pouco propício para provas sérias, muito propício para a conversa animada e descontraída. O melhor da noite: as novidades. Do Ázeo (T) 2004 ao Quinta das Apegadas (T) 2004, das estreias do Gambozinos Reserva (T) 2004 e do Quinta do Avidalgos (T) 2005 à nova roupagem do Vallegre (T) 2003 e às confirmações do tinto vinhas velhas "Além Tanha" e do rosé da "Quinta da Sequeira". Se tivermos tempo, e a oportunidade se proporcionar, iremos escrever um pouco sobre alguns destes vinhos.