domingo, dezembro 31, 2006

2006 em revista


O que segue não se trata de uma lista dos melhores vinhos provados em 2006. Muito menos de uma selecção rigorosa das novidades ou estreias que viram luz neste ano que finda. Em rigor, nem se trata sequer de uma lista… mas antes de um apanhado de boas coisas nacionais – sobretudo surpresas e estreias, mas também algumas confirmações – com que nos deparámos em 2006 e nos lembrámos de escrever. Como é natural, os preços são meramente indicativos.

Comecemos pelas surpresas. O ano de 2006 foi o ano da afirmação do Vértice (T) 2003 (€ 12), um dos melhores e mais acessíveis tintos do Douro. Elegante, sem problemas ou dilemas de estilo, directo e frutado qb foi, sem dúvida, uma das melhores surpresas do ano que está prestes a terminar; a crítica internacional muito favorável tornou-se, por isso, inevitável. Outra surpresa acessível foi o Ermelinda Freitas Touriga Nacional (T) 2003 (€10), que já conta com uma edição de 2004 na mesma linha. Forte e carnudo, mas fresco e revigorante também, é um tinto que merece ser guardado por uns alguns anos na garrafeira.
Mais dispendioso do que os anteriores, mas nem por isso caro, o Quinta da Vegia Reserva (T) 2003 (€ 20) foi um dos vários vinhos do Dão que saltaram para a ribalta em 2006. A par dos nomes mais conhecidos da região (eg., Roques, Perdigão, Pellada), a Quinta da Vegia e o produtor "Casa de Cello" são já um marco no Dão graças aos seus vinhos prazenteiros e com muita "patine".
Do Alentejo, o Grou (T) 2004 (€ 25) foi uma das novidades que mais nos deu prazer beber. Um tinto cheio de cor, incisivo e inesquecível, perfeitamente apto para devaneios gastronómicos de forte impacto. Os tintos alentejanos do produtor "Dão Sul" também surpreenderam: o complexo Monte da Cal Reserva (T) 2003 (€ 9) e o sedutor Monte da Cal Aragonês (T) 2004 (€ 6).
Da Bairrada, o projecto de Manuel Campolargo parece arrastar toda uma região aparentemente parada para as prateleiras das garrafeiras e supermercados. A hiper-criatividade trouxe belos tintos como o Termeão Pássaro Ver. (T) 2004 (€ 17) e o Diga? (T) 2004 (€ 25).
Das Beiras, o pódio é ocupado pelo fantástico Casa de Aguiar (T) 2004 (€ 10), uma marca em ascensão no universo das "Caves Aliança", e que, na colheita de 2004, atingiu um nível elevadíssimo. Menção honrosa também para o Versus (T) 2004 (€ 6), um tinto forte e duro que deu muito de falar na imprensa escrita e na blogosfera, ainda que nem sempre de forma unânime.
Mas o ano de 2006 também foi um ano da confirmação dos tintos da Estremadura. O lançamento dos vinhos da "Quinta de Pancas" - o nem sempre consensual Reserva Especial (T) 2003 (€ 25) e o magnífico Pancas Premium (T) 2003 (€ 45) -, os da "Quinta da Monte d’Oiro" com a estreia do day-to-day Lybra (T) 2004 (€ 12), e os topos de gama dos projectos pessoais dos enólogos José Neiva [Francos Reserva (T) 2003 (€ 25)] e de João Melícias [Fonte das Moças Reserva (T) 2003 (€ 10)], são hoje confirmações mais do que certas, redundância à parte.
Do Ribatejo, e na sequência do melhor vinho de sempre da "Casa Cadaval", mostrou a sua raça um novo tinto de gama média/alta com elevado aprumo e estilo “novo mundista”: o Mythos (T) 2003 ( € 15): néctar escuro e muito poderoso cabaz de ombrear com tintos de outras paragens mais a sul.
Das várias "segundas marcas" que proporcionam muito prazer, os durienses Prazo de Roriz (T) 2003 e Post Scriptum (T) 2004, e o Quinta da Chocapalha (T) 2004 de Alenquer, são três sólidos destaques de 2006 (€ 7 - € 9).
No Douro, sempre o Douro, merece uma palavra de elogio os projectos que começaram a consolidar-se e deram luz ao poderoso Quinta da Touriga-Chã (T) 2004 (€ 30), ao distinto Quinta da Sequeira Grande Escolha (T) 2002 (€ 20) e ao concentradíssimo Odisseia Touriga (T) 2004 (€ 22), entre outros exemplos. Ainda no Douro, para além de várias marcas com tintos ainda não provados - CV 2004, Quinta de Macedos 2003, Gouvyas 2004, Vallado Reserva 2004, Poeira 2004, VT 2004 -, tivémos a confirmação do La Rosa Reserve (T) 2004 (€ 22), talvez o melhor de sempre da casa centenária, bem como dos Quinta de Roriz (T) 2004 (€ 30) e Quinta de Vale Meão (T) 2004 (€ 48).
Nos brancos, o ano de 2006 deu a provar a óptima colheita de 2005 da qual foram lançados vinhos verdadeiramente surpreendentes. Se em 2004/2005 o mercado notou o surgimento de um conjunto selecto de vinhos com muita qualidade, já em 2006 a diferença foi a maior quantidade de propostas cativantes. A par das confirmações do untuoso Esporão Private Selection (B) 2005 (€ 17) e do delicado Soalheiro (B) 2005 (€ 10), ficámos com sede para o floral Tiara (B) 2005 (€ 15) da Niepoort e para o citrino Muros Antigos Loureiro (B) 2005 (€ 6). Isto claro, para não falar de voos mais altos (leia-se Redoma Reserva 2005 a € 30).
Finalmente, nos generosos, o Quinta do Noval Vintage (P) 2004 (€ 60) encheu-nos as medidas. Não é original, mas também não se amam os Portos pela originalidade.
Fica por aqui este périplo de alguns destaques pessoais provados em 2006, com a certeza que muito ficou por escrever, e com o desejo de um 2007 com muito mais para provar e divulgar.
Votos de um fantástico 2007 para todos.
NOG
PS - Ah... já me esquecia, 2006 também foi ano de nova edição de Barca Velha (1999) mas, por motivos vários, só o provarei para o ano.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Reserva Especial Ferreirinha (T) 1986

Abertas mas não decantadas. A decisão pareceu-nos acertada tanto mais que as "borras" foram muito reduzidas. Desta feita, ao contrário do que tem sido a regra com estas reservas, a rolha mostrou-se perfeita em ambas as garrafas.
A cor é um autêntico assombro; pode mesmo dizer-se que nos enganava totalmente. Pela cor o vinho tem cinco, oito anos no máximo... vermelho intenso, quase vibrante! O nariz inicial está muito reduzido com notas menos agradáveis típicas do estágio em garrafa. Após arejamento mostra aromas terceários nobres como madeira antiga (armários), tabaco e couro. A boca está imperial, com uma acidez pouco vulgar e uma óptima vivacidade. O que peca é mesmo a fruta: com tantas indicações que estaria em plena forma (cor, acidez, como já referimos) sentimos falta dos elegantes morangos e cassis que os "irmãos ferreirinhas", mesmo "velhos", nos habituam. Não somos loucos por fruta, mas este reserva especial deixa água na boca. Mesmo sabendo que já lá vão mais de vinte anos, o palato ficou algo pobre e o final quase mediano. É morrer na praia...

domingo, dezembro 24, 2006

Feliz Consoada

Para aqueles que têm dúvidas de última hora a respeito dos vinhos a beber na Consoada, aqui fica a sugestão para um repasto bem regado.
À vossa!
NOG
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Quinta dos Minotes (BV) 2005
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Chardonnay Projectos Niepoort (B) 2004
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Numanthia (T) 2003
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Esporão Private Selection Garrafeira (T) 2001
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Reserva Ferreirinha (T) 1996
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Quinta do Noval vintage (P) 2003

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Um bom ano


Russell Crowe aos gritos em pleno Coliseu de Roma de espada em punho é uma imagem difícil de esquecer. Talvez pela maneira impressionante como se vestiu de Maximus (também pela mão de Scott), seja difícil agora convencer-nos que pode ser um "broker" da bolsa de Londres que, paulatinamente, descobre uma paixão antiga por uma vinha algures em França herdada de um tio (a localização exacta da vinha não é revelada para não ferir susceptibilidades...). Também por isto, o mais recente filme de Ridley Scott e Russell Crowe não deverá esperar o mesmo sucesso de "The Gladiator" (2000). Mas "A Good Year" fala de uma vinha…
A ideia central do filme gira em torno do dilema moderno do Homem que vive numa metrópole e vive para o seu trabalho e sucesso. Como é endinheirado, julga ter conquistado tudo na sua vida mesmo que o contacto com a natureza, e, já agora, com o amor e família, estejam totalmente ausentes do seu quotidiano. Depois, descobre que herdou uma vinha em França e vai visitá-la a fim de conhecer o seu potencial de venda. O resto já imaginam.
De Ridley Scott estou sempre à espera de um pouco mais, pois ainda revejo com muito agrado as suas primeiras e auspiciosas películas. Em todo o caso, para quem está a descansar (como é o meu caso) ou está de férias, é uma boa distracção de hora e meia que, ainda por cima, fala um pouco de vinhas, pisca o olho a Mondavi e dá dicas sobre "vinhos de garagem". Mas atenção, tem pouco que ver com "Sideways" (2004) e muito menos com "Mondovino" (2004).

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Esporão Trincadeira (T) 2004


Os monocastas da Herdade do Esporão têm vindo a melhorar significativamente. Este é talvez o melhor Trincadeira produzido pelo Esporão (Finagra) que provámos. A cor esteve correcta num vermelho escuro discreto. O nariz impecável, com notas florais quentes e mesmo alguma esteva. Complexidade média, concentração elevada e corpo elegante. Fruta madura em camadas e um toque ligeiro balsâmico tornam o conjunto muito sedutor. Tudo afinado, a madeira quase não se sente. Um vinho de laboratório para ser consumido já. Pena o final, apenas médio/curto.
Bom (16). A menos de € 12.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Quinta da Pedra (B) Alvarinho 2004


É verdade que o Inverno não pede sempre por um branco verde fresco. Mas quando nos deparamos com camarão frito e uma dourada escalada (escalada mas conservando o suco do bicho) é difícil resistir. A colheita de 2004 não foi das melhores para os verdes e os Alvarinhos da Quinta da Pedra teimam em apostar na vertente vegetal. Este que se provou veio atestar tudo isso. Cor marcada e amarela, bouquet pouco evidente. Na boca a fruta andou desaparecida, só muito ao longe se sentia um pouco de melão picante. Falta-lhe garra mas pode ser do ano. Já as notas vegetais, ainda que não exuberantes, foram constantes e bem blendadas com uma acidez fina e elegante. É um daqueles Alvarinhos que "aproveita" a fama da casta e que pouco acrescenta, nesta colheita de 2004, ao panorama existente. Em todo o caso, mostrou se um branco eficaz na hora de atacar o marisco e peixe.
Suficiente (13). A menos de € 10.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Dica de restauração: Néctar

Nem dez dias da inauguração tinham decorrido e já estávamos sentados numa das bonitas mesas do mais recente winebar de Lisboa. O "Néctar" abriu portas no final de Novembro em plena R. dos Douradores na Baixa (uma paralela à R. Augusta). A decoração é simples, valorizando os arcos de pedra de um bonito rés-do-chão pombalino. Fazia frio no interior (pedimos para ligar o aquecimento), sensação infelizmente comum na restauração em Portugal que teima em não investir em bons caloríferos.
Existe uma carta para jantar e outra, mais interessante, para petiscar à base de queijos, saladas e enchidos. A carta de vinhos não é monumental mas tem uma escolha criteriosa e nota-se a preocupação em disponibilizar alguns vinhos que se encontram na berra. Todos os vinhos podem ser consumidos a copo pois decidiu-se investir - e bem! - no sistema “Le Verre du vin” (na versão simples). O serviço esteve eficiente e os copos eram de boa qualidade. Um dos vinhos foi provado a uma temperatura que não a adequada mas foi rectificada aquando do serviço. Provámos o "Quinta dos Roques Encruzado (B) 2005" e o "Azamor (T) 2003". O primeiro confirmou ser um dos vinhos brancos mais minerais de Portugal, e o segundo primou por um estilo Novo Mundo que vem sendo habitual em alguns (cada vez mais...) produtores do Alentejo.
Uma visita com um saldo muito positivo. Sem dúvida uma experiência a repetir no coração da Baixa lisboeta.

domingo, dezembro 10, 2006

K(olheita) (T) 2002


Fim-de-semana grande no Algarve: não o Algarve da praia, do calor e das filas no Verão, mas da calma fortificante e das águas santas das Caldas de Monchique. Após banhos retemperantes, foi tempo de revisitar o "Veneza", restaurante/garrafeira perto de Paderne em Ferreiras (para a primeira visita ver aqui). As comidas – próprias do Inverno – estiveram óptimas com destaque para o ensopado de javali (com um toque de alecrim). Nos vinhos a escolha é obra demorada, pois a variedade é próxima do infinito. Escolhemos um "K 2002" do projecto "Kolheita de Ideias" (que belo nome!) dos três amigos Rui Moreira, Luís Soares Duarte (eg., "Gouvyas", "Infantado"), Francisco Ferreira ("Vallado"). No copo mostrou-se bonito, cor acertada entre o cereja escuro e o vermelho purpurino. Corpo cheio, muito elegante no nariz, bom balanço entre o álcool e a fruta. A madeira está totalmente integrada, tudo em harmonia. Guloso q.b., com frescura vibrante (típica do ano), tem fruta com realce para a bergamota, também evidente no final médio/longo. Belo tinto do Douro a provar que a colheita de 2002 (ou, pelo menos, este Kolheita) esteve e está a um bom nível.
Bom + (17). A menos de € 20.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Adega Coop. Borba Reserva (T) 2001


A colheita de 2001 tem trazido altivos momentos com tintos alentejanos (ver aqui e ali). Este, também conhecido por “rótulo de cortiça”, acompanhou bem um entrecosto à Mestre d’Avis no "Grémio" (Évora), mas não passou disso. Na cor nota-se a evolução com um ligeiro tom laranja desmaiado, mas não em demasia: bem feitas as contas o vermelho cereja ainda impera. No nariz está certinho, a fruta já quase não tem garra, mas o que ainda persiste faz aguentar bem o vinho que está naturalmente macio e com notas a especiarias. Na boca já domina a madeira com sensações a carvalho queimado e algum balsâmico, a fruta está sisuda, e pouco mais. Se existe alguma garrafa por abrir deste alentejano de 2001 é altura de a beber sem saudosismos. E rapidamente.
Suficiente + (14,5).

PS – Faz dias, no Hotel Ritz, foram apresentados os novos Adega Coop. de Borba, de estilo mais moderno e com cara lavada. O "Reserva (T) 2004" mostrou-se em forma e continua a apostar no rótulo de cortiça, agora com dimensão mais pequena contribuindo para um resultado gráfico final menos rústico.
PS 2 - Outras provas a este vinho podem ser encontradas no Copo d' 3 e nas Krónicas Vinicolas.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Vértice (T) 2003



Já íamos avisados – é inegável que a opinião dos outros nos pode influenciar, mas neste caso a qualidade do vinho é uma evidência. A todos.
A cor está rubi escura, profunda e bem bonita com laivos e tons arroxeados. Nada de opacidades! O nariz revela-se muito afinado e sedutor. As notas a baunilha derretem-se (literalmente) na fruta vermelha macia e quente – que intenso prazer... Na boca atesta a sensualidade do nariz, fácil de se beber (elogio), muito acetinado. Peca apenas o final, guloso mas curto (ou curto demais para tanta gulodice).
Uma única divergência de opinião parece residir num eventual estágio em garrafa: alguns juram que se deverá bebê-lo num vértice até 2008, outros pregoam que a cave será o mais indicado para o néctar. Eu? Eu alinho, quase sem dúvidas, pela primeira tese: beber já pois não vejo como o vinho possa melhorar mais (a não ser que fosse outro o vinho e de uma qualidade ainda superior). Um belo tinto do Douro a um belíssimo preço.
Bom + (17). A menos de € 12.

sábado, dezembro 02, 2006

Quinta da Sequeira GE (T) 2002



Respondendo ao desafio lançado pelo Vinho da Casa - ie., uma prova a um vinho de 2002 -, o vinho ora provado é uma grande escolha. E é mesmo! Este "Quinta da Sequeira Grande Escolha (T) 2002" mostra-se perto do negrito no copo e o aroma é marcadamente vegetal com nuances simpáticas de madeira de qualidade (10 meses em barricas de carvalho Allier e Limousin).
Na boca mantém um certo estilo da casa, entre o carácter terroso e notas a fruta muito madura. Já está pronto para consumo mas eu esperaria por ele mais um ano. Final elegante com notas frescas a esteva e um fundo animal que pode, aqui e ali, assustar os mais desprevenidos.
Bom (16). A menos de € 20.
PS: Aqui está um tinto douriense de 2002 bem acima da média. Daqui a um ano estará provavelmente melhor. Uma imagem cuidada e consistência na gama (dos tintos aos brancos, passando pelos rosés) a Quinta da Sequeira é um projecto a ter em muita atenção.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Dom Martinho (T) 2004 - Licença para agradar


Finalmente um Dom Martinho capaz de não malfadar o nome da família Lafite Rothschild. Após várias colheitas onde "qualidade" parecia palavra proibida, e quando já não acalentávamos esperanças, heis o Dom Martinho (T) 2004 a portar-se bem à mesa. Para acompanhar uma cabidela séria (coisa para adultos!) o vinho mostrou-se estreito, jovem mas com vontade de agradar. Notas frescas a cereja, cassis, tudo num corpo discreto e de taninos suaves que nem água. Mesmo com 13º mostra-se bem equilibrado, rico em sabor com extracto.
Este Dom Martinho, versão tinta de 2004, está tal e qual o novo filme do James Bond: quando já nada o faria esperar, renasce com garra para nos animar e para ser consumido rapidamente.
Bom - (15). A menos de € 6.

PS – Distribuído pela Vinalda, o Dom Martinho (T) 2004 encontra-se com muita facildiade quer nos hipermercados quer na restauração. Acresce que a "meia-garrafa", ideal para um almoço com o jornal, é também uma vantagem.

Herdade das Pias Reserva (T) 2003

De regresso pois aos néctares do Alentejo. Mas comecemos por uma breve referência ao p(r)ato que acompanhou o vinho: peito de pato (que hoje em dia se compra com facilidade), colocado numa sertã com a gordura do bicho (que se quer abundante) virada para baixo. Adicionar a gosto sumo de laranja e mel (que pode e deve ser substituído por vinho do Porto) e deixar ao lume cerca de 15 minutos. Perto do ponto tempera-se com especiarias e já está. A acompanhar: um arroz de pimentos. Nada mais simples, verdade?
Para beber sacou-se a rolha a um Herdade das Pias Reserva (T) 2003, disponível na última feira do "Jumbo" a menos de € 12. E que belo tinto regional do Alentejo! Se bem que no copo a cor não seduz pois mostra-se clarinha e fina, já o corpo (delgado) antecipa um aroma elegante. O bouquet entusiasma efectivamente, primeiro fechado e medroso, depois mais aberto e afirmativo, mas sempre contido na fruta (ainda bem!) com notas sedutoras de chocolate de leite e pudim de ameixas pretas. Na boca mantém-se fino, não está um típico alentejano da colheita de 2003 (!), antes um tinto verdadeiramente "contra a corrente". Este que se bebeu está equilibrado e demonstra uma total harmonia entre os elementos, com um suave final capitoso a especiarias. Pronto a beber.
Bom + (17). A menos de € 12.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Douro Wine Show


Mais uma iniciativa da "Essência do Vinho". Mais glamour. Mais novidades. Podíamos descrever assim o evento do fim-de-semana que passou. Realizado no Casino de Lisboa, ambiente nocturno, pouco propício para provas sérias, muito propício para a conversa animada e descontraída. O melhor da noite: as novidades. Do Ázeo (T) 2004 ao Quinta das Apegadas (T) 2004, das estreias do Gambozinos Reserva (T) 2004 e do Quinta do Avidalgos (T) 2005 à nova roupagem do Vallegre (T) 2003 e às confirmações do tinto vinhas velhas "Além Tanha" e do rosé da "Quinta da Sequeira". Se tivermos tempo, e a oportunidade se proporcionar, iremos escrever um pouco sobre alguns destes vinhos.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Galeria de vinhos




De regresso ao restaurante "A Galeria" provámos o menu “Encontro com o vinho”. Graças ao chefe milanês Augusto Gemelli, os vários pratos estiveram óptimos na senda do que a casa nos habituou. Já sobre os vinhos - um por prato - importa alongar-nos um pouco mais.

O vinho de entrada foi o "Bajancas (B) 2005", um douro leve e muito agradável que vem confirmar que a colheita de 2005 foi boa para os brancos. Depois, veio um dos vinhos pelo qual tínhamos maior curiosidade: o "Herdade do Portocarro (T) 2003" que se revelou fresco e nervoso mas também carnudo; é um tinto muito curioso com a madeira em evidência. De seguida, provámos o "Viseu Carvalho (T) Grande Escolha 2004" - o melhor da noite! - negro e encorpado, cheio de aroma, paladar robusto e final elegante! Por fim, o sempre guloso "Brites Aguiar (T) 2004" - com os seus famosos 15,5º - um tinto redondo que surpreende pela sua elegância (a temperatura de serviço ajudou) mas, infelizmente, também pela falta de garra. Foram ainda servidos um Porto (depois da janta) e um espumante (antes das entradas) que não merecem, todavia, destaque especial.
Em resumo, e para quem gosta de classificações:

  • Bajancas (B) 2005: Suficiente (14,5)
  • Herdade do Portocarro (T) 2003: Bom (16)
  • Viseu Carvalho (T) Grande Escolha 2003: Bom + (17)
  • Brites de Aguiar (T) 2004: Bom + (16,5)

PS - Os amigos do Vinho a Copo também passaram pela Galeria e provaram do mesmo (notas aqui).

segunda-feira, novembro 20, 2006

An amusing vintage


Já sabíamos que o mundo dos vinhos americanos é um mundo à parte. Mas nunca pensámos que seria possível um litígio judicial entre produtores sobre a propriedade e titularidade do nome comercial “Big Ass”! Nos clássicos padrões europeus trata-se de uma hipótese remota. Nos EUA é já uma realidade! Tudo começou quando num evento de provas vinhos se veio a descobrir que existiam várias marcas com “Big Ass” nos rótulos. A luta nos tribunais já começou. O mais curioso é ver que também por cá se tem procurado nomes fáceis de decorar e que sejam atrevidos, apelando aos consumidores mais jovens (eg., casos dos tintos portugueses "Sexy" ou "Amo-te"). Fica aqui um excerto retirado do site WineBusiness:

«Both Adler Fels Winery in Santa Rosa and Milano Family Vineyards in Hopland are producing "Big Ass" wines, and neither is willing to turn the other cheek. The two sides are girding for a battle in federal court in San Francisco over the rights to the colorful name. The case highlights the increasing importance wineries are placing on eye-catching brands to help their products stand out in a fiercely competitive marketplace.
"The Big Ass name seems to have some legs, no pun intended," said Raymond Horwath, who applied for a trademark for " Big Ass " for beer in 1995. Alder Fels got federal approval to produce "Big Ass Cab" in April 2004 for one of its custom-crush clients. The label on the $15 cabernet sauvignon features a colorful painting of a corpulent couple dancing.
Six weeks later, in June 2004, the smaller Milano Family Vineyards in Hopland received label approval to make "Big Ass Red," a red blend that also retails for about $15. The label also depicts a painting of a couple dancing, the woman's posterior prominently displayed. At the time they got their labels approved, however, neither winery owned the trademark for the cheeky name (…). In July 2005, with his beer business building steadily, Horwath agreed to license the rights to "Big Ass" to the tiny Milano Family Winery.
Deanna Starr, who started the 4,000-case Hopland winery with her husband Ted in 2001, said she first learned the importance of catchy labels when she created Recall Red in 2003, a "tribute to the crazy gubernatorial recall election in California". "That taught me the power of a label," Starr said. "We had calls from all over the country on that." But when Starr sought to trademark the label, her attorney found that Horwath owned the rights to the name. Starr made contact with Horwath and struck a deal to license the name from him, she said.
Soon after inking the deal, Horwath said one of his customers saw another "Big Ass" wine at a wine show. A little investigation revealed that Adler Fels, the 300,000-case winery started in 1979 by David and Ayn Coleman, was producing three wines with that name: Big Ass Cab, Big Ass Zin and Big Ass Chard. In an effort to urge the winery to stop infringing on his trademark, Horwath said he spoke to Larry Dutra, president of the Adams Beverage Group, the Westlake Village firm that purchased the winery in late 2004. Dutra explained that while Adler Fels produces the Big Ass label, the brand was actually owned by a New Jersey beverage distributor. Alder Fels makes a few of its own wine brands, such as Leaping Lizard, but specializes in making wines for other organizations, a common wine industry practice called "custom crushing." It makes Big Ass wines for Allied Beverage Group.
Dutra said this week the genesis of the Big Ass labels preceded his company's purchase of Adler Fels, and he could not comment on it. He said the company hoped to have the matter behind it soon. "It's unfortunate that we live in a litigious society where a guy who makes beer can interfere with a wine business," Dutra said. Wine label disputes are not uncommon, but it is unusual for them to end up in lawsuits, Ross said. The law is fairly clear, and usually once the facts are outlined, the winery infringing on a trademark agrees to stop, she said.
It's not too surprising that two wineries would want to use the "Big Ass" name, said British wine writer Peter May, who recently published "Marilyn Merlot and the Naked Grape," a survey of unusual wine labels. Wineries, especially new ones, are realizing they need to be creative to stand out on store shelves that are more crowded than ever, May said. Examples of clever wine labels are everywhere, May said. Fat Bastard, a French wine, has seen phenomenal growth in the United States in recent years, and is now the fourth best-selling French chardonnay in the United States, May said. Goats Do Roam, a South African wine that plays off of the French wine region Cotes du Rhone, has seen equally rapid growth, May said.
"If you're aiming for the low to mid-price range and you want to get someone to pick up your wine, then you've got to have something fun and a bit interesting just to get people to notice it," May said. »

PS - É claro que os críticos americanos aproveitam-se - e bem! - dos nomes dos vinhos para testar a sua criatividade e fazem notas de prova com comentários delirantes, tais como: "The idea of big ass Cabernet is distinctly Californian, and frankly it's about time someone just put it on the label. If the Old World of Bordeaux is subtle and understated, like a mix of Glenn Close and Sophie Marceau, then California Cabernet generally falls somewhere between Bette Midler and Salma Hayek."

quinta-feira, novembro 16, 2006

Quinta de S. Francisco (T) 2000


Um tinto de Óbidos, uma das denominações controladas da sempre ecléctica região da Estremadura. A partir de Castelão (predominante), Tinta-Miúda e Carignan apresenta-se com cor rubi clarinha, com concentração mas de corpo mediano como é comum por estas bandas. Produzido na Companhia Agrícola do Sanguinhal (fundada nos anos vinte por Abel Pereira da Fonseca), com sede no Concelho do Bombarral e vinhas em diversos concelhos (Bombarral, Cadaval, Alenquer e Torres Vedras). Aqui (na Estremadura litoral) produzem-se vinhos com um toque gaulês, são as geadas e nevoeiros matinais.
Apresenta evidentes aromas a frutos vermelhos (lá está o Castelão!), não é aborrecido nem pesadão (bem pelo contrário), é macio com um final longo, elegante e levemente especiado derivado dos 8 meses de estágio em barricas de carvalho francês e americano. Com 12,5%, e uma acidez fantástica, é ideal para acompanhar pratos ligeiros como legumes confeccionados, peixe, e carnes brancas. A capacidade de envelhecer com imensa dignidade é outra mais-valia deste néctar.
Bom (16). A menos de € 10.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Os vinhos do Douro: algumas questões


A prova comparativa dos tintos do Douro que consta na última edição da RV leva-me a escrever algumas linhas sobre os meus problemas quando compro Douro. Os problemas, como começa a ser evidente, não lidam com a qualidade dos vinhos, essa geralmente muito alta.
Uma primeira questão é o preço dos vinhos de gama média e alta. Como resulta do comparativo da RV, a maioria dos vinhos provados situa-se num estádio de € 30 para cima. Abaixo dos € 20 são apenas três ou quatro excepções com destaque para o Vértice (T) 2003 e o Evel Grande Escolha (T) 2003. Aliás, ainda em relação ao preço indicado pela revista (pelos produtores?), cumpre-me dizer que em muitos casos é quase impossível encontrá-los a esse valor nas garrafeiras especializadas - estou a pensar no Passadouro Reserva (T) 2004 ou no Pintas (T) 2004, ambos sujeitos a muita especulação.
Por outro lado, é interessante notar que o preço de certas marcas raramente desce, mesmo quando a procura ou a qualidade da colheita é menor num determinado momento. Vinhos como os da Quinta do Crasto e da Quinta do Portal, entre outros, não baixam de uma fasquia que chega a ser, por vezes, acima dos € 60. Ora, os preços dos vinhos do Douros já são hoje o principal óbice à sua compra, mesmo considerando os elevados custos de produção na região. Comparados com algumas estrelas estrangeiras (basta olhar para Espanha...) os preços dos vinhos do Douro estão num disparate! E não é coisa apenas dos tintos (salvem-se os Porto vintages!). Mas existem, apesar de não serem baratos, ainda boas compras: o Quinta do Infantado Reserva (T) 2003 e Gouvyas VV (T) 2004, o Esmero (T) 2004, o Quanta Terra (T) 2004, a Quinta dos 4 Ventos (T) 2004, o Talentvs (T) 2004 (que belo vinho!), o já referido Vértice (T) 2003. Acrescem alguns "neo-clássicos" como o Quinta de la Rosa Reserva (T) 2004 e o Evel Grande Escolha (T) 2003 que teimam em não elevar o preço - e ainda bem, muito obrigado!
Por fim, é difícil encontrar à venda nas garrafeiras de Lisboa, quanto mais noutros locais de venda, alguns dos vinhos provados. Marcas como Quanta Terra, Esmero, Poeira, Touriga-Chã não se encontram facilmente por aqui. Bem compreendo que se tratem de vinhos de quinta, com pequenas produções e, por isso, a sua oferta seja limitada. Mas, como tive oportunidade de dizer a alguns produtores durante o “Encontro com o vinho 2006”, é preciso dinamizar a colocação dos produtos no mercado. É que se os distribuidores tradicionais não fazem um bom trabalho então arranjem-se novos distribuidores. O que é difícil de suportar é que um apaixonado pelo vinho, um mero "alguém" com dinheiro no bolso, mesmo um curioso turista, um alcoólico até, não possa - com facilidade e conforto - adquirir os vinhos que deseja. Do Douro, ora bem!
À nossa saúde.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Passadouro (T) 1995


Segundo a cor e a boa disposição que mantém no copo dir-se-ia que não leva já mais de uma década de vida. Excepto as normais partículas de depósito, a cor mantém-se carregada em valentes tons de rubis escuros. Na boca sim, são mais evidentes os sinais do tempo, a fruta está lá mas a prova a "meio-de-boca" oscila entre o doce e a acidez. Sente-se bem a madeira, não agressiva, com notas a couro e a tabaco. A harmonia está bem conseguida! O final é longo e muito elegante, perdendo apenas alguma exuberância e intensidade aromáticas. O seu apogeu já passou, mas quem tiver uma garrafa esquecida pode depositar confiança e abri-la, pois ainda "está para as curvas". Tomara eu envelhecer assim...
Bom + (16,5). O preço é uma incógnita dados os 11 anos que leva, mas deve variar entre € 10 a €20 dependendo da especulação.

PS – É curioso como o rótulo do Passadouro tem-se mantido actual após uma década, recorrendo a alusões de diferentes animais. Noto apenas uma diferença: neste tinto de 1995 o rótulo lembra que o vinho começou por ser engarrafado pela Niepoort.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Quinta Nova da Nossa Senhora do Carmo Reserva (T) 2003


É uma quinta especial. Linda de morrer e mesmo defronte da Quinta do Crasto. Tivemos a sorte – se bem que um hotel está à disposição de todos – de por lá pernoitar (ver post aqui para o relato do fim-de-semana). Passados seis meses da pernoita saiu para o mercado este Reserva de 2003. Passados outros tantos meses foi tempo de provar o vinho.
A cor é rubi escura, sem laivos de opacidade. No nariz é um Douro de verdade, rústico mas com fruta quanto baste. Na boca mantém o estilo rústico, apesar de algumas notas florais (outras vezes jurei notar referências a cogumelos). A madeira podia estar mais elegante (e menos marcada), existe muito álcool à mistura (14,5º). O final é balsâmico e o estilo é tradicional. Um vinho interessante – mas esperava-se melhor... – que teima em lembrar que nem todos os vinhos do Douro são iguais. Ainda bem.
Bom (16). A menos de € 20.

PS – A foto é da Quinta Nova da Nossa Senhora do Carmo, das vinhas, da piscina, e dos 11 quartos do seu hotel vinícola. É um turismo a não perder.