sexta-feira, maio 12, 2006

Pancas, Gago e ... Tapada do Chaves 1996

Enquanto outros colegas de ofício degustavam na Galeria Gemelli, nós, mais remediados (contamos tostões para nos desforrarmos hoje no Valle-Flôr), tínhamos um acordo com o Filipe Gaivão: nós levámos as garrafas, ele preparou a janta no seu restaurante. Assim, com uma pescada em tomatada e cebolada, seguida de folhado de perdiz e de lombo de porco com farinheira, bebeu-se:

  • Quinta de Pancas, Reserva Especial (T) 2003: muito concentrado como se esperava - os melhores Pancas são "built to last" e melhoram bastante com em garrafa -, mas não resistimos a uma prova antes do tempo. Muito maduro, fruto certamente do ano quente, com um impacto forte a fruta preta, sem traços de acidez, madeira já viva mas ainda escondida. Com um preço elevado, é um Pancas um pouco diferente de anos anteriores, mais madurão (ou será apenas do ano?). Cabe provar o “Premium (T) 2003” para tirarmos as dúvidas. Bom+ (17,5)
  • Dehesa Gago, (T) 2002: um belo vinho da região de Toro (a noroeste de Salamanca) feito por um dos novos mestres espanhóis, Telmo Rodriguez. Afirmando-se como um “driving winemaker”, percorrendo as auto-pistas de Espanha, Telmo Rodriguez (licenciado em Bordéus) dá assistência profissional um pouco por todo o território do vizinho ibérico. Este néctar, produzido a partir da variante autóctone da Tempranilho plantada em Toro (região ainda banhada pelo Douro), é talvez o seu projecto mais pessoal, mostrando-se elegante, macio, com irresistíveis notas a baunilha no bouquet e uma entrada de boca muitíssimo sedutora. Sem o excesso do carvalho americano típico de alguns vinhos espanhóis da velha guarda, e sem se notar o álcool, é um vinho sem arestas, onde a fruta vermelha madura (que não contribuiu para que se tornasse excessivamente doce) acompanha toda a prova, sobressaindo notas a mirtilho e referências a groselhas; fortemente guloso. Bom+ (17,5)
  • Tapada do Chaves (T) 1996: Fechou a noite antes do Porto, e fechou-a muito bem. Incrível a jovialidade deste puro alentejano, de Portalegre, diga-se! Nota-se pouco a evolução no copo (nem dá para acreditar...), apresentando-se rubi escuro apenas com a auréola em traços de castanho grenat. Nariz fechado mas com alguma fruta (que surpresa) e notas a couro e a armário antigo. Na boca esteve magnífico, elegante e portentoso, com fruta vermelha e notas nobres típicas da idade. Grande vinho. Bom ++ (18)
  • Quinta do Infantado (P) Vintage 1999: Pouco opaco na cor, perfumado e honesto. Conversei com o João Roseira uns dias mais tarde que me disse que a intenção era essa mesma, a de um vintage para ser consumido novo. Bom (16)

quarta-feira, maio 10, 2006

Vintages: novos ou menos novos?

Para quem quer ler uma interessante e vincada opinião, bem como os comentários, sobre Portos vintages (novos ou menos novos?), basta clicar aqui.

segunda-feira, maio 08, 2006

Evel Grande Escolha e Quinta dos Carvalhais

Também em casa se fez um mini “Dão e Douro” em pura brincadeira...
Abriram-se um Quinta dos Carvalhais Colheita 2002 (Sogrape) e um Evel Grande Escolha 1999 (Real Companhia Velha). É neste momento que me cabe esclarecer que tenho pelo Evel Grande Escolha (sobretudo os de 1999 e de 2000) uma grande afeição. Não sendo a marca mais mediática no mercado, nem o vinho mais poderoso das colheitas, foi e é um valor seguro e constitui uma excelente relação preço/qualidade. Diria mesmo que pode bem ser a porta de entrada para os verdadeiros topos de gama do Douro (G7), tendo outros já sido surpreendidos com este vinho. Quanto ao Quinta dos Carvalhais Colheita, também de preço não especulativo, surpreendeu pelo equilíbrio do seu conjunto, muito agradável, todo do tipo redondo, com a fruta a teimar em não sobressair. Vejamos melhor:

  • Evel Grande Escolha (T) 1999: muito escuro, apenas vermelho na auréola, bonito e elegante sem ser do tipo super-concentrado. Alguma evolução, mas revelou muita saúde (pode ser consumido até 2010). O nariz esteve algo fechado, duro mesmo, fruta madura em bloco e alguma madeira resultante dos 18 meses de estágio. Na boca esteve complexo, também fechado, mas muito sedutor. Notas a grafite misturadas com chocolate preto, muitas camadas, terminando por vezes doce e quente. Bom++ (18)
  • Quinta dos Carvalhais Colheita (T) 2002: grenat na cor, com pouca concentração e lágrima esguia. No nariz sentiu-se alguma acidez interessante, não concretizada na boca. Do estilo redondo e macio, é um conjunto equilibrado, mas de final curto. Suficiente+ (14)

Dão e Douro em Lisboa


Desde 4 deste mês, e até ao dia 14, as regiões vinícolas do Dão e do Douro estão espalhadas um pouco por toda Lisboa. Falo, como alguns já sabem, da 3.ª edição da Dão e Douro, iniciativa que privilegia o contacto pessoal dos vinhos com o consumidor, quer através de provas em garrafeiras, quer mediante jantares em restaurantes de prestígio.
As provas nas garrafeiras realizaram-se este fim de semana, os jantares começaram no dia 4 (no Eleven) e acabam no próximo dia 13 (no Terreiro do Paço).
Quanto a nós do Saca a Rolha, marcamos presença na Charcutaria Gourmet do CC Colombo e na garrafeira Adivinho, provando os seguintes durienses:
  • Calheiro Cruz Grande Escolha (T) 2000 bom++: um clássico do Douro em óptima forma; belo e elegante bouquet, madeira integrada, notas minerais e algum café.
  • Cerro das Mouras (T) 2003 bom+: bela surpresa, a marca soa a Alentejo... mas o carácter é do Douro, guloso, poderoso, taninos em forma e um belo final.
  • Taylor LBV (P) 2000 bom+: mais uma bela prova do que esta casa consegue fazer nos LBV (foi esta marca que "inventou" os LBV).
  • Quinta da Revolta Touriga Nac. (T) 2003 bom+: macio, aveludado, cativante, bela surpresa. Venham mais destes!
  • Glória Reserva (T) 2003 suficiente+: boa concentração, rubi escuro no copo, mas na boca esteve demasiado terroso, o carácter mineral demasiando bruto dominou a prova.

Quanto aos vinhos do Dão, quedámo-nos pelo:

  • Quinta dos Roques Reserva (T) 2003 bom-: no nariz surge o perfil duro da casa, e copo é médio/muito encorpado. Interessante, mas não surpreende.

No que respeita a restaurantes, lá estaremos nós na próxima sexta-feira dia 12 no Valle-Flôr. Já no dia 14, no encerramento das "festividades" cumpre-se a promessa de um encontro entre blogs de vinhos...

quarta-feira, maio 03, 2006

Notas gastronómicas

Uma vez mais importa parar a degustação de vinhos e destacar, apenas por uns instantes, algumas propostas gastronómicas.

O Nobre: novo restaurante - agora sito no Montijo - depois de tantas peripécias em Lisboa (algumas deixam muitas saudades, outras menos). É um regresso a alguns dos sabores da minha infância: a sopa de santola, os camarões quentes ao sal, o lombo de robalo/cherne à Justa, and so on... and so on. O estilo da casa mudou bastante para quem se lembra do restaurante na Ajuda (mas não entro em detalhes), o público alvo também mudou... a qualidade da comida da D. Justa e a simpatia do Sr. Nobre essas continuam intactas.
Quinta de Catralvos: em plena estrada entre Azeitão a Sesimbra fica esta quinta, projecto ambicioso, dos vinhos ao turismo, passando pela restauração. Com o chefe Luís Baena a comandar a cozinha, temos então várias propostas interessantes (eg., shot de navalheiras e ouriços do mar, croquetes de ostra, ovos de codorniz em cogumelos) viradas sobretudo para o estilo tapear, dada as dimensões reduzidas. Tirando o facto de várias propostas estarem esgotadas (!) aquando da nossa visita, e a escassez demostrada pela lista de vinhos, é uma visita a repetir, sobretudo pelo bom ambiente e pela a originalidade da maior parte dos pratos apresentados.

terça-feira, maio 02, 2006

Dica do mês


Adega de Pegões Trincadeira (T) 2004: mostra uma boa cor profunda, notas a fruta muito madura e alguma pimenta branca. Sente-se bem o terroir das "Terras do Sado", com a doçura habitual. A madeira talvez esteja demasiado evidente mas sem deturpar o conjunto muito macio, gordo até, e bastante agradável.
A menos de € 6.

quinta-feira, abril 27, 2006

Château Cap de Faugères (T) 2001


Os vinhos franceses têm destas coisas...quando compramos a garrafa pensamos que são bons, depois guardamos e por vezes esquecemos que os temos, mas quando finalmente os abrimos, constatamos ao primeiro trago que são ainda melhor do que pensávamos. Este Château Cap de Faugères vem de uma casa bordalesa em ascensão com vinhas em Saint-Emilion solos "grand cru", bem como numa região contígua denominada Côtes-de-Castillon. O vinho ora provado vem de um lote desta última região.
Um bouquet trasbordante, profundamente confitado e sedutor, e uma cor terrivelmente viniosa, abre o caminho para uma fantástica descoberta, deu-nos mesmo a sensação que o vinho podia ter esperado mais uns anos.
Na boca, sabores intensos a fruta silvestre muito madura, madeira que não se impõem – tudo no sítio! Sensações a bombons, ginja, todo guloso mas não sendo demasiado doce nem quente. Enfim, nada maçador...
Acabamos como começamos: os vinhos franceses têm destas coisas... são, muitas vezes, fantásticos.

sexta-feira, abril 21, 2006

Vinhos da Malhadinha Nova na Venha à Vinha

Na passada quarta-feira a garrafeira Venha à Vinha celebrou mais um aniversário. Como é costume da casa, que só sabe servir bem, a festa foi enobrecida com convidados e vinhos especiais. Quem fez as honras foi o Paulo Soares, um dos proprietários da Herdade da Malhadinha Nova, da simpática família Soares.
O primeiro vinho servido foi o Monte da Peceguina (B) 2004, um branco da nova geração do Alentejo, no qual as castas Arinto e o Roupeiro são adicionadas à Antão Vaz para atribuir ao vinho um carácter mais aromático. Todavia, foi mesmo o Antão Vaz que mais sobressaiu na prova (deve ser maioritário no lote), com o temperamento pesado e áspero que o torna apto para acompanhar comidas. Está um belo branco, com uma frescura considerável (sobretudo tendo em conta o ano quente de 2004), madeira bem doseada (como é necessário quanto se trabalha com o Antão Vaz). Enfim, um branco a rivalizar com alguns dos melhores da região.
Depois seguiu-se o Rosé da Peceguinha (R) 2004, com uma imagem comercial muito persuasiva e cuidada, tal como sucede, aliás, com os restantes vinhos desta casa. A característica que mais marcou a proa foi o travo doce (xarope de groselha) proeminente. A fruta é de qualidade, mas tem de ser bebido muito fresco e de preferência como aperitivo, senão pode-se tornar enjoativo.
Mas vamos então aos tintos... e que tintos! Tudo começou com o Monte da Peceguina (T) 2004: No nariz esteve muito bem, a mostrar-se um alentejano com garra, notas quentes ao Aragonês, tudo no nariz é Alentejo... Na boca, curiosamente, mudou um pouco o estilo, sente-se mais o Alicant(e), que lhe dá também uma bela cor, com notas vegetais elegantes, e a Syrah com nuances ora doces ora apimentadas. A madeira sente-se pouco e não está (ainda) integrada com a fruta do Aragonês, o que não nos desagradou, pelo contrário.
Seguiu-se o Aragonês da Peceguinha (T) 2004, uma aragonês típico da região, muito bem feito. A madeira sentiu-se mais do que nos vinhos anteriores (alguma baunilha, tosta menos evidente), com aromas a banana e noz moscada. Um aragonês não pesado, com bastante fruta, óptimo para consumo sem comida.
Abriu-se ainda o Pequeño João (T) 2004, vinho concebido a partir de um limitado lote que agradou muito os produtores, mas que tem desagradado alguma crítica. Percebe-se imediatamente que é não um vinho fácil (o Cabernet com o Arogonês tem destas coisas...), mas não deixa de ser interessante. Escuro na cor, sobressai um Cabernet escaldado pelo sol, poderosíssimo mas ligeiramente agre. De todos os vinhos provados, este foi aquele que achei com mais capacidade para acompanhar gastronomia robusta.
Por fim, veio o Madalhadinha (T) 2004 – numa das suas primeiras apresentações – mostrando-se bastante complexo, ainda jovem (quero prová-lo daqui a 6 meses), muito denso na boca. O Alicant(e) está em grande nível, fresco mas longe das notas verdes habituais. A madeira está bem marcada (bela madeira, by the way) mas toda em elegância, e um final longo que, daqui a alguns meses, será certamente longo e... guloso.
Enfim, vinhos do Alentejo feitos com trabalho e investimento, como a zona merece e retribui. Simpatia dos proprietários a provar que estão no negócio para durar. Ainda bem.

quinta-feira, abril 20, 2006

Breves notas: brancos

  • Neethlingshof Chardonnay (B) 2004: Vinho da região do Cabo (África do Sul) com notas próximas do estilo acídulo de alguns chablis menos equilibrados, longe por isso daqueles onde predominam notas amanteigadas. Muito fresco, algumas notas florais, para se beber com marisco. A menos de € 10. Suficiente +.
  • Três Bagos (B) 2004: Bastante acidez (demasiada mesmo!), mostra-se muito vivo, sem se notar que parte estagiou em madeira. A acidez da região (Douro) confere-se alguma complexidade e estrutura, mas está bem longe do que marca faz em relação ao Sauvignon Blanc. Abaixo dos € 6. Suficiente.

segunda-feira, abril 17, 2006

Jantar com a Montez Champallimaud


Não foi apenas mais um jantar o realizado no restaurante À Volta do Vinho, na penúltima sexta-feira, ali para os lados da Praça das Flores. De facto, esta iniciativa de Filipe d' Orey Gaivão contou com a colaboração da conhecida casa Montez Champallimaud e, mais importante, com a presença dos seus vinhos, incluindo o Quinta do Côtto Grande Escolha (T) 2001.
Com as entradas, começou por se provar o recente Paço de Teixeiró (B) 2005, branco com alguma complexidade, de cor pouco brilhante, mostrou uma frescura agradável na boca, embora fosse algo seco. Nuances ainda não totalmente evidentes (por ser tão novo), mas ainda assim notou-se algum ananás e, mais escondido, um pouco de maracujá.
Depois, já com o folhado de coelho servido (bastante bom, aliás), serviu-se o Quinta do Côtto (T) 2003. Revelou-se um tinto jovem, com um estilo mais moderno do que faria supor (para quem conhece os vinhos desta casa). Bastante agradável com fruta de qualidade (ao que parece não vai existir Grande Escolha de 2003, pelo que alguma uva de vinha velha deve ter vindo aqui parar), traço de uva madura mas sem qualquer excesso, taninos todos em elegância, e algum carácter mineral e metálico que contribuiu, em nossa opinião, para uma frescura e complexidade bastante interessantes. Belo final, médio/longo.
Com o novilho no forno (mal passado, como gostamos) serviu-se então o homenageado da noite... o Grande Escolha (T) 2001: este mostrou-se, desde logo, muito bonito na cor de um rubi profundo, não fosse já alguma evolução. No nariz sobressaltaram as notas a fruta bem casadas com a madeira, esta delicada mas presente. Tudo bem equilibrado, mas o futuro o dirá melhor. Na boca esteve, de início, menos fácil que o tinto de 2003, mas sempre com fruta encarnada elegante (morango silvestre) e referências frescas e piques de verdor correctos (orvalho e erva molhada). Tem alguns bons anos pela frente, o que negligencia uma prova para já... existem vinhos assim, preparados para envelhecer e, por isso, menos sedutores quando novos. Estão contra a corrente do mercado actual, disso temos a certeza!
Quanto ao Champallimaud Vintage (P) 2001 mostrou-se um Porto ao nível do que a casa nos habituou. Doce, muito doce, e pouca película na cor. Alguma silhueta feminina determinada pelo pouco álcool a piscar o olho ao mercado inglês não especializado. Em todo o caso, casou bem com um queijo da serra (este também algo mortiço, sem a força habitual).
Um bom jantar, com vinhos muito bem feitos, aos quais falta apenas um pouco mais de alma. Neste jantar estiveram presentes muitos daqueles convivas que costumam encher as provas na garrafeiras Coisas do Arco do Vinho, bem como alguns colegas de ofício do blog Vinho a Copo, aos quais redobramos votos para um futuro encontro.

segunda-feira, abril 10, 2006

Quinta de Roriz (T) 1999


A oportunidade de beber um Quinta de Roriz 1999 é algo que não costumo evitar, tanto mais que a sua produção foi muito limitada (cerca de 1000 caixas). A garrafa que abri faz poucos dias foi-me oferecida pelo meu amigo Almeida Fernandes na altura em que tinha o feliz hábito de me presentear com vinhos... hoje, prefere tentar vender e a preços destituídos de amizade.
Mas vamos então escrever sobre o vinho... a cor esteve um espanto, num rubi escuro retinto a mostrar uma evolução lenta para a idade. No cheiro, a conversa foi outra pois um odor a rolha manifestou-se durante quase toda a prova (embora o arejamento o tivesse diminuído). Bouquet evoluído com notas a resina, algum couro, e uma fruta ainda madura por detrás de uma capa de tabaco.
A boca confirmou o nariz, apresentando-se vinioso e elegante, com aromas muito subtis a cassis, e uma madeira bem estruturada com os sabores (e aromas) secundários.
Venham mais destas...
Nota ainda para o belíssimo rótulo da autoria de José Guimarães.

quinta-feira, abril 06, 2006

Nota Breve: tinto douriense

  • Quinta do Infantado (T) 2002: Com tanta cor nem parece um Douro da colheita de 2002 ... concentração média/alta, muita fruta madura e madeira equilibrada. Um belo tinto, a merecer mais dois ou três anos de garrafa. Se o futuro passar pela utilização de madeira nova no estágio, e pelas uvas de 2003, então teremos certamente um vinhão. Ficamos à espera, até porque o preço é bastante agradável - a menos € 10.

segunda-feira, abril 03, 2006

Verdes Majestosos

Faz vários anos que Anselmo Mendes tem vindo a dinamizar o mercado dos vinhos verdes brancos. Não hesitamos em considerar o lançamento dos rótulos “Muros de Melgaço” e “Muros Antigos” (bem como o “Espumante Muros Antigos”), como o maior salto qualitativo dos últimos anos vivido nos vinhos verdes. Tanto no que respeita ao cuidado na sua elaboração, quer no renovar de uma imagem que se encontrava um pouco gasta.
Surgiu assim o conceito de um Alvarinho com o caracter fresco da região, mas com mimos na produção nunca antes utilizados. A utilização de madeira nova, que já se vinha fazendo nos melhores Albarinhos galegos (Rias Bajas), mostrou-se mais um trunfo de Anselmo Mendes.
Com poucos dias de diferença, provámos ambos os rótulos da colheita de 2004. Vejamos:
Temos assim o “Muros Antigos”, super refrescante, com efervescência potente, traço citrino forte e uma espécie de sensação de terroir. Não é um Alvarinho fácil nem comum (quase omissas as referências a fruta tropical), é mesmo difícil de o esquecer, tem aquilo que só conseguimos descrever como uma “frescura complexa”.
Quanto ao “Muros de Melgaço” (um pouco mais caro do que o anterior, e com um ligeiro estágio em barrica) sente-se a mesma fruta de qualidade, mas tudo mais domado, o citrino evolui bem para a manga e o maracujá. Algumas notas doces finais contribuem para um conjunto guloso. Uma impressionante cor amarela ajuda a embelezar todo o conjunto, sentindo-se uma agulha menos potente do que o irmão mais novo.
Dois grandes Alvarinhos com algumas diferenças, mas iguais no que realmente importa: a qualidade do fruto, e o estilo personalizado do produtor.

sexta-feira, março 24, 2006

Kefren (T) 2001


De mim para mim, este é um vinho certamente especial... foi-nos vendido em plena DOC Rioja no local onde pernoitámos, mais precisamente em Ábalos, cidade de cor de terra. Mas voltemos ao início:
Os bons tintos de Rioja tem vindo recentemente a modernizar-se, deixando para trás o excesso de regulamentação que as classificações espanholas (eg., crianza, reserva, gran reserva) impõem, o que em muito limita a criatividade.
A bodega Kefren, com nome de pirâmide (escolhido pela semelhança com a elevação onde a vinha está plantada) é muito recente, começou em 2000 e tenta fugir à tradição (o que não é fácil por aquelas bandas). O vinho, longe do estilo clássico e cansativo dos Rioja tradicionais, é de autor!
Logo se que se sacou a rolha (a custo!) lembrámo-nos daquele território quase desértico protegido dos frios do norte pela Serra Cantábrica, com um aroma a revelar alguma baunilha mas mostrando-se ao mesmo tempo jovem e cheio de força.
Na cor apresentou-se um tempranilho vermelho grená, mais escuro do que é costume para esta região.
Na boca foi a confirmação de um grande vinho, densidade perfeita, várias camadas de fruto no paladar: primeiro mais madura, depois mais fresca, e depois ainda a madeira (notas a lembrar fósforos e especiarias exóticas). Por fim, uma acidez viva que garante pelo menos mais 5 anos em garrafa e um final super guloso.
Um grande tinto de Rioja (uma descoberta algo pessoal!) a mostrar que a zona não tem apenas passado.

terça-feira, março 21, 2006

Sugestões de restauração

Deixando os vinhos de lado (é pouco tempo, bem o sabemos), escrevo sobre dois restaurantes relativamente recentes e que merecem, sem qualquer dúvida, uma visita.

  • O primeiro chama-se “Amarra o Tejo”, sito no jardim do castelo de Almada (na parte velha, pouco acima da Incrível Almadense - os amantes de música sabem onde fica). Em pleno miradouro – com Lisboa aos pés – ergue-se um restaurante onde o peixe é o menu principal. Mas não se basta com peixe fresco grelhado, pratica-se também alguma cozinha mais requintada servindo, a título de exemplo, uma bela asa de raia em molho de alho com alcaparras e pasta de azeitona. Uma lista de vinhos (lá está... que não consigo resistir em falar deles!) bem elaborada, com uma variedade significativa de rótulos, copos a preceito, puros conservados em condições propícias de humidade, enfim... tudo o que se deseja. Em rigor, já bastaria a boa comida, mas com a vista deslumbrante e qualidade no serviço, é um programa a repetir.
  • O segundo restaurante tem por nome “À volta do vinho”, e centra a sua actividade em proporcionar refeições onde o vinho e o comer estão relacionados em absoluto. Às quintas-feiras este desígnio é exponenciado pela apresentação de um menu de degustação, acompanhado de vinho a copo seleccionado pelo proprietário para cada prato. Fica localizado entre o Palácio de S. Bento e a Praça das Flores (na segunda rua à direita de quem sobe) e tem um preço em conta.

sexta-feira, março 17, 2006

Notas breves: Tintos

  • Calda Bordaleza (T) 2003: Belo vermelho rubi compacto sem se aproximar da negritude. Na boca este bairradio é elegante, alguma acidez a compor o conjunto das castas francesas. Sente-se pouco o álcool. Muito interessante. Bom+.
  • Terras do Zambujeiro (T) 2002: Um alentejano com 24 meses de barrica! É obra. Mas é muito bom também. Naturalmente a fruta está menos presente, sobressaindo notas de couro e especiarias. Um alentejano diferente, pouco fresco mas muito intrigante. Bom+.

quarta-feira, março 15, 2006

Esporão Private Selection (B) 2004

Contrariamente ao que havia ouvido e lido sobre ele, este Esporão branco mostrou-se bastante fresco. É certo que lá estava a cor âmbar, o corpo cheio e aveludado, o doce e o mel como sabores primários... mas e aquele final? O que dizer daquele final citrino e floral, ligeiramente acídulo (ora acético ora doçura) a pedir mais um sorvo?
Um grande branco do Alentejo, mas que penso não servir para guardar pois falta-lhe a estrutura e acidez adequada. Com mais este vinho Portugal subiu mesmo um patamar nos brancos, onde andávamos coxos não fora a honra dos "Alvarinhos" e de alguns "Encruzados".
E acreditem que é mais fresco e citrino do que andam por aí a pregar. A não perder... isso de certeza.
A menos de €15 nas garrafeiras de todo o país.

segunda-feira, março 13, 2006

Notas breves: 2 brancos franceses bem diferentes

  • Coteaux du Lapon, (B) 2003, Domaine Pinsonnerie: Muito doce este vinho do Vale de Loire. Bonita cor, corpo grosso, pena o final não muito gordo. Algo enjoativo, mas o problema pode ser meu posto que não aprecio brancos doces. Em todo o caso, acompanhou bem um fois gras da loja parisiense especializada "Petitte Scierie". Bom-.
  • Laroche Chablis (B), 2004: Cor amarela clara (esperava melhor neste aspecto), notas de maçãs, mas também algum fundo mineral que gostei muito. Toda alegância da marca (muita finesse), faltou-lhe apenas um final mais digno (longo) e uma fruta mais exótica pois prevaleceram apenas os citrinos. Bom.

quinta-feira, março 09, 2006

Quinta da Trovisca (T) 1999


O nariz assustou-se no início com uma acidez trasbordante e fora de vulgar para uma colheita de 1999. Algum travo a álcool, aroma surpreendentemente jovem, alguma fruta (sem camadas em destaque), tudo banal.
Na cor não se vislumbrou brilho, antes mostrou-se vermelho rubi já com alguma evolução, e transparências típicas de um vinho pouco encorpado.
Na boca foi vigoroso, mostrou-se saudável, a fruta é de qualidade mas deu a ideia que não foi bem trabalhada. Depois foi austero, aqui e ali um pouco de pó talco e laivos de tabaco, mas tudo rude. Alguma frescura, morango silvestre, notas de madeira sem classe (provavelmente de barricas de terceiro ano), sensação a madeira queimada. Tudo muito linear. Ressaltou a Touriga Nacional, mas sem glória.
Suficiente - .
Preço não disponibilizado.

domingo, março 05, 2006

Cortes de Cima (T) 2002


Já não é a primeira vez que escrevemos sobre este produtor, sito na castiça região da Vidigueira (Alentejo). De facto, faz apenas alguns meses que provámos o belíssimo Touriga Nacional 2003 (ver post de 11 de Novembro de 2005).
Hoje, referimos-nos ao "Cortes de Cima 2002", de preço mais acessível e de maior divulgação nas garrafeiras do nosso país (já que em Londres os vinhos da marca pululam em todas as wineshops de cada esquina).
Feito a partir de Aragonez, Syrah e Cabernet Sauvignon (mais Touriga Nacional e Trincadeira em subtis proporções), mostrou-se de cor vermelha fosca, sem qualquer brilho aparente. Já no nariz, um bouquet a frutos vermelhos bem maduros (já habitual neste produtor) casados com mestria com baunilha e, sobretudo, com especiarias.
Na boca, revelou taninos firmes e alguma complexidade; bem presente a Syrah e o Cabernet (com o Aragonez, em grande proporção, a "misturar" muito bem todo o conjunto).
Numa vindima repleta de chuvas (do norte ao sul do país), o Alentejo não escapou a uma ligeira falta de concentração. Porém, a humidade combinada com as altas temperaturas alentejanas, e uma vindima feita "a todo o vapor", proporcionaram um ano capaz de igualar outros de menos pluviosidade. Nessa medida, não espanta a qualidade deste "Cortes de Cima 2002", como aliás outros do mesmo ano e da mesma região. Bom +.
A menos de 13€ em garrafeira ou num hipermercado com uma decente secção de vinho (eg., Corte Inglês, Jumbo, Continente).

sexta-feira, março 03, 2006

Casa de Santar Touriga Nacional (T) 2000


O actual topo de gama deste clássico produtor do Dão superou finalmente o maior defeito (seria feitio?) que sempre demostrou o seu vinho "Reserva". De facto, os "Quinta do Santar Reserva", colheita após colheita, vinham a deixar-me um travo a madeira queimada na boca e um nível de concentração abaixo do desejado e esperado.
Pois bem, o actual topo de gama é um monocasta Touriga Nacional e é um espanto. Aliás, soluciona de uma assentada as duas referidas "imperfeições".
Assim, com uma cor violeta escura (roxiada), e um aroma terrivelmente vinioso onde notas florais a percorrem uma vasta gama de sentidos, fomos imediatamente seduzidos.
Muito activo no nariz, notas verdes e vegetais (um leve bouquet a arbustos e erva selvagem), e álcool em quantidade. Na boca manteve persistente e muito completo, cheio, com um corpo significativo (bem melhor do que o "Reserva", mas ainda longe do que melhor se faz nesta matéria) e um final médio/longo.
Sem ser uma “bomba touriga” - hoje cada vez mais em voga em diversas quintas da Beira, mas para os quais é preciso acompanhamento correcto -, mostrou-se um monocasta superior, dócil, demostração evidente que nem sempre o excesso de força é a melhor qualidade de um vinho. Bom ++.
A menos de € 20 nas garrafeiras de qualidade.

quinta-feira, março 02, 2006

Conde de Vimioso Reserva (T) 2001

Quase todos os vinhos de João Portugal Ramos comungam de duas qualidades, a elegância e a boa harmonia entre o fruto e a madeira (embora na boca nos pareça que a madeira se mostre mais atrevida do que nariz). Uma “fórmula” repetida em pelo menos 3 zonas do país.
Este Conde de Vimioso Reserva é mais um desses vinhos. A nossa primeira prova remonta ao início do ano passado, na qual o vinho demostrou uma cor rubi brilhante e fruta vermelha "a rodos", sobretudo cassis e framboesas. Esta segunda prova revela-nos um vinho mais adulto, sem o brilho na cor que antes possuía, mas com mais madeira na boca, sem perder a finura que caracteriza os vinhos deste produtor, com um final bastante mais complexo.
Fácil de se beber, com um certo estilo internacional (faltando-lhe apenas a cor que se exige ao "novo mundo"), uma acidez bem desenhada (a região do Ribatejo permite-o) e um final guloso. Esta é, aliás, a melhor característica deste vinho... em pouco tempo os copos (e os corpos) esgotaram a garrafa.
A menos de € 15, uma aposta mais de que segura.

quarta-feira, março 01, 2006

Notas breves

  • Quinta do Meruge (T) 1999: boa cor, alguma evolução, nariz potente a lembrar bombons de ginja, notas aromáticas típicas de vinho do Porto. Na boca confirma-se uma suavidade muito interessante, com destaque para fruta vermelha madura imposta pela Tinta Roriz. Bom.
  • Altas Quintas (T) 2004: utilizando o triangulo das castas de ouro do Alentejo - Trincadeira, Aragonês e Alicant Bouchet - este vinho é uma surpresa total. Produzido a uma altitude pouco vulgar para um alentejano, surge-nos de cor grenada muitíssimo escura, com o nariz a jorrar um perfume de fruta vermelha fresca... na boca, o mesmo se sentiu, muito fino, um longo final e notas de especiaria. Belo vinho, mas a pedir comida. Bom+.
  • Cova da Ursa (B) 2004: muito bom este chardonnay, belíssima cor dourada, notas tostadas da casta trabalhada pela madeira e um grande final. Em suma, um belo branco. Bom +.
  • Conde da Ervideira Reserva (B) 2003: bonita cor, madeira não em excesso, algumas notas citrinas e um final de mão de gato. Bom.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Gouts du Vin

Num after work, nada melhor do que um sítio calmo, bem decorado, onde o vinho (a copo) é rei, com pratos e pratinhos (dos patês aos queijos). Tudo num único local à imagem das enotecas francesas. Simpatia no atendimento, pela proprietária. Onde? No "Gouts du Vin" na Rua de São Bento, com sotaque à mistura. A não perder... a não ser de amores.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Grou no Ganhão


Éramos uma boa meia dúzia, mas chegámos desfasados ao restaurante O Ganhão. A primeira metade, onde me incluía, comeu mais entradas e bebeu um pouco mais – benefícios da pontualidade.
As entradas eram os mimos do costume, belíssimos – a alheira, o paio do lombo, as quatro variadas do azeite alentejo, os queijos e umas empadas à Simões. Depois uns tordos deliciosos, com o tempero de alho no ponto, a queimar os lábios. Finalmente garoupa com caldo de peixe – que magnífico final, simples e leve, uma óptima maneira de terminar os salgados.
Para acompanhar tamanha comezaina, vieram várias garrafas de um dos vinhos alentejanos mais badalados no momento: o Grou 2004. A intromissão do enólogo Anselmo Mendes em terras do norte do Alentejo – zona do Cabeção – levou à criação de um tinto espantoso e muito original.
Servido entre 14º e 15º graus, a temperatura recomendada para este néctar, foi preto no copo a lembrar a cor dos verdes tintos de antigamente (o tal "sangue de boi"), até jurámos ver alguma efervescência... No nariz um impacto brutal a fruta, encobrindo por completo a madeira, fruta fresca, erva acabada de colher, orvalho da manhã, tudo muito bom. Na boca, quase pastoso, muito cheio, corpo imponente. O final, talvez pela temperatura do vinho, não acompanhou os galardões iniciais, e mostrou-se apenas correcto.
Um grande vinho do Alentejo, a beber nos próximos 4/5 anos, muito diferente do que habitualmente se faz. Diríamos que o calor da planície foi substituído pela força da montanha, sempre no Alentejo.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Notas breves: Espanha tinto e Ribatejo branco

  • Vilosell (T) 2003, Costers del Segre (Espanha): muito bem na cor, ainda que sem que uma concentração esmagadora. Na boca tudo muito bem desenhado, não se procura o impacto bruto a fruta, nem um esmago a madeira. Antes uma combinação perfeita, harmoniosa, e delicada. A menos de € 10 (por importação).
  • Quinta da Alorna Chardonnay Reserva (B) 2004: A casta está bem vincada, e (felizmente) não se encontra com um peso excessivo. Vinho com frescura considerável – não se caiu no erro de um estágio excessivo. Bonita textura, brilhante. Melhorou muito este Quinta de Alorna, comparado com colheitas anteriores.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Passeio pelo Dão: de Santar a Cabriz




Um passeio que fiz faz pouco tempo, foi em plena zona do “Dão Vinícola”. O objectivo era esse mesmo, conhecer um pouco mais a agreste paisagem daquele território que vê nascer alguns dos melhores vinhos portugueses, e cuja tradição fala por si.
Começámos em Santar, vila primorosa de casas antigas e casarões em restauro, e logo fomos recebidos na famosa Casa de Santar. Ora, apesar da menina que serviu de guia não ter primado pela simpatia, tratou-se de uma visita muito interessante. A casa - magnífica! - tem diversos pontos de interesse, a começar numa pequena capela com curiosidades escondidas pelo passar do tempo, passando por uma descomunal cozinha onde água é retirada de uma fonte interior, terminando a visita num pequeno, mas muito original, museu de coches e uniformes antigos.
Já no exterior, ficam os jardins: em réplica miniatura dos jardins de Versailles, são estes que nos conduzem à moderna adega com as vinhas - sempre protegidas pela maravilhosa Serra da Estrela - em pano de fundo. Na adega, uma breve paragem para explicações mais ou menos exactas, e o regresso à estrada foi imperativo.
Não se espante o leitor se lhe contar que após a visita à Casa de Santar, ficámos com fome! Naturalmente. Onde comer então? Pois bem, no restaurante da Quinta do Cabriz! Este, inserido nas instalações da sociedade "Dão Sul", fica na verdade em Carregado do Sal, a alguns quilómetros de distância da Quinta que produz uma parte dos vinhos da casa.
Como a vontade de comer era muita, e de provar os vinhos também, optámos por menu de degustação bem representativo da gastronomia regional. Assim, a um óptimo preço, foram-nos servidos quatro pratos, cada um com a sua garrafa (não é um erro, era mesmo uma garrafa para cada prato).
Espumante (bom, com bolha elegante e muito fresco) para a entrada, Branco "Encruzado" (muito bom, como vem sendo habitual) para o primeiro prato, dois tintos para os pratos de carne (o Jaen e o "Touriga Nacional"), um licoroso para as sobremesas (deliciosa a tigelada) e uma água-ardente com o café. Tudo da Quinta do Cabriz.
Depois de tamanho repasto a visita seguinte foi adiada e não hesitámos numa pequena sesta. Inevitavelmente. Um passeio, e um almoço, inesquecíveis.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Quinta da Bacalhôa (T) 2002


Depois de uma manhã e tarde passadas entre livros de economia política (sempre com o encanto para os assuntos sobre o Tratado de Methuen, por razões obviamente relacionadas com o vinho) um jantar com os sabores dos eternos rivais de Inglaterra vinha mesmo a calhar. Foi assim que me vi num jantar onde magret de pato com laranja era o prato forte da ementa (mais francês do que isso só a sopa de cebola).
Após algumas voltas entre garrafas mais poeirentas, levei comigo um Quinta da Bacalhôa 2002 para ombrear com tamanho francesismo. De cor rubi pouco brilhante, mostrou um corpo médio/fraco a que já nos acostumamos quando em Portugal a cabernet é cruzada com merlot. Mas no nariz esteve bem, com notas a especiarias e madeira de qualidade, e na boca manteve-se seguro – longe de deslumbrar – com nuances frescas a menta e fruta verde acabada de colher (à qual faltou apenas a geleia doce típica do merlot, talvez pela pequena quantidade do lote utilizado).
A um preço um pouco elevado (entre € 10 a € 13), trata-se de um produto seguro em que se pode confiar, um vinho com uma elegância considerável, embora de colheita para colheita a fruta utilizada parece vir a desmerecer de qualidade.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Couteiro-Mor Antão Vaz (B) 2003


Os vinhos brancos deste Inverno estão a revelar-se superiormente bons. Depois das óptimas referências anteriores (ver post de 24 de Janeiro de 2006), provámos outra surpresa muito, muito boa.
Foi a vez do Antão Vaz de 2003 dos produtores Couteiro-Mor. Esta casa, situada em Montemor, tem vindo a fazer grandes vinhos, brancos e, sobretudo, tintos (com o "Vale do Ancho 2003" em destaque).
Este Couteiro-Mor tem ainda duas grandes vantagens, a saber: i) a capacidade para ser guardado em garrafeira até 3/4 anos depois de engarrafado; e ii) um preço quase imbatível (abaixo dos € 7 quando o comprei, faz já algum tempo).
Mas foi logo na cor, apesar dos elogios que se vão seguir, que o vinho menos brilhou – mostrou uma cor algo pálida, com transparências evidentes. Na boca, ao invés, mostrou-se altivo, com boa reprodução da casta alentejana, com os elementos minerais a sobressair atribuindo ao néctar uma frescura irrepreensível. Bom corpo e final persistente.
Após anos e anos de vinhos brancos de pouca categoria (sobretudo no Alentejo), podemos começar a concluir que existe hoje já uma “mão-cheia” de produtores a trabalharem muito bem as castas brancas um pouco por todo o país. Sobretudo as nacionais (Alvarinho, Encruzado, Arinto e Antão Vaz), mas também algumas estrangeiras (Sauvignon Blanc e Chardonnay).

domingo, fevereiro 05, 2006

Novo blog: a "vinho-blogmania"

É com um enorme prazer que descobri recentemente um novo blog sobre “esta mania de andar a provar vinhos”. Cinco amigos juntaram-se e, no início deste ano, criaram o blog “Vinho a Copo”. Ao Ricardo, Rui, Nuno, Cristo e Duarte, votos de boas vindas.
Já agora, o título de blog coloca uma questão tão interessante como actual: a recente tendência para tomar vinho a copo, através da qual se consegue provar vinhos diferentes sem ter de abrir várias garrafas.
À V. Saúde.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Notas breves: Alentejo Branco e Tinto

  • Pontual (T) 2002: mais uma proposta interessante do Alentejo, com um preço simpático. Uva de qualidade, breve estágio em madeira nova. Tudo muito redondo, taninos suaves. Bom. Um pouco abaixo dos € 10.
  • Tapada de Coelheiros Chardonnay (B) 2004: muito fino e elegante este branco de referência. Muito bem na cor que se mostra límpida, boa concentração para um vinho tão seco, impressiona o sabor a casta (é melhor não servir muito frio, nunca abaixo dos 10º), mas não é cansativo como outros chardonnay que se bebe por aí. Manteiga baunilhada equilibrada com algum álcool num final de boca médio/longo. Bom +. Um pouco acima dos € 10.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Régia Colheita Reserva (B) 2003


Um robalo do mar para coisa de 900g ... era o convite. Assado.
O vinho: um Régia Colheita Reserva de 2003 guardado com carinho. De cor palha com tendência âmbar, mostrou-se um vinho muito concentrado sobretudo tendo em conta tratar-se de um branco. Existem vinhos brancos assim, sobretudo no Alentejo... vinhos pesados, com lágrima, alcoólicos, quentes até.
Pouca fruta, muita madeira – regra seguida à letra. Muito bem na cor (não poderia ser de outro modo) já dissémos, nariz algo fechado (apagado?).
Na boca, um mundo de sabores balsâmicos, algum mel, noz e casca de ovo. Um grande final para um portentoso vinho branco alentejano que vale bem beber no Inverno.
Pena a alegada falta de persistência na qualidade, pois consta que o 2004 está menos bom.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Quinta do Portal Reserva (T) 2000


Acompanhava um lombo de porco mas não pensámos num vinho alentejano (como já faz hábito quando degustamos um cochino...). Ao invés, lembrámos-nos de um douro que não fosse muito concentrado. Elegemos assim, num consenso difícil diga-se, o Quinta do Portal Reserva 2000.
E acertámos, pois ao contrário do que o qualificativo “Reserva” sugeria, estávamos perante um vinho linear a merecer ser consumido antes de 5 anos da sua comercialização (ou seja, está na altura!).
Ora, na cor começou por agradar, vermelhão escuro e violeta, sendo que a falta de concentração começava a ser evidente. O nariz indiciou o resto, pouca fruta madura, alguma madeira de qualidade... pouco mais. Escasso para o que se esperava, mas um conjunto agradável em todo o caso.
Na boca mostrou-se fácil e agradável, taninos suaves e de finura recomendável. Tudo no sítio, tudo complacente. Final pouco vigoroso como se antecipava.
Recomenda-se que o consumidor que queira provar um vinho furos acima produzido pela Quinta do Portal , opte por um “Grande Reserva” (ao estilo espanhol) ou um “Auru”. É preciso é abrir os cordões à bolsa. O aviso está feito.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Quinta de São Francisco (T) 2001

Da denominação produtora de Óbidos, em plena região da Estremadura, chega-nos este vinho feito com base na casta castelão.
De cor rubi brilhante, muito suave na boca, e com idêntica leveza aromática no nariz. Taninos salientes e robustos, fruta de qualidade mas pouco madura.
Falta-lhe apenas um pouco de concentração (devido ao muito que chove na região do Oeste) e um final mais longo e largo para ser um vinho de belo porte.
Ainda assim, muito bem feito este néctar, tudo equilibrado, podendo deixá-lo dormir mais 2-3 anos em cave.
A menos de € 8, e com um elogio ao grafismo do rótulo, de estilo clássico (fora de moda até), com destaque para a referência do trofeu "prestige" obtido no Concurses Citadelles du Vin.

domingo, janeiro 08, 2006

Prazo de Roriz (T) 2002


No nariz como na boca tratou-se de um Douro ainda fechado e muito mineral (consta mesmo que na propriedade existiram minas de ouro e estanho até ao fim da Segunda Guerra Mundial). Esteve presente a madeira, ainda que sujeita a pouca harmonia, e alguma fruta vermelha longe de ser madura a lembrar-nos o ano da colheita (com muita chuva).
Este “Prazo de Roriz” é a segunda marca da conhecida Quinta de Roriz, na família van Zeller desde 1815, e especializada nos vinhos do Porto. Num ano difícil como foi o de 2002, e tirando a madeira menos bem "casada", este vinho de mesa não deixou "créditos por mãos alheias", mostrando um recorte fino e elegante. O que pelo seu preço, não é nada mau.
A menos de € 8 no Corte Inglês (supermercado).

terça-feira, janeiro 03, 2006

Martinet Cru (T) 2001


Da região mais badalada da Europa, bebemos este Martinet Cru 2001. Não estivéssemos nós em Espanha e não tivemos outro remédio que não o de provar este belo Priorat (e que remédio...). Trata-se da segunda marca do produtor “Mas Martinet” e tem um preço interessante, pois é sabido que os vinhos desta região de Espanha têm sofrido uma inflação estonteante. Para ilustrar com um exemplo, a primeira marca “Clos Martinet” custa praticamente € 50.
Quanto ao vinho propriamente dito, feito com castas francesas (Cabernet Sauvignon, Merlot, e um pouco de Syrah) e um terço da variante local Garnatxa, apresentou-se muito escuro (quase, quase opaco), compacto, com lágrima espessa e de “queda” lenta (como tanto gostamos!). Não admirou assim os seus 14,5º de álcool.
O nariz foi dominado por ameixa preta, uvas passas, enfim muita fruta madura de qualidade, alguma madeira (apostamos em barricas de carvalho francês) e um grande volume de álcool.
Na boca, novamente a referência a fruta muito madura, agora alguma cereja - um vinho anti-vegetal -, com taninos que indicam alguma longevidade e um final longo com notas de chocolate amargo.
Entre € 15 e € 20.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Reserva Ferrerinha (T) 1994

Depois do almoço, e dos vinhos já referidos (ver posts anteriores),
a "coisa" complicou no jantar de Natal. De facto, abrimos duas garrafas de Reserva Especial Ferreirinha 1994. Abrimos a custo devo dizer, pois ambas as rolhas estavam surpreendentemente em más condições, a querer mesmo quebrar em plena metade.
Mas o breve desalento no "sacar a rolha" passou imediatamente... mal abrimos o néctar, um portento de sabores a fruta vermelha saiu da garrafa (o que não deixou de ser curioso, tratando-se de um douro com mais de 10 anos, ainda por cima um Ferreirinha!).
Contudo, após a decantação, não foi necessário esperar muito mais para sentir o típico bouquet doce e algo químico deste fantástico vinho.
No olhar, rubi escuro e intenso no copo. Fino na boca, muito corpo e todo ele elegante, com fruta madura imediatamente acessível, e madeira perfeitamente alinhada. Forte concentração e um final longo.
Não era um Barca Velha, pois apesar de “novo” estava já com uma maturação muito aceitável. Mas era muito bom.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Termeão "pássaro branco" (T) 2003


Um dos produtores da moda, Manuel Campolargo sediado na Anadia, desafia-nos para mais um vinho de garagem (ie., com produção limitada a pequeníssimas quantidades).
Com Camarate e Touriga como castas predominantes, e um pouco de cabernet Sauvignon, todas vindas da Bairrada (terroir laboratório do produtor) só podíamos encontrar um vinho assim: forte, aroma rijo e pouco domável. Nota-se a falta do estágio de madeira que o seu irmão mais velho (Termeão "pássaro vermelho", ver rótulo) beneficia. No entanto, é um vinho capaz de surpreender qualquer um... bem diferente do que faz por todo o país.
De cor rubi, é o seu nariz intenso e complexo (mineral?) que vinga. Com notas de boca florais e sugestivas a legumes verdes. É melhor esperar um ou dois anos (mas não mais!), para ver se a “fera” acalma.
Para já, é um vinho muito interessante e que todos os enófilos devem experimentar. A menos de € 8 na Makro (€ 20 pelo Termeão "pássaro vermelho").

Esporão Garrafeira (T) 1997


Começamos no Sábado de Natal com um Esporão Garrafeira 1997 a ombrear uns filetes de polvo com arroz do dito. A expectativa era muita, não só pelo facto do vinho ser um dos melhores que a região oferece, como pela sua idade (pouco própria para um alentejano, dirá, a priori, muita gente).
Elaborado com Cabernet Sauvignon, Aragonês e Trincadeira, estagia por 18 meses em carvalho francês novo e uma parcela em carvalho americano.
Na cor, foi um vinho de cor granada, com nuances de alguma evolução, tonalidade concentrada, deu-nos imediata sensação que estaria em óptima forma. No nariz aromas a fruta madura perdidos num curioso arabesco mineral, algum “cassis” (mas pouco) e grãos de café. Madeira bem doseada a trazer aromas e sabores exóticos, boa presença da casta francesa. Taninos macios e integrados.
Um grande vinho do Alentejo a mostrar que, quando bem elaborados, estes podem descansar uma década antes de serem bebidos.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Quinta da Sequeira (T) 2001

Após um elogio rasgado do Pedro Gorjão Henriques, à primeira oportunidade fui comprar uma garrafa de "Quinta da Sequeira". Comprei-a por €13 na Garrafeira Internacional, loja recentemente inaugurada na Rua Escola Politécnica, ao Príncipe Real.
De cor vermelha escurecida, apresentou um bom porte no copo, e um belo nariz (de antemão muito complexo). Mostrou-se forte na boca, áspero, com a madeira escondida por uma fruta em decomposição (mas sem vestígios de sabores “confitados”). Algumas notas de fumo, e de tabaco.
Com um final longo, foi um vinho muito interessante, mas difícil, que tememos ter como maior virtude acompanhar uma robusta refeição. Bebê-lo sem comida poderá ser arriscado...

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Calços do Tanha Reserva (T) 2001

A poucos quilómetros de Ponte de Lima, já perdidos no verde minhoto, descansámos no Restaurante Bocados e recuperámos as forças com a sua cozinha. Com inspiração na gastronomia portuguesa, servem-se vários pratos pequenos à laia de entradas e um prato final, "bocado maior". Nada se escolhe, é tudo por conta da casa. O prato maior foi um bacalhau envolto em couve, muito bom. O bolo de noz coberto de chocolate foi uma tentação que não se evitou.
No vinho resolvemos provar o irmão maior de um néctar bebido faz semanas. Se já tínhamos gostado muito do Calços do Tanha (e aqui deixámos testemunho no texto de dia 22 de Novembro), venha agora o Calços do Tanha Reserva – foi o que pensámos e melhor fizemos. Escuro (mas não preto), muito consistente, pesado no copo, foram os brutais aromas a frutos vermelhos que mais transbordaram dos copos (próprios para apreciadores, o que mostrou o cuidado do Sr. José Pereira, o proprietário). Na boca algumas notas de couro, tabaco e novamente uma compota em decomposição. Um final longo, a título de despedida magistral.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Condado de Haza Reserva (T) 2000

Umas almôndegas primorosas esperavam em casa, envoltas num molho espesso. Juntámos, como entrada, umas fatias de veado fumado e umas tâmaras com presunto; fizemos o jantar.
Como fazia tempo que não depenava a secção espanhola da minha garrafeira, fui buscar um Ribeira del Duero. Após alguma hesitação, lá decantámos um “Condado de Haza Reserva 2000”. Esta segunda quinta de Alejandro Fernández é tida como o seu sonho, depois da muita fama obtida com os “Tinto Pesquera” (aos quais já fizémos referência num texto de 18 de Julho deste ano). Aliás, as duas quintas distam poucos quilómetros, como constatei no ano passado quando percorri toda a estrada de Peñafiel em busca das melhores bodegas.
Ora, este Condado de Haza esteve irrepreensível, em óptimo estado de maturação. Apesar da colheita de 2000 ter ficado furos atrás à de 2001, mostrou uma bonita cor de cereja (típica dos Reserva da região) e aromas equilibrados de madeira, fumo e fruta. Surpreendentemente, o tempranillo esteve repleto de sabores, numa estranha sucessão de frutas maduras diferentes, tudo com uma pouca acidez tradicional.
Um pouco distante dos melhores da região (do que melhor e mais caro se faz no mundo inteiro), mostrou-se gostoso e guloso, um vinho que apetecia beber. Pena o final, curto para o que se dele esperava.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Cartuxa Reserva (T) 2002

A cor começa a desapontar (já com evolução) e no copo mostra-se mesmo “leve”, pouco denso... um súbtil brilho coral (pálido) e pouco mais.
Na boca, já tudo é diferente: vivo, muito fruta (mas não madura), tudo a lembrar o “vinho novo” alentejano que se bebe no próprio ano da colheita. Tem um estilo contra a moda dos tintos carnudos e concentrados, é um tinto suave e ideal para acompanhar certos assados pouco fortes (peixe ou carnes brancas). Apelativo.
A menos de € 20.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Tapada de Coelheiros (B) 2004


Duas enormes postas de garoupa para três pessoas... um regalo bastante para uma despedida de comidas mais outonais.
No vinho elegeu-se um branco à teimosia de encarar o Inverno de frente. Um belo Tapada de Coelheiros. Muito elegante no nariz, notas cremosas e tostadas, algum pão fresco e chá verde, nota-se o arinto.
Na boca muito seguro, faz parte de uma nova vaga de brancos alentejanos que não envergonham o nosso país. Algo citrino, foi contudo a untuosoidade a sua maior virtude. Um branco macio como poucos, no qual sobressaíram notas de manteiga e uma leve baunilha fruto de uma (curta) fermentação em madeira.
Este branco da Tapada de Coelheiros, mais uma jóia de António Saramago e já com tradição, junta-se como uma referência a outros brancos alentejanos de grande porte como o Pêra Manca, o Monte da Penha, o Couteiro-Mor Antão Vaz, ou o JPR Antão Vaz, entre outros.
A menos de € 10 numa garrafeira. O dobro num restaurante.
N.A.: O rótulo que ilustra o texto respeita à coleita de 2002, mas são mínimas as diferenças com a versão actual.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Quinta do Além Tanha (T) 2001


Uma bela feijoada e um “Quinta do Além Tanha” (T) 2001 = combinação perfeita.
A feijoada, repleta de carnes e enchidos, com o feijão muito bem cozido mas não esmagado (tendo acompanhado ainda com um pouco de arroz branco, como se faz em Braga).
O vinho, um espanto. Trata-se de um lançamento de mais um belo vinho duriense, desta feita pelo produtor Nuno Matos numa quinta localizada na região do Cima Corgo.
A partir de uvas velhas, de várias castas como manda a tradição do Douro (eg., Tinta Amarela, T. Roriz, T. Barroca, T. Franca, entre outras) o vinho apresentou-se muito forte no nariz, com grande vigor, como que a querer provar ser ainda muito novo.
No copo, com uma cor vermelha garrida escurecida, foram os frutos vermelhos muito maduros que sobressairam num primeiro momento, impondo-se totalmente à madeira (que não se nota mesmo). Depois, já no final persistente, surgem notas minerais e até florais (notas verdes), atribuindo ao vinho um caracter não excessivamente pesado.
Com 14.º, muitos anos pela frente, e a menos € 15 (o preço estou certo que vai subir) estamos perante um achado. Não digam que eu não avisei.

terça-feira, novembro 22, 2005

Calços do Tanha (T) 2000 no Meson Andaluz

Uma curiosidade minha: não passo muito tempo sem regressar ao melhor refúgio da comida espanhola que conheço, a casa do sr. Almeida. Refiro-me ao "Meson Andaluz", outrora um pequeno restaurante na Parede, desde da segunda metade da década de 90 localizado no CascaisShopping. É bom saber que apesar de inserido num centro comercial, o Meson tem porta privativa para o parque de estacionamento e está totalmente reservado do resto dos lojistas.
Ora, para além da dezena e meia de tapas de qualidade (realce para a empada de perdiz com cogumelos bravos), e de vários pratos de confecção imaculada (rabo de touro em destaque), é o cochinillo de pata preta que mais brilha, trazido directamente da quinta que o proprietário do restaurante possui em Estremoz. Trata-se de leitão verdadeiro, como o nosso bairradio (e não porco!), mas mais tostado e não vem servido afogado em molho de pimenta nem com típicos acompanhamentos de péssima qualidade. Os entendidos dizem que melhor só em Ávila (mata-se com 17 dias) ou em Segóvia (mata-se com 21 dias).
Com tantos e bons motivos, passei por lá num recente Sábado chuvoso e, mirando a longa lista dos vinhos (que inclui muitos e bons espanhóis) escolhi um Calços do Tanha (T) 2000. Já provado por outras ocasiões, esta serviu-nos para confirmar a nossa positiva impressão inicial de mais um vinho do produtor douriense Manuel Pinto Hespanhol.
Vinho escuro no copo a mostrar um lilás amadurecido muito bonito (por contraste com o branco das toalhas de mesa), aroma com alguma evolução e prova na boca complexa. Algo viscoso no mover do copo, interessante, com muita fruta madura e pouca madeira, a mostrar um estilo que já não se faz muito... Com mais 3-5 anos pela frente, prova que um vinho não precisa da proeminência da madeira para evoluir muito bem. Um belo douro.
Por menos de € 20 no restaurante do sr. Almeida.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Cortes de Cima Touriga Nacional (T) 2002


Eu e o Ricardo, para a nossa sorte, vínhamos da prova vertical dos vinhos reserva do produtor alentejano Francisco Nunes Garcia. A Cláudia e o Bruno vinham, para o respectivo azar, directamente do trabalho. Encontrámo-nos todos no restaurante “Alqueva”, refúgio alentejano de muita qualidade junto ao antigo edifício Lido a caminho de Queluz.
Vieram as peças de farinheira, os paios, o pão em saco de lona, os queijos, mas a fome não saiu. Carregámos então na carne de alguidar acompanhada ora de migas tradicionais, ora de migas de espargos.
No vinho a escolha estava limitada à região do Alentejo e preferimos uma estreia. O Cortes de Cima Touriga Nacional 2002. É preciso começar por dizer que sou um grande apreciador dos maravilhosos resultados da plantação da Touriga no Alentejo. Os vinhos saem complexos com toques florais e a fruto. Uma maravilha.
Ora, a mais recente experiência de Hans Kristian Jorgensen, saiu também ela fantástica. Após 9 meses em barricas de Carvalho francês o vinho estava jovem com uma cor vermelha muito escura. O aroma dominado por sugestões florais e alguma madeira, mas na boca muita fruta doce e um grande final.
Se os primeiros vinhos Corte de Cima primavam por um estilo exclusivamente de “Novo Mundo”, este Touriga vem mudar um pouco o estilo e, quem sabe, conquistar novos adeptos (é o meu caso). Não admira os 91 pontos da Wine Spectator.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Encontros com o vinho... escolhas

Foi o melhor evento relacionado com vinhos em Portugal que tenho memória. Mais de 200 produtores de vinhos (mas também em menor escala de queijos, presuntos, enchidos e azeites) todos no Centro de Congressos de Lisboa (antiga FIL). Foi assim ontem, Domingo dia 6 (e já havia sido de modo igual, mas com mais gente contaram-me, no Sábado dia 5).
Tratou-se do “Encontros com o vinho e sabores 2005”, feira festiva onde a concorrência dá lugar a uma saudável promoção e apresentação ao público (o dia 7 é reservado aos profissionais do sector) das últimas novidades vinícolas... o que significa, de modo redutor, os (fantásticos) vintages 2003, os reservas tinto de 2003 e 2002, e os brancos nacionais de 2003 e 2004 e ainda alguns brancos estrangeiros já de 2005 (só possível no “novo Mundo”!).
A convite da simpática “Adega Algarvia” não perdemos este certame e brigámos na prova de várias dezenas de vinhos. Encontrámos amigos e conhecidos em quase todos os balcões, mesmo nos distribuidores, o André no balcão da Vinalda que o diga. Vários foram também os escanções de restaurantes famosos a quem falámos (o Bruno do "Vírgula", a Ana do "Valle Flor").

Com um copo a tira-colo (literalmente) lá fomos nós a caminho das nossas escolhas nacionais... um delírio meus caros, um delírio.
Muito Bom:
Vintage Quinta do Crasto 2003 (preto na cor, doce, notas brutais a fruto)
Vintage Quinta do Portal 2003 (também preto, mais do doce que o anterior)
Quinta Vale Meão (T) 2003, Douro (quase preto, muito directo e preciso, uma bomba)
Quinta da Leda (T), 2003, Douro (complexo, interessantíssimo, para guardar muitos anos)
Evel Grande Escolha (T) 2003, Douro em sample (novo estilo? não era preciso! continua muito bom)
Bom +:
Quinta dos Roques Touriga Nacional (T) 2003, Dão (boa concentração, o melhor da touriga)
Luís Pato Vinha Pan (T) 2003, Bairrada (sempre fantástico, diferente, vegetal)
FSF Homenagem JMF (T) 2001, Palmela (bela cor, complexo, muita fruta)
Quinta do Portal Grande Reserva (T) 2001, Douro (grande vinho, pronto a beber)
Quinta do Mosteirô Grande Escolha (T) 2003, Douro (bela novidade, vegetal, muito curioso)
Bom:
Quinta do Carmo Reserva (T) 2003, Alentejo (bom na boca, mas no nariz teima em desagradar)
Esporão Alicant Bouchet (T) 2003, Alentejo (aromas a terra, algum mofo e pimentos)
Quinta dos 4 Ventos Reserva (T) 2002 (tem tudo para ser um vinho exemplar, mas é demasiado previsível... repetitivo até)

quinta-feira, novembro 03, 2005

Feira do Vinho "Makro" - destaques

  • Quinta do Castro Reserva Vinhas Velhas (T) 2002, Douro – a menos de € 19
  • Quinta das Tecedeiras Reserva (T) 2002, Douro – a menos de € 19
  • Dolium Reserva (T) 2001, Alentejo – a menos de € 13
  • Casa de Santar Touriga Nacional (T) 2000, Dão – a menos de € 13
  • Quinta da Bacalhoa (T) 2001, Terras do Sado – a menos de € 11

terça-feira, outubro 25, 2005

Prova cega: Chryseia, Incógnito 3-4, Mouchão, Tecedeiras Reserva, Dolium Reserva, Aurius, etc


Um grande amigo meu, que foi viver para Macau, tem andado muito ocupado em provas e jantares vinícolas. Que má vida a dele! Eu, que o "iniciei" nestas andanças tenho saudades dele, mais do que inveja dos grandes vinhos que anda a provar.
Fica aqui um breve resumo do pletórico jantar/prova organizado pela "Wine Society de Macau" e que se realizou no passado Sábado no Clube Militar de Macau:

"Chegados à prova, às 18.30, tínhamos 10 copos "artilhados" com 10 tintos, apenas assinalados com uma letra. Entre os vinhos tínhamos uma folha que continha espaços para colocarmos os nossos comentários aos vinhos ("colour", "nose", "taste", "my points" e "my rankings").
Fomos provando um a um, dando notas e, no final, lá organizamos o respectivo ranking. De seguida, o painel de especialistas ia comentando vinho a vinho. Algo surpreendente foi ver que os dois enólogos presentes (um deles reconhecido mundialmente), não gostaram de vinhos "afamados" como o Chryseia ("pouco complexo"), o Incógnito ("pouco distinto, muito fácil") ou o Mouchão 3-4 ("má interacção entre fruta e madeira e, igualmente, pouco complexo"). Ao invés, adoraram 3 vinhos bem distintos: Quinta das Tecedeiras, Aurius e Dolium (Reserva). Os dois primeiros, para mim, muito abaixo dos vinhos que afirmaram não gostar. Julgo que é a tendência inevitável daqueles que passam a vida a beber vinho: vão à procura da singularidade, da complexidade e de vinhos que fujam ao facilitismo. Não é o meu caso: gosto de vinhos potentes, ricos no nariz, com a madeira presente mas com finais longos e frutados. Chamem-me fácil!
O jantar foi divino: o chef Joaquim Figueiredo dispensa apresentações. Trabalhou no Tavares, no Café da Lapa, na Bica do Sapato e trabalhou, em França, com "estrelas michelin". Preparou então um creme de grão com foie gras e lascas de presunto caramelizado, uns camarões deliciosos numa cama de puré de batata e espargos e umas costeletas de borrego cozinhadas divinalmente. Serviu-se ao jantar um Pêra Manca (B) (que os enólogos elogiaram efusivamente), um Quinta do Portal Rosé (igualmente elogiado), um Sogrape Reserva Alentejo (T) (apenas bom) e um Quinta do Côtto Grande Escolha (T)... "um vinhão"! E tudo sem restrições de quantidade!"

domingo, outubro 23, 2005

Jantar entre amigos: JPR / Aliança / Roques


Um jantar na Costa do Castelo entre amigos e vinhos só podia ser um convite celestial. Não hesitámos portanto em ajudar a preparar as entradas – dos pimentos aos queijos, não esquecendo o salmão escocês.
Para estas gulodices, abriu-se um Antão Vaz (alentejano, claro) de João Portugal Ramos. Vinho branco encorpado de grande densidade e categoria, fruta de boa qualidade mas não exuberante. Um conjunto que se saiu muito bem perante difícil tarefa de combinar com entradas diversas.
Depois, já com a promessa de dois tipos de picanha na pedra – uruguaia e argentina – sacou-se a rolha a um Quinta das Baganhas (T) 2001 que as Caves Aliança produz na Região das Beiras. Vinho notável, muito elegante com muita fruta madura, preciso e directo nas sugestões a madeira, muito bem "construído".
Já com a carne suculenta no prato foi tempo de abrir uma garrafa de Quinta dos Roques Touriga Nacional (T) 2000. Cor fantástica - preta -, muita austeridade no nariz, muito directo à casta com sugestões frescas a frutos vermelhos e uma acidez estonteante. Na boca, os taninos bem marcados foram uma evidência e um final forte marcou o estilo. Melhores anos virão do Dão, bem sabemos, mas este tinto de 2000 esteve muito bem, com uma presença intensa e inesquecível. Como o jantar, que terminou no Bairro Alto.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Couteiro-Mor Colheita Selecionada (T)


Um dos vinhos alentejanos por que tenho predilecção é o “Couteiro-Mor Colheita Seleccionada”. Feito pelo Eng. João Melícias – conheci-o recentemente numa prova de outro vinho alentejano que elabora igualmente com mestria –, é um vinho resultado de um projecto que começou no início dos anos 90. Desses tempos até hoje, temos muitos Couteiro-Mor, brancos e tintos, mas é o Colheita Selecionada (em especial os de 1999 e 2001) que se têm destacado mais.
As últimas duas garrafas que bebi foram, respectivamente, em Sines (no majestoso restaurante "O Migas") e em casa da minha mãe acompanhado de um prato de cozinha italiana. Como noutras ocasiões, também nestas o tinto “Couteiro-Mor Colheita Selecionada” foi valente.
De cor escura muito bonita, alguns aromas vegetais escondidos e uma complexidade espantosa para este alentejano cheio de notas de fruta madura. Um final de boca muito bom também.
Um espanto este vinho alentejano. A menos de € 11.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Callabriga (T) 1999

Sentámo-nos numa mesa da “Isaura”, à Avenida de Paris. Tratava-se de um regresso a um local muitas vezes revisitado e onde a lista, com algumas excepções, continua a assentar em três pilares: cozinha lisboeta (sobretudo bifes em molho), especialidades, e caça. Fomos, uma vez mais, para este último pilar ao escolhermos a perdiz estufada e o feijão branco com lebre.
Para beber, elegemos um Callabriga 1999 da Casa Ferreirinha, propriedade da Sogrape. O néctar, mereceu, soubemos mais tarde, 92 pontos da Wine Spect. Em óptimo estado de evolução, foi um vinho perfeito. Cor escura jovial, no nariz alguma fruta, algum aneto, e muita vida e álcool. Belo corpo, quase viscoso, e um final longo e preciso. Muito bom.
O preço rondou os €25- €30, só do vinho, claro.

terça-feira, outubro 11, 2005

Quinta do Monte d'Oiro Clarete 2004


Era um almoço em casa da minha mãe. Era o combinado. Cheguei mais cedo e aprendi alguns truques (que um dia escreverei aqui) para uma fantástica cataplana de tamboril. O peixe, fresco, o bacon e o fiambre em pequenas e exactas porções, os pimentos, enfim todo um manancial de coisas boas.
Como fazia tempo que queria provar a nova vaga de rosés – e comprovar a sua mais recente fama – escolhi o da Quinta do Monte d’ Oiro. Da comida da minha mãe escuso-me comentar – opinião de filho comilão não é para aqui chamada – mas vamos ao vinho: cor lindíssima, mas ligeiramente mais escura do que um típico rosé, na boca um ataque instantâneo de aromas florais. Curiosamente, esta primeira impressão modificou-se ligeiramente com o vinho na boca, tornando-se cada vez mais austero e menos doce, ganhando mesmo uma estrutura muito interessante para um rosé. Terminou num inevitável final curto.
Depois do sucesso do clarete de 1999, elaborado a partir de Syrah, surgiu o de 2003 e este de 2004 elaborados à base da casta Cinsaut – mais uma experiência saída do chapéu do José Bento dos Santos.
Um rosé menos fácil do que seria de esperar, e a pedir Verão (sardinhas com pimentos, saladas, escabeches, pizzas) ou comidas exóticas (sobretudo chinesa), a menos de € 7.

domingo, outubro 09, 2005

Bolonhês - Monte dos Seis Reis (T) 2003

A garrafa fora comprada pouco dias antes do coelho. Este mereceu cuidada atenção (ai! como gostamos dele casado com um arroz solto), enquanto o vinho bastou decantar.
Após elogios rasgados ao projecto do “Monte dos Seis Reis” - na inevitável zona da moda do Alentejo (Estremoz, adivinhou!) - também nós compramos umas tantas garrafas. Algumas de syrah monocasta (eleito o melhor syrah de 2003 pela Revista de Vinhos), outras de “Bolonhês”, ambos tintos. Vamos então à prova deste último que, convém que se escreva desde já, acompanhou muito bem o magnífico coelho (obrigado D. Lurdes).
Tempo ainda para escrever que se tratava de vinho feito a partir das castas que melhor “servem” a região – aragonês, trincadeira, alicante bouschet e tinta caiada – com fermentação em cubas de inox e a maloláctica, e um estágio de 8 meses em barricas de carvalho francês e do caucaso, seguindo-se finalmente o estágio em garrafa.
Na cor – grenada e luminosa – e no nariz muita fruta madura (mas não doce, longe da compota) e madeira evidente. Corpo interessante (mas não se pode exigir longevidade, vejamos os próximos 5 anos) e taninos macios, algo escondidos. É pena as poucas referências a terra e a trufas (que tanto gostamos!), e a pouca evidência ao calor da planície (será a tentação do novo mundo?). Ainda assim um vinho muito bom, guloso, com um belo final e que deve ser bebido novo. A menos de € 8 numa Garrafeira.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Feiras de vinhos nos hipermercados - destaques

  • El Corte Inglês:

Dehesa Gago (T) 2002, Toro, Espanha - a menos de € 8

Quinta de São Francisco (T) 2001, Óbidos - a menos de € 7

Terras do Pó Reserva (T) 2003, Palmela - a menos de € 7

Quinta do Sanguinhal monocastas (T) 2001, Óbidos - a menos de € 5

  • Continente:

Quinta dos Carvalhais Encruzado (B) 2003, Dão - a menos de € 15

Quinta de Cabriz Encruzado (B) 2003, Dão - a menos de € 8

H. do Esporão Verdelho (B) 2004, Alentejo - a menos 6 €

  • Jumbo:

Evel Grande Escolha (T) 2001, Douro - a menos de € 12

João Portugal Ramos Syrah (T) 2003, Alentejo - a menos de € 9

Morgado Sta Catarina (B) 2003, Bucelas - a menos de € 8

segunda-feira, outubro 03, 2005

Qta do Sanguinhal Syrah / Touriga (T) 2001

Foi um convite simpático e a horas certeiras pois passava já da uma da tarde e eu não tinha almoçado. Estávamos a meio caminho de Lisboa-Leiria em plenas terras de Bombarral, com Óbidos mesmo ao lado. Pouco depois - isto na província é sempre tudo "pouco depois" - chegámos ao restaurante “O Lagar” no lugar do Carvalhal.
Abriu-nos a porta o proprietário e fomos servidos pelo filho. Reinava o ambiente familiar (e sportinguista, o que me agradou) e as entradas começaram a rolar pela mesa. Primeiro os ovos com cogumelos bravos, depois o paio do lombo, para o fim morcela de arroz da região. Nas refeições propriamente ditas, iniciámos com uns jaquinzinhos em arroz de tomate (uma delícia) para depois terminar com uns lombos de porco preto (prato sempre vulgar, mas muito bem preparado).
Para os deleites da bebida, escolhemos um vinho da terra – Região de Óbidos – um interessante “Quinta do Sanguinhal Syrah e Touriga Nacional” de 2001.
Forte e jovem, com grande acidez, muita Touriga e alguma Syrah. Sente-se a madeira francesa com baunilha escondida. O final é curto, mas não impede de ser uma óptima companhia para comidas fartas.
Um vinho que mostra o potencial desta zona que parece ter tudo para renascer... as vinhas e as castas são novas, a Syrah parece dar-se tão bem em Óbidos quanto em Alenquer, e não falta “terroir”...
A menos de € 6 (na recente feira do Corte Inglês)... no restaurante não faço ideia... não fui eu quem pagou a conta.

terça-feira, setembro 27, 2005

Vindimas no Douro: um fim de semana


Era um fim de semana que tinha tudo para correr bem. E tudo correu maravilhosamente bem. No Douro.
Sábado, a horas impróprias (umas inimagináveis 7.00h da manhã!), arrastamo-nos para a belíssima estação de São Bento. Tenho há muito tempo um gosto especial por estações de comboio, e São Bento é uma das (pequenas) estações que tanto gosto.
O destino: o Douro, mais propriamente a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo. A viagem, que durou cerca de 2 horas até ao apiadeiro de Ferrão, foi feita grande parte à beira rio... E o olhar, sobretudo em época de vindima, perde-se na busca daqueles pequenos traços longínquos, consumidos nos socalcos, que afinal são pessoas.
Pouco depois saímos do comboio num pequeno pulo, já no Cima Corgo, próximo do Pinhão, e encontrámos a "Quinta Nova" com uma exposição solar magnífica e 1,5 km de extensão ao longo da margem do rio Douro. À nossa espera, mais de 120 hectares de vinha (a maioria vinha nova), o primeiro hotel rural vinícola, e a simpatia dos gerentes.
Um pequeno passeio pela quinta (durante muitos anos ligada à família Burmester), uma visita à vindima, um pic-nic reforçado e uma sesta. Só o sossego daquele vale, vale tudo.
Antes, ainda uma visita à adega em pleno labor.
No jantar, em sala aprumada como de resto toda a quinta, provou-se um Porto branco de aperitivo (bom), acompanhou-se a refeição com o Casa Burmester Reserva (T) 2002 (também bom, mas pensávamos que fosse melhor) e terminou-se com uma prova de vários Portos tintos feitos na quinta. De todos os que bebemos, dormimos com saudade do LBV 2000.
Já no Domingo, após o pequeno almoço, foi hora de mais comboio até ao Pinhão e depois um magnífico cruzeiro até Gaia. Um fim de semana em cheio, e aqui tão perto.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Quinta de Macedos (T) 2001

Afinal de contas preparava-me para fazer um favor a um amigo meu... estava a caminho da casa do Bruno Santiago para lhe transmitir os meus comentários sobre o seu escrito. Durante o caminho ainda pensei em desistir, pois uma ligeira febre passou por mim, ainda antes da Rua Castilho. Telefonei ao Bruno, mas resisti.
Ainda bem que resisti: por mim esperavam uma casa simpática (isso já eu sabia), um amigo nervoso (calculava, pois também já estive em situações de "dar-me a ler" aos outros), e duas preciosas perdizes... com “essa” não esperava eu! Que surpresa!, um casal de galináceos reais, corpulentos na sua pequenez natural, jaziam num molho eficazmente discreto.
Nos vinhos, estávamos reduzidos a um par de escolhas. Retirámos do aplique um Quinta de Macedos 2001. Momento maior da noite!
Com uma presença enorme, notas de frutos pretos muitíssimo maduros, taninos macios mas potentes (ah, como desejámos uns copos adequados...)
No aroma, mostrou-se do melhor que o Douro tem, com bastante madeira nova (20 meses) a casar todo o conjunto; e na boca muito complexo (imagine-se uma mistura de 16 castas tradicionais do Douro, com predominância de Touriga Franca!). Tudo com muito álcool à mistura que proporcionou o equilíbrio necessário a tanta robustez.
Os enólogos e produtores Paul e Raymond Reynolds provam uma vez mais que têm um excelente vinho de garagem (3 mil garrafas). O preço...

quinta-feira, setembro 15, 2005

Quinta de Pancas Touriga Nacional Sp. Selection (T) 2001


Agora, já na Estremadura, outro Special Selection (ver post infra). Depois das entradas vieram um rosbife com nome de general e um tronco de perú “meio assado”. Tudo muito bom e a pedir mais bebida.
Chegou então o prometido Touriga de Alenquer cuja garrafa se abriu (finalmente!) para nosso rejubilo. Com uma forte componente floral à casta, atacou bem a boca desde o início dando provas que desejava ser bebido...
Grande presença, muito corpo, pouca fluidez (para nosso contentamento), escuro (mas não preto). Esteve, no geral, muito bem este touriga – mais elegante que alguns alentejanos recentes, mas menos “fino” e vegetal que outros dourienses.
Um bela escolha a mais de € 20 a garrafa.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Galeria Cabernet Sauvignon Special Selection (T) 1997


O convite do meu grande amigo Almeida Fernandes era irrecusável, sobretudo após a minha insistente auto-convocação.
Chegado a sua casa, começou-se pelas tâmaras com bacon, mais um queijo d’ Ilha e um de azeitão (que reinou altivo).
Nos beberes a festa continuou com um muito interessante cabernet sauvignon da "Galeria" (Grupo Caves Aliança) da colheita de 1997. No copo, a cor notava já alguma evolução mas sem perder nitidez, enquanto no nariz um puro cabernet nos seduzia rapidamente com fragância a especiarias (pimenta preta, açafrão), algum pimento verde e muita madeira (a prometida “oak aged” anunciada, de modo um pouco caricato, no rótulo). Na boca, continuou um cabernet definido; a fruta, todavia, não conseguiu sobressair na sua máxima intensidade. Bom final, e alguma graciosidade (quase elegância...) típica de vinhos com alguns anos de garrafa.
Uma nota final no sentido de referir que as Caves Aliança substituíram entretanto a designação “special selection” pela portuguesa “Reserva”, o que se aplaude.
Para quem gosta, ou quer experimentar, um puro cabernet (mas não exige a elegância, nem o preço, de um Bordéus) é um vinho a não esquecer. Pelas colheitas recentes, a marca pede cerca de 20 € por garrafa.

Prova de Reservas Francisco Nunes Garcia


No próximo dia 13 de Outubro, pelas 17h será realizada uma prova vertical dos vinhos reserva do produtor alentejano Francisco Nunes Garcia (incluindo, segundo promessa, o fantástico “Reserva Homenagem António Maria”). A prova irá realizar-se no restaurante O Ganhão, próximo das Portas de Benfica, um portento refúgio da gastronomia alentejana (as saudades que tenho da perdiz na panela...). Mais uma grande iniciativa do sempre afável António Simões. Para inscrições fica o email: ganhao@hotmail.com

domingo, setembro 11, 2005

Ruffino Chianti (T) 2003


No dia a dia, utilizo uma regra simples: para uma comida pouco “condimentada” escolho um vinho simples, novo, que seja agradável do princípio ao fim e sem surpresas. Foi o que sucedeu com o chianti da “Ruffino” – marca de grande expressão comercial em Itália – que acompanhou entremeada.
Bonita cor rubi pálida, sem excessos de concentração, aroma vivo com notas subtis a frutos vermelhos. Muito agradável.
A regra confirmou-se.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Jantar com João Portugal Ramos

A todos sortudos, como nós, que no dia 30 deste mês estarão sentados à “mesa com” os mais recentes vinhos do João Portugal Ramos(colheita 2003), cabe lembrar que já se sabe mais qualquer coisa sobre alguns dos vinhos tintos que serão degustados lá para o final do mês... e que vinhos !!! A saber:

  • “Conde do Vimioso Reserva 2003” (as anteriores colheitas fizeram sempre parte de todas as short-lists dos melhores vinhos do ano);
  • “Quinta Viçosa Touriga Nacional/Merlot 2003” – diz quem já provou que é simplesmente fantástico... talvez o melhor JPR...
  • “Quinta Foz de Arouce Vinhas Santa Maria 2003” – um vinho clássico e lendário que JPR tem ressuscitado... lembro-me do meu amigo Francisco Mendes Correia me oferecer um de 89 e já era uma “bomba”... como será o de 2003 ?

O jantar terá lugar no restaurante "A Commenda" no Centro Cultural de Belém e é mais uma grande iniciativa da garrafeira "Coisas do Arco do Vinho".

segunda-feira, agosto 29, 2005

5 brancos à prova do Verão

Não conseguimos evitar e lá fomos país abaixo a caminho do sotavento algarvio. Na bagageira levámos um périplo de cinco vinhos brancos (dois verdes). Uma certeza: gastámos menos de € 25 no total dos 5 vinhos.

QUINTA DE SAIRRÃO RESERVA (B) 2004
Parámos o barco e superámos o lodo. Após uma ida a casa visitou-se a localidade de Santa Luzia bem perto de Tavira. A razão deste nosso regresso a Santa Luzia – já lá deixáramos o barco – prendia-se com a visita ao “Capelo”, restaurante de especialidade marisqueira. Vieram as amêijoas e as postas de um pargo grelhado, a acompanhar bastou uma bela salada de alface e tomate.
Para beber provámos o douriense “Quinta do Sairrão”. Foi o nosso primeiro contacto com esta quinta e gostámos muito da frescura imediata deste branco, do seu maracujá evidente; mas também das notas doces que se manifestavam (seria banana?) escondidas num final longo. Com uma boa presença e sem agulha, sobresaiu a cor quase amarela, bonita desde o primeiro olhar. Bom +.

MARQUES DE RISCAL SAUVIGNON (B) 2004
A recompensa de ir à praça de manhã seria uns belos salmonetes para jantar. Cozeram-se umas batatas e preparou-se uma salada. Os ditos – peixe maravilha quase marisco – foram colocados na grelha, trocou-se a sua posição, e o manjar estava pronto.
Também preparámos o Marques de Riscal Sauvignon, bem fresco como apetece no Verão. Apesar da “bodega principal” desta marca espanhola estar situada na zona de Rioja (com uma arquitectura duvidosa, diga-se) este vinho é feito a partir de uvas de Rueda, zona próxima de Valladolid – território de vinhos brancos interessantes como os “Palácio del Bornos” (sobretudo o verdello, mas também o sauvignon).
Quanto a este Riscal mostrou-se límpido desde logo, de sabor carregado à casta e um toque a “mão de gato” que criou uma leve sensação de desprazer perto do final. É um sauvignon curioso mas pesado, que no entanto terá sem dúvida os seus apreciadores (aqueles que preferem sabor intenso a harmonia). Bom.

SOLAR DAS BOUÇAS (B) 2004
Ao terceiro dia veio a feliz contradição: camarões grandes (tamanho 1) e carapaus pequenos. Os primeiros grelharam-se, os segundos levaram fritura valente. O calor apertava (e eu que o diga ao comando da grelha) e apetecia um vinho verde... e porque não um Solar das Bouças 2004? Todo feito a partir da casta Loureiro, começou por demostrar estrutura interessante alicerçada numa “agulha” muito agradável. Conjunto muito afinado, algum ananás e um forte sabor citrino, muita leveza. Um conjunto que apela a um dia quente e a marisco. Bom +.

BUCELAS (B) 2003
Na lota seguimos pelo arroz de marisco, mas para acompanhar escolhemos o “Bucelas 2003” das Caves Velhas. A escolha no entanto começou por desapontar na cor, algo deslavada (quase aguada). Infelizmente na boca o vinho confirmou as expectativas e revelou-se um arinto furos abaixo do habitual da marca, sem a nobreza da casta. Pouco sabor a fruta, algum maracujá ligeiro (camuflado) e pouco mais. No nariz esteve regular. Suficiente.

QUINTA DO AZEVEDO (B) 2003
E no final, veio o vencedor. A acompanhar uns audaciosos bocados de espadarte do Algarve – sempre óptimo na grelha – abrimos um dos melhores brancos da Sogrape. Vinho verde, de grande porte, muita agulha mas não em exagero, esteve muito bem. Sabor intenso, ora tropical ora citrino. Cor amarela clara, de nariz subtil e sublime. Muito bom. O melhor do lote... no último dia. Bom ++.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Quinta dos Carvalhais Encruzado (B) 2003


Não deu tempo para refrear os ânimos dos Portos provados (ver post infra) e outra experiência magnânima passou-nos pelo estreito. Começámos por pedir uma perdiz de escabeche, mas fomos a tempo de alterar por um anunciado “foie-gras”. Mas, no campo da comida, foi sorte nula, pois o “foie-gras” não passava de patê rasca com uma cobertura agridoce. Para emendar a mão, veio a massa com requeijão – um clássico dessa casa ao cimo da Praça da Alegria.
Mas foi a beber que as lágrimas correram pela face... A sugestão era um “Quinta dos Carvalhais Encruzado 2003”, e tudo virou sublime de súbito ... o próprio patê, antes uma mixórdia, parecia agora um pitéu digno dos deuses.
É preciso dizer que estava uma noite abafada, e – estranhamente – não me apetecia a fruta tropical de um Alvarinho. Ao invés, o calor da noite chamava um líquido mineral e com muita personalidade. E foi o que encontrámos com o Encruzado, casta branca predilecta do Dão. Outros “Encruzados” havíamos já provado e saudado – o da “Quinta do Cabriz 2002”, por exemplo – mas este da “Quinta dos Carvalhais” bateu a concorrência. Gritámos tratar-se de um dos melhores brancos de 2003! E ninguém protestou.
Grande cor, grande corpo, alma limpa e alguma fruta citrina, um final prolongado e insistente, muito mineral e um toque a madeira que conferiu um equilíbrio perfeito e uma elegância pungente como poucos brancos têm.
A € 15 nas garrafeiras, está entre os melhores brancos portugueses de 2003 (e de 2004) que até hoje provei.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Portos: Vintage 87 e LBV 2000


Em menos de uma semana e tivemos duas subidas ao céu: a primeira, com o excelente vintage 87 da Real Companhia Velha. Alguns dias depois, com o explosivo LBV 2000 da casa Burmester.
O ano de 1987 foi um ano muito bom no Douro, mas foram outras as vindimas dos anos oitenta que tiveram o máximo protagonismo da década, refiro-me aos inesquecíveis vintages de 83 e 85. Ainda que nem todas as marcas tenham declarado vintage em 1987 – ao que parece existia pouco vinho – a verdade é que algumas marcas de referência não hesitaram em declará-lo. Foi o que aconteceu com a Niepoort, Ferreira, Martinez, Offley e claro, com a Real Companhia Velha.
E o que dizer deste Porto? uma fruta elegantíssima, um equilíbrio total nos taninos, e desde logo uma maturidade que nos ofereceu a certeza de tratar-se um vintage para durar pouco mais que vinte anos. Bebemo-lo na altura certa, podemos concluir.
Quanto ao ano de 2000, é por todos sabido ter sido um ano exemplar... e o LBV da Burmester não desapontou: esteve pujante, com muita compota, fruta madura intensa e com alguma baunilha que a madeira lhe conferiu.
Duas propostas fantásticas, mas bem diferentes, tal como o preço, aliás...