quinta-feira, agosto 31, 2006

Herdade do Peso Reserva (T) 2003


Provado no restaurante "Veneza", em Paderne, perdido no interior do concelho de Albufeira. Este Veneza tem uma particularidade curiosa, posto que é garrafeira (com mais de 1500 propostas entre vinhos nacionais e estrangeiros) enquanto serve manjares tradicionais algarvios e de influência alentejana. Tem, está bem de ver, uma enorme selecção de vinhos!
Mas, voltando ao vinho... provou-se a "porta estandarte" da Sogrape no Alentejo, produzido numa herdade colada à Cortes de Cima (na Vidigueira, portanto). No copo, cereja escura. Nariz interessante, forte, vivo, trata-se de um vinho jovem sem qualquer dúvida! Na boca é todo Aragonês, embora partilhe a sua composição com Alfrocheiro e Alicante (que mal se notam). Ameixa preta, madeira presente, breves notas florais. Final gostoso, jovem, mas esperava-se outra persistência. Um vinho muito alentejano, a acompanhar com interesse as próximas colheitas.
Bom + (17). A menos de € 25.

PS - O clube de vinhos wine.pt propõe este Peso Reserva (T) 2003 na sua escolha mensal de Agosto por € 23,50.

domingo, agosto 27, 2006

Mauro (T) 2000


Opaco no copo, mas não preto. Cor cereja escura muito bonita... evolução é algo que não nos passa pela cabeça quando miramos este vino de mesa. No nariz é um deleite, fruta madura esmagada (mas não doce) e muita especiaria. Na boca é fresco, com grande cumprimento, muito redondo e taninos macios. Lembra-nos o "Alion" que bebemos faz pouco (ver prova Alion 1995 aqui), e não lhe fica muito atrás. Retronasal profundo, balsâmico e muito sedutor. Final médio mas muito saboroso.
Num ano de muita chuva em Ribera del Duero, sobretudo na Primavera, o mago Mariano García (sob a capa mais versátil de "Castilla León") consegue oferecer com este Mauro mais um grande vinho, com a fórmula já célebre de tempranillo (na maioria), syrah e umas "pingas" de garnacha.
Tudo isto à mesa de um belo restaurante, e por menos de € 30.
Bom ++ (17,5)

terça-feira, agosto 22, 2006

Vinhos entre críticos e "treinadores de bancada"


É sabido que uma das características mais interessantes nos "enoblogs" é o carácter pessoal dos relatos escritos sobre as provas dos vinhos. Ao invés das criticas especializadas das revistas sobre vinhos, os blogs são mais intimistas e, não raras vezes, surgem discrepâncias entre o gosto do crítico provador e a apreciação do blogger enófilo. Mas atenção, a opinião que conta é, sem dúvida, a da imprensa especializada, é essa que faz e desfaz preços (e assim se deve manter), é essa imprensa que todos os meses tem de provar dezenas/centenas de vinhos, é essa imprensa que tem os melhores provadores nacionais como redactores.
Em todo o caso, um bom exemplo da saudável discórdia que se vem escrevendo pode ser encontrado na comparação entre as pontuações atribuídas pela Revista de Vinhos (RV) na edição n.º 194 (Janeiro, 2006, pp. 62 e ss) e as nossas notas publicadas neste blog. O objecto de estudo: "Brancos com madeira".
Ora, no top da RV não existem discrepâncias com a minha opinião – tanto o "Conde de Ervideira 2004", como o "JPR Antão Vaz 2004" (nossa prova aqui), passando pelo "Cova da Ursa" da mesma colheita (nossa prova aqui), são todos vinhos que merecem o meu total, e sincero, aplauso.
As diferenças surgem, todavia, no ponto extremo, exactamente nos vinhos com menores pontuações: é que considero o "Gouvyas Reserva 2003" (nossa prova aqui) um dos melhores brancos do mercado e, no entanto, a RV atribuiu 15 pontos e coloca-o atrás de brancos que (já os tendo provado também) não merecem, em nossa opinião, esse feito. O mesmo se diga dos 14,5 pontos oferecidos ao "Castello d’ Alba Vinhas Velhas 2004", um dos vinhos que mais me cativou em provas recentes. Outra diferença: a acidez que tanto apreciei no "Herdade do Meio 2004" (nossa prova aqui) é considerada agressiva pela RV e, talvez por isso, "catrapum"... meros 13,5 pontos.
Ao longos de mais de dez anos que sigo as pontuações da RV, e aconselho todos a fazer o mesmo! Mas, por vezes, as nossas provas (com ou sem rótulo à vista) dizem-nos coisas diferentes. O que fazer?
O consumidor que decida!

domingo, agosto 20, 2006

Redoma, Crasto, Chocapalha - Trio de Tintos

Tantas foram as vezes que escrevi sobre apenas um vinho dito “normal”, em alguns casos, já de si muito bom... bem, hoje escrevo sobre três belos vinhos. São vinhos que, pelo cuidado na elaboração, pela qualidade da matéria prima e do saber enológico que demostram, e até pelo preço que exibem, pouco têm de normal. Vejamos então mais de perto este trio de tintos:
  • Redoma (T) 2001 – O único decantado pois verifiquei a existência de forte resíduo. O que mais me agradou neste vinho foi, sem dúvida, a sua elegância. Tem um porte aristocrático, verdadeiramente cheio mas sempre elegante. Contido no nariz, reduzido, aromático e especiado contudo. Na boca é fino, estruturado, e muitíssimo equilibrado – é difícil notar as castas, apontar a madeira ou acusar a mão do enólogo. Taninos potentes (a boca não tardou a ficar seca!) mas não agrestes. Um belo vinho, seguro e fino, para muitas (mas selectas) ocasiões. Bom ++ (17,5).
  • Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas (T) 2002 – Paira álcool mal o colocamos no copo, mas é um álcool guloso. Imediatamente depois, surge um perfil sedutor de grande categoria. Na boca, solta-se os apontamentos a bergamota, flores (um carácter floral intenso, mas não enjoativo), e um fundo mineral que parece não ter fim. No final de boca – que grande final (pensei em contar os segundos, seriam certamente pelo menos uma dezena)! – arrebata novamente a sensação a álcool, desta feita acompanhada de canela e sensações lácteas, doces e quentes, misturadas com fumo (quem sabe se um açúcar queimado em leite creme). Enfim, tudo demonstração de frescura e vitalidade. Grande vinho, o mais sedutor dos três, mesmo em ano difícil. Bom ++ (18).
  • Chocapalha (T) 2003 – Não é a primeira vez que escrevemos sobre os vinhos desta quinta próxima de Alenquer. Na verdade, provámos, e o que provámos relatámos, o "Quinta da Chocapalha (T) 2003" (ver link), o vinho de entrada na gama desta quinta. Pois bem, tudo aquilo que admirámos no "Quinta da Chocapalha" também encontramos neste topo de gama. Reside aqui, aliás, um dos poucos óbices que encontrámos neste Chocapalha. É que, a nosso ver, ambos os vinhos são muito similares, ficando o "Chocapalha" a dever pouco mais ao seu "irmão mais novo", mas sendo bem mais dispendioso. Nas notas de prova, mostrou cor negrita profunda não opaca. No nariz foi a vez das referências a chocolate branco, baunilha da madeira, enfim, tudo um pouco adocicado. Aqui não há vegetal, apenas bagas vermelhas e um toque floral (gerânio, pareceu-nos). Mais dissimuladas, aparecem notas a cacau, madeira de qualidade, fruta (mais fresca do que no “irmão mais novo”) e algum dado químico à mistura num palato que enche bem a boca. Final agradável, médio/longo, tudo muito próximo do estilo "novo mundo". Bom + (17).

quinta-feira, agosto 17, 2006

Legaris Crianza (T) 2001


Já depois de muita gente se ter apercebido da qualidade dos vinhos "del Duero", foi tempo de alguns grandes grupos bodegueros aí se instalarem. Foi o que sucedeu com o grupo Cordorniú, que criou em 2000, de raiz, a bonita e moderna bodega Legaris, a poucos quilómetros entre Peñafiel e Pesquera. A garrafa aberta foi comprada na própria bodega, depois de uma simpática visita às instalações seguida de "catas" (provas).
Uma vez que parte das vinhas só foram plantadas em 2000, a colheita de 2001 só foi conseguida com recurso a uvas de outros produtores. Ora, segundo o conhecido crítico espanhol José Peñín, as colheitas de 2002 e 2003 estão bem melhores.
A cor não impressiona, tons de cereja escura. O bouquet sim, é poderoso, sedutor e confitado. Notas de madeira muito agradáveis num nariz que promete, embora falte a fruta madura e delicadeza que procurávamos. Na boca, confirma-se o carácter para já indeciso do vinho, e o equilíbrio entre a madeira e a fruto ainda não é o melhor. Por outo lado, falta-lhe também corpo e estrutura, e o final é médio/curto.
Um projecto que promete bons dias, mas que, na colheita de 2001, ainda não logrou brilhar.
Suficiente + (14,5). A menos de € 15 na bodega.

quarta-feira, agosto 16, 2006

(Mais) Revisitações:



  • Adega de Pegões Colheita Seleccionada (T) 2001 - Após uma prova (já em 2006) que desagradou - excesso de evolução, ou "coisa que o valha" - não descansei até o provar novamente. É que se tratava de um dos meus predilectos, no que respeita às "Terras do Sado". Abriu-se a garrafa e ... afinal tudo voltou a ser como eu esperava: um vinho ainda quente, seguro, com estrutura, taninos absolutamente macios e ainda muita fruta. O que se pode pedir mais? Adivinha-se o seu definar, por isso toca a beber até 2008. Bom + (16,5).

terça-feira, agosto 08, 2006

Revisitações:

  • Quinta dos Carvalhais Encruzado (B) 2003 - Foi decantado e novamente introduzido na garrafa. Mantém-se muito interessante (ver prova anterior aqui), um branco de referência. O primeiro impacto olfactivo é de calda de ananás, está mais doce do que a prova anterior. Só depois surge o toque mineral que aguardávamos. Mantém-se fresco, mas o nível de acidez da prova anterior é coisa quase do passado, por isso não hesite em bebê-lo já, ou durante 2007. Bom (16).
  • Quinta do Infantado (T) 2002 - Vinho bom de um ano mau... Continua a mostrar uma bonita cor e mantém-se fácil de beber (ver referência anterior aqui): tem complexidade, não sendo hesitante nem tímido. Notas a bagas vermelhas e alguma especiaria no final (merecia, aliás, um final mais longo e incisivo). Na minha opinião, ainda pode evoluir favoravelmente mais um ou dois anos. Bom - (15,5)
  • Adega de Pegões Trincadeira (T) 2004 - Este tinto ainda está "para durar" mais uns 3-5 anos, mas já se encontra pronto a beber (ver sugestão anterior aqui). Apesar de ser monocasta, a Trincadeira está "marcada" pelo terroir das "Terras do Sado". É um vinho jovem, quente, com singelas notas florais e a fruta vermelha. A madeira continua demasiado evidente. Bom - (15)

segunda-feira, agosto 07, 2006

Post Scriptum (T) 2004


Não constitui novidade que se trata do "baby-Chryseia". Ora, é de boas uvas - já se sabe - que se fazem bons vinhos. E este PS de 2004 está bastante bom! Aliás, quanto mais provo vinhos de 2004, maiores são as expectativas para os topos de gama da colheita.
Cor bonita, ainda rubi-lilás, e logo um nariz poderoso, amaciado pela madeira, coloca-nos de sentido.
Na boca, surgem as imediatas referências a geleia de morango, e alguma cereja. Mas depois, depois vem a madeira, a resina e o carvalho, mas tudo ainda muito novo e nada integrado.
Todavia é o final, ainda que de média intensidade e menos evoluído e elegante, que nos faz lembrar do irmão mais velho... é aquele final láctico com notas de baunilha e chucutre que, paulatinamente, se transforma num "bom-bom" (de chocolate de leite com recheio de licor), muito guloso! Por este preço, melhor é quase impossível.
A menos de € 13. Bom + (16,5).

Dicas de restauração:

  • Casa da Dízima - Edifício antigo, mas restaurado, mesmo à entrada de Paço de Arços (para quem vem de Lisboa). Provou-se, entre outros, a salada de coelho (este desfiado, um pouco mais de vinagre tinha sido o ideal), o medalhão de vitela com molho de trufas acompanhado de risotto de pleurotes e trouxa de legumes e as codornizes recheadas de alheira de Mirandela. Tudo muito bom. Também boa a carta de vinhos, bons copos e temperaturas adequadas, aliás todo o serviço de vinhos é óptimo graças ao escanção da casa. Bebeu-se Meandro (T) 2003: muito bom, só falta mais presença e corpo, tem muitos taninos, boa fruta fresca, e alguma moka no final; e Molino Real 2003: muito refrescante, ananás, banana, melão... A menos de € 50 por pessoa (com vinho).
  • O Migas - No centro histórico de Sines. Já jantei n’ "O Migas" dezenas vezes, e sempre muito bem. Não se pode dizer melhor de um restaurante, pois não..? Maçã com farinheira de entrada e depois galinhola em cama de patés (por encomenda). Divinal! Bebeu-se um Lagoalva (T) Syrah 2000: no ponto óptimo de consumo, penetrante com notas de enxofre de início, depois foi seco com notas de chá, tabaco e cacau, final interminável. Óptima relação preço/qualidade, mesmo nos vinhos. A menos de € 25 por pessoa (com vinho).

sexta-feira, agosto 04, 2006

Coisas do Arco do Vinho


Procurava dois vinhos brancos. A saber, "Três Bagos Sauvignon" e "Muros Antigos Loureiro", ambos de 2005. Procurava-os mesmo!
Na verdade, tenho vários brancos em casa para ir bebendo. Também conheço outros vinhos brancos que não tenho, apenas por que não os quero. Mas aqueles dois... queria mesmo comprar, e de imediato.
Sucede, que não estava a ser fácil a tarefa de encontrá-los nos sítios mais vulgares. Bem sei que não são raridades, mas a verdade é que os supermercados, "hipers", e mesmo algumas garrafeiras perto de casa não conseguiam satisfazer o meu capricho.
Mas esta história tem um final feliz. Andava afinal burro, eu! Fui, finalmente, a uma das minhas garrafeiras predilectas, talvez a primeira garrafeira onde comprei vinho em Lisboa, e lá estavam as garrafas a olhar para mim, e a preços muito simpáticos! Pedi umas tantas botelhas e diz-me, de forma convincente, um dos sócios:
- "Isto tem tido muita procura, sabe."
Claro que sei... e se eu os procurei! Que parvo fui em não ter ido "in the first place" àquela garrafeirra. Logo eu, depois do que já passámos juntos.
É por isto que nos devemos lembrar que certas garrafeiras merecem a nossa confiança total. É que têm aquilo que queremos. Ao Francisco Barão da Cunha, e ao José Azevedo, asseguro lembrar-me (ainda) mais vezes.

domingo, julho 30, 2006

Brancos para vários gostos:

Em pleno Verão apetece vinho branco. Em Portugal, todavia, já temos brancos para todos os gostos. Bons, maus, leves e frescos, pesados e aborrecidos, pesados mas agradáveis com determinada refeição. Enfim, já temos de tudo. Prova disso são os 4 vinho que sugiro, todos diferentes...
  • Deu la Deu Alvarinho (B) 2005
    Distante do "Estilo Soalheiro", mas, como vem sendo regra, um bom vinho branco na linha do "Alvarinho clássico". Cor amarela clarinha esbatida e turvada pela “agulha” forte (muita efervescência). Na boca é um daqueles Alvarinhos que não nos faz esquecer que é verde: erupção abrupta de notas citrinas e tropicais, tudo muito fresco num conjunto leve, como se a fruta tivesse acabado de sair do frio. Final curto. Bom – (15).
  • Luís Pato Vinha Formal (B) 2003
    Provado a 15º de temperatura na companhia da Filipa Pato. Segundo a enóloga (e filha do produtor Luís Pato), talvez esteja no seu melhor ponto de consumo. Cor impressionante, quase âmbar (próximo da cor de muitos colheita tardia), é um néctar difícil: doce no primeiro ataque à boca, depois mineral suave até um final longo, mas indefinido. A repetir a prova para tirar dúvidas. Bom – (15).
  • Herdade do Meio (B) 2004
    Enorme frescura e refrescante acidez! Olhámos uma segunda vez para o rótulo, pois imaginámos ter feito confusão. Mas não... é um branco alentejano cheio de frescura. Mais, é feito de Antão Vaz! Demonstração cabal que uma região pode ter vários registos, desde que os enólogos saibam "trabalhar" o vinho. Muito intressante, e com forte componente aromática. Suficiente + (14,5).
  • Lugar D’arei (B) 2004
    Pouco exuberante no aroma e na boca, é do tipo reduzido e tímido (mas sem razões para isso). É que demostra bom porte, corpo elegante e robusto, apesar da falta da componente aromática. Ideal para acompanhar peixe assado. Suficiente + (14).

Rosa Choc



Na edição n.º 200 (Julho) da Revista de Vinhos (RV), surge-nos um comparativo de rosés. Também a edição n.º 3 (Julho) da Blue Wine (BW) tinha uma prova semelhante. Sucede que, apesar de alguns vinhos serem os mesmos em ambas as provas, o consenso entre as duas revistas voltou a não existir. Por mim, óptimo – é destas divergências que os enófilos estão à espera. É que, perante a discórdia, resta beber para tirar as dúvidas!
Ora, eu já tinha tido a oportunidade de provar uma parte dos vinhos seleccionados por ambas as revistas, e deixem-me dizer-vos a que conclusão cheguei: a melhor pontuação da RV foi para vinhos que, entre outras características, demostravam algum açúcar residual; ao invés, já para a BW os melhores vinhos foram os mais refrescantes.
A minha selecção é, obviamente, de âmbito pessoal, mas, à posteriori, não consigo deixar de notar que é mais próxima da selecção da BW, ou seja, por outras palavras, mais próxima dos rosés feitos no Douro. Aqui fica:
  • Portal (R) 2005: Muito equilibrado e sedutor. Um rosé para várias ocasiões. Bom – (15)
  • Vale da Raposa (R) 2005: Feito de touriga nacional, e não resulta de sangria. O mais complexo do grupo. Suficiente + (14)
  • Quinta da Alorna (R) 2005: Está bem feito, todo do tipo "certinho". Suficiente (13)
  • Lugar de Arei (R) 2005: Falta-lhe garra, mas tem elegência. Bom final de boca. Suficiente (12,5)
  • Monte da Peceguina (R) 2005: Cor escura. Excesso de açúcar, groselha autêntica. Suficiente (12)

Parabéns Revista de Vinhos

Chegou finalmente a edição n.º 200 da Revista de Vinhos (RV). Em preparação durante vários meses, chegou às bancas com duzentas páginas e algumas "características especiais" (Luís Ramos Lopes dixit).
Com tanta preparação, parece-me que esta edição não é assim tão marcante quanto eu antecipava, e as tais "características" resumem-se a um caderno destacável (com um título, aliás, de gosto discutível), e algumas listagens de vinhos, de restaurantes, de acessórios gourmet, etc, enfim uma espécie de best of da RV. Por mim, como gosto e sigo a RV faz anos, tudo bem! Sou daquele tipo de público fiel: não me surpreendo facilmente com cadernos e afins, mas também não é por isso que abdico de comprar e ler a RV.
O mais importante é deixar bem claro a importância deste projecto: desde 1989, uma revista especializada de sucesso que fez e faz mais pelos vinhos portugueses (e não só) do que qualquer acção governamental, institucional ou promocional ("relatório Porter" incluído).
Aliás, eu não comecei a beber vinho por causa da RV, mas se não fosse esta revista talvez não estivesse aqui a escrever este blog. Obrigado, portanto.

sábado, julho 22, 2006

Loridos Alvarinho (B) 2005



O primeiro Alvarinho que provei produzido fora da região de vinhos verdes foi com José Neiva da DFJ. Na altura (já lá vão uns aninhos), José Neiva tentava convencer das virtudes desta casta quando plantada no Ribatejo. Também me lembro do vinho ter um estilo bastante próximo dos Alvarinhos do Minho, mas com menor intensidade aromática.
Já este Loridos Alvarinho, da Estremadura pertinho do Bombarral, é bem diferente… parece mesmo não querer imitar os seus irmãos nortenhos. Ao invés, o Alvarinho desta quinta – durante muitos anos apenas vocacionada para a produção de espumantes – tem um estilo próprio, naturalmente mais gordo e redondo do que os refrescantes verdes minhotos.
Na cor é amarelo citrino, forte e muito brilhante (é raro um minhoto ter uma cor tão carregada!). O nariz é exuberante e fresco, com notas a ananás e manga. Na boca é curioso, não me lembrou de início essa casta branca que tanto adoro – é mais uma prova que o terroir pode "marcar" mais um vinho do que as castas! Final médio/longo com elegância.
Um bom vinho, e com um bom preço, sobretudo vocacionado para a época estival. Mas não substitui, nem pretenderá certamente, os Alvarinhos mais verdejantes...
Abaixo de € 7. Suficiente + (14,5).

sexta-feira, julho 21, 2006

Sugestões - Dois tintos abaixo de € 10:

Para este Verão nada melhor do que dois belos tintos a bom preço. Já muito me tinham falado sobre eles, mas só ontem tive a oportunidade de os provar. Um douriense, outro da oriundo da Estremadura. Ambos de 2003, ambos muito bem feitos…

  • Quinta da Chocapalha (T) 2003: fechado na cor, ainda que viniosa com laivos roxeados - tudo indica um bom vinho. Na boca, temos concentração e estrutura, alguma fruta madura e um toque doce acompanha a prova. Um vinho surpreendentemente quente e guloso (vem da Estremadura!), muito bem desenhado pela bonita e dotada Sandra Tavares da Silva (Pintas, Vale D. Maria). Final médio/longo. Abaixo de € 8. Bom (16).
  • Castello d’ Alba Reserva (T) 2003: na cor também vinioso, purpurina com tons violáceos. No nariz é "duro", pouco friendly, com madeira mas sem qualquer exaltação, sem dúvida um douro "à moda antiga". Mais exuberante na boca, mais ainda complexo, difícil, alguma fruta absolutamente preta (ameixa) sem componente doce, notas de azeitona também. Final curto/médio. Mais um belo vinho da sociedade VDS. Abaixo de € 6. Bom – (15).

quarta-feira, julho 19, 2006

Colecção Priv. Domingos S. Franco Sauvignon (B) 2003


Em viagem, não devo ser o único enófilo a preferir beber os vinhos produzidos na região por onde vou passando. É como se tratasse de uma maneira de me encruzar melhor com a região, de vivê-la. E desta feita, em Azeitão, o bom tempo convidou a um Sauvigon Blanc da casa José Maria da Fonseca.
Rótulo aprumado com o nome e semblante do autor. No copo mostrou-se amarelo citrino claro. Nariz vegetal à casta, com notas de espargos e azeitonas verdes, tudo muito bem.
Na boca é mais fresco, quase exuberante na frescura (lima e algum alperce), muito equilibrado, quase não se nota a madeira, e com um toque mineral interessante. O final é que muito curto, sem intensidade. Como se diz por aqui "sabe a pouco"!
A menos de € 12. Suficiente + (14,5).
PS – não resisto em colocar uma foto da Serra da Arrábida, que além de belíssima, protege os milhares de hectares de vinhas de Azeitão, Palmela e restantes Terras do Sado.

terça-feira, julho 18, 2006

Dinastía Vivanco Crianza Sel. de Família (T) 2001


Ainda um resquício da viagem por "Rioja Alta" e "Duero" que fizemos no passado recente. Comprámos a botelha na loja do Museo de la cultura del vino em Briones, casa que honra a história do vinho de "La Rioja".
É um dos mais jovens vinhos desta famosa bodega, mas aquele que melhor combinava com o lombo de porco que na mesa jazia.
É um néctar a meio caminho entre o "rioja tradicional" e o "novo rioja" (desta tendência já escrevemos sobre um exemplar aqui). Mostra cor vermelha pouco viva, e revela a típica concentração diminuta da maioria dos riojas.
O nariz é comedido, mas nota-se um bom trabalho no tempranillo, sedutor e quente. Na boca é elegante q.b., a madeira é equilibrada (o que nem sempre é comum), pó-talco, com as notas de baunilha a não se sobreporem a um conjunto que prima pela fruta vermelha.
A menos de € 15. Suficiente + (14,5).

domingo, julho 16, 2006

Preta (T) 2004


Duas mesas ocupadas… a nossa, e a do anfitrião Filipe Gaivão com a respectiva família. Segundo o Filipe são assim as sextas-feiras com calorzinho, toda a gente a jantar na esplanada (olhai os mosquititos!). Nada que me importe, pois havia conversa a por em dia.
Para acompanhar a empada de perdiz (antes tinham ido já uns pitéus), fomos para mais um projecto alentejano de Estremoz, o Preta (T) 2004 – o topo de gama da recentemente constituída sociedade Fita Preta, segundo nos informam.
Confesso que já estou um pouco saturado deste "novo mundo regional alentejano". A culpa não é, obviamente, dos vinhos isoladamente considerados – muitos deles bem bons! – mas desta mania, consciente ou não, pela uniformização. Por mais que se tente, alguns dos novos vinhos do Alentejo (sobretudo de Estremoz e de Albernoa) sabem "muito ao mesmo". Mesmo quando a sua composição é inesperada, como sucedeu com este Preta: Touriga (52%) e Cabernet (48%)!
Neste caso, no copo, mostrou uma cor rubi-violeta ligeiramente concentrada. Nariz intenso, químico, com um ataque a fruta madura a lembrar (aí está, aí está…) outras provas! Na boca teve mais graciosidade, com a Touriga a dar um toque floral muito interessante. O Cabernet é que parece ter ficado para segundo plano, sobressaindo mais a madeira, num conjunto redondo e macio.
Um vinho bem feito, sem arestas (como se escreve por aí), disto não temos dúvidas – veja-se a ligeira acidez mentolada e o final médio/longo – mas, a meu ver, pouco original.
Bom (15,5).

sexta-feira, julho 14, 2006

Soalheiro (B) 2005 em noite amena de Verão


Em cada ano, não são assim tão poucas as noites amenas em Lisboa. Mas noites amenas (é que quentes são as de Sevilha!) sem qualquer indício de brisa, essas sim constituem uma raridade alfacinha. Comparada com outras cidades, vilas e aldeias de Portugal, Lisboa merece mesmo o destaque infeliz de ser uma windy city!
Ontem foi uma noite rara: sem vento nem brisa, apenas um maravilhoso calorzinho (quase quase 30º). Para quem não tem ADN sueco nem norueguês - aqueles portugueses, como o Pingus, que juram não aguentar o calor - a noite de ontem foi um verdadeiro deleite. E é nestas noites, de quando em quando, que não me esqueço de aparecer no Chafariz do Vinho para ficar na muy agradável mini-esplanada. Como também não me esqueço desse néctar dourado que me viu crescer, e através do qual comecei - em Braga, na casa dos meus avós - a beber vinho.
Foi assim a ocasião para um Soalheiro (B) 2005 - nome seguro quando se fala em Alvarinhos - que esteve, uma vez mais, irrepreensível. Aliás, não restam dúvidas que a colheita de 2005 foi muito bondosa para a maioria dos Alvarinhos.
Da cor pouco se pode falar (a penumbra da noite não o permitiu), mas em contrapartida apurou-se o nariz: elegante, banana intensa, notas doces tropical (manga), algum mineral, enfim um festim para o olfacto. Na boca, a frescura citrina revelou-se a grande nível, nomeadamente através das notas de casca de tangerina, frescura ajudada ainda pelo mineral de qualidade e, mais ténues, por referências a fumo num final médio/longo.
A acidez (bem como a "agulha") é que não me pareceu a de outros tempos, mas em noite de glória, foi coisa que pouco me perturbou.
A menos de € 10. Bom (16).

quarta-feira, julho 12, 2006

Novidades / Confirmações: 2004 & 2005

Não foram muitos aqueles que estiveram no Palácio da Bolsa no passado dia do vinho. Mas foi pena, pois surgiram algumas novidades. Em rigor, mais do que novidades foram confirmações. Boas casas apresentaram bons tintos e portos da colheita de 2004 e brancos de 2005. O que mostra qualidade e consistência. Ora, consistência na qualidade é coisa que os vinhos portugueses bem precisam. Vejamos as nossas notas:

  • La Rosa Reserve (T) 2004: É a nova imagem do "reserva" da Quinta de la Rosa. Mantém um altíssimo nível. Ainda duro, mas já é o lote final. Tudo indica que será mais uma bomba, mas com a polidez reconhecida a esta marca.
  • Quinta Vale da Raposa (T) 2004: Já mostra um registo elegante, personalizado e com boa capacidade de guarda. Enfim, as características comuns dos bons vinhos do produtor Alves de Sousa.
  • Quinta Vale da Raposa Vintage (P) 2003: É o primeiro Porto Vintage de Alves de Sousa no mercado. Não nos parece ter a força e o carácter necessários para uma guarda de longos anos, mas é já um vintage muito agradável, daqueles para consumir novos sem receio.
  • Kopke Vintage (P) 2003: Este sim é um vintage especial. Tinha curiosidade em prová-lo depois da excelente nota da "Blue Wine" (19). Ainda fechado no nariz; muito profundo e intenso na boca, mostra um complexo e inesquecível conjunto de sabores... tudo embrulhado numa força pujante. É um vintage incontornável.
  • Quinta do Noval Vintage (P) 2004: servido muito quente... ainda assim mostra as qualidades de sempre. É um vintage muitíssimo bem feito, perfeito equilíbrio. Mas merecia mais chama e agressividade. É como se a Noval tivesse uma formúla e a repetisse ano após ano. Podia ser diferente...
  • Castello d’ Alba Reserva (B) 2005: Na linha do "vinhas velhas" mas com menos battonage e madeira. A cerca de € 5 é um autêntico achado. Toca a comprar este branco neste Verão!