terça-feira, maio 16, 2006

Dão e Douro: já as saudades...

Só pela simpatia do João Roseira (Bago de Touriga) e da Teresa Gomes (Wine Solutions), - que soberbo jantar na sexta-feira no Valle-Flôr! – a iniciativa Dão e Douro já tinha muito para ser um êxito. A óptima selecção de vinhos, incluindo algumas grandes marcas de Portos (Taylor e Niepoort), acrescida ainda de um programa abrangente com provas em garrafeiras e jantares em restaurantes de prestígio... enfim tudo indicava um cuidado esmerado na organização. As cerejas no topo foram, para mim, o leilão de vinhos para beneficência e a prova final de excelência do Domingo no Pestana Palace.
Do jantar de sexta-feira, tudo é elogio: magnífica a cozinha do chefe Aimé, vinhos para todos os gostos, rigoroso serviço de vinhos seguido pela equipa da profissionalíssima Ana Paula.
Quanto à prova final realizada no Domingo, foram várias as provas de casco que entoavam vitória. Para além destas (quase todas de 2005), estiveram presentes outros vinhos já em comercialização. Destes, uns eram nossos conhecidos - eg., Aneto, Quinta da Pacheca, Quinta da Vegia, Gouvyas, entre outros - os restantes também proporcionaram fantásticas experiências vinícolas. Para não ser exaustivo, e sabendo que estou a deixar muitos bons rótulos de fora, ainda não esqueci alguns vinhos provados pela primeira vez no Domingo (é que tenho para mim que a lembrança é sempre um óptimo critério, nem que seja residual). É o caso dos brancos Castelo D’Alba (B) Vinhas Velhas 2004, Alves de Sousa Reserva (B) Pessoal 2003, o espumante Vértice “Bruto 0” 2000, e dos tintos Quinta do Infantado (T) Reserva 2003, Batuta (T) 2004, e Esmero (T) 2005 [este em prova de casco].

Um abraço redobrado para o João Roseira e um beijinho para a Teresa Gomes, bem como para aqueles que os ajudaram nesta iniciativa. A todos parabéns!

sexta-feira, maio 12, 2006

Pancas, Gago e ... Tapada do Chaves 1996

Enquanto outros colegas de ofício degustavam na Galeria Gemelli, nós, mais remediados (contamos tostões para nos desforrarmos hoje no Valle-Flôr), tínhamos um acordo com o Filipe Gaivão: nós levámos as garrafas, ele preparou a janta no seu restaurante. Assim, com uma pescada em tomatada e cebolada, seguida de folhado de perdiz e de lombo de porco com farinheira, bebeu-se:

  • Quinta de Pancas, Reserva Especial (T) 2003: muito concentrado como se esperava - os melhores Pancas são "built to last" e melhoram bastante com em garrafa -, mas não resistimos a uma prova antes do tempo. Muito maduro, fruto certamente do ano quente, com um impacto forte a fruta preta, sem traços de acidez, madeira já viva mas ainda escondida. Com um preço elevado, é um Pancas um pouco diferente de anos anteriores, mais madurão (ou será apenas do ano?). Cabe provar o “Premium (T) 2003” para tirarmos as dúvidas. Bom+ (17,5)
  • Dehesa Gago, (T) 2002: um belo vinho da região de Toro (a noroeste de Salamanca) feito por um dos novos mestres espanhóis, Telmo Rodriguez. Afirmando-se como um “driving winemaker”, percorrendo as auto-pistas de Espanha, Telmo Rodriguez (licenciado em Bordéus) dá assistência profissional um pouco por todo o território do vizinho ibérico. Este néctar, produzido a partir da variante autóctone da Tempranilho plantada em Toro (região ainda banhada pelo Douro), é talvez o seu projecto mais pessoal, mostrando-se elegante, macio, com irresistíveis notas a baunilha no bouquet e uma entrada de boca muitíssimo sedutora. Sem o excesso do carvalho americano típico de alguns vinhos espanhóis da velha guarda, e sem se notar o álcool, é um vinho sem arestas, onde a fruta vermelha madura (que não contribuiu para que se tornasse excessivamente doce) acompanha toda a prova, sobressaindo notas a mirtilho e referências a groselhas; fortemente guloso. Bom+ (17,5)
  • Tapada do Chaves (T) 1996: Fechou a noite antes do Porto, e fechou-a muito bem. Incrível a jovialidade deste puro alentejano, de Portalegre, diga-se! Nota-se pouco a evolução no copo (nem dá para acreditar...), apresentando-se rubi escuro apenas com a auréola em traços de castanho grenat. Nariz fechado mas com alguma fruta (que surpresa) e notas a couro e a armário antigo. Na boca esteve magnífico, elegante e portentoso, com fruta vermelha e notas nobres típicas da idade. Grande vinho. Bom ++ (18)
  • Quinta do Infantado (P) Vintage 1999: Pouco opaco na cor, perfumado e honesto. Conversei com o João Roseira uns dias mais tarde que me disse que a intenção era essa mesma, a de um vintage para ser consumido novo. Bom (16)

quarta-feira, maio 10, 2006

Vintages: novos ou menos novos?

Para quem quer ler uma interessante e vincada opinião, bem como os comentários, sobre Portos vintages (novos ou menos novos?), basta clicar aqui.

segunda-feira, maio 08, 2006

Evel Grande Escolha e Quinta dos Carvalhais

Também em casa se fez um mini “Dão e Douro” em pura brincadeira...
Abriram-se um Quinta dos Carvalhais Colheita 2002 (Sogrape) e um Evel Grande Escolha 1999 (Real Companhia Velha). É neste momento que me cabe esclarecer que tenho pelo Evel Grande Escolha (sobretudo os de 1999 e de 2000) uma grande afeição. Não sendo a marca mais mediática no mercado, nem o vinho mais poderoso das colheitas, foi e é um valor seguro e constitui uma excelente relação preço/qualidade. Diria mesmo que pode bem ser a porta de entrada para os verdadeiros topos de gama do Douro (G7), tendo outros já sido surpreendidos com este vinho. Quanto ao Quinta dos Carvalhais Colheita, também de preço não especulativo, surpreendeu pelo equilíbrio do seu conjunto, muito agradável, todo do tipo redondo, com a fruta a teimar em não sobressair. Vejamos melhor:

  • Evel Grande Escolha (T) 1999: muito escuro, apenas vermelho na auréola, bonito e elegante sem ser do tipo super-concentrado. Alguma evolução, mas revelou muita saúde (pode ser consumido até 2010). O nariz esteve algo fechado, duro mesmo, fruta madura em bloco e alguma madeira resultante dos 18 meses de estágio. Na boca esteve complexo, também fechado, mas muito sedutor. Notas a grafite misturadas com chocolate preto, muitas camadas, terminando por vezes doce e quente. Bom++ (18)
  • Quinta dos Carvalhais Colheita (T) 2002: grenat na cor, com pouca concentração e lágrima esguia. No nariz sentiu-se alguma acidez interessante, não concretizada na boca. Do estilo redondo e macio, é um conjunto equilibrado, mas de final curto. Suficiente+ (14)

Dão e Douro em Lisboa


Desde 4 deste mês, e até ao dia 14, as regiões vinícolas do Dão e do Douro estão espalhadas um pouco por toda Lisboa. Falo, como alguns já sabem, da 3.ª edição da Dão e Douro, iniciativa que privilegia o contacto pessoal dos vinhos com o consumidor, quer através de provas em garrafeiras, quer mediante jantares em restaurantes de prestígio.
As provas nas garrafeiras realizaram-se este fim de semana, os jantares começaram no dia 4 (no Eleven) e acabam no próximo dia 13 (no Terreiro do Paço).
Quanto a nós do Saca a Rolha, marcamos presença na Charcutaria Gourmet do CC Colombo e na garrafeira Adivinho, provando os seguintes durienses:
  • Calheiro Cruz Grande Escolha (T) 2000 bom++: um clássico do Douro em óptima forma; belo e elegante bouquet, madeira integrada, notas minerais e algum café.
  • Cerro das Mouras (T) 2003 bom+: bela surpresa, a marca soa a Alentejo... mas o carácter é do Douro, guloso, poderoso, taninos em forma e um belo final.
  • Taylor LBV (P) 2000 bom+: mais uma bela prova do que esta casa consegue fazer nos LBV (foi esta marca que "inventou" os LBV).
  • Quinta da Revolta Touriga Nac. (T) 2003 bom+: macio, aveludado, cativante, bela surpresa. Venham mais destes!
  • Glória Reserva (T) 2003 suficiente+: boa concentração, rubi escuro no copo, mas na boca esteve demasiado terroso, o carácter mineral demasiando bruto dominou a prova.

Quanto aos vinhos do Dão, quedámo-nos pelo:

  • Quinta dos Roques Reserva (T) 2003 bom-: no nariz surge o perfil duro da casa, e copo é médio/muito encorpado. Interessante, mas não surpreende.

No que respeita a restaurantes, lá estaremos nós na próxima sexta-feira dia 12 no Valle-Flôr. Já no dia 14, no encerramento das "festividades" cumpre-se a promessa de um encontro entre blogs de vinhos...

quarta-feira, maio 03, 2006

Notas gastronómicas

Uma vez mais importa parar a degustação de vinhos e destacar, apenas por uns instantes, algumas propostas gastronómicas.

O Nobre: novo restaurante - agora sito no Montijo - depois de tantas peripécias em Lisboa (algumas deixam muitas saudades, outras menos). É um regresso a alguns dos sabores da minha infância: a sopa de santola, os camarões quentes ao sal, o lombo de robalo/cherne à Justa, and so on... and so on. O estilo da casa mudou bastante para quem se lembra do restaurante na Ajuda (mas não entro em detalhes), o público alvo também mudou... a qualidade da comida da D. Justa e a simpatia do Sr. Nobre essas continuam intactas.
Quinta de Catralvos: em plena estrada entre Azeitão a Sesimbra fica esta quinta, projecto ambicioso, dos vinhos ao turismo, passando pela restauração. Com o chefe Luís Baena a comandar a cozinha, temos então várias propostas interessantes (eg., shot de navalheiras e ouriços do mar, croquetes de ostra, ovos de codorniz em cogumelos) viradas sobretudo para o estilo tapear, dada as dimensões reduzidas. Tirando o facto de várias propostas estarem esgotadas (!) aquando da nossa visita, e a escassez demostrada pela lista de vinhos, é uma visita a repetir, sobretudo pelo bom ambiente e pela a originalidade da maior parte dos pratos apresentados.

terça-feira, maio 02, 2006

Dica do mês


Adega de Pegões Trincadeira (T) 2004: mostra uma boa cor profunda, notas a fruta muito madura e alguma pimenta branca. Sente-se bem o terroir das "Terras do Sado", com a doçura habitual. A madeira talvez esteja demasiado evidente mas sem deturpar o conjunto muito macio, gordo até, e bastante agradável.
A menos de € 6.

quinta-feira, abril 27, 2006

Château Cap de Faugères (T) 2001


Os vinhos franceses têm destas coisas...quando compramos a garrafa pensamos que são bons, depois guardamos e por vezes esquecemos que os temos, mas quando finalmente os abrimos, constatamos ao primeiro trago que são ainda melhor do que pensávamos. Este Château Cap de Faugères vem de uma casa bordalesa em ascensão com vinhas em Saint-Emilion solos "grand cru", bem como numa região contígua denominada Côtes-de-Castillon. O vinho ora provado vem de um lote desta última região.
Um bouquet trasbordante, profundamente confitado e sedutor, e uma cor terrivelmente viniosa, abre o caminho para uma fantástica descoberta, deu-nos mesmo a sensação que o vinho podia ter esperado mais uns anos.
Na boca, sabores intensos a fruta silvestre muito madura, madeira que não se impõem – tudo no sítio! Sensações a bombons, ginja, todo guloso mas não sendo demasiado doce nem quente. Enfim, nada maçador...
Acabamos como começamos: os vinhos franceses têm destas coisas... são, muitas vezes, fantásticos.

sexta-feira, abril 21, 2006

Vinhos da Malhadinha Nova na Venha à Vinha

Na passada quarta-feira a garrafeira Venha à Vinha celebrou mais um aniversário. Como é costume da casa, que só sabe servir bem, a festa foi enobrecida com convidados e vinhos especiais. Quem fez as honras foi o Paulo Soares, um dos proprietários da Herdade da Malhadinha Nova, da simpática família Soares.
O primeiro vinho servido foi o Monte da Peceguina (B) 2004, um branco da nova geração do Alentejo, no qual as castas Arinto e o Roupeiro são adicionadas à Antão Vaz para atribuir ao vinho um carácter mais aromático. Todavia, foi mesmo o Antão Vaz que mais sobressaiu na prova (deve ser maioritário no lote), com o temperamento pesado e áspero que o torna apto para acompanhar comidas. Está um belo branco, com uma frescura considerável (sobretudo tendo em conta o ano quente de 2004), madeira bem doseada (como é necessário quanto se trabalha com o Antão Vaz). Enfim, um branco a rivalizar com alguns dos melhores da região.
Depois seguiu-se o Rosé da Peceguinha (R) 2004, com uma imagem comercial muito persuasiva e cuidada, tal como sucede, aliás, com os restantes vinhos desta casa. A característica que mais marcou a proa foi o travo doce (xarope de groselha) proeminente. A fruta é de qualidade, mas tem de ser bebido muito fresco e de preferência como aperitivo, senão pode-se tornar enjoativo.
Mas vamos então aos tintos... e que tintos! Tudo começou com o Monte da Peceguina (T) 2004: No nariz esteve muito bem, a mostrar-se um alentejano com garra, notas quentes ao Aragonês, tudo no nariz é Alentejo... Na boca, curiosamente, mudou um pouco o estilo, sente-se mais o Alicant(e), que lhe dá também uma bela cor, com notas vegetais elegantes, e a Syrah com nuances ora doces ora apimentadas. A madeira sente-se pouco e não está (ainda) integrada com a fruta do Aragonês, o que não nos desagradou, pelo contrário.
Seguiu-se o Aragonês da Peceguinha (T) 2004, uma aragonês típico da região, muito bem feito. A madeira sentiu-se mais do que nos vinhos anteriores (alguma baunilha, tosta menos evidente), com aromas a banana e noz moscada. Um aragonês não pesado, com bastante fruta, óptimo para consumo sem comida.
Abriu-se ainda o Pequeño João (T) 2004, vinho concebido a partir de um limitado lote que agradou muito os produtores, mas que tem desagradado alguma crítica. Percebe-se imediatamente que é não um vinho fácil (o Cabernet com o Arogonês tem destas coisas...), mas não deixa de ser interessante. Escuro na cor, sobressai um Cabernet escaldado pelo sol, poderosíssimo mas ligeiramente agre. De todos os vinhos provados, este foi aquele que achei com mais capacidade para acompanhar gastronomia robusta.
Por fim, veio o Madalhadinha (T) 2004 – numa das suas primeiras apresentações – mostrando-se bastante complexo, ainda jovem (quero prová-lo daqui a 6 meses), muito denso na boca. O Alicant(e) está em grande nível, fresco mas longe das notas verdes habituais. A madeira está bem marcada (bela madeira, by the way) mas toda em elegância, e um final longo que, daqui a alguns meses, será certamente longo e... guloso.
Enfim, vinhos do Alentejo feitos com trabalho e investimento, como a zona merece e retribui. Simpatia dos proprietários a provar que estão no negócio para durar. Ainda bem.

quinta-feira, abril 20, 2006

Breves notas: brancos

  • Neethlingshof Chardonnay (B) 2004: Vinho da região do Cabo (África do Sul) com notas próximas do estilo acídulo de alguns chablis menos equilibrados, longe por isso daqueles onde predominam notas amanteigadas. Muito fresco, algumas notas florais, para se beber com marisco. A menos de € 10. Suficiente +.
  • Três Bagos (B) 2004: Bastante acidez (demasiada mesmo!), mostra-se muito vivo, sem se notar que parte estagiou em madeira. A acidez da região (Douro) confere-se alguma complexidade e estrutura, mas está bem longe do que marca faz em relação ao Sauvignon Blanc. Abaixo dos € 6. Suficiente.

segunda-feira, abril 17, 2006

Jantar com a Montez Champallimaud


Não foi apenas mais um jantar o realizado no restaurante À Volta do Vinho, na penúltima sexta-feira, ali para os lados da Praça das Flores. De facto, esta iniciativa de Filipe d' Orey Gaivão contou com a colaboração da conhecida casa Montez Champallimaud e, mais importante, com a presença dos seus vinhos, incluindo o Quinta do Côtto Grande Escolha (T) 2001.
Com as entradas, começou por se provar o recente Paço de Teixeiró (B) 2005, branco com alguma complexidade, de cor pouco brilhante, mostrou uma frescura agradável na boca, embora fosse algo seco. Nuances ainda não totalmente evidentes (por ser tão novo), mas ainda assim notou-se algum ananás e, mais escondido, um pouco de maracujá.
Depois, já com o folhado de coelho servido (bastante bom, aliás), serviu-se o Quinta do Côtto (T) 2003. Revelou-se um tinto jovem, com um estilo mais moderno do que faria supor (para quem conhece os vinhos desta casa). Bastante agradável com fruta de qualidade (ao que parece não vai existir Grande Escolha de 2003, pelo que alguma uva de vinha velha deve ter vindo aqui parar), traço de uva madura mas sem qualquer excesso, taninos todos em elegância, e algum carácter mineral e metálico que contribuiu, em nossa opinião, para uma frescura e complexidade bastante interessantes. Belo final, médio/longo.
Com o novilho no forno (mal passado, como gostamos) serviu-se então o homenageado da noite... o Grande Escolha (T) 2001: este mostrou-se, desde logo, muito bonito na cor de um rubi profundo, não fosse já alguma evolução. No nariz sobressaltaram as notas a fruta bem casadas com a madeira, esta delicada mas presente. Tudo bem equilibrado, mas o futuro o dirá melhor. Na boca esteve, de início, menos fácil que o tinto de 2003, mas sempre com fruta encarnada elegante (morango silvestre) e referências frescas e piques de verdor correctos (orvalho e erva molhada). Tem alguns bons anos pela frente, o que negligencia uma prova para já... existem vinhos assim, preparados para envelhecer e, por isso, menos sedutores quando novos. Estão contra a corrente do mercado actual, disso temos a certeza!
Quanto ao Champallimaud Vintage (P) 2001 mostrou-se um Porto ao nível do que a casa nos habituou. Doce, muito doce, e pouca película na cor. Alguma silhueta feminina determinada pelo pouco álcool a piscar o olho ao mercado inglês não especializado. Em todo o caso, casou bem com um queijo da serra (este também algo mortiço, sem a força habitual).
Um bom jantar, com vinhos muito bem feitos, aos quais falta apenas um pouco mais de alma. Neste jantar estiveram presentes muitos daqueles convivas que costumam encher as provas na garrafeiras Coisas do Arco do Vinho, bem como alguns colegas de ofício do blog Vinho a Copo, aos quais redobramos votos para um futuro encontro.

segunda-feira, abril 10, 2006

Quinta de Roriz (T) 1999


A oportunidade de beber um Quinta de Roriz 1999 é algo que não costumo evitar, tanto mais que a sua produção foi muito limitada (cerca de 1000 caixas). A garrafa que abri faz poucos dias foi-me oferecida pelo meu amigo Almeida Fernandes na altura em que tinha o feliz hábito de me presentear com vinhos... hoje, prefere tentar vender e a preços destituídos de amizade.
Mas vamos então escrever sobre o vinho... a cor esteve um espanto, num rubi escuro retinto a mostrar uma evolução lenta para a idade. No cheiro, a conversa foi outra pois um odor a rolha manifestou-se durante quase toda a prova (embora o arejamento o tivesse diminuído). Bouquet evoluído com notas a resina, algum couro, e uma fruta ainda madura por detrás de uma capa de tabaco.
A boca confirmou o nariz, apresentando-se vinioso e elegante, com aromas muito subtis a cassis, e uma madeira bem estruturada com os sabores (e aromas) secundários.
Venham mais destas...
Nota ainda para o belíssimo rótulo da autoria de José Guimarães.

quinta-feira, abril 06, 2006

Nota Breve: tinto douriense

  • Quinta do Infantado (T) 2002: Com tanta cor nem parece um Douro da colheita de 2002 ... concentração média/alta, muita fruta madura e madeira equilibrada. Um belo tinto, a merecer mais dois ou três anos de garrafa. Se o futuro passar pela utilização de madeira nova no estágio, e pelas uvas de 2003, então teremos certamente um vinhão. Ficamos à espera, até porque o preço é bastante agradável - a menos € 10.

segunda-feira, abril 03, 2006

Verdes Majestosos

Faz vários anos que Anselmo Mendes tem vindo a dinamizar o mercado dos vinhos verdes brancos. Não hesitamos em considerar o lançamento dos rótulos “Muros de Melgaço” e “Muros Antigos” (bem como o “Espumante Muros Antigos”), como o maior salto qualitativo dos últimos anos vivido nos vinhos verdes. Tanto no que respeita ao cuidado na sua elaboração, quer no renovar de uma imagem que se encontrava um pouco gasta.
Surgiu assim o conceito de um Alvarinho com o caracter fresco da região, mas com mimos na produção nunca antes utilizados. A utilização de madeira nova, que já se vinha fazendo nos melhores Albarinhos galegos (Rias Bajas), mostrou-se mais um trunfo de Anselmo Mendes.
Com poucos dias de diferença, provámos ambos os rótulos da colheita de 2004. Vejamos:
Temos assim o “Muros Antigos”, super refrescante, com efervescência potente, traço citrino forte e uma espécie de sensação de terroir. Não é um Alvarinho fácil nem comum (quase omissas as referências a fruta tropical), é mesmo difícil de o esquecer, tem aquilo que só conseguimos descrever como uma “frescura complexa”.
Quanto ao “Muros de Melgaço” (um pouco mais caro do que o anterior, e com um ligeiro estágio em barrica) sente-se a mesma fruta de qualidade, mas tudo mais domado, o citrino evolui bem para a manga e o maracujá. Algumas notas doces finais contribuem para um conjunto guloso. Uma impressionante cor amarela ajuda a embelezar todo o conjunto, sentindo-se uma agulha menos potente do que o irmão mais novo.
Dois grandes Alvarinhos com algumas diferenças, mas iguais no que realmente importa: a qualidade do fruto, e o estilo personalizado do produtor.

sexta-feira, março 24, 2006

Kefren (T) 2001


De mim para mim, este é um vinho certamente especial... foi-nos vendido em plena DOC Rioja no local onde pernoitámos, mais precisamente em Ábalos, cidade de cor de terra. Mas voltemos ao início:
Os bons tintos de Rioja tem vindo recentemente a modernizar-se, deixando para trás o excesso de regulamentação que as classificações espanholas (eg., crianza, reserva, gran reserva) impõem, o que em muito limita a criatividade.
A bodega Kefren, com nome de pirâmide (escolhido pela semelhança com a elevação onde a vinha está plantada) é muito recente, começou em 2000 e tenta fugir à tradição (o que não é fácil por aquelas bandas). O vinho, longe do estilo clássico e cansativo dos Rioja tradicionais, é de autor!
Logo se que se sacou a rolha (a custo!) lembrámo-nos daquele território quase desértico protegido dos frios do norte pela Serra Cantábrica, com um aroma a revelar alguma baunilha mas mostrando-se ao mesmo tempo jovem e cheio de força.
Na cor apresentou-se um tempranilho vermelho grená, mais escuro do que é costume para esta região.
Na boca foi a confirmação de um grande vinho, densidade perfeita, várias camadas de fruto no paladar: primeiro mais madura, depois mais fresca, e depois ainda a madeira (notas a lembrar fósforos e especiarias exóticas). Por fim, uma acidez viva que garante pelo menos mais 5 anos em garrafa e um final super guloso.
Um grande tinto de Rioja (uma descoberta algo pessoal!) a mostrar que a zona não tem apenas passado.

terça-feira, março 21, 2006

Sugestões de restauração

Deixando os vinhos de lado (é pouco tempo, bem o sabemos), escrevo sobre dois restaurantes relativamente recentes e que merecem, sem qualquer dúvida, uma visita.

  • O primeiro chama-se “Amarra o Tejo”, sito no jardim do castelo de Almada (na parte velha, pouco acima da Incrível Almadense - os amantes de música sabem onde fica). Em pleno miradouro – com Lisboa aos pés – ergue-se um restaurante onde o peixe é o menu principal. Mas não se basta com peixe fresco grelhado, pratica-se também alguma cozinha mais requintada servindo, a título de exemplo, uma bela asa de raia em molho de alho com alcaparras e pasta de azeitona. Uma lista de vinhos (lá está... que não consigo resistir em falar deles!) bem elaborada, com uma variedade significativa de rótulos, copos a preceito, puros conservados em condições propícias de humidade, enfim... tudo o que se deseja. Em rigor, já bastaria a boa comida, mas com a vista deslumbrante e qualidade no serviço, é um programa a repetir.
  • O segundo restaurante tem por nome “À volta do vinho”, e centra a sua actividade em proporcionar refeições onde o vinho e o comer estão relacionados em absoluto. Às quintas-feiras este desígnio é exponenciado pela apresentação de um menu de degustação, acompanhado de vinho a copo seleccionado pelo proprietário para cada prato. Fica localizado entre o Palácio de S. Bento e a Praça das Flores (na segunda rua à direita de quem sobe) e tem um preço em conta.

sexta-feira, março 17, 2006

Notas breves: Tintos

  • Calda Bordaleza (T) 2003: Belo vermelho rubi compacto sem se aproximar da negritude. Na boca este bairradio é elegante, alguma acidez a compor o conjunto das castas francesas. Sente-se pouco o álcool. Muito interessante. Bom+.
  • Terras do Zambujeiro (T) 2002: Um alentejano com 24 meses de barrica! É obra. Mas é muito bom também. Naturalmente a fruta está menos presente, sobressaindo notas de couro e especiarias. Um alentejano diferente, pouco fresco mas muito intrigante. Bom+.

quarta-feira, março 15, 2006

Esporão Private Selection (B) 2004

Contrariamente ao que havia ouvido e lido sobre ele, este Esporão branco mostrou-se bastante fresco. É certo que lá estava a cor âmbar, o corpo cheio e aveludado, o doce e o mel como sabores primários... mas e aquele final? O que dizer daquele final citrino e floral, ligeiramente acídulo (ora acético ora doçura) a pedir mais um sorvo?
Um grande branco do Alentejo, mas que penso não servir para guardar pois falta-lhe a estrutura e acidez adequada. Com mais este vinho Portugal subiu mesmo um patamar nos brancos, onde andávamos coxos não fora a honra dos "Alvarinhos" e de alguns "Encruzados".
E acreditem que é mais fresco e citrino do que andam por aí a pregar. A não perder... isso de certeza.
A menos de €15 nas garrafeiras de todo o país.

segunda-feira, março 13, 2006

Notas breves: 2 brancos franceses bem diferentes

  • Coteaux du Lapon, (B) 2003, Domaine Pinsonnerie: Muito doce este vinho do Vale de Loire. Bonita cor, corpo grosso, pena o final não muito gordo. Algo enjoativo, mas o problema pode ser meu posto que não aprecio brancos doces. Em todo o caso, acompanhou bem um fois gras da loja parisiense especializada "Petitte Scierie". Bom-.
  • Laroche Chablis (B), 2004: Cor amarela clara (esperava melhor neste aspecto), notas de maçãs, mas também algum fundo mineral que gostei muito. Toda alegância da marca (muita finesse), faltou-lhe apenas um final mais digno (longo) e uma fruta mais exótica pois prevaleceram apenas os citrinos. Bom.

quinta-feira, março 09, 2006

Quinta da Trovisca (T) 1999


O nariz assustou-se no início com uma acidez trasbordante e fora de vulgar para uma colheita de 1999. Algum travo a álcool, aroma surpreendentemente jovem, alguma fruta (sem camadas em destaque), tudo banal.
Na cor não se vislumbrou brilho, antes mostrou-se vermelho rubi já com alguma evolução, e transparências típicas de um vinho pouco encorpado.
Na boca foi vigoroso, mostrou-se saudável, a fruta é de qualidade mas deu a ideia que não foi bem trabalhada. Depois foi austero, aqui e ali um pouco de pó talco e laivos de tabaco, mas tudo rude. Alguma frescura, morango silvestre, notas de madeira sem classe (provavelmente de barricas de terceiro ano), sensação a madeira queimada. Tudo muito linear. Ressaltou a Touriga Nacional, mas sem glória.
Suficiente - .
Preço não disponibilizado.