terça-feira, Maio 29, 2007

Vinhos de Diogo Frey Ramos


O Diogo Frey Ramos é um dos representantes da mais recente "fornada de enólogos". Nascido no belíssimo ano de 1978, cursou enologia na Univ. De Trás-os-Montes e Alto Douro (Vila Real) e estagiou em várias casas de renome (Gaivosa, Osborne e Muros de Melgaço). Depois de algum tempo a trabalhar para a Calheiros Cruz, surge agora a dar assistência a novos produtores e a cumprir um legado de família. Do projecto familiar "Tavadouro" já comecei por escrever aqui, faltando só a referência a 2 vinhos (o tinto e o branco da gama Vinëu, abaixo dos 6 €) que ora se dá conta. Dos restantes projectos, provámos um potente estreme touriga nacional. A saber:

Quinta dos Urgais Touriga Nacional (T) 2004: cor extremamente violácea e azulada, forte impacto olfativo a tinta-da-china. Claro está: desengace total, maceração prolongada. Nariz com referências curiosas a pimenta e cravinho. Boca fresca, de perfil floral mas demasiado esmagador. De corpo bastante encorpado, é a linha "dura" da touriga nacional e isso reflete-se no final áspero e demasiado curto. Terá os seus adeptos se for consumido já, mas o melhor é esperar.
15

Vinëu (T) 2005: Cor vermelho ruby claro. Nariz moderno, sedutor, directo e "fácil" nas percepções a chocolate de leite, baunilha, cereja negra e torrados. Boca com menos intensidade, mas mais seriedade face a prova do nariz. Fruta certinha a denunciar a presença da tinta roriz, corpo esguio (13,5% vol.), final fino e elegante. Feito a partir da referida roriz, mais as duas tourigas (nacional e franca) e tinta barroca, está um lote guloso capaz de agradar a muita gente. Um Douro moderno, temos aqui. 15,5

Vinëu (B) 2005: Amarelo palha claro no copo. Nariz com um toque a banana verde, fruta tropical madura, quase diríamos ter moscatel no lote... (mas não tem). Prova de boca bastante positiva, é um branco jovem, elegante, mas não foge a um carácter afirmativo na fruta (melão) e por isso é preciso bebê-lo bem fresco. Final médio a médio-curto. Curioso branco e boa relação preço/qualidade. 15

sexta-feira, Maio 25, 2007

Notas breves - 3 brancos:

Quinta do Cerrado Malvasia-Fina (B) 2006: Necessariamente longe da mineralidade do encruzado da mesma quinta (que muito apreciamos), é a cor clarinha quase-água que começa por despontar. Depois vem o nariz muito certeiro, fresco, a pedir comida. Na boca, a acidez é demasiado viva e o conjunto perde qualidade pois o fundo tropical não se consegue impôr (demasiado novo?). Em qualquer caso, um malvazia-fina a merecer uma visita, nem que seja pelo carácter lúdico de provar uma casta que, no Continente, pouco aparece isolada. 14

Antão Vaz da Peceguina (B) 2006: Cor séria – temos vinho? – mas o nariz não deixa que percamos muito tempo com ele. Nariz reduzido, pouco atraente mesmo, ninguém diria ser um antão vaz (a prova foi cega). Melhora na boca, tem complexidade e não chega a ser pesado (mas anda lá quase), alperce, pêra, infelizmente muito pouca mineralidade. Abaixo das expectativas. 14,5

Malhadinha (B) 2006: Cor muito parecida com o vinho anterior mas mais escura a mostrar estágio em barrica. Aroma forte, pujante, talvez demasiado maduro (melão, manga), mas em todo o caso cativante. Boca em construção, está muito novo (mesmo para um branco), mas já se mostra gordo e compacto. O arinto está pouco "visível" e pensamos que o conjunto - demasiado meloso - ressente-se disso mesmo. Um vinho de Inverno para acompanhar assados, sem dúvidas, e sem o brilho das estrelas também.
15

quarta-feira, Maio 23, 2007

Douro: sexteto afinado mas com diferenças


Foi mesmo em cima da hora (bendita hora para mim) que tive o verdadeiro privilégio de jantar (pois não estava prevista a minha presença) com 5 adeptos de vinho para provar e beber 6 tintos recentes (2003/2004) do Douro. Cada participante trouxe uma botelha, como combinado. Como combinado também já estavam os "nomes" dos ditos vinhos.
Não escrevo sobre quem esteve presente no jantar, pois o que mais importa no âmbito deste blog (a mim, e, eventualmente, ao leitor) são os vinhos; não quem os provou. Direi que eram, no mínimo, um núcleo duro de "entendidos" na matéria. Os vinhos... esses revelo e em bold: Xisto (T) 2003, Abandonado (T) 2004, Quinta de Roriz Reserva (T) 2003, Passadouro Reserva (T) 2004, C.V. (T) 2003 e Maritávora Reserva (T) 2004.

Na cor, pouco se notam as diferenças entre a colheita de 2003 e 2004 e, de vinho para vinho, as assimetrias cromáticas são mesmo mínimas.
[Deveria ter evidenciado antes que todos os vinhos foram decantados com cerca de 30m-1h de antecedência, e vieram para a mesa em decanters numerados para manterem o anonimato].

Já no nariz, os perfis começaram a trocar as voltas: um desiludiu (Xisto) com uma silhueta de demasiada torrefacção (cafés, espuma torrada); outro revelou toques excessivos de menta fresca (era o Abandonado, soube de depois), um acolá com químico latente do tipo "bomba" (Passadouro Res.), outro ainda mais calmo e com doce de leite a lembrar LBV (Quinta de Roriz Res.); por fim, dois mais complexos e intrigantes (C.V. e o Maritávora Res.).

Cerca de meia hora depois levou-se o vinho à boca.

É sabido ser tarefa arrevesada resumir as notas de prova de vários vinhos, sobretudo quando bebidos num único jantar. Diremos então, apenas, que todos são vinhos de belíssimo porte, que deram muito prazer. Contudo, diferenças também as houve, e alguma intrepidez no espírito leva-nos a revelar que o Xisto e o Abandonado (logo este que costumo gostar tanto...) ficaram uns pontos atrás dos outros e, por isso, nesta prova, trouxeram uma leve sensação a desapontamento. Dos restantes, resta-me dizer que o adorei o Passadouro Res. 2004 - o mais brutal e concentrado dos vinhos "em jogo" -, mas também o Quinta de Roriz Res. 2003 que se mostrou surpreendentemente sedutor e maduro (certamente devido ao ano) face a colheitas anteriores.

Todavia... os dois vinhos da noite foram mesmo o C.V. 2003 e o Maritávora Res. 2004. O primeiro, produzido por Cristiano Van Zeller em cooperação com S. Tavares da Silva, foi um todo de perfeição: profundo, enigmático, boca redonda aveludada e um final deveras longo. O segundo - grande relação preço/qualidade (o mais "barato" da mesa) -, foi um poço de complexidade, de perfeição na acidez, exibindo uma integração fantástica da barrica por Jorge Serôdio; tudo merece aplauso neste tinto.

Foi assim...

segunda-feira, Maio 21, 2007

Dica de restauração: Salsa & Coentros

Não é propriamente uma dica, pois metade de Lisboa já conhece... ou devia conhecer. Fica junto à Av. da Igreja defronte dos bombeiros de Alvalade e come-se muito bem. É um projecto de gente que trabalhou no restaurante Charcutaria, por isso a comida é de qualidade e alentejana.
Uma surpresa: os óptimos preços praticados nos "comes" mas também nos "bebes"! Vinhos a preços justos – raramente ultrapassa o dobro do preço em garrafeira – e algumas semi-preciosidades. A não perder este Salsa & Coentros.

quinta-feira, Maio 17, 2007

Dona Berta Reserva (T) 2004


O denominado Menu do Paço de primavera do restaurante "Terreiro do Paço" (Lisboa) mostra bem o fascínio do chef Vítor Sobral para com produtos nacionais: 2 pratos de bacalhau (um carpaccio com pasteis de mandioca, outro em lombo com compota de tomate), cherne no forno e pintada confitada com goiaba no forno e pinhões.
A bem de ver... a escolha de um vinho não era tarefa fácil. Para não se pedir diversos vinhos (ou vinhos a copo), a harmonia de um só vinho com a maioria dos pratos era obrigatória. Neste difícil contexto, o Dona Berta Reserva (T) 2004 foi valente!

Cor vermelha rubi muito viva, bonita mesmo de tanta alegria. Nariz intenso a flores, de cariz muito jovem e intenso. Na boca, concentrado e focado num travo "blendado" entre flores e fruto vermelho. Madeira ligeiríssima, hesitante... a descobrir e encobrir novamente (mais na boca, menos no nariz). Seco, concentrado, mostra ter taninos bravos e anos pela frente. Final discreto que, contudo, não desaponta.
Não é um douro de topo, nem de perfil moderno. Mas mostrou-se uma escolha imaculada numa mesa difícil, e este é – a meu ver – dos melhores elogios que se pode fazer a um vinho.

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segunda-feira, Maio 14, 2007

Vinha Grande (T) 2000


Aberta a magnum (i.é., garrafa de 1,5 litro), mostrou-se pouco dado a aromas iniciais. Já no copo, de cor rubi algo brilhante, o nariz deste tinto solta-se mais com fruta madura (tão típica da colheita de 2000) a "marcar pontos". Corpo macio, quente, aveludado, tanto que por vezes o vinho parece "apagado" e o conjunto ressente-se da falta de acidez. Em todo o caso, os 7 anos já passados pouco se notam (como é sabido, a evolução é mais lenta quanto maior for a garrafa), e a nossa maledicência vai mais para o estilo do que para o prazer que dá bebê-lo. Final médio de saída fina, admitimos que guloso. Bem puxámos ar pelo nariz, mas notas minerais, vegetais, ou outra coisa que fosse que não fruto madurão e alguma madeira (felizmente não excessiva), não encontrámos!

Um vinho "plano" este.
15,5

quinta-feira, Maio 10, 2007

Marquesa de Cadaval (T) 2003


Existem vinhos que só nos surpreendem por nos surpreenderem quase nada. Cor cereja escura, nariz certeiro entre a baunilha e a fruta, corpo cheio e final elegante. Já definimos muitos vinhos assim, e este é mais um.

Muito polido, camadas de fruto guloso, mas pede-se mais exotismo ou "marotice" a este tinto. Na boca mostra-se equilibrado e cheio, mas pede-se mais garra e frescura. O que fazer? Bebê-lo (mais do que prová-lo), pois é do melhor que o Ribatejo para já nos dá. Pela evolução que leva estará perfeito para beber no final deste ano, e não parece ser daqueles que vai melhorar com a idade. Para quem prefere um pouco mais de "sangue na guelra" num tinto ribatejano, este talvez seja mais interessante.
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terça-feira, Maio 08, 2007

Lançamento/apresentação: The Wine Company

O Fernando Magalhães é daqueles jovens empreendedores que o país precisa. Depois de seis anos junto da família Baptista Fino a lançar os vinhos Monte da Penha seguiu um projecto próprio. Com a colaboração de dois sócios, fez nascer a sociedade The Wine Company a qual, segundo o próprio, “visa a distribuição de pequenos produtores de vinho de qualidade na região da Grande Lisboa, bem como de vinhos raros a nível nacional e internacional”.
A fim de promover este projecto (brevemente será lançado o respectivo site), decidiu juntar os produtores com alguns convidados e amigos num evento que decorreu no passado Domingo no novíssimo Hotel Grande Real Villa Itália em Cascais.

Breves apontamentos de uma grande prova:

VT (T) 2004 – 2.ª prova. Mantemos a opinião que se trata de um grande tinto, cor tinta-da-china e muita violeta, boca espantosa, grande final - imaginem um Pintas mas com alguma rusticidade.
Terrenus Res. (T) 2004 – Constantemente um dos nossos predilectos (ver  aqui para prova anterior).
Tributo (T) 2005 – Mais um belo tinto (a par do Terrenus) de Rui Reguinga. Taninos robustos e final elegante. Em todo o caso, preferimos o primeiro.
Quinta da Sequeira (B) 2006 Vinhas VelhasSo far, simplesmente um dos melhores brancos da colheita.
Quinta da Sequeira (R) 2006 – Belíssimo rosé à semelhança da colheita de 2005 (e do seu sucesso). A sensação de menos açúcar assegura maior secura, e o (nosso) palato agradece.
Canto X (T) 2005 – Alentejano "de gema", as vinhas situam-se entre Évora e Estremoz. Quem lhe nota a cor não espera o corpo e a estrutura que demonstra na boca. Muito gastronómico, num perfil genuíno.
Quinta Além-Tanha (T) Vinhas Velhas 2004 – Muita fruta e notas sedutoras de madeira neste tinto do Douro. Ainda está "em construção" e merece que se espere por ele.
Encostas de Estremoz (T) Reserva 2004 – Sempre gostámos dos afamados Touriga Nacional desta casa. Mais complexo, marcado pelo alicante e pela touriga franca, este Reserva está uns pontos acima. Grande compra.
Vale de Rotais (T) 2004 - Apresentação de mais um vinho do Douro Superior, de um novo produtor (julgo que a 1.ª colheia foi de 2001), feito por Luís Soares Duarte. Serão 2500 garrafas de um néctar elegante e distinto. Alguma força inicial, e um final longo.
Casa do Alegretre (T) 2004 – Já o tínhamos provado noutra ocasião. Um tinto de Portalegre bem feito, muito agradável a dar uma belíssima prova para já.

sexta-feira, Maio 04, 2007

Um pouco lá por fora


Admito (sem falsa modéstia) que ninguém reparou na ausência de posts entre o dia 22 do mês passado e o dia 2 do corrente Maio. Na verdade, andei por fora de Portugal, pululando entre Holanda, Bélgica e Alemanha. Tudo em 10 dias, sem internet nem"agenda vinícola".
Apesar de me fazer bem pensar noutras coisas que não néctares engarrafados (diz-me o médico...), não consegui resistir a tomar apontamentos, a criar referências, enfim a tudo fazer para me lembrar sobre o escrever nestas linhas. E, assim sendo, deixo breves notas sobre aquilo que os meus olhos viram sobre nos referidos países. Sobre vinho, claro está.

1. Em primeiro lugar, confirma-se facilmente que o gosto pelo vinho – ou melhor, a moda do vinho – também explodiu noutros países (assumindo, como faço, que explodiu em Portugal). É hoje muito frequente a referência a wine bars de Amsterdão a Bruxelas, e, sobretudo, em Berlim. Em qualquer destas cidades europeias surgem "wieners", "enotekes" ou mesmo "enotecas" (como que escrito em Português) nas mais diversas esquinas. E em muito maior quantidade do que sucede no nosso país.
2. Em segundo lugar, à semelhança de Portugal, também existem hoje muitas garrafeiras e lojas especializadas por essa Europa fora (mais do que antes, de acordo com a minha experiência). E, neste particular, as garrafeiras portuguesas não ficam, em regra, a perder para as suas congéneres europeias. Em Berlim, o destaque vai para a "PlanetWine", uma loja fantástica no centro do Mitte com uma selecção prodigiosa de riesilings alemães e austríacos.
3. Depois, também os restaurantes lá fora privilegiam os vinhos. Nas casas mais afamadas de Berlim - como o "Vau" - deparei-me com cartas com mais de 600 vinhos (em Inglaterra ou em França, ou mesmo num ou outro em Espanha, chegam a ter quase mil). Nos locais certos, os preços não são tão inflacionados como na restauração nacional (maldita seja!). Mas claro... também existem aqueles restaurantes que andam à caça dos mais incautos e vendem vinhos três vezes o preço em loja. Mas atenção, os restaurantes de topo não apresentam geralmente qualquer falha no serviço do vinho.
4. Por fim, a nota menos feliz: o vinho português quase não se vê nos países referidos. Com excepção dos Portos, só o "Pintas" (na Alemanha por duas vezes me referiram o vinho quando me identifiquei como português), alguns gama alta da "Ferreirinha", e um ou outro verde branco (surpresa!) pouco se vê nas garrafeiras e menos ainda nos restaurantes. Ao invés, franceses, italianos e espanhóis (por ordem decrescente) dominam por todo o lado. Nos supermercados cabe ao "novo mundo" reinar. Até nos aviões da Luftansa onde se pode comprar pacotes de selecção de 6 vinhos de 6 países diferentes, Portugal não aparece.

quinta-feira, Maio 03, 2007

Revista Blue Wine "on line"


Acaba de ser lançada na net a mais recente iniciativa editorial sobre vinhos. Num clique surge o ecrã principal onde se pode escolher entre reportagens (infelizmente não disponíveis), mundo gourmet, restaurantes, enoturismo, painel de provas entre outras opções. No painel de provas pode-se fazer pesquisas nos cerca de 800 vinhos (número mencionado pela publicação) provados para conhecer a opinião da BW.

Cada vez mais o mundo dos vinhos está online. Ainda bem!

(Será) Reacção ao movimento dos blogs?

quarta-feira, Maio 02, 2007

Três Bagos Sauvignon (B) 2005


No regresso da iniciativa "Prova à Quinta", na qual os blogs e "comentaristas" enviam as suas provas na sequência de um desafio, a minha escolha foi para um dos meus brancos favoritos (o desafio do amigo Pingus era a prova de um vinho branco extreme).

Nariz a maracujá num conjunto tropical. Boca elegante, leve e suave, com notas alegres a groselha verde. Tem um lado vegetal muito bem integrado num conjunto que termina com um final citrino intenso.
Desde há uns bons anos para cá que se impõe como a melhor escolha preço/qualidade nos brancos nacionais (para prova da colheita de 2003 ver aqui). Nada pesado na boca, é todo ele prazer. Um sauvignon de muito bom porte e de preço razoável (a menos de 13 €) para tanta qualidade. Directamente de Mateus (Vila Real) - onde os ventos nocturnos frios permitem tanta frescura vinícola - para a nossa mesa.
Para mim, melhor sauvignon blanc só noutras latitudes e mais caro.
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