segunda-feira, Dezembro 29, 2008

VISITA


Quinta da Fata (Dão)


Em tom de reportagem vinícola, e para os lados de Nelas, mais concretamente entre Nelas e Santar, bem junto à aldeia de Vilar Seco, encontrámos no mês passado a bonita Quinta da Fata de Eurico Pontes. Vejamos melhor:
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Recente produtor do Dão, cada vez mais conhecido e com presença em alguma restauração da capital - eg., restaurante "Apuradinho" (Campolide) -, tem aproveitado o recente boom da região para uma maior projecção e visibilidade. Feita a visita à quinta, que também dispõe de turismo rural, constatamos que se trata de um projecto que Eurico Pontes conduz com pés e cabeça: área vindimada com dimensão adequada, sem excessos (talvez com pouco mais de 10 hectáres); vinhas praticamente contíguas às da famosa Casa de Santar e plantadas de acordo com a orientação do Centro de Estudos Vitivinícolas (Nelas); adega simples e rudimentar mas muito prática. Tudo isto nuns vinhos que se querem de perfil clássicos, saborosos mas duros. Vinhos… quase todos tintos entenda-se, pois apesar de existir uma parcela de casta Encruzado, pouco se engarrafa de branco por enquanto.
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Os vinhos a merecer destaque são pois o Quinta da Fata Reserva e o Quinta da Fata Touriga Nacional, apesar de existir um colheita e um branco. Ambos, melhores na colheita de 2005 – o ano foi muito bom no Dão – mas mantém boa qualidade na colheita de 2006, encontrando-se até mais acessíveis e podendo, por isso ser, bebidos de imediato. Como referências típicas, os tintos da Quinta da Fata revelam fruta generosa no nariz praticamente sem percepção da madeira onde estagiou, taninos sérios mas saborosos na boca. Em suma, são vinhos gastronómicos que não viram a cara à luta a um cozido sem couves. O monovarietal Touriga Nacional tem estado uns pontos acima do irmão Reserva, com a casta raínha a mostrar-se num perfil nada pesado, antes levemente floral, e com um final pronunciado.
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Valem a pena ser conhecidos estes tintos e vale a pena ser conhecida a Quinta da Fata.
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quinta-feira, Dezembro 25, 2008

O texto de Natal e nosso pódio de 2008
(ou, tintos que não são novidade mas que gostámos muito)
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Quem tenha lido os nossos últimos textos e provas a propósito de vinhos a não esquecer será tentado a concluir que, em 2008, este blog apenas se surpreendeu com vinhos espanhóis (Aalto PS, Ossian) ou Australianos (Amon-Ra). Nada disso! O nosso singelo objectivo (modéstia à parte) sempre foi destacar os bons vinhos nacionais, as boas compras, aqueles com excelente evolução (para quem tenha dúvidas, basta ver que a grande maioria das provas publicadas são de vinhos nacionais, apesar das diversas provas de vinhos estrangeiros ao longo do ano). Nessa medida aliás, os vinhos que destacamos neste ano de 2008 serão portugueses e, curioso (talvez), vinhos portugueses com mais de 6 anos de estágio em garrafa. Trata-se, para mais, de um destaque que não é comandado por uma lógica pedagógica (embora seja conveniente que mais gente prove vinhos lançados em anos anteriores), mas sim de puro prazer! É que, efectivamente, foram vinhos, todos tintos, oriundos das colheitas de 1997, 2000 e de 2001, aqueles que nos deram mais prazer a beber durante este ano. Quais são?
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O primeiro desses vinhos é um clássico renascido. Supostamente destinado a ser o topo da marca Ferreirinha, seria desclassificado "à última da hora" e, para nós, está mesmo melhor que alguns Barca Velhas (eg., comparem-no com o BV de 1995). Em poucas palavras, encontra-se cheio de complexidade na prova de nariz e repleto de pattine delicada na boca - uma delícia! No segundo lugar, temos um "velho conhecido" e um nosso preferido desde há alguns anos para cá. É um néctar que continua a evoluir muitíssimo bem e que revela o potencial da colheita de 2001 no Douro. Em suma, um vinho de deleite, um dos tintos nacionais mais bordaleses que conhecemos. Por fim, no terceiro lugar, temos um empate entre um lote tinto de diferentes regiões (e de dois dos mais interessantes produtores nacionais), com uma acidez viva e fruta de enorme qualidade (está para durar!), e um duriense de cetim adquirido por "tuta e meia" numa conhecida garrafeira em Madrid, ambos da colheita de 2000.
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O nosso pódio de preferidos em 2008 é então constituído por:
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  • Ferreirinha Reserva Especial (T) 1997

  • Brunheda Vinhas Velhas (T) 2001

  • Dado (T) 2000
  • Gouvyas (T) 2000

domingo, Dezembro 21, 2008


A NÃO ESQUECER…

Ossian (B) 2006


Não queriamos que chegasse o nosso texto de Natal sem antes referir mais um vinho que não esqueceremos tão cedo. De novo espanhol (raios!), mas desta feita branco. Acresce que, pelo menos ao nível de complexidade e de prova de boca, esta foi a melhor surpresa que provámos este ano em termos de vinhos brancos. O que, a nosso ver, não é obra simples, dados os vários bons brancos nacionais de 2007 e, claro, os muitos brancos provenientes do resto do mundo por nós provados.

Trata-se do Ossian (B) 2006, fruto de uma vinha prefiloxérica, ou seja com bastante mais que cem anos (segundo o produtor com mais de 150 anos) localizada próximo de Segóvia (Rueda) e que estagia quase um ano em carvalho. Falta ainda esclarecer que é uma vinha de uma casta só, nem mais nem menos que a fantástica verdelho e que o vinho é produzido segundo os princípios da agricultura biológica (ou seja, sem nenhum tipo de produtos químicos) e fermentado con leveduras autóctonas. Pois bem, temos então um 100% verdelho e logo de vinhas velhas, e que verdelho… Amarelo carregado no copo, revela-se imediatamente compacto. No nariz, lança de início um aroma áspero, duro, vegetal seco, tudo a dizer que é um branco de força, de complexidade e de arrebatamento. Depois surge ligeira tosta, fruta cozida e fruta tropical, ligeiro floral e madeira de móvel antigo. Mineralidade muito boa (quem acha que o galego "As Sortes" é mineral tem de provar este), boca cheia e untuosa, corpo amplo, extremamente estruturado, é como se fosse "um tinto de uva branca". Final prolongadíssimo, novamente duro e seco, uma austeridade que se aplaude e que tantas vezes faz falta aos brancos que se querem com longevidade. Onde não ganha em subtileza e elegância, ganha em força, complexidade e amplitude. Um branco de despertar paixões!

O melhor de tudo é que se vende por cá. Custa entre € 30 a € 35, e compra-se nas Coisas do Arco do Vinho (Lisboa) ou na Tio Pepe (Porto). Aproveitando o espírito consumista cada vez mais presente no Natal, é caso para dizer "toca a comprar"!

17,5

quarta-feira, Dezembro 17, 2008


A NÃO ESQUECER...


Aalto PS (T) 2005

Tanto tempo sem escrever sobre vinhos "além-Pátria" e, logo agora referimo-nos a dois quase numa assentada. Primeiro foi o super syrah australiano do texto abaixo, agora o também soberbo espanhol Aalto PS (T) 2005. E, ao contrário do que tanto pregamos a favor de tintos de lote, temos aqui outro monocasta, desta feita de excelentes clones de tempranillo, ou melhor "tinto fino", como preferem as gentes da região.

Produzido só em anos excepcionais, este Aalto PS é o topo de gama da marca Aalto com vinhedos na Ribera del Duero (PS significa "pagos seleccionados"). Naturalmente, é um vinho ainda muito jovem (em comparação com o Amon-Ra, o australiano parece estar mais pronto a beber) que terá de esperar tempo em garrafa. Completamente negro no copo, começa por revelar-se tímido no nariz. Está muito sério, como convém num tinto deste tipo, todo ele potente e intenso. Ainda no nariz, o carvalho pouco se sente apesar dos mais de 15 meses em barricas novas, sendo ao invés marcado por fruta preta, ligeiramente confitada, cacau e uma nota balsâmica agradável e fresca (um after-eight que não se sente em anteriores edições do vinho). Na boca apresenta-se com um estilo moderno, muito concentrado, e portanto longe do estilo clássico que marcou os vinhos espanhóis nas décadas passadas. Durante toda a prova mostra-se amplo e com taninos que secam a boca mas não agridem, acidez domada (mas ela existe), enfim tudo a garantir longevidade. Final de boca longo, mas a este respeito acreditamos que vai crescer.

Com um preço superior a € 75, é uma prova inequívoca como taninos e acidez não significam um vinho menos atraente. Este Aalto PS (T) 2005 conjuga num só, atracção, potência e intensidade, de uma forma como poucos outros vinhos provados este ano o fizeram. Muito bom mesmo. Não vamos esquecer!

18

quinta-feira, Dezembro 11, 2008


A NÃO ESQUECER...


Amon-Ra (T) 2006

Perguntam-nos quais os tintos que bebemos este ano e que vamos ter muita dificuldade em os esquecer…

Como a pergunta não especifica, e este blog anda muito nacional (logo nós que somos fãs também de vinhos de outras paragens), somos tentados a escrever que um dos grandes destaques do ano vai para o Amon-Ra 2006, um super Syrah (ou Shiraz como diz o rótulo) de Barossa Valley (Austrália). Proveniente de vinhas com mais de 100 anos, e com um estágio de 15 meses em carvalho francês e americano, revelou-se espesso do início ao fim da prova, um monumento de presença, de estrutura e de corpo. Nariz com um ataque imenso a fruta em camadas, toda muito escura (amoras e cassis) e madeira quanto baste para aguentar a fera. Na boca então nem se fala (para nós, é na boca que um óptimo vinho se distingue de um bom)... pois todo ele revela o seu esplendor: ora cremoso, ora carnudo (lembra um Porto vintage mas sem a doçura), sempre nada pesado, antes fresco e, como se espera de um vinho deste calibre, com um final muitíssimo prolongado (+ou- 10 segundos). O preço é upa upa, bem acima dos € 100 (pelo que, em rigor, é difícil recomendar este vinho, mais a mais julgamos não haver importação para a nosso país), mas comparado com outros com o mesmo preço (nacionais e estrangeiros) este, a nosso ver, brilha... E brilha muito!


18 +

terça-feira, Dezembro 09, 2008


"Retaste" 3:

Evel Grande Escolha (T) 2003

Mais uma prova de um vinho que já não provávamos faz algum tempo e foi logo a vez de um dos tintos favoritos dos enófilos iniciados, e não só! E esta prova demonstra bem que existem muitas razões para o seu sucesso. Desde logo o preço, estável e não especulativo, depois o facto de não ser preciso andar de loja em loja à procura pois é de fácil acesso e, por fim, porque é bom e evolui bem. Bem sabemos que só passou meia década desde a tórrida colheita de 2003, mas também é verdade que já vimos evoluções "estranhas" em alguns durienses... No caso deste Evel GE tudo isso passou ao lado e está, numa palavra, interessantíssimo, talvez até mais do que na prova anterior (ver aqui).
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Mantém uma cor cereja escura, mas agora com mais transparência no bordo. O nariz perfumado mantém-se focado na fruta mas a típica madeira nova já está a caminho da total integração, carácter ainda fresco com leve menta (na prova anterior as sugestões eram também balsâmicas). Boca muito capaz, mantém-se naturalmente arredondada, com fruta de qualidade e nada monótona. Final de boca que prima pela elegância mas a faltar alguma extensão. Em suma, (mais) um belo Evel nem belo momento de forma.


17

sexta-feira, Dezembro 05, 2008


Olho de Mocho Reserva (B) 2007

Interrompemos os textos de "retaste" para dar nota de mais um belo branco de 2007. Cor amarela com muitos laivos esverdeados. Nariz característico da casta - é um 100% Antão Vaz - com notas subtis a maças verdes e ligeira referência mineral. Enfim, tudo pouco exuberante como (nos) convém! A boca surpreende pela frescura mas está, a nosso ver, um pouco abaixo da prova olfactiva. Fresca, ampla, peca o fim de boca pouco pronunciado.

Em suma, um bom conjunto, mais um belo Antão Vaz a revelar que a Vidigueira, e arredores, são um dos terroirs de eleição desta nobre casta nacional. A menos de € 10 tem um preço justo, existindo contudo uma ou outra melhor compra.


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Próximos vinhos: Herdade do Perdigão Reserva (B) 2006; Herdade do Perdigão Reserva (T) 2004; Casa Burmester Reserva (T) 2006; Curva Reserva (T) 2006

quarta-feira, Dezembro 03, 2008


"Retaste" 2: Projectos/Vértice/Cossart


Mais uma prova, ou melhor "nova prova" esta de que vamos referirmo-nos a seguir. Primeiro revisitámos o Projectos Niepoort Chardonnay (B) 2004, depois o Vértice Grande Reserva (T) 2003 e, finalmente, uns tragos de um dos mais simpáticos madeiras jovens, o Cossart Gordon Bual Colheita (M) 1995.

Projectos Niepoort Chardonnay (B) 2004: Começando, naturalmente, pelo Chardonnay diga-se que, não estando num mau momento, já o provámos um pouco mais fresco e vibrante (aqui), apesar da acidez nunca ter sido o seu forte. Mantém-se gordo, untuoso e com um nariz bem maduro. Porém, revela agora algum peso excessivo... Sirva-se de aperitivo a acompanhar um paté simples. Para projecto, mais a mais nacional, está muito bem, mas não chegou a alcançar a mineralidade de um chablis. Diríamos que a beber este ano ou ainda em 2009. 16 -
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Vértice Grande Reserva (T) 2003: Depois provou-se um dos tintos que mais fama agraciou no passado recente junto dos enófilos, em especial por ser uma boa compra dado a óptima relação preço/qualidade. Mantém-se escuro no copo, mas o nariz, excessivamente centrado na compota e na geleia de frutos pretos, perdeu muita intensidade e expressão aromática. A boca também está uns furos abaixo do que em anteriores provas (aqui), parece ter perdido complexidade e tornou-se demasiado rústico e algo difuso nas referências a fruta. Diríamos que a beber nos próximos tempos, talvez mais um ou dois anos. 16
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Cossart Bual (M) 1995:
Por fim o madeira. Muito jovem para ser um madeira de classe, está contudo vincado nas referências a flor de laranjeiro e revela-se (como se esperava) quase perfeito na acidez. Falta viscosidade e falta um final interminável, mas é uma boa compra em todo o caso. Pode bebê-lo durante muitos mais anos. 15,5 ++
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