sexta-feira, Fevereiro 27, 2009


Vinhos da Quinta da Nespereira
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Vineaticu (T) 2006
Sarmentu (T) 2006


Frases como "o Dão está em mudança" ou "surge uma nova vaga do Dão", têm sido escritas por mais de cem vezes nos últimos tempos… e agora por mais uma vez. Mas não são frases escritas em vão, não são apenas títulos vazios, muito menos uma mera ideia sem qualquer correspondência prática. Ao invés, revelam uma realidade palpável, a de que vários produtores do Dão têm vindo a lançar novos e atraentes produtos. Vinhos mais fáceis na maioria das vezes diz-se, mas não só… da cada vez maior quantidade produzida com rigor técnico tem surgido um incremento na qualidade geral dos vinhos, à qual não falta sequer a criatividade de um ou outro produtor mais emblemático e carismático (como seja Álvaro de Castro). Pois bem, da Quinta da Nespereira, sita bem próxima de Gouveia, surgem-nos dois tintos DOC do Dão, ambos com força, com garra, quase carnudos mesmo. São marcas jovens e modernas que, com mais algum acerto na adega, podem vir a dar que falar.

O vinho maior é o Viniaticu, que se apresenta químico, carregado, verdadeiramente cerrado nos aromas violáceos e a fruta madura com uma ponta de menta próxima do clássico after-eight. Na boca, revela-se um vinho com músculo, acidez em bom plano, novamente com apelo a fruta madura, mas não chega a convencer tanto quanto o faz no nariz: é algo plano na dimensão mais vegetal, apesar de saboroso nas especiarias; é algo sorumbático nas referências tostadas apesar de generoso na fruta. Mais algum tempo de garrafa deverá fazer-lhe bem para moldar melhor um conjunto já de si muito certinho. 15,5++

O irmão menor é o Sarmentu que, contudo, não fica atrás do Viniaticu. Como este, aquele revela uma boa dose de intensidade aromática, desta feita com uma vertente que cativa sobretudo pela fruta vermelha e ainda por um toque vegetal seco muito agradável. Difere, porém, do irmão maior na definição do estilo, posto que não passa por madeira nem entra Touriga Nacional no lote. É, portanto, um vinho mais "limpo" na dimensão da fruta, mais definido e focado com tudo o que isso tem de bom num vinho que se quer pouco complicado (e já começa a ser difícil encontrar um tinto do Dão sem Touriga Nacional...). É, porém, menos interessante na boca, sem complexidade devida. Servirá muito bem, em qualquer caso, como acompanhamento a pratos intensos típicos da região e poderá ser guardado por um par de anos. 15,5+

Em suma, mais dois bons tintos do Dão que merecem ser conhecidos e a preços comedidos, a menos de 10€ cada.
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terça-feira, Fevereiro 17, 2009


Apegadas Quinta Velha
Reserva (T) 2006


Do projecto Quinta das Apegadas já nos referimos anteriormente a propósito do tinto reserva de 2004 (aqui) e dos colheita tinto e rosé de 2005 (aqui). Importa, em abono da verdade, começar por dizer que sempre apreciámos o estilo, elegante e com aprumo, dos vinhos desta casa. Mais, após visita à quinta, fomos mesmo seduzidos pela adega moderna e curvilínea sob o Douro, e pela sua localização na margem esquerda logo antes da Régua (mesmo no limite do Cima Corgo) que constitui, como é sabido, um terroir clássico de eleição. Todavia, ainda em abono da verdade, e apesar de todas estas boas indicações (não esquecer ainda que a enologia é de Rui Cunha), faltava, a nosso ver, um vinho verdadeiramente surpreendente por parte deste produtor. Faltava, digamos assim, um vinho de afirmação. Pois bem, quem diria que seria a colheita de 2006 (logo esta que não tem sido feliz para a maior parte dos produtores) a proporcionar, enfim, um grande vinho a António Marques Amorim! Se o tinto colheita mostra fruta franca, em quantidade e qualidade apreciável, pecando contudo por uma boca com pouco estrutura e muito arredondamento, já o reserva é um tinto de muito bom perfil, a seguir de perto nas próximas colheitas. Vejamos:

Cor pouco concentrada, rubi vivo com transparências. No nariz surge o maior destaque com um fruto bonito de grande qualidade e de perfeita definição - é uma autêntica miscelânea de fruta vermelha, ora madura ora mais fresca, vibrante e muito sensual, sem nenhum excesso da madeira por onde estagiou (apenas com ligeiro verniz). Em suma, é difícil de tirar o nariz do vinho que não cansa, mas encanta. A boca é menos entusiasmante, com intensidade mediana, algo morna mas em todo o caso muito saborosa. É pois um tinto que aposta na elegância, na não saturação dos sentidos, e que se bebe com muito prazer (uma garrafa pode desaparecer num instante...).
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Um belo tinto, mais em elegância do que em força e com um aroma que é um plus magnífico, uma verdadeira cereja em cima do bolo! O preço anda por menos de 25€, mas não é fácil de o encontrar. Procurem-no no ECI (Lisboa).

17
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Próximos vinhos: Viniaticu (T) 2006; Sarmentu (T) 2006; Vinha da Costa (T) 2005; Poeira (T) 2006; VT (T) 2005; Vértice rosé (Esp) 2007; Quinta de Porrais (B) 2007.

domingo, Fevereiro 15, 2009


Quinta da Garrida Reserva
Touriga Nacional (T) 2004

A prova anterior ao Garrida Touriga Nacional (T) 2005 deu-nos ganas de... voltar a provar o 2004 de que tanto gostamos... Duas perguntas nos assaltavam o espírito: i) afinal, porque gostamos tanto da versão de 2004? ii) Estará assim tão diferente do 2005?

A verdade é que, com esta prova, confirmamos que a versão de 2004 está um nível muito alto (e, talvez por isso, nos decepcionou um pouco o 2005). Mantém-se escuro na copo, mas não opaco, e lança um aroma que combina as nuances de violeta com fruta vermelha fresca. A madeira também se sente, mas só se encontra lá para ajudar e não prejudica. Onde o Garrida 2005 revela algum excesso, este Garrida 2004 mostra equilíbrio. Onde o Garrida 2005 quer deslumbrar de imediato, este 2004 quer agradar de forma progressiva. Na boca o 2005 está mais cheio é certo, mas é o 2004 que espelha melhores e mais saborosos taninos e ganha o campeonato do carácter gastronómico. Até o final de boca do Garrida 2004 está mais prolongado!

Pode ser da evolução em garrafa, mas será que um ano apenas marca assim tanta diferença? Pode ser mudança de estilo, mas não é a mesma matéria-prima? Não conheço as respostas para estas perguntas, mas sei que não troco, por ora, uma botelha do Quinta da Garrida Touriga Nacional 2004 por duas do mesmo vinho da colheita de 2005!

17+

terça-feira, Fevereiro 10, 2009


NOVIDADE


Quinta da Garrida Reserva
Touriga Nacional (T) 2005

Sempre foi um tinto que agraciou fama, sobretudo pela óptima relação preço-qualidade, e a fama era toda merecida. A nosso ver, atingiu na colheita de 2004 um nível muito alto, pelo que havia alguma curiosidade a propósito deste 2005. Curiosidade aguçada pela qualidade generalizada dos tintos do Dão no ano de 2005, e pelas alterações recentes (quer ao nível societário quer ao nível gráfico do design dos rótulos) da empresa "Aliança".

Cor escura, num azul arroxeado quase impenetrável e ligeira espuma. No nariz, a primeira pequena decepção: flores, flores e mais flores! Ou melhor, violeta, violeta e mais violeta! É um floral intenso e químico, como que a lembrar sabonete, juntamente com alguma especiaria e chá preto. Não significa isto que a casta esteja excessivamente pesada ou que o vinho siga num perfil morno (não é verdade, revela até frescura revigorante). Contudo, a nosso ver, está muito directo, excessivamente focado na vertente floral da Touriga Nacional. Conhecemos, é certo, quem encontre neste tinto um lado frutado e elegante. Mas nós nem por isso.

Na boca melhora bastante, está polido, de grande amplitude e muito saboroso. Todavia, a segunda pequena decepção vai inteira para o final de boca que se sugere algo curto comparado com anos anteriores (recordando-nos dos 2003 e 2004). Não há dúvidas que está todo ele mais musculado, mais viril até, mas o final de boca peca, pelos menos por ora, pela falta de elegância e de comprimento.

Certamente que irá crescer na garrafa, tal qual as colheitas anteriores, podendo melhorar o final de boca e afinar-se o excessivo carácter floral do nariz. Neste momento, está pronto para os fanáticos da Touriga Nacional poderosa e evidente. Para os outros, parece-nos ser aconselhável guardá-lo por um par de anos.

16,5++

PS: a última pequena decepção vai para o preço que, como é sabido, aumentou infelizmente cerca de 50%.
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segunda-feira, Fevereiro 02, 2009


NOVIDADES


Não é uma, mas são antes duas novidades, dois vinhos que irão em breve sair para o mercado. Duas filosofias diferentes, dois estilos opostos, duas regiões distantes. Em suma, dois bons vinhos brancos portugueses.


Casal Figeira Tradition (B) 2007: Nesta última colheita - a vinha foi já arrancada - aparece feito exclusivamente Marsanne (que, tal como a Roussane, é uma casta "típica" das Côtes du Rhône), como que num último desafio lançado por António Carvalho, mantendo-se a ausência de esmagamentos mecânicos prejudiciais e de leveduras. Este Tradition 2007, revelando uma bonita cor amarela, encontra-se já um branco muito sério, apesar de ainda precisar de garrafa para largar e alargar toda a sua complexidade. Está um pouco mais complexo e menos directo do que em anos anteriores, está mesmo mais poderoso na fruta e, simultaneamente, mais marcado (pelo menos por agora) pelas nobres madeiras em que estagiou. Menos fino e com menos frescura? Nem por isso... Um grande Tradition, no seu canto do cisne! Um grande branco da Estremadura que termina o seu percurso. 16,5+

Quinta do Regueiro Grande Escolha (B) 2006: Os recentes e merecidos êxitos (com destaque para os sucessos em provas ibéricas) dos alvarinhos produzidos nesta quinta sita em Melgaço entusiasmaram os seus responsáveis a ponto de estes optarem, mesmo na complicada colheita de 2006, por seleccionar um lote proveniente das melhores cubas (sempre inox), previligiando fermentações prolongadas. O resultado é muito bom, e vem na linha dos alvarinhos que, perdendo muita da sua intensidade aromática típica, ganham em complexidade, estrutura e mesmo mineralidade. E tudo isto revela-nos este Grande Escolha, posto que está um vinho sério e de aromas subtis, admitindo-se que pode ainda de crecer na componente mineral, mas já com a expectativa de que a edição de 2007 será ainda melhor. 16,5