sábado, Fevereiro 26, 2011

de França

Chateau du Beaucastel (T) 2007

Não é fácil não dizer bem de um vinho destes.

A fruta é imensa, a textura acetinada. A complexidade e o corpo andam muito acima da média. Mas falta-lhe acidez, e até mesmo a alguma rusticidade que sempre nos habituaram. Uns dizem que os Beaucastel são hoje mais bem feitos do que alguma vez o foram no passado. Para nós, alguns Chateau9-du-Pape estão a ficar macios, apesar de continuarem a impressionar os sentidos.

Este parece-nos ser um caso desses - com mais fruta do que garra -, apesar de ser de uma colheita recente e, por isso, ainda ter muito para evoluir. Por ora, está bom, bastante bom até, mas não está fabuloso.

17+

segunda-feira, Fevereiro 21, 2011

Reportagem

Bairrada com Mário Sérgio

É sabido que a Bairrada produz grandes vinhos. E é sabido que a Bairrada produz grandes homens do vinho, querendo com isto dizer-se grandes produtores. Na linha mais tradicional, as duas premissas são verdade e encaixam na perfeição na pessoa do produtor Mário Sérgio, à frente dos destinos da Quinta das Bágeiras. Faz pouco tempo que almoçámos e jantámos com ele e tivemos a oportunidade de provar (e em alguns casos de voltar a provar) não só Bageiras mas outros vinhos da região. É que Mário Sérgio tem também essa qualidade tantas vezes rara... de gostar de provar e de divulgar outros vinhos que não apenas os seus.

Grupo dos 8 (T) 1985: Saído do famoso "Grupo dos 8" e produzido por Sidónio Sousa, está num fantástico momento de forma. Carácter marítimo evidente, notas a iodo, referência a molho de ostras, algum manjericão e fruta ainda negra. Grande prova de boca, e final acetinado. Um vinho memorável! 18
Gonçalves Faria Tonel 5 Gar. Especial (T) 1990: Mais reservado e menos evoluído do que as últimas garrafas provadas, mantém-se a um nível altíssimo. Seco, de perfil salgado, mas muito complexo e tremendamente elegante. Grande final de boca. Uma prova ligeiramente diferente de um vinho sempre fantástico. 17,5
Sidónio Sousa Reserva (T) 1997: Ainda não está no pico da sua forma, mas já se apresenta delicioso. Muita fruta, framboesas típicas da Baga, tem um perfil clássico acentuado. Está em crescendo, vai melhorar. Voltar a provar daqui a 5 anos. 17++
Quinta das Bágeiras Garrafeira 1.º Prémio (T) 1995: Outro vinho pelo qual temos que esperar. Muito jovem, muito seco, taninos duros. Mas tudo a revelar grande potencialidade: boa definição no fruto, grande acidez, e prova de boca já complexa. 17++
Quinta das Bágeiras Velha Reserva Bruto Natural (Esp.) 1989: Cor dourada, todo o vinho revela muita complexidade. Bouquet ligeiramente reduzido, carácter vinioso, quase sem tosta. Enorme a acidez, muito saboroso na boca, e grande capacidade para acompanhar todo o tipo de gastronomia. 17
Quinta das Bágeiras Garrafeira (T) 2004: Perfil clássico, identifica-se facilmente como um Bairrada. Muito bem no nariz, elegante e ligeiramente apimentado. Boca em crescendo, mais em elegância do que em força. Mais um óptimo Garrafeira das Bágeiras. Boa (mas talvez não enorme) perspectiva de evolução em garrafa. 17  
Quinta das Bágeiras Garrafeira (B) 2002: Ligeiramente mais oxidado do que é habitual, revela muitas notas a verniz na prova do nariz. Na boca, revela-se saboroso mas, novamente, mais curto do que é habitual. Admitimos que temos que esperar mais uns anos, mas não é certa a sua evolução. 16

sexta-feira, Fevereiro 11, 2011

Prova especial

Sassicaia (T) 1988 & Altero (T) 1988

Confessamos já que estes dois tintos italianos estavam na nossa lista (todos temos uma, ainda que não escrita, certo?) dos vinhos do Mundo que mais queríamos provar...

O Sassicaia dispensa apresentações, mas sempre se dirá se trata de um dos pioneiros da revolução toscana, apresentando um blend de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Mais propriamente, neste caso específico, da revolução dos vinhedos à volta de Bolgheri, pequena vila na costa do Mediterrâneo. É um vinho com uma história rica em pormenores fascinantes, como seja a atribulada vinda dos primeiros clones bordaleses e a muito contestada criação de uma micro-região demarcada apenas para albergar este famoso tinto da casa "Tenuta San Guido". Uma dica: a visita a Bolgheri é um marco para qualquer enófilo, uma vila antiga cheia de charme, com bons restaurantes e enotecas (todas com vinho a copo), rodeada por pinheiros mansos e, claro, vinhas.

O Altero é um vinho também ele especial. Vinho de elite, foi criado em 1983 pela casa "Poggio Antico" com o propósito de demonstrar toda a potencialidade da casta Sangiovese, sobretudo na variante clonal típica dos Brunello di Montalcino. A par de outros vinhos toscanos, um ou outro mais vetusto e famoso, Altero foi uma das principais faces do movimento "super-tuscan", caracterizado pela produção de vinhos muito concentrados, de perfil internacional e nem sempre 100% Sangiovese (apesar da casta dominar tendencialmente os lotes). A composição dos solos de Montalcino, diferente dos das colinas centrais da Toscânia, tem fama de atribuir grande longevidade aos tintos que produz e a variante Brunello di Montalcino tem vindo a ganhar reputação com os seus tintos profundos e expressivos.

Quanto à prova destes dois colheitas de 1988, demonstrou-nos a vitalidade de ambos os vinhos. Com mais de 20 anos em garrafa, ambos mostraram uma vivacidade plena. Necessariamente, as diferenças logo se notaram, com o Sassicaia a lembrar um tinto bordalês, com um bouquet muito bonito, apesar do Cabernet Sauvignon estar ligeiramente dominador, ou, pelo menos, não tão polido quanto nos topos de gama da margem esquerda de Gironde nos melhores anos. Revelou, todavia, uma fantástica prova de boca, complexa, com garra mas plena de elegância - um vinho feito para a mesa. Um grande tinto, sem dúvida, e de grande aptidão gastronómica  (17,5).

Com o Altero, foi necessário mudar o chip, tanta foi a diferença de perfil: bouquet de enorme expressividade, cheio de fruta – incrível (!) para a idade – e madeira discreta (em Montalcino existe o hábito de envelhecer os tintos em balseiros generosos, neste caso em pipas de 500l. de carvalho francês). Na boca… verdadeiramente explosivo! Manteve o enfoque frutado, sensual, por vezes quase quente - mas com equilíbrio e seriedade -, autêntico cuore italiano com taninos perfeitamente integrados e muito saborosos. E que fantástico o final de boca com matizes minerais... que grande monovarietal de Sangiovese! Belíssimo (18-18,5).

Uma conclusão? Para quê?

terça-feira, Fevereiro 01, 2011

Reportagem

Roêda e Panascal - a importância dos ‘terroirs’ no vinho do Porto

São sete e meia da manhã e encontramo-nos no Douro, bem junto à ponte do Pinhão, em pleno Cima Corgo. É cedo e o tempo está ameno. O sol já ilumina o rio, não chega a fazer frio, mas sente-se o ar matinal, fresco e límpido.

Um trajecto de menos de cinco minutos de carro separa-nos do nosso destino, a Quinta da Roêda, lugar de nascença dos vinhos da empresa Croft agora incluída no universo do ‘Grupo Fladgate’. No curto caminho, passamos por uma outra quinta, igualmente berço de um dos melhores vinhos do Porto, a atestar que o Vale do Pinhão é fértil em maravilhas vitivinícolas.

Fundada em 1588, disputando o pódio das mais antigas Casas Tradicionais de Portos, passariam três séculos até a Croft adquirir, em 1889, a propriedade da Quinta da Roêda. Curiosamente, o anterior proprietário era John Alexander Fladgate, o que em muito explica que o ‘Grupo Fladgate’ tudo tenha feito para, em 2001, voltar a adquirir os direitos sobre a quinta.

Em 1889, apesar das vinhas da quinta estarem ainda a recuperar do drama da filoxera, poucas dúvidas restavam já de que aquele se tratava de um terroir de eleição. A confirmação absoluta, o reconhecimento da crítica e a apoteose por parte dos consumidores, viriam um pouco mais tarde, com os vintages de 1927 e de 1931, e, pois claro, com o majestoso vintage 1945, ainda hoje um marco da Croft.

Não espanta, assim, que a história de mais de duzentos anos de produção de vinhos, e o impacto provocado pela beleza da curva que o Douro percorre neste local, nos dificultam a tarefa de recordar da razão desta nossa visita. Razão essa que é, afinal, assente numa dupla motivação. Por um lado, a de visitar o novo modelo de vinha concebido pela ‘Fladgate’ para as suas quintas – concretizado, com especial entusiasmo, na Quinta da Roêda –, e provar o ‘Fonseca Terra Prima’, o primeiro vinho do Porto produzido a partir de uvas de agricultura biológica. Por outro lado, visitar sensorialmente as amostras dos vinhos produzidos na colheita de 2008 – todos Portos posto que, como é sabido, a empresa não produz DOC – pelas várias quintas detidas pela ‘Fladgate’. A particularidade é que se tratam de amostras antes ainda de qualquer blend, ou seja, verdadeiras pérolas ‘single-quintas’ pois, só desta forma, poderíamos tirar teimas sobre a importância do terroir nestes tintos fortificados.

Percorremos, então, os patamares da Quinta da Roêda, parte deles reconstruídos recorrendo-se a uma inovadora tecnologia laser que procede ao cálculo exacto da melhor inclinação longitudinal do terreno. Acompanha-nos David Guimaraens e António Magalhães, responsáveis, respectivamente, pela enologia e pela viticultura da ‘Fladgate’, ambos entusiasmados com os resultados já conseguidos. Melhor escoamento das águas pluviais, diminuição da erosão, e até o mais fácil acesso dos meios mecânicos que realizam tarefas agrícolas, são tudo vantagens, dizem-nos.

Afastamo-nos da casa da quinta, de inevitável estilo colonial inglês, e não conseguimos deixar de depositar o nosso olhar para as entrelinhas e para os taludes cobertos de vegetação, de erva bem cortada, indícios claros que o futuro deste terroir aponta para a agricultura biológica na procura da conservação de um ecossistema equilibrado. Defronte de uma das encostas da quinta, com patamares de uma linha apenas, António Magalhães interrompe o nosso passo e diz-nos com orgulho que naquele pedaço de solo não foi utilizada uma única gota de herbicida de acção residual, e que o sucesso da reconversão se deve à cobertura verde e aos inerentes infestantes naturais.

Pouco depois, a prova de fogo. Encontramo-nos já com o Fonseca Terra Prima em mãos: garrafa estreita e leve (denotando mais preocupações ambientais), tons esverdeados no rótulo, e com a certificação de que provém de uma vinha cultivada totalmente de forma orgânica na Quinta do Panascal. Fazemos chegar o copo ao nariz, primeiro. Depois à boca. É um Porto, sim senhor, e dos bons! Tem fruta negra, ligeiro vegetal seco, e grande tónica floral. Saboroso, parece-nos que a fruta tem contornos mais puros e equilibrados do que é habitual, mas, claro está, na ausência de comparação com outros Portos de agricultura biológica, podemos estar a ser traídos pela componente sugestiva.

Gostámos deste Porto, e não apenas sabendo-o produzido a partir de uvas sem pesticidas nem herbicidas. Ao invés, julgamos ser uma das melhores opções para quem pretende beber um ruby (da categoria Porto Reserva), intenso e leve, frutado e balanceado, volumoso sem ser duro, enfim um Porto de elegante prazer. Prova superada! David Guimaraens, também ele visivelmente agradado com mais este seu rebento, faz-nos notar os cuidados extremos na sua produção, sendo disso bom exemplo a aguardente que o fortificou, ela própria produzida a partir de uvas de agricultura biológica.

Já mais tarde, perto do meio-dia, espera-nos nova tarefa, desta feita na Quinta do Panascal – a de provar as amostras, colheita de 2008, de Portos das quintas de Vargellas, da Terra-Feita, da Roêda, do Cruzeiro, de S. António, do Junco, e do próprio Panascal. O desafio é conhecermos a extensão das diferenças que o terroir de cada território duriense proporciona. Para a comparação ser a mais fiel possível, a aguardente em todos os Portos é a mesma. É sabido que o enólogo, assim como o ‘master blender’ no whisky, assume um relevo determinante na hora de lotear o vinho. Mais do que uma profissão, é uma autêntica arte a de procurar harmonias, criando referências olfactivas e gustativas constantes mesmo entre anos e colheitas diferentes. Mas até que ponto nos Portos, tal como nos DOC, o terroir assume papel principal?

Pois bem, a prova aos vários Portos permitiu-nos concluir que as diferenças entre os diversos vinhos são muito significativas. Existe, é certo, uma qualidade persistente e transversal nos vários Portos que provámos – o que revela o óptimo trabalho da ‘Fladgate’ e, igualmente, que 2008 foi um ano bom no Douro –, mas, em rigor, nem todos os vinhos estavam, a nosso ver, totalmente afinados. Apenas dois, apesar de díspares no estilo, nos pareceram próximos da perfeição. Apenas dois, dos sete provados, nos recordaram, com enorme deleite, outras provas de outros vinhos excepcionais. Apenas dois vinhos, e talvez mais um, nos parecerem ser matéria para vintage de primeiríssima linha.

Já adivinhou? É que, sem sabermos, estávamos a provar os ‘single-quintas’ das quintas do Panascal e de Vargellas! Eram esses os dois ‘single-quintas’ que nos emocionavam e que nos remeteram para provas passadas, para experiências já vividas, enfim para a noção de terroir. Mas o mais incrível estava ainda para vir: o primeiro ‘single-quinta’ recordava-nos um Fonseca vintage, e o segundo era muito próximo do estilo vintage Taylor’s. Se dúvidas tínhamos a propósito da influência do terroir nos vinhos do Porto, elas tinham sido definitivamente desfeitas. Efectivamente, uma vez que o Fonseca vintage é produzido maioritariamente a partir de uvas da Quinta do Panascal, a prova do vinho desta quinta remeteu-nos, de imediato, para essa referência dos vintages nacionais. O mesmo sucedeu com o Porto da Quinta das Vargellas que tudo nos fez para o associarmos, intuitivamente, aos maravilhosos vintages da Taylor’s. O outro Porto que nos encantou foi o vinho da Quinta da Roêda, normalmente engarrafado sem recurso a uvas de outras quintas, e que não largamos por alguns momentos graças ao seu vicioso carácter especiado.

Naturalmente, também os Portos das restantes quintas revelaram-se em óptimo nível, e certamente poderão vir a proporcionar ‘single-quintas’ de qualidade assinalável e de expectável longevidade. Na prova comparada, porém, a diferença entre os vários perfis foi notória: uns mais frescos – caso do aprimorado e fino Quinta do S. António – outros mais potentes – como os grandiosos Quintas do Junco e Quinta da Terra-Feita –, outros ainda de pendor químico – como o da Quinta do Cruzeiro, repleto de tinta da china e de aromas a vegetal seco.

No entender da ‘Fladgate’, e com excepções – caso, por exemplo, da Quinta da Terra-Feita em anos não declarados –, os vinhos das referidas quintas são particularmente interessantes enquanto ingrediente secreto – o ‘sal’ e a ‘pimenta’ como actualmente se gosta de referir – dos seus vintages, abdicando-se deles quando se pretende constituir a respectiva espinha dorsal. Na verdade, para servirem de «corpo-matriz», para servirem de menir vinícola ao vintages que suportarão dezenas de anos em garrafa, estão reservados os melhores néctares da Quinta do Panascal, vinhos doces e com fruta negra belíssima, e da Quinta da Vargellas, vinhos de taninos firmes e de longevidade garantida.


Para quem ainda tem dúvidas sobre a importância dos terroirs nos vinhos do Portos, faça como nós: prove os vintages da Fonseca e da Taylor’s, e fique com a certeza que os vinhos que lhe estão na base são de quintas diferentes, com clima e solos dispares, mas que, no fundo, distam entre si apenas o caminho que separa a Quinta do Panascal no Cima Corgo à Quinta de Vargellas no Douro Superior.