domingo, julho 16, 2006

Preta (T) 2004


Duas mesas ocupadas… a nossa, e a do anfitrião Filipe Gaivão com a respectiva família. Segundo o Filipe são assim as sextas-feiras com calorzinho, toda a gente a jantar na esplanada (olhai os mosquititos!). Nada que me importe, pois havia conversa a por em dia.
Para acompanhar a empada de perdiz (antes tinham ido já uns pitéus), fomos para mais um projecto alentejano de Estremoz, o Preta (T) 2004 – o topo de gama da recentemente constituída sociedade Fita Preta, segundo nos informam.
Confesso que já estou um pouco saturado deste "novo mundo regional alentejano". A culpa não é, obviamente, dos vinhos isoladamente considerados – muitos deles bem bons! – mas desta mania, consciente ou não, pela uniformização. Por mais que se tente, alguns dos novos vinhos do Alentejo (sobretudo de Estremoz e de Albernoa) sabem "muito ao mesmo". Mesmo quando a sua composição é inesperada, como sucedeu com este Preta: Touriga (52%) e Cabernet (48%)!
Neste caso, no copo, mostrou uma cor rubi-violeta ligeiramente concentrada. Nariz intenso, químico, com um ataque a fruta madura a lembrar (aí está, aí está…) outras provas! Na boca teve mais graciosidade, com a Touriga a dar um toque floral muito interessante. O Cabernet é que parece ter ficado para segundo plano, sobressaindo mais a madeira, num conjunto redondo e macio.
Um vinho bem feito, sem arestas (como se escreve por aí), disto não temos dúvidas – veja-se a ligeira acidez mentolada e o final médio/longo – mas, a meu ver, pouco original.
Bom (15,5).

sexta-feira, julho 14, 2006

Soalheiro (B) 2005 em noite amena de Verão


Em cada ano, não são assim tão poucas as noites amenas em Lisboa. Mas noites amenas (é que quentes são as de Sevilha!) sem qualquer indício de brisa, essas sim constituem uma raridade alfacinha. Comparada com outras cidades, vilas e aldeias de Portugal, Lisboa merece mesmo o destaque infeliz de ser uma windy city!
Ontem foi uma noite rara: sem vento nem brisa, apenas um maravilhoso calorzinho (quase quase 30º). Para quem não tem ADN sueco nem norueguês - aqueles portugueses, como o Pingus, que juram não aguentar o calor - a noite de ontem foi um verdadeiro deleite. E é nestas noites, de quando em quando, que não me esqueço de aparecer no Chafariz do Vinho para ficar na muy agradável mini-esplanada. Como também não me esqueço desse néctar dourado que me viu crescer, e através do qual comecei - em Braga, na casa dos meus avós - a beber vinho.
Foi assim a ocasião para um Soalheiro (B) 2005 - nome seguro quando se fala em Alvarinhos - que esteve, uma vez mais, irrepreensível. Aliás, não restam dúvidas que a colheita de 2005 foi muito bondosa para a maioria dos Alvarinhos.
Da cor pouco se pode falar (a penumbra da noite não o permitiu), mas em contrapartida apurou-se o nariz: elegante, banana intensa, notas doces tropical (manga), algum mineral, enfim um festim para o olfacto. Na boca, a frescura citrina revelou-se a grande nível, nomeadamente através das notas de casca de tangerina, frescura ajudada ainda pelo mineral de qualidade e, mais ténues, por referências a fumo num final médio/longo.
A acidez (bem como a "agulha") é que não me pareceu a de outros tempos, mas em noite de glória, foi coisa que pouco me perturbou.
A menos de € 10. Bom (16).

quarta-feira, julho 12, 2006

Novidades / Confirmações: 2004 & 2005

Não foram muitos aqueles que estiveram no Palácio da Bolsa no passado dia do vinho. Mas foi pena, pois surgiram algumas novidades. Em rigor, mais do que novidades foram confirmações. Boas casas apresentaram bons tintos e portos da colheita de 2004 e brancos de 2005. O que mostra qualidade e consistência. Ora, consistência na qualidade é coisa que os vinhos portugueses bem precisam. Vejamos as nossas notas:

  • La Rosa Reserve (T) 2004: É a nova imagem do "reserva" da Quinta de la Rosa. Mantém um altíssimo nível. Ainda duro, mas já é o lote final. Tudo indica que será mais uma bomba, mas com a polidez reconhecida a esta marca.
  • Quinta Vale da Raposa (T) 2004: Já mostra um registo elegante, personalizado e com boa capacidade de guarda. Enfim, as características comuns dos bons vinhos do produtor Alves de Sousa.
  • Quinta Vale da Raposa Vintage (P) 2003: É o primeiro Porto Vintage de Alves de Sousa no mercado. Não nos parece ter a força e o carácter necessários para uma guarda de longos anos, mas é já um vintage muito agradável, daqueles para consumir novos sem receio.
  • Kopke Vintage (P) 2003: Este sim é um vintage especial. Tinha curiosidade em prová-lo depois da excelente nota da "Blue Wine" (19). Ainda fechado no nariz; muito profundo e intenso na boca, mostra um complexo e inesquecível conjunto de sabores... tudo embrulhado numa força pujante. É um vintage incontornável.
  • Quinta do Noval Vintage (P) 2004: servido muito quente... ainda assim mostra as qualidades de sempre. É um vintage muitíssimo bem feito, perfeito equilíbrio. Mas merecia mais chama e agressividade. É como se a Noval tivesse uma formúla e a repetisse ano após ano. Podia ser diferente...
  • Castello d’ Alba Reserva (B) 2005: Na linha do "vinhas velhas" mas com menos battonage e madeira. A cerca de € 5 é um autêntico achado. Toca a comprar este branco neste Verão!

segunda-feira, julho 10, 2006

Monte da Cal Reserva (T) 2003


No início... muito álcool no nariz – é impossível não notar (14,5º, vejo depois)! Também algumas notas a madeira fruto do estágio de 8 meses em carvalho francês.
No copo, mostra pouca concentração, cor vermelha esbatida. Na boca é poderoso, complexo, o álcool traz-lhe uma acidez refrescante e ajuda a "sustentar" todo o conjunto.
Final de média intensidade.
É um vinho sem pretensões mas bem feito, com um vigor típico do alto do Alentejo, e que tem na harmonia com a boa-mesa a sua melhor qualidade.
A menos de € 10. Bom (15,5).

domingo, julho 09, 2006

3 vinhos no dia mais quente do ano... "so far"

Foi talvez o dia mais quente do ano nos campos em torno de Vila Viçosa. Os 39º impunham-se a todos os que se preparavam para almoçar no resguardo do alpendre. Fomos à garrafeira com o dono da casa e decidimos tudo num ápice. Primeiro um branco de Évora, depois um ribera espanhol a abrir cominho para um final com um alentejano de meia idade. O resultado... vejam:

  • Pêra Manca (B) 2002: Amarelo concentrado na cor - quase âmbar - muita evolução. Notas secas num nariz tremido. Corpo pesado, largo, muita estrutura. Na boca é gordo mas não convence: sobressaem as notas de resina, pó talco, e muita caruma. A fruta é que quase não se nota, não fosse alguma pêra no final. Falta-lhe garra, frescura. É um estilo muito próprio... mas não o meu. Suficiente (13,5).
  • Alion Reserva Tinto Fino (T) 1995: Notas de evolução na cor violeta e no corpo de mediana robustez. Algum resíduo no fundo da botelha. No nariz tudo muito intenso, bouquet vinioso, carregado, fruto preto, de início alguma resina, mas tudo muito elegante. Na boca foi uma bomba de dispersão: primeiro fruta, depois chocolate, depois moka, depois ainda notas “doce-amargas”... e azeitona preta. Taninos finos e de grande qualidade. Bom ++ (18).
  • Esporão Reserva (T) 1997: Já tínhamos apreciado o “garrafeira 1997” – mais fino, com menos evolução – mas este “reserva” não ficou muito atrás. Prova inequívoca da variável longevidade dos vinhos do Alentejo, é um néctar de nariz intenso e possante. De cor rubi muito escuro, mostra na boca surpreendentes notas florais (como se Touriga se tratasse, mas deve ser a Trincadeira), encobertas, aqui e ali, por algum tabaco e alcatrão. Excelente complexidade e final irresistível. Bom + (17).

quinta-feira, julho 06, 2006

JPR Aragonês (T) 2004


Vermelho discreto na cor, sem notas de evolução. Nariz comedido, manifesta pouca intensidade aromática. Na boca está mais fino e elegante do que as anteriores colheitas, mas menos afirmativo também. Pouca presença, boca hesitante com tendência a melhorar, fruta vermelha com notas dominantes de mirtilho e groselha, alguma caruma. Final médio.
Ficámos com a ideia que este aragonês, depois de anos de uma "relativa liderança", precisa agora de melhorar (upa upa) para acompanhar a recém chegada "concorrência". Preço em conta, a menos de € 12. Bom – (15).

Gouvyas Reserva (B) 2003


O dia (ou melhor, o final do dia) era de jogo decisivo para a nossa selecção de futebol. Na mesa, uma cataplana (pimentos, muito tomate, louro, alho e cebola, vinho branco, etc) de tamboril, fresquíssimo. Mas o que beber? Um branco de certeza! Mas, certamente, não um branco qualquer. Tirámos a garrafa do frigorífico, pouco depois saltaram os copos do armário.
Como o jogo não corria de feição, escolheu-se um branco que sabemos não nos decepcionar nunca; afinal, tínhamos que fazer um esforço (!) para "salvar" a noite.
Na cor surpreende um amarelo tão palha quanto brilhante, chega a ser difícil de acreditar – longe dos tons sombrios que o excesso de barrica pode provocar.
No nariz, curiosamente ainda fechado, é reduzido de aromas, tímido, mas com muita personalidade com notas subtis florais e mais intensas de abacaxi. Se apurarmos totalmente o olfacto ele “diz-nos” tudo o que, de seguida com o primeiro gole, iremos desfrutar. Um branco elegante, delgado mas marcante, com peso e frescura (o que não é fácil de encontrar). E que belo final! O João Roseira que me perdoe o excesso, mas é um branco perto da estampa. A menos de €17. Bom + (16,5).

terça-feira, julho 04, 2006

Herdade dos Grous (T) 2004


A cor praticamente opaca, profunda, com discretas nuances castanhas no remate do copo. Bouquet vinioso, compota, ameixa preta muito seca, bem no estilo dos vinhos desta região a sul de Beja (para mais informações sobre esta região ver aqui).
Na boca é terroso, guloso e quente, fruta muito madura misturada com chocolate negro - é sem dúvida um vinho todo no estilo moderno e linear. Porém, quando (dele) menos se espera, emerge timidamente alguma frescura proporcionado-lhe uma vitalidade sofisticada.
Tende a ser um pouco monótono e terá pouca harmonia com a boa mesa, mas é uma mimo de fruta doce, do estilo bombom. A menos de € 12. Bom (16).

segunda-feira, julho 03, 2006

Quinta dos Aciprestes Reserva (T) 2003


Depois do texto do Pingus, já se adivinhava um belo vinho...
Cor misteriosa, não totalmente opaca, bouquet sedutor logo de início. A primeira observação fazia adivinhar um vinho já pronto a beber, tudo já bem casado. Nariz transbordante, cheio de fruta preta, violetas, mas também algum chá e bergamota. Na boca é cheio, redondo, faltando-lhe apenas um pouco do corpo e peso, mas é tremendamente sedutor... um golo atrás de outro. Final médio/longo.
Mais uma grande proposta da Real Companhia Velha (que, a par do conceituado Evel GE, tem aqui um vinho de grande qualidade), e uma óptima aposta da Revista dos Vinhos que ofereceu uma garrafa deste Reserva na penúltima edição a troco de meros € 5,50. Uma bagatela!
A menos de € 12 em garrafeira. Bom + (16,5).

Que rico dia do vinho!


A viagem ao Porto, e mais concretamente ao Palácio da Bolsa, vale sempre a pena. A viagem ao Porto para beber umas pingas e usufruir de dois dedos de conversa com gente amiga... melhor é impossível.
Tanto mais que se provaram novidades, das quais darei feedback nos próximos dias, a saber: rosés e brancos de 2005 (destaque para o "Quinta d’Alba Reserva"), tintos de 2004 (entre outros, o "la Rosa Reserve", a nova designação do topo de gama da Quinta de la Rosa), e Vintages também de 2004 ("Quinta do Noval").
Na descontração, um dedo de conversa com o João Roseira (Gota & Pinga e Bago de Touriga), outro com Nuno Vaz Pires (Essência do Vinho), e muita tertúlia com o João Pedro e a Teresa da Casa de Cello (produtores dos vinhos da Quinta da Vegia).

sexta-feira, junho 30, 2006

Dia do Vinho


Este Domingo, dia 2 de Julho, é DIA DO VINHO. Não obstante o dia do vinho ser como o Natal - é quando um Homem quiser -, aí está uma data em que é obrigatório “sacar a rolha”. Eu estarei no Porto, no Palácio da Bolsa, em mais uma iniciativa da ViniPortugal e da Essência do Vinho. Se o leitor conseguir venha daí também. Em Lisboa também existem comemorações na ViniPortugal no Terreiro do Paço. Em qualquer caso, basta comemorar em casa com família e/ou amigos. Tchim tchim!

quarta-feira, junho 28, 2006

Dica do mês:

Vô Bento Reserva (T) 2003: este tinto vem directo das terras de Fernando Pó, para os lados do Poceirão, em plena região de Palmela e Terras do Sado. É o topo de gama a “Sociedade Agrícola Tí Bento”, e é produzido apenas quando a natureza permite o melhor aproveitamento de vinhas velhas castelão, ao qual é proporcionado um estágio em madeira no sossego das instalações da vizinha "Casa Ermelinda Freitas" (a meros 500m da sede da Soc. Agrícola Tí Bento). Na cor, como de resto no nariz, é um castelão puro e dos bons, madurão, com fruta exuberante e carácter macio. Na boca continua generoso, forte e persuasivo, com notas de fruta preta e alguma baunilha do carvalho. O final é curto para tanta fruta, mas é bom amigo da comida e do enófilo. Até no preço!

terça-feira, junho 27, 2006

Vale do Ancho Reserva (T) 2003


Da casa Couteiro-Mor têm saído alguns dos melhores vinhos alentejanos de tal modo que hoje, quando se fala sobre o Alentejo, surge invariavelmente Montemor ao lado de outras regiões famosas como Évora, Vidigueira ou Estremoz. O topo de gama da marca é este Vale do Ancho Reserva, cuja fama maior viria com a colheita de 2003. Experimentámos pela primeira vez este vinho no final do ano passado. Passados 6 meses foi altura de novo teste.
Em primeiro lugar importa assinalar a significativa evolução sentida logo aquando do “sacar da rolhar”. O bouquet que emergiu da garrafa não era aquele fruto maduro que nos comoveu no primeiro encontro. Agora, era um balsâmico fresco, uma certa acidez alcoólica que nos encheu de curiosidade. No copo, a cor mantinha-se retinta forte, de um vermelho granada fechado. Com a passagem de alguns minutos, e o agitar do copo, de novo surgiram as notas verdes (certamente do alicante bouschet), cogumelos, espargos, alguma ameixa. Depois, passámos para várias sensações de grafite e um toque metálico. Está muito diferente da primeira prova, onde dominaram as sensações carnudas a fruta quente.
Perto do fim, veio ainda a madeira, agora sim sente-se a harmonia entre a madeira e o aragonês (mas está escondido). Sempre no estilo complexo, rico, potente, taninos estruturados. Está muito bom, e já tão diferente um semestre passado. Pena estar mais caro.
Bom + (17). A menos € 30.

segunda-feira, junho 26, 2006

Duas confirmações

Por vezes a mera confirmação de grandes vinhos é mais útil ao enófilo do que a novidade ou a surpresa. Não se duvida que são as novidades que fazem girar o mundo comercial dos vinhos, que provocam a leitura das revistas da especialidade, bem como a realização de eventos promocionais mais ou menos eloquentes. Mas sem aqueles vinhos que são verdadeiros “porto-seguros” onde andávamos nós? O que fazer quando queremos servir um vinho com a certeza de que iremos gostar tanto quanto os nossos convidados? Afinal, o que fazer quando se quer beber e não provar?
Por isso hoje escrevo sobre dois vinhos (um branco outro tinto) que não constituindo novidades, têm muito que dizer:
  • Cova da Ursa (B) 2004: É sabido que muitos vinhos brancos portugueses têm um excesso de açúcar residual e que se tornam pouco amigos das refeições. Quando se opta por um chardonnay existe o risco adicional do vinho ser demasiado linear, aborrecido com a marca da casta excessivamente vincada. Mas nada disso sucede com este Cova da Ursa. Cristalino no copo, amarelo claro, transporta-nos pelo seu bouquet para um campo de lírios. Fino, elegante, mineral e herbáceo q.b., tem um belo final de boca com maça “golden”, nota citrina e pó de canela. É o branco português mais próximo de um “petit chablis”.
    Bom (15,5). A menos de € 12.
  • Quinta da Vegia Reserva (T) 2003: Já muito se escreveu sobre este tinto do Dão, em especial os nossos amigos na blogosfera (aqui e ali). Bastam assim breves notas: cor elegante, de um vermelho carregado com laivos azuis. Nariz fino e sedutor (todo elegância em desprimor da força bruta), notas florais, frescas, fruta de qualidade. Esta hamonia mantém na boca, seca e taninosa, com fruta discreta e chocolate distante, notas subtis a rebuçado e alguma moka. Final consistente médio/longo.
    Bom + (17) com tendência melhorar. A menos de € 25.

segunda-feira, junho 19, 2006

Presentes assim... sim!


Trouxeram-me directamente de Itália uma garrafa de Renatto Ratti Barolo (T) 2001. Para quem não gosta de chianti barato, é mais uma oportunidade de reencontrar um bom vinho italiano. Apesar de ainda não o ter provado (este é daqueles que vai dormir para a cave), é também certamente uma boa recomendação de compra dado o seu preço não especulativo (abaixo de € 40) e o facto da colheita de 2001 ter sido considerada excepcional (ou não fossem italianos, para quem todas as colheitas são excepcionais ou muito boas...).

quarta-feira, junho 14, 2006

O Lagar


Portugal pode ter menos estrelas Michelin do que outros países. É um facto. Mas por cada não-estrela Michelin, o nosso país tem centenas de restaurantes. E de tanta quantidade, já se sabe, sempre sai alguma qualidade. E é por isso que temos na restauração uma realidade peculiar, a saber: são restaurantes fora de moda, que em vez de chefe têm cozinheiro, que não mudam de gerência cada cinco anos, que não têm um (ou mais) “relações públicas”, que não investem em cadeiras Philippe Stark nem gastam dinheiro em elegante papel de parede.
Bem sei que nesta realidade que descrevi pululam restaurantes sem qualquer categoria, que juntam a uma fraca cozinha um mau serviço, e que têm uma mendinha oferta de vinhos. Mas não generalizemos! Existe uma minoria que prima pela distinção na comida, pelo atendimento afável e familiar, por vezes com uma extensa carta de vinhos fruto da paixão do proprietário pela pinga.
Ora, um dos melhores exemplos deste tipo de restaurante - que faz a partir da simplicidade e da paixão muito mais do alguns fazem a partir da mera sofisticação - é O Lagar, sito no lugar do Carvalhal. Quem vem de Lisboa pela A8 tem de sair em "Bombarral norte/Paúl", seguindo depois em direcção "Carvalhal/Santuário".
Antes de chegar ao restaurante é possível contemplar a paisagem da região, verde com as uvas brancas a partir das quais que produz o Espumante Loridos. A Quinta dos Loridos também é visível de longe (mas quem quiser pode passar mesmo à porta, se seguir outra estrada), com a renovada imagem dada por Joe Berardo e na qual se destaca um enorme jardim budista. Mais ao lado, é a produção de pêra-rocha que se faz sentir; mais distante surgem os moinhos típicos da zona Oeste.
Chegados finalmente ao Lagar, deixamo-nos nas mãos da família Louro. Nas entradas saem vitoriosas a morcela de arroz, as sardinhas de escabeche, a sopa de coelho e os ovos com cogumelos. Todos os pratos são assentes na melhor matéria prima, seja peixe (de Peniche, a poucos quilómetros de distância) ou carne (os melhores nacos vêm dos Açores). Em todo o caso, o mais sensato é perguntar por sugestões, mas adianto as minhas preferências: arroz de cabrito, perna de porco assada, jaquinzinhos com arroz de tomate, nos arrozes o de safio é delicioso. Para sobremesa, não se esqueça do "sorriso", versão da casa de fondant de chocolate acompanhado de gelado e geleia de leite condensado.
Mas o melhor ainda não chegou... falo da carta de vinhos. São centenas as referências de vinhos, incluindo toda a oferta da região, não fosse o proprietário um dos maiores coleccionadores de vinhos da Península Ibérica. Os copos e os preços são os adequados, apenas as temperaturas merecem ser revistas. Para quem já teve a sorte, como nós, de conhecer o armazém onde Luís Louro mantêm as dezenas de milhares de garrafas da sua colecção, sabe que o vinho n ' O Lagar só pode ter lugar de destaque.
Da região, prove-se então o Quinta do Sanguinhal (T) 2001, o Quinta das Cerejeiras (T) 2000, ou o Loridos Alvarinho (B) 2004 agora para o Verão. Todavia, se quiser algo mais a sério, abra os cordões à bolsa e peça um Quinta de Pancas Premium (T) 2003, vai ver que vale a pena.

sexta-feira, junho 09, 2006

O Vinho na Internet


O último número da revista da empresa VinaldaDoVinho – trás um artigo subordinado ao tema "O Vinho na Internet". Neste, dá-se o destaque aos sites institucionais promocionais e de compra de vinhos online. Mas também se aborda o mundo dos blogs, com referências elogiosas ao Copo d’ 3, ao Que tal o vinho?, e este nosso Saca a Rolha.
Clique aqui para ver a revista.

segunda-feira, junho 05, 2006

Esporão Reserva (B) 2004


Não constitui novidade que o território que rodeia Almancil está repleto de restauração de grande nível. A concorrência é feroz e faz-se sobretudo de grandes nomes (eg., São Gabriel, Vincent, Ermitage), mas também existe espaço para uma gama alta que, não almejando uma estrela Michelin, aposta forte na cozinha internacional. É nesta gama que se insere o restaurante Oceanos, localizado no sítio do Valverde, a cerca de meio quilómetro da entrada da Quinta do Lago. Ora, para acompanhar um bisque de sapateira, seguido de uma posta de pregado em cama de alho francês, com mexilhões e arroz basmati, e mais uns mimos pelo meio, veio... um Esporão Reserva (B) 2004.
Considerado o melhor vinho branco do TOP 10 ("Prova internacional") da revista Blue Wine (n.º 1), vinho afamado de uma casa com tradição e prestígio. A colheita de 2005 acaba de sair para o mercado.
A tradicional “triplicata” de castas brancas alentejanas - Roupeiro, Arinto, Antão Vaz - oferecem neste vinho uma cor dourada muito límpida; no nariz são as notas a baunilha e a pêssego que mais vincam, a madeira está sempre presente durante a prova, talvez demasiado incisiva. Cheio, gordo, na boca sobressaem notas persistentes a manteiga, algum persuasivo alperce, tudo bem equilibrado, do género corpulento.
Comparando com o Private Selection (B) 2004, este Esporão Reserva é menos doce e sedutor, com mais adstringência, o que o torna ideal para acompanhar refeições de todo o tipo. A uma temperatura de 12º é perfeito para peixes no forno, já a 14º pode acompanhar carnes leves.
Mais um belo vinho branco do Alentejo, ao qual apenas falta uma maior acidez aromática.
A menos de € 10 (€20-€25 em restaurante). Bom (15,5).

quarta-feira, maio 31, 2006

Vértice Grande Reserva Bruto 1992

Comprámos 2 garrafas em perfeitas condições no leilão organizado pela Dão & Douro. Segundo o Celso Pereira (enólogo das “Caves Transmontanas”), a marca só mantém 4 garrafas deste espumante. De resto, talvez alguns coleccionadores ainda tenham algumas botelhas.
De bolha finíssima, cor amarela palha (com laivos ora dourados ora esverdeados) e sabor intenso. De espumante típico apenas mantém alguma força inicial, mas a agulha já foi domesticada com a passar dos anos. Tudo o resto é puro deleite, é como se um belíssimo vinho branco se tratasse, mas com a finesse do gás carbónico.
No boca sentem-se notas a noz e frutos secos, tosta, alguma tangerina no longo final... tudo perfeitamente limado pelo anos de estágio em garrafa. Que glória!

segunda-feira, maio 29, 2006

Tintos até € 10


A última edição da Revista de Vinhos (RV) tem como destaque de capa uma prova comparativa entre vinhos tintos cujo preço de mercado é inferior a 10€. Apesar de não constituir uma novidade, posto que a RV já nos vem habituando a este tipo de artigo, é de salutar mais esta iniciativa, pois um comparativo deste tipo relaciona a qualidade de um vinho a um determinado preço máximo, o que facilita a vida do consumidor.
Sucede que, analisando com algum pormenor, descortino 2 questões que merecem destaque. A saber:
1 - Em primeiro lugar, constato que o preço indicado de alguns dos vinhos provados encontra-se abaixo do valor pelo qual, normalmente, se encontram à (nossa) disposição em garrafeiras ou mesmo em supermercados. Será o caso do "João Portugal Ramos Syrah 2004" indicado com o preço de € 10, ou do "Dão Álvaro de Castro" a € 8,50. Mesmo o "Ermelinda Freitas Touriga 2004" vem indicado a € 8, apesar de eu já o ter comprado à porta da Adega (à própria D. Leonor Freitas) quase a esse preço, o que pressupõe que em garrafeira o preço seja superior! E onde encontrar o "Prazo de Roriz 2003" a menos de € 10? Não é fácil garanto, no Gourmet do Centro Colombo vende-se a € 13... Ou seja, que a qualidade dos vinhos portugueses da gama “super premium” está a aumentar é algo que não discuto, aliás concordo totalmente. A prova realizada pela RV é bem ilustrativa disso mesmo, alguns dos vinhos mencionados (mas existem ausentes...) são realmente grandes compras (eg., Quinta dos Aciprestres Reserva 2003, como nos escreve o Pingus). Todavia, a publicidade que alguns desses vinhos têm tido, bem como as margens que alguns comerciantes não abdicam, fazem com que o seu preço já não se situe nessa faixa abaixo dos € 10. E importa estar, portanto, atento.
2 - Em segundo lugar, e apesar da longa lista de vinhos provados, encontrei dois ausentes de peso: o "Quinta do Infantado 2002" e o "Monte da Peceguina 2004". Em ambos os casos não compreendo a não inclusão na lista de vinhos provados. O douriense (€ 9 no ECI) é, apesar do ano difícil, um vinho com bastante complexidade, frutado e macio, enquanto o alentejano (€ 10 no ECI) é um dos vinhos mais gulosos que se pode provar na sua gama.
PS - Por fim, ainda uma curiosidade: o "Herdade do Paço Reserva 2004" passa um pouco despercebido na prova da RV, apesar da pontuação de 16 pontos; já na Blue Wine n.º 1 vinha apresentado como “recomendação/boa compra”...