quarta-feira, Janeiro 30, 2008

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Duas novidades alentejanas
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Passamos a falar de dois vinhos tintos do Alentejo. À primeira vista (ou seja, à primeira prova), tirando a sua proveniência e o ano de colheita, pouco mais terão em comum. Bom, na verdade, têm mais algo em comum posto que têm boa apresentação e vêm afamados como recomendações na revista Blue Wine. E, precipitando o que seria a conclusão deste pequeno texto, afinal até partilham mais qualquer coisa - a nossa opinião sobre eles: é que sendo ambos tintos com bastante valor, estávamos a espera de outras alegrias. Em rigor, ambos deixaram a sensação que podiam dar mais. Vejamos:

O primeiro que falamos é o Scala Coeli (T) 2005, da reputada casa Fundação Eugénio de Almeida responsável pelo mui famoso Pêra Manca. Pois bem, este tinto logo nos fascinou pela cor no copo, muito bonita com laivos violeta a revelar juventude. No nariz é que foi menos interessante pois o domínio dos aromas provenientes da madeira é muito intenso. Os apreciadores menos atentos esqueçam as referências a fruta pois é madeira e mais madeira, acompanhada de matizes torradas, caramelizadas e a café. Perante este cenário, já era de esperar que na boca se mostrasse "fechado a sete chaves" como que a dizer que temos uma roleta-russa nas mãos: ou beber agora - e será uma má opção pois está muito novo - ou esperar por ele – e isso é uma incógnita pois os taninos estão escondidos com tanto poder e amargura. A boca, pois claro, é poderosa, cheia de volume e passados 30 minutos o vinho melhora e mostra que foi feito com muitos cuidados, que a fruta é compota daquela bem madura, e que a madeira (nova, nova, nova) é de boa qualidade. Mas... lá que se torna aborrecido, disso não temos dúvidas. O lote é bordalês, mas isso não o faz ser um daqueles tintos que não se esquece. E o preço… upa upa, desde €30 até ao dobro. No cômputo final: 16.

O segundo vinho é o Roma Pereira (T) 2005, que se apresenta num estilo oposto ao anterior: onde o primeiro "atira" madeira, neste ela apenas se "sente"; onde o primeiro tem volume desmedido, este comporta elegância; quando o primeiro se torna aborrecido, este testemunha ser gastronómico. É certo que lhe falta algum corpo e isso nota-se bem, podendo afastar alguns consumidores que apreciam tintos mais aguerridos. É certo que a fruta na boca não é absolutamente saborosa, mas isso não quer dizer que não evolua nesse sentido. Este vinho é, aliás, claramente um tinto de evolução, ao contrário do primeiro, pelo que será de esperar mais daqui a um par de anos. O seu único "calcanhar de Aquiles" talvez seja o facto de estarmos sempre à espera de mais força durante a prova e, sobretudo, no final de boca. Efectivamente, começa bem com fruta macia, boca aveluda, mas o final peca por esguio e escasso na intensidade. Da mesma forma, o conjunto começa por acompanhar bem pratos exigentes, porém das duas vezes que o provámos - uma a acompanhar rabo de boi, e uma outra em prova cega com o Pingus que muito gostou dele (ver aqui) - não deixou tantas saudades como desejávamos. É, sem dúvida, um tinto sério, complexo, no qual a tipicidade das castas não é totalmente perceptível. Os 12,5% de álcool agradecem-se e, assim, pode-se beber um golo mais. O preço recomendado gira em torno dos €15, valor sensato e merecido. No cômputo final: 16,5.
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sábado, Janeiro 26, 2008

Frescos no frio

Para os friorentos, como eu, o frio é das sensações mais desagradáveis que existe. Chegamos mesmo a odiar o frio. A única vantagem do frio é que nos faz apetecer comidas quentes e fortes e, com isso, tintos de respeito, encorpados e poderosos. No Inverno temos soluções românticas como a lareira ou as salamandras, e outras mais modernas como o célere ar condicionado e os eficazes aquecedores de vária ordem (os a gás é que aquecem a sério). Também existem recuperadores de calor, e mais uma panóplia completa de electrodomésticos à venda com o mesmo fim.

Pois bem, com os aquecedores ligados no máximo, o calor volta a casa, e logo a vida regressa lentamente ao corpo. E é nestes momentos que vem o prazer sublime de beber um vinho tirado do frio. Pergunto-me se existirá maior prazer, no que toca a vinhos, do que beber um branco ou rosé bem fresquinho no calor da casa, e olhando pela janela contemplar lá fora um Inverno rigoroso.

Assim, ficam aqui duas sugestões para acompanhar o calor da casa neste Inverno de Janeiro: o Sães (R) 2006, um rosé seco, pouco exuberante mas muito fino e de complexidade significativa (merecedor de 15 valores), e o Soalheiro (B) 2006, um alvarinho de cetim que dispensa apresentações e que, segundo a tradição das colheitas anteriores, muito melhora em garrafa, por vezes num período que chega aos cinco anos (e que, também por isso, leva de nós 16,5 valores).
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À vossa
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Saúde !

terça-feira, Janeiro 22, 2008


"cuidado, atenção"


Já se sabe: pode acontecer aos melhores vinhos. Mas é sempre com um travo de desapontamento. Provou-se uma garrafa, outra. Outra ainda, desta feita proveniente de uma caixa diferente. Sempre alaranjado no copo, aroma a bafio, e sabor oxidado ("passado" em bom português!). Pode acontecer aos melhores, e muitas vezes não é culpa dos próprios produtores. Pode acontecer aos melhores, e outras vezes a culpa não é dos distribuidores e muito menos das garrafeiras. Todavia... como tudo na vida, raramente a culpa é de ninguém.
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Colheita de 2001. Desclassificado para beber e mesmo para cozinhar.

sexta-feira, Janeiro 18, 2008


Quinta da Fata - tintos

Construída no final do século XIX, a Quinta da Fata situa-se em pleno coração da região do Dão. A escassos quilómetros de Nelas, e a menos de meia hora de carro da Serra da Estrela, produz vinhos com as tradicionais castas da região, numa gama que dispõe já de um branco encruzado, um tinto monovarietal de touriga e um tinto reserva, e de muitos prémios nacionais e internacionais. Como é Inverno, com chuva e frio como há muito não se via, deixemos o branco de 2006 para outra altura e centremo-nos nos tintados de 2005, colheita excepcional no Dão.

Quinta da Fata Reserva (T) 2005: Confirmando as suspeitas reveladas no intróito, este reserva tem um perfume típico dos tintos de lote da região. Não admira, assim, a sua composição, seguindo fórmula costumeira, touriga nacional, jaen e tinta roriz em maiores percentagens, e umas "pingas" de alfrocheiro preto e trincadeira - o Dão tem, aliás, mostrado diversos produtores com vontade de melhorar os seus vinhos mas dentro da tradição. Temos assim um vinho retinto, vermelho escuro e límpido no copo. No nariz – e na boca, adiante-se – é identificável de imediato estarmos perante um vinho de lote, com fruta complexa, fina, focada em frutos vermelhos silvestres, tudo num conjunto jovem, embora as notas doces da madeira tragam consigo um carácter surpreendentemente caloroso (mas não quente) a um perfil, no geral, algo duro. Boca com estrutura mediana, taninos não agressivos e saborosos. Para um Dão de 2005, já se bebe muito bem, com prazer e sem receios que a acidez obrigue a um prato muito forte. Esta talvez seja mesmo uma característica a salientar – está pronto a beber embora a acidez garanta longevidade. O final é seco, com persistência média. Está aqui uma boa reserva do Dão, aposta segura para o consumidor e, ao que parece, não muito onerosa. 16

Quinta da Fata touriga nacional (T) 2005: O produtor confessa-se seguidor da tradição de vinhos de lote, mas reconhece que a touriga nacional tem muita garra a sólo e mostra-se, geralmente, com complexidade acima da média. Por isso, e uma vez que o mercado pede cada vez mais touriga, produziu "excepcionalmente" (sic) este monocasta. E ainda bem que o fez, pois tem, efectivamente, muita garra e complexidade. Quanto à garra, é mesmo superior ao irmão reserva: boca cheia, taninos vincados, e um final significativamente prolongado. O nariz está ainda fechado, bem preso na madeira (como tantos outros que andam por aí), mas antevemos o forte carácter das violetas e a fruta madura em caleidoscópio. Para não dizer muito sobre o óbvio quanto à cor – praticamente opaca, como convém nestes tempos. Por agora, perante um prato regional, talvez escolhêssemos o irmão reserva, mais gastronómico e mais pronto a beber, mas o nosso coração pende para a companhia deste touriga, muito jovem ainda no nariz mas na boca muito energético e saboroso. Aconselha-se por isso, nesta fase, a decantar o vinho com bastante antecedência e a consumi-lo a 18º. Belo touriga, a pedir que se se repita a experiência na colheita de 2006 ou 2007. 16,5 - 17
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Próximos vinhos: Encosta do Sobral (T) 2004; Encosta do Sobral Reserva (T) 2004; Encosta do Sobral Reserva Cabernet (T) 2004; Paulo Loureano Premium (T) 2004; Alvear PX (B) 2004

domingo, Janeiro 13, 2008

Herdade das Servas Touriga Nacional (T) 2004


A par de vinhos potentes com alicante, o Alentejo também nos tem oferecido vinhos onde a casta touriga nacional é dominante, quando não exclusiva. São, em regra, vinhos também eles potentes, que impressionam os sentidos desde o primeiro momento. Alguns, quando sedutores e exóticos, podem ser fantásticos (como este aqui). Outros, mais brutos, são quase um "murro no estômago" e de difícil ligação gastronómica. Este Herdade das Servas pertence ao segundo e último tipo.
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É um tinto com uma hiper concentração, que destila notas olfativas a tinta-da-china e a vegetação seca, para além de se mostrar totalmente impenetrável aos raios de luz. É como que um bloco e, ainda por cima, com a fruta algo presa e muito tímida. Como é habitual em tintos desta índole, mostra tem boca fresca, ampla até, e o seu final revela uma persistência média.

Na nossa opinião, é um tinto com valor, mas com pouco a dizer. Parece vir dar razão àqueles que dizem que no Alentejo mais vale alicante do que touriga. Contudo, para quem é fanático da casta - apesar de ela não ser evidente -, mesmo ou sobretudo na sua versão hard, será um must a não perder. A menos de € 25.

16,5
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Próximos vinhos: Quinta da Fata Reserva (T) 2005; Quinta da Fata Touriga Nacional (T) 2005; Encosta do Sobral (T) 2004; Encosta do Sobral Reserva (T) 2004; Encosta do Sobral Reserva Cabernet (T) 2004; Paulo Loureano Premium (T) 2004

quarta-feira, Janeiro 09, 2008


Vale de Ancho Reserva (T) 2004

É um vinho, topo de gama da casa que produz a marca Couteiro Mor, que tem já algumas edições e revela sempre muita qualidade, apesar de o estilo mudar um pouco (também) em função da colheita.


Neste de 2004 apresenta o estilo seco, rústico, intenso e muito concentrado (tudo marcado pelo alicante) que parece estar na moda no Alentejo. Algo longe, portanto, do estilo de 2003, irá certamente evoluir bem, mas o melhor é esperar um par de anos.

Nariz fechado, pouco falador, vai lançando aromas vegetais misturados com um toque queimado e agreste que provém da madeira. À semelhança de anos anteriores, revela referências interessantes a grafite e espargos. Boca fresca, ampla, fruta vermelha e alguma caruma, tudo muito bem equilibrado. Final marcado pela madeira com boa persistência.

É, em suma, um tinto muito sério – e, por enquanto, até "sisudo" – com fruta menos exuberante e cativante do que em colheitas anteriores (sobretudo face 2003, ver aqui), com predomínio de um estilo mais gastronómico. Vale a pena para guardar em cave e esperar que se torne mais macio e complexo. A nosso ver, não é, todavia, a mais entusiasmante edição do Vale de Ancho. A menos de € 30.

17



Próximos vinhos: Herdade das Servas TN (T) 2004; Quinta da Fata Reserva (T) 2005; Quinta da Fata Touriga Nacional (T) 2005; Encosta do Sobral (T) 2004; Encosta do Sobral Reserva (T) 2004; Encosta do Sobral Reserva Cabernet (T) 2004; Paulo Loureano Premium (T) 2004

segunda-feira, Janeiro 07, 2008



Quinta do Perú (T) 2004

Chega-nos este tinto das Terras de Sado e logo nos apercebemos do seu carácter moderno e sedutor. Carregado na cor, vermelha escura com ligeira marca acastanhada, e um nariz que começa por causar impacto pela madeira muito presente.

Depois vem muita fruta madura, (infelizmente) linear e compotada, calma e quente. Matriz frutada, corpo sustentado em algum álcool, final médio + com destaque novamente para o fruto muito maduro. Feito a partir de 3 castas, são a syrah e o aragonês que mais se destacam no conjunto, perdendo a touriga nacional o protagonismo.

Vinho no qual se nota aprumo no trabalho na adega, construção assente num estilo excessivamente marcado pela fruta gulosa e madeira predominante, certamente de agrado do público jovem e generalizado. Tem um estilo pouco rústico que nem sempre encontramos nesta região e talvez com algum tempo em garrafa o peso excessivo da madeira seja atenuado (mas quem vai ter paciência para esperar por ele?).

Com um pouco mais de acidez, poderemos vir a encontrar aqui, sobretudo nas próximas colheitas, uma bela marca de uma zona - Azeitão - que tem muitos encantos (a começar na vila e as suas tortas, mas com destaque para a magnífica Serra da Arrábida). A menos de € 14 nas garrafeiras (não é barato...), e em algumas grandes superfícies comerciais.

15,5 - 16



Próximos vinhos: Vale do Ancho Reserva (T) 2004; Herdade das Servas TN (T) 2004; Quinta da Fata Reserva (T) 2005; Quinta da Fata Touriga Nacional (T) 2005; Encosta do Sobral (T) 2004; Encosta do Sobral Reserva (T) 2004; Encosta do Sobral Reserva Cabernet (T) 2004; Paulo Loureano Premium (T) 2004